Reportagem de capa
Edição Setembro de 2000


 

Para aprender (e desenvolver) COMPETÊNCIAS
Tudo o que você precisa conhecer sobre o assunto mais falado no mundo da educação nos dias de hoje — e como fazer para entender e pôr em prática esse novo jeito de ensinar

Paola Gentile e Roberta Bencini

Lembre-se das últimas aulas que você deu: entrou na classe, falou, explicou, deu exemplos e se desdobrou para que a turma entendesse a matéria. Alguns até levantaram a mão para fazer uma ou outra pergunta, mas, no geral, todos ficaram quietos, "prestando atenção". Será que eles estavam realmente interessados? Depende. É consenso entre os pensadores da educação que a criança só interioriza o que você ensina se estiver, de alguma forma, ligada ao conteúdo por um desafio, uma motivação. Ou se perceber a importância e a aplicação de tudo aquilo que você quer transmitir.

 

Essa contextualização é uma das bases do ensino por competências, palavra de ordem da educação no Brasil e em vários outros países. O objetivo dessa abordagem é ensinar aos alunos o que eles precisam aprender para ser cidadãos que saibam analisar, decidir, planejar, expor suas idéias e ouvir as dos outros. Enfim, para que possam ter uma participação ativa sobre a sociedade em que vivem. Uma concepção nobre, mas que na grande maioria das escolas ainda está por ser decifrada. Quando se trata de aplicá-la na frente do quadro-negro, sobram dúvidas e falta quem possa solucioná-las.

Tchau decoreba
Não há uma receita simples para aprender a ensinar dentro dessa nova concepção. Pode-se começar entendendo como ela surgiu. Até a conferência de 1990 em Jomtien, na Tailândia — onde foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos —, os processos educativos estavam calcados no que o físico e educador paulistano Luiz Carlos Menezes chama de ensino cartorial. Ou seja, um agrupamento de assuntos para memorizar ou exercícios para praticar à exaustão. Naquele encontro, concluiu-se que havia necessidade de mudanças estruturais.

"Ficou claro que reformar a educação era uma prioridade mundial e as competências seriam o único caminho para oferecer, de fato, uma educação para todos", diz o professor de matemática Vasco Pedro Moretto, mestre em Didática de Ciências. "Tudo havia mudado: a sociedade, o mercado de trabalho, as relações humanas... só a educação continuava a mesma."

Então, estava tudo errado? Não. O contexto social de épocas passadas aceitava aquela formação. O problema é que esse contexto não existe mais. "A sociedade tem hoje outras prioridades e exigências, em que a ação é o elemento chave", afirma Moretto. Simplesmente dar o conteúdo e esperar que ele seja reproduzido não forma o indivíduo que o mercado de trabalho e a sociedade exigem. "Quem não estiver preparado para o trabalho conceitual e criativo pode estar fadado à exclusão social, através do desemprego", endossa Menezes.

Segundo a pedagoga Maria Inês Fini, mestre em Psicologia da Educação e coordenadora do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), escola não é mais o lugar onde uma geração passa para outra um acervo de conhecimentos. "Ela agora tem outro papel: é o espaço onde as relações humanas são moldadas", avalia. "Deve ser usada para aprimorar valores e atitudes, além de capacitar o indivíduo na busca de informações, onde quer que elas estejam, para usá-las no seu cotidiano."

Conceito complexo
Mas, afinal, o que são essas competências? E como desenvolvê-las? O dicionário Aurélio define essa palavra como "qualidades de quem é capaz de apreciar e resolver certos assuntos". Ela significa ainda habilidade, aptidão, idoneidade. Muitos conceitos estão presentes nessa definição: competente é aquele que julga, avalia e pondera; acha a solução e decide, depois de examinar e discutir determinada situação, de forma conveniente e adequada. É ainda quem tem capacidade resultante de conhecimentos adquiridos. Sim, agora são todos esses os objetivos que se deve perseguir ao elaborar um projeto pedagógico.

Para Philippe Perrenoud, sociólogo suíço especialista em práticas pedagógicas e instituições de ensino, competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos — como saberes, habilidades e informações — para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações (leia a entrevista). Ele cita dois exemplos:

1) Decidir seu caminho em uma cidade desconhecida requer as capacidades de ler um mapa, localizar-se e pedir informações. E também diversos saberes, como ter noção de escala, elementos da topografia ou referências geográficas.

2) Saber votar conforme seus interesses mobiliza as capacidades de se informar e preencher a cédula, bem como os seguintes saberes: conhecimento de instituições políticas, do processo de eleição, de candidatos, de partidos, dos programas de governo, das idéias democráticas etc.

Esses são exemplos simples. Outras necessidades estão ligadas a contextos culturais, profissionais e condições sociais. "Os seres humanos não vivem todos as mesmas situações e as competências devem estar adaptadas a seu mundo", teoriza Perrenoud. "Viver na selva das cidades exige dominar algumas delas; na floresta virgem, outras. Da mesma forma, os pobres têm problemas diferentes dos ricos para resolver."

Como se pode ver, as definições são complexas, muitas vezes imprecisas. Justamente por isso o Ministério da Educação não foi conclusivo quando elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). A equipe do MEC indicou diversas capacidades que devem ser trabalhadas ao longo das várias séries do Ensino Fundamental, sem enquadrá-las de forma linear. "O conhecimento deve ser visto como uma rede de relações, na qual o educador ajuda os jovens a fazer as conexões necessárias", afirma Kátia Stocco Smole, coordenadora do grupo de pesquisa Mathema e consultora dos PCN do Ensino Médio.

O fim dos conteúdos
Diante desse quadro, a primeira dúvida que surge diz respeito aos conteúdos. Eles deixam de existir? "Não. Ninguém aprende nada desvinculado do conhecimento teórico. Como explicar fotossíntese sem dar o conceito?", exemplifica Moretto. Trata-se de trabalhar essas informações de forma diferente, dando-lhes significado. É o que se chama de ensino contextualizado.

Uma coisa é você explicar no quadro-negro o que é fotossíntese. Outra, é comparar a qualidade do ar de um bairro industrial com a de outro cheio de praças e áreas verdes. Eis aí uma aula que pode extrapolar os saberes das Ciências Naturais e se estender para a discussão de cidadania. Assim, é possível desenvolver a observação, a comparação e a análise. E, de quebra, ensinar fotossíntese (entre outras coisas, bem entendido).

Ocorre que o tempo é um parceiro cruel, todos vão argumentar. Com certeza. Um tema como esse não se esgota em uma aula. E o que fazer se ele estiver no último capítulo do livro didático? "O bom profissional elege no início do ano o que vai trabalhar, levando em conta a necessidade da turma, não a numeração dos capítulos", ressalta Kátia Smole.

É nessa escolha que entra o conceito de situações-problema, nas quais o conteúdo é apenas um dos elementos a ser levados em conta na hora de abordar qualquer conteúdo. "A motivação é criada a partir da geração de conflitos. Resolver um desafio estimula a classe", destaca Maria Inês Fini. Para ela, é mais importante que a criança saiba lidar com a informação do que simplesmente retê-la.

Depois de lançada uma tarefa em que todos se envolvam, até uma aula expositiva pode ter lugar. Nesse caso, ela estará inserida na resolução de um problema concreto e a teoria ganhará uma finalidade aplicável. "Trabalhar assim significa o fim do conteúdo pelo conteúdo", explica Maria Inês.

Com isso, cria-se outra questão: como agir, uma vez que a natureza e a sociedade não são divididas por disciplinas? Se o objetivo é estudar uma situação real, do cotidiano, então o conhecimento também não pode estar separado. Nesse contexto, a interdisciplinaridade ganha sentido. Por isso, ela é um dos maiores desafios da educação contemporânea.

Voltando ao exemplo das cidades poluídas, os professores de Geografia e História podem abordar o uso e a ocupação do solo através do tempo; enquanto o de Ciências Naturais fala dos problemas que o ar e a água poluídos trazem à saúde e da importância das áreas verdes; o de Química discorre sobre tecnologias de recuperação de mananciais contaminados. E assim por diante.

Se todos os saberes devem se unir para atender às necessidades do aluno, então os especialistas das diversas disciplinas também precisam sentar juntos para definir suas aulas? Sim. "Sem planejamento ninguém vai a lugar nenhum", resume Kátia Smole. Para ela, o primeiro passo é repensar o projeto pedagógico, com o plano e a ação da escola voltados verdadeiramente para a formação de indivíduos independentes e críticos. Sem perder de vista as necessidades do meio em que o estudante vive.

A avaliação
E isso ainda não é tudo. De nada adianta trabalhar ao longo do ano letivo dessa maneira se a avaliação não muda. Mas, como avaliar competências? "A observação é a melhor forma de saber se houve ou não o aprendizado", sugere Kátia Smole. "Ela precisa ser feita a todo momento, com o mestre prestando atenção ao que cada aluno está fazendo, como reage aos estímulos, o que atrai seu interesse. Do contrário, o professor não vai ajudá-lo a superar suas dificuldades em sala de aula."

Mais uma vez, Perrenoud mostra um caminho para uma avaliação eficiente:

1) A tarefa e suas exigências precisam ser conhecidas antes de iniciá-la.

2) Deve-se incluir apenas tarefas contextualizadas.

3) Não pode haver nenhum constrangimento de tempo fixo.

4) É necessário exigir uma certa forma de colaboração entre os pares.

5) O professor tem de levar em consideração as estratégias cognitivas e metacognitivas utilizadas pelos estudantes.

6) Ela deve contribuir para que os estudantes desenvolvam ainda mais suas capacidades.

7) A correção precisa levar em conta apenas os erros de fundo na ótica da construção de competências.

Ou seja, o trabalho torna-se mais sensível do que técnico. A nota, tão esperada e temida no final do ano, passa a ser resultado de muitos fatores, não apenas de uma prova, uma redação ou uma monografia. "É o progresso e a evolução do estudante ao longo dos trabalhos que conta", ensina Maria Inês Fini.

Ficou assustado com o tamanho do desafio? Todos sabem que, na prática, as mudanças ainda vão consumir muito tempo até ser bem assimiladas. Até lá, continuarão existindo as boas e as más escolas. Mas que ninguém duvide: esse novo jeito de ensinar, que dá oportunidade a todos os alunos de aprender, será "a" referência em educação e, mais cedo ou mais tarde, servirá para diferenciar os melhores profissionais e as instituições que merecem destaque. Por um motivo simples, segundo Vasco Moretto: "Quem não se atualizar vai formar pessoas fora do seu tempo".


 
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Quer saber mais?
A Prática Educativa. Como Ensinar, Antonio Zabala, 224 págs.,
Ed. Artmed, tel. (0_ _51) 330-3444, 36 reais

 

Educação pelo Argumento, Gustavo Bernardo,
214 págs., Ed. Rocco, tel. (0_ _ 21) 507-2000, 25 reais

Matrizes Curriculares de Referência para o Saeb, MEC,
tel. 0800-616161

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