
Tudo o que você
precisa conhecer sobre o assunto mais falado no mundo da educação nos
dias de hoje — e como fazer para entender e pôr em prática esse novo
jeito de ensinar
Paola Gentile e
Roberta Bencini
 embre-se
das últimas aulas que você deu: entrou na classe, falou, explicou, deu
exemplos e se desdobrou para que a turma entendesse a matéria. Alguns
até levantaram a mão para fazer uma ou outra pergunta, mas, no geral,
todos ficaram quietos, "prestando atenção". Será que eles estavam
realmente interessados? Depende. É consenso entre os pensadores da
educação que a criança só interioriza o que você ensina se estiver, de
alguma forma, ligada ao conteúdo por um desafio, uma motivação. Ou se
perceber a importância e a aplicação de tudo aquilo que você quer
transmitir.
Essa
contextualização é uma das bases do ensino por competências, palavra
de ordem da educação no Brasil e em vários outros países. O objetivo
dessa abordagem é ensinar aos alunos o que eles precisam aprender para
ser cidadãos que saibam analisar, decidir, planejar, expor suas idéias
e ouvir as dos outros. Enfim, para que possam ter uma participação
ativa sobre a sociedade em que vivem. Uma concepção nobre, mas que na
grande maioria das escolas ainda está por ser decifrada. Quando se
trata de aplicá-la na frente do quadro-negro, sobram dúvidas e falta
quem possa solucioná-las.

Não há uma receita simples para aprender a ensinar dentro dessa nova
concepção. Pode-se começar entendendo como ela surgiu. Até a
conferência de 1990 em Jomtien, na Tailândia — onde foi elaborada a
Declaração Mundial sobre Educação para Todos —, os processos
educativos estavam calcados no que o físico e educador paulistano Luiz
Carlos Menezes chama de ensino cartorial. Ou seja, um agrupamento de
assuntos para memorizar ou exercícios para praticar à exaustão.
Naquele encontro, concluiu-se que havia necessidade de mudanças
estruturais.
"Ficou claro que
reformar a educação era uma prioridade mundial e as competências
seriam o único caminho para oferecer, de fato, uma educação para
todos", diz o professor de matemática Vasco Pedro Moretto, mestre em
Didática de Ciências. "Tudo havia mudado: a sociedade, o mercado de
trabalho, as relações humanas... só a educação continuava a mesma."
Então, estava
tudo errado? Não. O contexto social de épocas passadas aceitava aquela
formação. O problema é que esse contexto não existe mais. "A sociedade
tem hoje outras prioridades e exigências, em que a ação é o elemento
chave", afirma Moretto. Simplesmente dar o conteúdo e esperar que ele
seja reproduzido não forma o indivíduo que o mercado de trabalho e a
sociedade exigem. "Quem não estiver preparado para o trabalho
conceitual e criativo pode estar fadado à exclusão social, através do
desemprego", endossa Menezes.
Segundo a
pedagoga Maria Inês Fini, mestre em Psicologia da Educação e
coordenadora do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), escola não é
mais o lugar onde uma geração passa para outra um acervo de
conhecimentos. "Ela agora tem outro papel: é o espaço onde as relações
humanas são moldadas", avalia. "Deve ser usada para aprimorar valores
e atitudes, além de capacitar o indivíduo na busca de informações,
onde quer que elas estejam, para usá-las no seu cotidiano."

Mas, afinal, o que
são essas competências? E como desenvolvê-las? O dicionário Aurélio
define essa palavra como "qualidades de quem é capaz de apreciar e
resolver certos assuntos". Ela significa ainda habilidade, aptidão,
idoneidade. Muitos conceitos estão presentes nessa definição:
competente é aquele que julga, avalia e pondera; acha a solução e
decide, depois de examinar e discutir determinada situação, de forma
conveniente e adequada. É ainda quem tem capacidade resultante de
conhecimentos adquiridos. Sim, agora são todos esses os objetivos que
se deve perseguir ao elaborar um projeto pedagógico.
Para Philippe
Perrenoud, sociólogo suíço especialista em práticas pedagógicas e
instituições de ensino, competência em educação é a faculdade de
mobilizar um conjunto de recursos cognitivos — como saberes,
habilidades e informações — para solucionar com pertinência e eficácia
uma série de situações (leia
a entrevista). Ele cita dois exemplos:
1)
Decidir seu caminho em uma cidade desconhecida requer as capacidades
de ler um mapa, localizar-se e pedir informações. E também diversos
saberes, como ter noção de escala, elementos da topografia ou
referências geográficas.
2) Saber
votar conforme seus interesses mobiliza as capacidades de se informar
e preencher a cédula, bem como os seguintes saberes: conhecimento de
instituições políticas, do processo de eleição, de candidatos, de
partidos, dos programas de governo, das idéias democráticas etc.
Esses são
exemplos simples. Outras necessidades estão ligadas a contextos
culturais, profissionais e condições sociais. "Os seres humanos não
vivem todos as mesmas situações e as competências devem estar
adaptadas a seu mundo", teoriza Perrenoud. "Viver na selva das cidades
exige dominar algumas delas; na floresta virgem, outras. Da mesma
forma, os pobres têm problemas diferentes dos ricos para resolver."
Como se pode
ver, as definições são complexas, muitas vezes imprecisas. Justamente
por isso o Ministério da Educação não foi conclusivo quando elaborou
os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). A equipe do MEC indicou
diversas capacidades que devem ser trabalhadas ao longo das várias
séries do Ensino Fundamental, sem enquadrá-las de forma linear. "O
conhecimento deve ser visto como uma rede de relações, na qual o
educador ajuda os jovens a fazer as conexões necessárias", afirma
Kátia Stocco Smole, coordenadora do grupo de pesquisa Mathema e
consultora dos PCN do Ensino Médio.

Diante desse quadro, a primeira dúvida que surge diz respeito aos
conteúdos. Eles deixam de existir? "Não. Ninguém aprende nada
desvinculado do conhecimento teórico. Como explicar fotossíntese sem
dar o conceito?", exemplifica Moretto. Trata-se de trabalhar essas
informações de forma diferente, dando-lhes significado. É o que se
chama de ensino contextualizado.
Uma coisa é você
explicar no quadro-negro o que é fotossíntese. Outra, é comparar a
qualidade do ar de um bairro industrial com a de outro cheio de praças
e áreas verdes. Eis aí uma aula que pode extrapolar os saberes das
Ciências Naturais e se estender para a discussão de cidadania. Assim,
é possível desenvolver a observação, a comparação e a análise. E, de
quebra, ensinar fotossíntese (entre outras coisas, bem entendido).
Ocorre que o
tempo é um parceiro cruel, todos vão argumentar. Com certeza. Um tema
como esse não se esgota em uma aula. E o que fazer se ele estiver no
último capítulo do livro didático? "O bom profissional elege no início
do ano o que vai trabalhar, levando em conta a necessidade da turma,
não a numeração dos capítulos", ressalta Kátia Smole.
É nessa escolha
que entra o conceito de situações-problema, nas quais o conteúdo é
apenas um dos elementos a ser levados em conta na hora de abordar
qualquer conteúdo. "A motivação é criada a partir da geração de
conflitos. Resolver um desafio estimula a classe", destaca Maria Inês
Fini. Para ela, é mais importante que a criança saiba lidar com a
informação do que simplesmente retê-la.
Depois de lançada
uma tarefa em que todos se envolvam, até uma aula expositiva pode ter
lugar. Nesse caso, ela estará inserida na resolução de um problema
concreto e a teoria ganhará uma finalidade aplicável. "Trabalhar assim
significa o fim do conteúdo pelo conteúdo", explica Maria Inês.
Com isso,
cria-se outra questão: como agir, uma vez que a natureza e a sociedade
não são divididas por disciplinas? Se o objetivo é estudar uma
situação real, do cotidiano, então o conhecimento também não pode
estar separado. Nesse contexto, a interdisciplinaridade ganha sentido.
Por isso, ela é um dos maiores desafios da educação contemporânea.
Voltando ao
exemplo das cidades poluídas, os professores de Geografia e História
podem abordar o uso e a ocupação do solo através do tempo; enquanto o
de Ciências Naturais fala dos problemas que o ar e a água poluídos
trazem à saúde e da importância das áreas verdes; o de Química
discorre sobre tecnologias de recuperação de mananciais contaminados.
E assim por diante.
Se todos os
saberes devem se unir para atender às necessidades do aluno, então os
especialistas das diversas disciplinas também precisam sentar juntos
para definir suas aulas? Sim. "Sem planejamento ninguém vai a lugar
nenhum", resume Kátia Smole. Para ela, o primeiro passo é repensar o
projeto pedagógico, com o plano e a ação da escola voltados
verdadeiramente para a formação de indivíduos independentes e
críticos. Sem perder de vista as necessidades do meio em que o
estudante vive.

E isso ainda não é tudo. De nada adianta trabalhar ao longo do ano
letivo dessa maneira se a avaliação não muda. Mas, como avaliar
competências? "A observação é a melhor forma de saber se houve ou não
o aprendizado", sugere Kátia Smole. "Ela precisa ser feita a todo
momento, com o mestre prestando atenção ao que cada aluno está
fazendo, como reage aos estímulos, o que atrai seu interesse. Do
contrário, o professor não vai ajudá-lo a superar suas dificuldades em
sala de aula."
Mais uma vez,
Perrenoud mostra um caminho para uma avaliação eficiente:
1) A
tarefa e suas exigências precisam ser conhecidas antes de iniciá-la.
2)
Deve-se incluir apenas tarefas contextualizadas.
3) Não
pode haver nenhum constrangimento de tempo fixo.
4) É
necessário exigir uma certa forma de colaboração entre os pares.
5) O
professor tem de levar em consideração as estratégias cognitivas e
metacognitivas utilizadas pelos estudantes.
6) Ela
deve contribuir para que os estudantes desenvolvam ainda mais suas
capacidades.
7) A
correção precisa levar em conta apenas os erros de fundo na ótica da
construção de competências.
Ou seja, o
trabalho torna-se mais sensível do que técnico. A nota, tão esperada e
temida no final do ano, passa a ser resultado de muitos fatores, não
apenas de uma prova, uma redação ou uma monografia. "É o progresso e a
evolução do estudante ao longo dos trabalhos que conta", ensina Maria
Inês Fini.
Ficou assustado
com o tamanho do desafio? Todos sabem que, na prática, as mudanças
ainda vão consumir muito tempo até ser bem assimiladas. Até lá,
continuarão existindo as boas e as más escolas. Mas que ninguém
duvide: esse novo jeito de ensinar, que dá oportunidade a todos os
alunos de aprender, será "a" referência em educação e, mais cedo ou
mais tarde, servirá para diferenciar os melhores profissionais e as
instituições que merecem destaque. Por um motivo simples, segundo
Vasco Moretto: "Quem não se atualizar vai formar pessoas fora do seu
tempo". |