Almeida Junior      

    D. Pedro II e Almeida Júnior: a
representação do mecenato, MNBA.

                José Ferraz de Almeida Júnior nasceu na comarca de Itu, província de São Paulo, no dia  8 de maio de 1850. Aos dezenove anos ingressou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de

Jules Le Chevrel, Victor Meirelles e Pedro Americo.
               Em 1876 recebeu bolsa de estudo do Imperador D. Pedro II e seguiu para a capital artística da Europa. Em Paris aprimorou-se no atelier de Alexandre Cabanel. Após dois anos de preparação matriculou-se na Ecole Nationale et Speciale des Beaux-Arts, onde foi aluno do próprio Cabanel e de Lequien Fils. Na Ecole estudou por três anos, aperfeiçoou-se tecnicamente e obteve prêmios nos

 concursos de anatomia e de desenho de ornamentos. Participou da mais valorizada exposição oficial de arte do período, o Salon Officiel des Artis-tes Français, durante quatro anos consecutivos de 1879 a 1882, fato significativo levando-se em conta que era estrangeiro.
            Retornando ao Brasil, em 1882, recebeu sua primeira aprovação pública. A Academia Imperial adquiriu três das seis obras enviadas à Exposição Artística daquele ano, iniciando um período de grande prestígio e premiações. No ano seguinte instalou seu ateliê em São Paulo, na Rua da Glória, onde residiu até 13 de novembro de 1899, data em que foi vítima de crime passional. Morreu apunhalado defronte ao Hotel Central, em Piracicaba. Almeida Júnior legou à cultura brasileira cerca de trezentas obras, sendo sua maior contribuição a pintura regionalista (série de caipiras) que o singularizou face à época.

        A grande lacuna na


  Rua Montholon, 30

 Júnior embarcou para a então capital mundial da cultura, no navio francês Panamá. Ele não ingressou diretamente na Ecole des Beaux-Arts como afirmaram inúmeros biógrafos. Primeiro ele foi aprimorar-se no ateliê do mestre Alexandre Cabanel. O exame da Ecole era concorridíssimo e foi necessário apurar a técnica para prestar o exame de admissão em março de 1878. Almeida Júnior passou em 42° lugar entre 181 candidatos pré-selecionados que disputaram 70 cadeiras de pintura. Um grande feito, considerando-se que entre seus colegas havia pintores do quilate de Theodore Robinson, conhecido pintor norte-americano que se aproximou do impressionismo.
          Logo que chegou a Paris, Almeida Júnior foi residir, por pouco tempo, na rua Turgot, 22, ao pé da colina de Montmartre, região de forte presença artística e boêmia. Àquela época o número 22 era um prédio muito velho. Em meados deste século ele ruiu e em seu lugar foi construído um novo edifício onde funciona o centro médico dos funcionários dos Correios. Dali, Almeida Júnior mudou-se para um endereço próximo: rua Montholon, 30, onde residiu até retornar ao Brasil em 1882. Na mansarda do número 30 manteve também seu ateliê particular onde pintou diversas obras com que presenteou o imperador-mecenas d. Pedro II, que lhe remetia uma bolsa mensal de 300 francos. Hoje, no n° 30 funciona a associação francesa dos pensionistas e aposentados do comércio agro-industrial. A fachada é toda preservada, como no século passado, mas seu interior é totalmente remodelado. No entanto, comparando a obra Ateliê em Paris (1880) é possível ainda identificar a chaminé da mansarda e os contornos que aparecem no quadro.

       A maior parte da bibliografia sobre Almeida Júnior é laudatória e/ou pouco científica. As publicações do século passado cheiram a chauvinismo e estão inflacionadas com apologias. Há, porém, um trabalho recente a ser destacado. Trata-se da dissertação de mestrado de Maria Cecília França Lourenço, apresentada em 1980 à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Intitulada Revendo Almeida Júnior, a dissertação prima pelo fôlego da pesquisa e contribui para a dimensão de conjunto da obra do artista, principalmente no tocante à sua catalogação.
        Jornais, revistas e almanaques, das três últimas décadas do século 19, são as principais fontes de informação sobre Almeida Júnior. Porém, há inúmeras imprecisões nesses documentos. Apenas para citar um exemplo breve, de menor importância, vejamos os desencontros sobre o número do prédio onde Almeida Júnior estabeleceu seu ateliê após retornar da Europa, em 1882.
       

Segundo o jornal O Comércio de São Paulo (16/06/1895) seu ateliê ficava à Rua da Glória, 62, informação confirmada pelo jornal Correio Paulistano, na mesma data. Já em 18/06/1899, este mesmo jornal publicou: "(...) vai expor na sua residência na

Rua da Glória, 74", o que poderia levar à conclusão que a residência possuísse um endereço diverso do ateliê, porém, seis dias antes o Diário Popular publicara: "Serão expostas igualmente no ateliê da Rua da Glória 74". Em 1962, quando foi demolida a casa em que viveu Almeida Júnior, A Gazeta, de São Paulo, publicou em 9 de outubro: "Na Rua da Glória em moradia que se tornou número 334 residiu ao longo de mais de três lustros (...)", ind-cando portanto o longo período em que residiu naquele endereço e uma mudança de numeração sem especificar o número anterior, dado este ratificado por Affonso de Freitas(4), em diário manuscrito e conservado pelo estudioso Bayron Gaspar, afirmando que se tratava do "sobrado de número 78, hoje (no ano 1959) número 332." Segundo essa mesma fonte, o próprio artista mandara construí-lo.
        Concluindo esta ciranda de números, há uma correspondência de Almeida Júnior ao escultor Rodolfo Bernardelli, datada de 26/10/1892, onde registra o seguinte endereço: "56, A, rua da Glória".(5)
        Esta questão é de pouca, ou talvez nenhuma, importância. Serve apenas como exemplo da imprecisão encontrada no levantamento bibliográfico e, portanto, como advertência para o rigor na pesquisa sobre a obra e a vida do artista Almeida Júnior.

 

Detalhe do quadro "Menina",

 de 1890, medindo 44,5 x 36