ADVERTÊNCIA
Quando o conselheiro Aires
faleceu, acharam-se-lhe na secretaria sete cadernos manuscritos, rijamente
encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem,
por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada. O
sétimo trazia este título: Último.
A razão desta designação
especial não se compreendeu então nem depois. Sim, era o último dos sete
cadernos, com a particularidade de ser o mais grosso, mas não fazia parte do Memorial,
diário de lembranças que o conselheiro escrevia desde muitos anos e era a
matéria dos seis. Não trazia a mesma ordem de datas, com indicação da hora e do
minuto, como usava neles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o próprio
Aires, com o seu nome e título de conselho, e, por alusão, algumas aventuras,
nem assim deixava de ser a narrativa estranha à matéria dos seis cadernos. Último
por quê?
A hipótese de que o desejo do
finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo
se queria obrigar à leitura dos seis, em que tratava de si, antes que lhe
conhecessem esta outra história, escrita com um pensamento interior e único,
através das páginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava,
mas a vaidade não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a pena
satisfazê-la? Ele não representou papel eminente neste mundo; percorreu a
carreira diplomática, e aposentou-se. Nos lazeres do ofício, escreveu o Memorial,
que, aparado das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez de) para
matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão de se publicar
somente a narrativa. Quanto ao título, foram lembrados vários, em que o assunto
se pudesse resumir, Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu, porém,
a idéia de lhe dar estes dois nomes que o próprio Aires citou uma vez:
ESAÚ E JACÓ
Dico,
che quando l'anima mal nata...
Dante
CAPÍTULO PRIMEIRO / COISAS
FUTURAS!
Era a primeira vez que as duas
iam ao Morro do Castelo. Começaram de subir pelo lado da rua do Carmo. Muita
gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais
nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma
cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me
há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o
que lhe bastava da metrópole e do mundo.
Natividade e Perpétua conheciam
outras partes, além de Botafogo, mas o Morro do Castelo, por mais que ouvissem
falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão estranho e remoto
como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os
pés às duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse
penitência, devagarinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo
movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e
soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados
para elas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se
não perde, e não era vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar,
comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez
que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: "Você quer ver que elas
vão à cabocla?" E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível
desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.
Com efeito, as duas senhoras
buscavam disfarçadamente o número da casa da cabocla, até que deram com ele. A
casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha,
estreita, sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa, mas
esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um
deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.
— Perdem o seu tempo, concluiu
furioso, e hão de ouvir muito disparate...
— É mentira dele, emendou o
outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo
depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vidência e da
franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de
Natividade podia ser miserável, e então... Enquanto cogitavam passou fora um
carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham
fé, mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às
escondidas.
Velho caboclo, pai da adivinha,
conduziu as senhoras à sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que
lembrasse mistério ou incutisse pavor, nenhum petrecho simbólico, nenhum bicho
empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito um registro da
Conceição colado à parede podia lembrar um mistério, apesar de encardido e
roído, mas não metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.
— Minha filha já vem, disse o
velho. As senhoras como se chamam?
Natividade deu o nome de batismo
somente, Maria, como um véu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu
um cartão, porque a consulta era só de uma, — com o número 1.012. Não há que
pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Também
não há que dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê Ésquilo, meu amigo,
relê as Eumênides, lá verás a Pítia, chamando os que iam à consulta:
"Se há aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem
marcada pela sorte"... A sorte outrora, a numeração agora, tudo é que
a verdade se ajuste à prioridade, e ninguém perca a sua vez de audiência.
Natividade guardou o bilhete, e ambas foram à janela.
A falar verdade, temiam o seu
tanto, Perpétua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo
possível. Não ponho aqui os seus gestos: imaginai que eram inquietos e
desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó
na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de três ou
quatro minutos, o pai a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.
— Entra, Bárbara.
Bárbara entrou, enquanto o pai
pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma
criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia
negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de
fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um
raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos
olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e
agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão
agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora,
prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as
duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse
ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por
lhe haverem dito que bastava.
— Basta, confirmou Bárbara. Os
meninos são seus filhos?
— São.
— Cara de um é cara de outro.
— São gêmeos; nasceram há pouco
mais de um ano.
— As senhoras podem sentar-se.
Natividade disse baixinho à outra
que "a cabocla era simpática", não tão baixo que esta não pudesse
ouvir também; e daí pode ser que ela, receosa da predição, quisesse aquilo
mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se à mesa
redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. Pôs os cabelos e os
retratos defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a mãe, fez
algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca
aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo,
porque é verdade, e o fumo concorda com o ofício. Fora, o pai roçava os dedos
na viola, murmurando uma cantiga do sertão do Norte:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho...
Enquanto o fumo do cigarro ia
subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora
interrogativa, ora explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava uma
madeixa de cabelos em cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem
a afetação que porventura aches nesta linha. Tais gestos não se poderiam contar
naturalmente. Natividade não tirava os olhos dela, como se quisesse lê-la por
dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos
tinham brigado antes de nascer.
— Brigado?
— Brigado, sim, senhora.
— Antes de nascer?
— Sim, senhora, pergunto se não
teriam brigado no ventre de sua mãe; não se lembra?
Natividade, que não tivera a
gestação sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos
extraordinários, repetidos, e dores, e insônias... Mas então que era? Brigariam
por quê? A cabocla não respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou à volta da
mesa, lenta, como sonâmbula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a
dividi-los novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais,
respirando grosso. Toda ela, cara e braços, ombros e pernas, toda era pouca
para arrancar a palavra ao Destino. Enfim, parou, sentou-se exausta, até que se
ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos tão vivos e
cálidos, que a mãe ficou pendente deles, e não se pôde ter que lhe não pegasse
das mãos e lhe perguntasse ansiosa:
— Então? Diga, posso ouvir tudo.
Bárbara, cheia de alma e riso,
deu um respiro de gosto. A primeira palavra parece que lhe chegou à boca, mas
recolheu-se ao coração, virgem dos lábios dela e de alheios ouvidos. Natividade
instou pela resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...
— Coisas futuras! murmurou
finalmente a cabocla.
— Mas, coisas feias?
— Oh! não! não! Coisas bonitas,
coisas futuras!
— Mas isso não basta; diga-me o
resto. Esta senhora é minha irmã e de segredo, mas se é preciso sair, ela sai;
eu fico, diga-me a mim só... Serão felizes?
— Sim.
— Serão grandes?
·
Serão
grandes, oh! grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles hão de subir,
subir, subir...
Brigaram no ventre de sua mãe,
que tem? Cá fora também se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que lhe
digo. Quanto à qualidade da glória, coisas futuras!
Lá dentro, a voz do caboclo
velho ainda uma vez continuava a cantiga do sertão:
Trepa-me neste coqueiro,
Bota-me os cocos abaixo.
E a filha, não tendo mais que
dizer, ou não sabendo que explicar, dava aos quadris o gesto da toada, que o
velho repetia lá dentro:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho,
Trepa-me neste coqueiro,
Bota-me os cocos abaixo,
Quebra coco, sinhá,
Lá no cocá,
Se te dá na cabeça,
Há de rachá;
Muito hei de me ri,
Muito hei de gostá,
Lelê, coco, naiá.
CAPÍTULO II / MELHOR DE DESCER
QUE DE SUBIR
Todos os oráculos têm o falar
dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe
não ouvir mais nada; bastou saber que as coisas futuras seriam bonitas, e os
filhos grandes e gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de
cinqüenta mil-réis. Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais
que as ricas dádivas de Creso à Pítia. Arrecadou os retratos e os cabelos, e as
duas saíram, enquanto a cabocla ia para os fundos à espera de outros. Já havia
alguns fregueses à porta, com os números de ordem, e elas desceram rapidamente,
escondendo a cara.
Perpétua compartia as alegrias
da irmã, as pedras também, o muro do lado do mar, as camisas penduradas às
janelas, as cascas de banana no chão. Os mesmos sapatos de um irmão das
almas, que ia a dobrar a esquina da Rua da Misericórdia para a de S. José,
pareciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cansaço. Natividade estava
tão fora de si que, ao ouvir-lhe pedir: "Para a missa das almas!"
tirou da bolsa uma nota de dois mil-réis, nova em folha, e deitou-a à bacia. A
irmã chamou-lhe a atenção para o engano, mas não era engano, era para as almas
do purgatório.
E seguiram lépidas para o coupé,
que as esperava no espaço que fica entre a Igreja de S. José e a Câmara dos
Deputados. Não tinham querido que o carro as levasse até ao princípio da
ladeira, para que o cocheiro e o lacaio não desconfiassem da consulta. Toda a
gente falava então da cabocla do Castelo, era o assunto da cidade;
atribuíam-lhe um poder infinito, uma série de milagres, sortes, achados,
casamentos. Se as descobrissem, estavam perdidas embora muita gente boa lá
fosse. Ao vê-las dando a esmola ao irmão das almas, o lacaio trepou à almofada
e o cocheiro tocou os cavalos, a carruagem veio buscá-las, e guiou para
Botafogo.
CAPÍTULO III / A ESMOLA DA
FELICIDADE
— Deus lhe acrescente, minha
senhora devota! exclamou o irmão das almas ao ver a nota cair em cima de dois
níqueis de tostão e alguns vinténs antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do
céu e da terra, e as almas do purgatório peçam a Maria Santíssima que recomende
a senhora dona a seu bendito filho!
Quando a sorte ri, toda a
natureza ri também, e o coração ri como tudo o mais. Tal foi a explicação que,
por outras palavras menos especulativas, deu o irmão das almas aos dois mil-réis.
A suspeita de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cérebro deste: foi
alucinação rápida. Compreendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de
pensar alto, disse piscando o olho, enquanto elas entravam no carro:
— Aquelas duas viram passarinho
verde, com certeza.
Sem rodeios, supôs que as duas
senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de três fatos, que
sou obrigado a enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita de
caluniador gratuito. O primeiro foi a alegria delas, o segundo o valor da
esmola, o terceiro o carro que as esperava a um canto, como se elas quisessem
esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que ele tivesse
sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de servir às almas.
Também não creias que fosse outrora rico e adúltero, aberto de mãos, quando
vinha de dizer adeus às suas amigas. Ni cet excès d'honneur, ni cette
indignité. Era um pobre diabo sem mais ofício que a devoção. Demais, não
teria tido tempo; contava apenas vinte e sete anos.
Cumprimentou as senhoras, quando
o carro passou. Depois ficou a olhar para a nota tão fresca, tão valiosa, nota
que almas nunca viram sair das mãos dele. Foi subindo a Rua de S. José. Já não
tinha ânimo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a idéia de ser falsa voltou-lhe
ao cérebro, e agora mais freqüente, até que se lhe pegou por alguns instantes.
Se fosse falsa... "Para a missa das almas!" gemeu à porta de uma
quitanda e deram-lhe um vintém, — um vintém sujo e triste ao pé da nota tão
novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado. Entrou,
subiu, pediu, deram-lhe dois vinténs, — o dobro da outra moeda no valor e no
azinhavre.
E a nota sempre limpa, uns dois
mil-réis que pareciam vinte. Não, não era falsa. No corredor pegou dela,
mirou-a bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancela em cima, e uns
passos rápidos Ele, mais rápido, amarrotou a nota e meteu-a na algibeira das
calças; ficaram só os vinténs azinhavrados e tristes, o óbolo da viúva. Saiu,
foi à primeira oficina, à primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e
lastimosamente:
— Para a missa das almas!
Na igreja, ao tirar a opa,
depois de entregar a bacia ao sacristão, ouviu uma voz débil como de almas
remotas que lhe perguntavam se os dois mil-réis... Os dois mil-réis, dizia
outra voz menos débil, eram naturalmente dele, que, em primeiro lugar, também
tinha alma, e, em segundo lugar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem
quer dar tanto vai à igreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia
das esmolas pequenas.
Se minto, não é de intenção. Em
verdade, as palavras não saíram assim articuladas e claras, nem as débeis, nem
as menos débeis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da consciência. Traduzi-as
em língua falada, a fim de ser entendido das pessoas que me lêem; não sei como
se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um
atrás de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só:
"Não tirou a nota a ninguém... a dona é que a pôs na bacia por sua mão...
também ele era alma"... À porta da sacristia que dava para a rua, ao
deixar cair o reposteiro azul-escuro debruado de amarelo, não ouviu mais nada.
Viu um mendigo que lhe estendia o chapéu roto e sebento, meteu vagarosamente a
mão no bolso do colete, também roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou
ao chapéu do mendigo, rápido, às escondidas, como quer o Evangelho. Eram dois
vinténs, ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito réis. E o mendigo, como
ele saísse depressa, mandou-lhe atrás estas palavras de agradecimento,
parecidas com as suas:
— Deus lhe acrescente, meu
senhor, e lhe dê...
CAPÍTULO IV / A MISSA DO COUPÉ
Natividade ia pensando na
cabocla do Castelo, na predição da grandeza e na notícia da briga. Tornava a
lembrar-se que, de fato, a gestação não fora sossegada; mas só lhe ficava a
sorte da glória e da grandeza. A briga lá ia, se a houve, o futuro, sim, esse é
que era o principal ou tudo. Não deu pela Praia de Santa Luzia. No Largo da Lapa
interrogou a irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpétua respondeu que bem,
que acreditava, e ambas concordaram que ela parecia falar dos próprios filhos,
tal era o entusiasmo. Perpétua ainda a repreendeu pelos cinqüenta mil-réis
dados em paga; bastavam vinte.
— Não faz mal. Coisas futuras!
— Que coisas serão?
— Não sei; futuras.
Mergulharam outra vez no
silêncio. Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manhã em que ali passou,
naquele mesmo coupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam
de uma missa de defunto, na Igreja de S. Domingos...
"Na Igreja de S. Domingos
diz-se hoje uma missa por alma de João de Melo, falecido em Maricá." Tal
foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou
o dia. o mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada,
nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem
convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício que só perdeu
com a morte. Enfim, parece que até lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem
informado, João de Melo e Barros.
Não se sabendo quem mandava
dizer a missa, ninguém lá foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao
ato; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto
de um pequeno largo, adequada à missa recôndita e anônima.
Às oito horas parou um coupé
à porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se.
Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao
senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia
era tudo espanto. A alma que a tais sítios atraíra um carro de luxo, cavalos de
raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas ali sufragadas. A
missa foi ouvida sem pêsames nem lágrimas. Quando acabou, o senhor foi à
sacristia dar as espórtulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de
dez mil réis que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas
que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a
luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então
havia na igreja meia dúzia de crianças maltrapilhas, e fora, alguma gente às
portas e no largo, esperando. O senhor, chegando à porta, relanceou os olhos, ainda
que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os seus no
chão. E os dois entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a
portinhola e partiram.
A gente local não falou de outra
coisa naquele e nos dias seguintes. Sacristão e vizinhos relembravam o coupé,
com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas
a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins
estragados, missas de chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume,
mas a missa do coupé viveu na memória por muitos meses. Afinal não se
falou mais nela; esqueceu como um baile.
Pois o coupé era este
mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome é Santos, e o
defunto era seu parente, ainda que pobre. Também ele foi pobre, também ele
nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasião da febre das ações
(1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa.
Ganhou logo muito, e fê-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade,
que ia então nos vinte anos e não tinha dinheiro, mas era bela e amava
apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos depois tinham eles
uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações novas e distintas. Dos dois
parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866, restava-lhe uma irmã.
Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez,
fosse habilidade. Mesquinhez não creio, ele gastava largo e dava muitas
esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.
Não lhe valeu isto com João de
Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele,
diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivão no cível em
Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.
João de Melo retirou-se com a
escrivania, e dizem que uma grande paixão também. Natividade era a mais bela
mulher daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenários, fazia
crer na tradição. João de Melo ficou alucinado quando a viu, ela conheceu isso,
e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bela assim que
zangada; também não lhe fechou os olhos que eram negros e cálidos. Só lhe
fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão
de João de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve ímpeto de
pegar dela, descer, voar, perderem-se...
Em vez disso, uma escrivania e
Maricá; era um abismo. Caiu nele; três dias depois saiu do Rio de Janeiro para
não voltar. A princípio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de
que ela as lesse também, e compreendesse que algumas palavras eram para si. Mas
Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausência acabaram por fazer de João
de Melo um excelente escrivão. Morreu de uma pneumonia.
Que o motivo da pratinha de
Natividade deitada à caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo
que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta
senhora era não menos grata que honesta. Quanto às larguezas do marido, não
esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.
CAPÍTULO V / HÁ CONTRADIÇÕES
EXPLICÁVEIS
Não me peças a causa de tanto
encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e
libré. Há contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse a sua
história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal
Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as
coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a
condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram
a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção.
Quanto à contradição de que se
trata aqui, é de ver que naquele recanto de um larguinho modesto, nenhum
conhecido daria com eles, ao passo que eles gozariam o assombro local; tal foi
a reflexão de Santos, se se pode dar semelhante nome a um movimento interior
que leva a gente a fazer antes uma coisa que outra. Resta a missa; a missa em
si mesma bastava que fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente vestiram-se
para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração; era uma espécie de
homenagem ao finado. Se a alma de João de Melo os visse de cima, alegrar-se-ia
do apuro em que eles foram rezar por um pobre escrivão. Não sou eu que o digo;
Santos é que o pensou.
CAPÍTULO VI / MATERNIDADE
A princípio, vieram calados.
Quando muito, Natividade queixou-se da igreja, que lhe sujara o vestido.
— Venho cheia de pulgas,
continuou ela; por que não fomos a S. Francisco de Paula ou à Glória, que estão
mais perto, e são limpas?
Santos trocou as mãos à
conversa, e falou das ruas mal calçadas, que faziam dar solavancos ao carro.
Com certeza, quebravam-lhe as molas.
Natividade não replicou,
mergulhou no silêncio, como naquele outro capítulo, vinte meses depois, quando
tornava do Castelo com a irmã. Os olhos não tinham a nota de deslumbramento que
trariam então; iam parados e sombrios, como de manhã e na véspera. Santos, que
já reparara nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ela não sei se lhe
respondeu de palavra; se alguma disse, foi tão breve e surda que inteiramente
se perdeu. Talvez não passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou
coisa assim. Fosse o que fosse, quando o coupé chegou ao meio do Catete,
os dois levavam as mãos presas, e a expressão do rosto era de abençoados. Não
davam sequer pela gente das ruas; não davam talvez por si mesmos.
Leitor, não é muito que percebas
a causa daquela expressão e desses dedos abotoados. Já lá ficou dita atrás,
quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente não a
adivinharias, não que tenhas o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem
varia do homem, e tu talvez ficasses com igual expressão, simplesmente por
saber que ias dançar sábado. Santos não dançava; preferia o voltarete, como
distração. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava grávida, acabava
de o dizer ao marido.
Aos trinta anos não era cedo nem
tarde; era imprevisto. Santos sentiu mais que ela o prazer da vida nova. Eis aí
vinha a realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abraão,
como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora
empresta generosamente o seu dinheiro às companhias e às nações. Levam juro por
ele; mas os hebraísmos são dados de graça. Aquele é desses. Santos, que só
conhecia a parte do empréstimo, sentia inconscientemente a do hebraísmo, e
deleitava-se com ele. A emoção atava-lhe a língua; os olhos que estendia à
esposa e a cobriam eram de patriarca; o sorriso parecia chover luz sobre a
pessoa amada abençoada e formosa entre as formosas.
Natividade não foi logo, logo,
assim; a pouco e pouco é que veio sendo vencida e tinha já a expressão da
esperança e da maternidade. Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a
nossa amiga. É duro dizê-lo, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a
liberdade e a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de
entrar por ela, com tal arte que parecia haver ali nascido. Carteava-se com
grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha só esta casa
de Botafogo, mas também outra em Petrópolis; nem só carro, mas também camarote
no Teatro Lírico, não contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e
os seus; todo o repertório, em suma, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas,
pertencia àquela dúzia de nomes planetários que figuram no meio da plebe de
estrelas. O marido era capitalista e diretor de um banco.
No meio disso, a que vinha agora
uma criança deformá-la por meses, obrigá-la a recolher-se, pedir-lhe as noites,
adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro
ímpeto foi esmagar o gérmen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi
melhor. A maternidade, chegando ao meio-dia, era como urna aurora nova e
fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chácara
ou no regaço da aia, com três anos de idade, e este quadro daria aos trinta e
quatro anos que teria então um aspecto de vinte e poucos...
Foi o que a reconciliou com o
marido. Não exagero; também não quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo,
a maior parte amor. A conclusão é que, por uma ou por outra porta, amor ou
vaidade, o que o embrião quer é entrar na vida. César ou João Fernandes, tudo é
viver, assegurar a dinastia e sair do mundo o mais tarde que puder.
O casal ia calado. Ao desembocar
na Praia de Botafogo, a enseada trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se
a distância, magnífica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nela, cresceu com
ela, subiu por ela. A estatueta de Narciso, no meio do jardim, sorriu à entrada
deles, a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo,
figurando no ar a alegria de ambos. A mesma cerimônia à descida. Santos ainda
parou alguns instantes para ver o coupé dar a volta, sair e tornar à
cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão.
CAPÍTULO VII / GESTAÇÃO
Em cima, esperava por eles
Perpétua, aquela irmã de Natividade, que a acompanhou ao Castelo, e lá ficou no
carro, onde as deixei para narrar os antecedentes dos meninos.
— Então? Houve muita gente?
— Não, ninguém, pulgas.
Perpétua também não entendera a
escolha da igreja. Quanto à concorrência, sempre lhe pareceu que seria pouca ou
nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ela calou o resto. Era pessoa
circunspecta, que não se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto,
foi-lhe impossível calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar à mulher
um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.
— Que é isso? exclamou espantada.
Sem reparar no vexame da mulher,
Santos deu um abraço à cunhada, e ia dar-lhe um beijo também, se ela não
recuasse a tempo e com força.
— Mas que é isso? Você tirou a
sorte grande de Espanha?
— Não, coisa melhor, gente nova.
Santos conservara alguns gestos
e modos de dizer dos primeiros anos, tais que o leitor não chamará propriamente
familiares; também não é preciso chamar-lhes nada. Perpétua, afeita a eles,
acabou sorrindo e dando-lhe parabéns. Já então Natividade os deixara para se ir
despir. Santos, meio arrependido da expansão, fez-se sério e conversou da missa
e da igreja. Concordou que esta era decrépita e metida a um canto, mas alegou
razões espirituais. Que a oração era sempre oração, onde quer que a alma
falasse a Deus. Que a missa, a rigor, não precisava estritamente de altar; o
rito e o padre bastavam ao sacrifício. Talvez essas razões não fossem
propriamente dele, mas ouvidas a alguém, decoradas sem esforço e repetidas com
convicção. A cunhada opinou de cabeça que sim. Depois falaram do parente morto
e concordaram piamente que era um asno; — não disseram este nome, mas a
totalidade das apreciações vinha a dar nele, acrescentado de honesto e
honestíssimo.
— Era uma pérola, concluiu
Santos.
Foi a última palavra da necrologia;
paz aos mortos. Dali em diante, vingou a soberania da criança que alvorecia.
Não alteraram os hábitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes
continuaram como dantes, até que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente
em casa. As amigas iam vê-la. Os amigos iam visitá-los ou jogar cartas com o
marido.
Natividade queria um filho,
Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com tão boas razões, que
acabavam trocando de parecer. Então ela ficava com a filha, e vestia-lhe as
melhores rendas e cambraias, enquanto ele enfiava uma beca no jovem advogado,
dava-lhe um lugar no parlamento, outro no ministério. Também lhe ensinava a
enriquecer depressa; e ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa
Econômica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um anos. Alguma vez, às
noites, se estavam sós, Santos pegava de um lápis e desenhava a figura do
filho, com bigodes, — ou então riscava uma menina vaporosa.
— Deixa, Agostinho, disse-lhe a
mulher uma noite; você sempre há de ser criança.
E pouco depois, deu por si a
desenhar de palavra a figura do filho ou filha, e ambos escolhiam a cor dos
olhos, os cabelos, a tez, a estatura. Vês que também ela era criança. A
maternidade tem dessas incoerências, a felicidade também, e por fim a esperança,
que é a meninice do mundo.
A perfeição seria nascer um
casal. Assim os desejos do pai e da mãe ficariam satisfeitos. Santos pensou em
fazer sobre isso uma consulta espírita. Começava a ser iniciado nessa religião,
e tinha a fé noviça e firme. Mas a mulher opôs-se; a consultar alguém, antes a
cabocla do Castelo, a adivinha célebre do tempo, que descobria as coisas
perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava também, por desnecessário.
A que vinha consultar sobre uma dúvida, que dali a meses estaria esclarecida?
Santos achou, em relação à cabocla, que seria imitar as crendices da gente
reles; mas a cunhada acudiu que não, e citou um caso recente de pessoa
distinta, um juiz municipal, cuja nomeação foi anunciada pela cabocla.
— Talvez o ministro da Justiça
goste da cabocla, explicou Santos.
As duas riram da graça, e assim
se fechou uma vez o capítulo da adivinha, para se abrir mais tarde. Por agora é
deixar que o feto se desenvolva, a criança se agite e se atire, como impaciente
de nascer. Em verdade, a mãe padeceu muito durante a gestação, e principalmente
nas últimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida,
a não ser um casal que aprendia a desamar de véspera.
CAPÍTULO VIII / NEM CASAL, NEM
GENERAL
Nem casal, nem general. No dia
sete de abril de 1870 veio à luz um par de varões tão iguais, que antes
pareciam a sombra um do outro, se não era simplesmente a impressão do olho, que
via dobrado.
Tudo esperavam, menos os dois
gêmeos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem
ser preciso insistir, assim como se entende que a mãe desse aos dois filhos
aquele pão inteiro e dividido do poeta; eu acrescento que o pai fazia a mesma
coisa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a compará-los, a
medi-los, a pesá-los. Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A
mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabelos castanhos,
dedos finos e tais que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de
outro, não se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter gênio
diferente, mas por ora eram os mesmos estranhões. Começaram a sorrir no mesmo
dia. O mesmo dia os viu batizar.
Antes do parto, tinham combinado
em dar o nome do pai ou da mãe, segundo fosse o sexo da criança. Sendo um par
de rapazes, e não havendo a forma masculina do nome materno, não quis o pai que
figurasse só o dele, e meteram-se a catar outros. A mãe propunha franceses ou
ingleses, conforme os romances que lia. Algumas novelas russas em moda
sugeriram nomes eslavos. O pai aceitava uns e outros, mas consultava a
terceiros, e não acertava com opinião definitiva. Geralmente, os consultados
trariam outro nome, que não era aceito em casa. Também veio a antiga onomástica
lusitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, estando Perpétua à missa, rezou o
Credo, advertiu nas palavras: "...os santos apóstolos S. Pedro e S.
Paulo", e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes; eram
simples e gêmeos. Os pais concordaram com ela e a pendência acabou.
A alegria de Perpétua foi quase
tamanha como a do pai e da mãe, se não maior. Maior não foi, nem tão profunda,
mas foi grande, ainda que rápida. O achado dos nomes valia quase que pela
feitura das crianças. Viúva, sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e
era alguma coisa nomeá-los. Contava mais cinco ou seis anos que a irmã. Casara
com um tenente de artilharia que morreu capitão na Guerra do Paraguai. Era mais
baixa que alta, e era gorda, ao contrário de Natividade que, sem ser magra, não
tinha as mesmas carnes, e era alta e reta. Ambas vendiam saúde.
— Pedro e Paulo, disse Perpétua
à irmã e ao cunhado, quando rezei estes dois nomes, senti uma coisa no
coração...
— Você será madrinha de um,
disse a irmã.
Os pequenos, que se distinguiam
por uma fita de cor, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de
S. Pedro, outra com a de S. Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde, lento
e pouco, ficando tal semelhança que os advertidos se enganavam muita vez ou
sempre. A mãe é que não precisou de grandes sinais externos para saber quem
eram aqueles dois pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre
si, não deixavam de querer mal uma à outra, pelo motivo da semelhança dos
"seus filhos de criação". Cada uma afirmava que o seu era mais bonito.
Natividade concordava com ambas.
Pedro seria médico, Paulo
advogado; tal foi a primeira escolha das profissões. Mas logo depois trocaram
de carreira. Também pensaram em dar um deles à engenharia. A marinha sorria à
mãe, pela distinção particular da escola. Tinha só o inconveniente da primeira
viagem remota; mas Natividade pensou em meter empenhos com o ministro. Santos
falava em fazer um deles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias.
Íntimos da casa entravam nos cálculos. Houve quem os fizesse ministros,
desembargadores, bispos, cardeais...
— Não peço tanto, dizia o pai.
Natividade não dizia nada ao pé
de estranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de São João, um
lançar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao número. Não
importa; lá dentro de si cobiçava algum brilhante destino aos filhos. Cria
deveras, esperava, rezava às noites, pedia ao céu que os fizesse grandes
homens.
Uma das amas, parece que a de
Pedro, sabendo daquelas ânsias e conversas, perguntou a Natividade por que é
que não ia consultar a cabocla do Castelo. Afirmou que ela adivinhava tudo, o
que era e o que viria a ser; conhecia o número da sorte grande, não dizia qual
era nem comprava bilhete para não roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece
que era mandada de Deus.
A outra ama confirmou as
notícias e acrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado
jóias e escravos. A polícia mesma, quando não acabava de apanhar um criminoso,
ia ao Castelo falar à cabocla e descia sabendo; por isso é que não a botava
para fora, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente não embarcava sem
subir primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de
quebranto...
Ao jantar, Natividade repetiu ao
marido a lembrança das amas. Santos encolhia os ombros. Depois examinou rindo a
sabedoria da cabocla; principalmente a sorte grande era incrível que,
conhecendo o número, não comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais
difícil de explicar, mas podia ser invenção do povo. On ne prete qu'aux
riches, acrescentou rindo. O marido, que estivera na véspera com um
desembargador, repetiu as palavras dele que "enquanto a polícia não
pusesse cobro ao escândalo..." O desembargador não concluíra. Santos
concluiu com um gesto vago.
— Mas você é espírita, ponderou
a mulher.
— Perdão, não confundamos,
replicou ele com gravidade.
Sim, podia consentir numa
consulta espírita; já pensara nela. Algum espírito podia dizer-lhe a verdade em
vez de uma adivinha de farsa... Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da
sociedade falavam dela a sério. Não queria confessar ainda que tinha fé, mas
tinha. Recusando ir outrora, foi naturalmente a insuficiência do motivo que lhe
deu a força negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino
dos dois era mais imperioso e útil. Velhas idéias que lhe incutiram em criança
vinham agora emergindo do cérebro e descendo ao coração. Imaginava ir com os
pequenos ao morro do Castelo, a título de passeio... Para quê? Para confirmá-la
na esperança de que seriam grandes homens. Não lhe passara pela cabeça a
predição contrária. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o
destino; mas a leitora, além de não crer (nem todos crêem) pode ser que não
conte mais de vinte a vinte e dois anos de idade, e terá a paciência de
esperar. Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não ver
a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois também se morre velha, e
alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?
Ao serão, a matéria da palestra
foi a cabocla do Castelo, por iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da
véspera e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam dela. Natividade
não dormiu aquela noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irmã à
cabocla. Não se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um pouco
dos cabelos. As amas não saberiam nada da aventura.
No dia aprazado meteram-se as
duas no carro, entre sete e oito horas com pretexto de passeio, e lá se foram
para a Rua da Misericórdia. Sabes já que ali se apearam, entre a Igreja de S.
José e a Câmara dos Deputados, e subiram aquela até à Rua do Carmo, onde esta
pega com a Ladeira do Castelo. Indo a subir, hesitaram, mas a mãe era mãe, e já
agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram,
deram os dois mil-réis às almas, entraram no carro e voltaram para Botafogo.
CAPÍTULO IX / VISTA DE PALÁCIO
No Catete, o coupé e uma
vitória cruzaram-se e pararam a um tempo. Um homem saltou da vitória e caminhou
para o coupé. Era o marido de Natividade, que ia agora para o
escritório, um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da
mulher. Ia pensando nela e nos negócios da praça, nos meninos e na Lei Rio
Branco, então discutida na Câmara dos Deputados; o banco era credor da lavoura.
Também pensava na cabocla do Castelo e no que teria dito à mulher...
Ao passar pelo Palácio Nova
Friburgo, levantou os olhos para ele com o desejo do costume, uma cobiça de
possuí-lo, sem prever os altos destinos que o palácio viria a ter na República;
mas quem então previa nada? Quem prevê coisa nenhuma? Para Santos a questão era
só possuí-lo, dar ali grandes festas únicas, celebradas nas gazetas, narradas
na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração, de rancor ou de inveja.
Não pensava nas saudades que as matronas futuras contariam às suas netas, menos
ainda nos livros de crônicas, escritos e impressos neste outro século. Santos
não tinha a imaginação da posteridade. Via o presente e suas maravilhas.
Já lhe não bastava o que era. A
casa de Botafogo, posto que bela, não era um palácio, e depois, não estava tão
exposta como aqui no Catete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia
para as grandes janelas, as grandes portas, as grandes águias no alto, de asas
abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e
os lagos... Oh! gozo infinito! Santos imaginava os bronzes, mármores, luzes,
flores, danças, carruagens, músicas, ceias... Tudo isso foi pensado depressa,
porque a vitória, embora não corresse (os cavalos tinham ordem de moderar a
andadura), todavia, não atrasava as rodas para que os sonhos de Santos
acabassem. Assim foi que, antes de chegar à Praia da Glória, a vitória avistou
o coupé da família, e as duas carruagens pararam, a curta distancia uma
da outra, como ficou dito.
CAPÍTULO X / O JURAMENTO
Também ficou dito que o marido
saiu da vitória e caminhou para o coupé, onde a mulher e a cunhada,
adivinhando que ele vinha ter com elas, sorriam de antemão.
— Não lhe digas nada, aconselhou
Perpétua.
A cabeça de Santos apareceu
logo, com as suíças curtas, o cabelo rente, o bigode rapado. Era homem
simpático. Quieto, não ficava mal. A agitação com que chegou, parou e falou,
tirou-lhe a gravidade com que ia no carro, as mãos postas sobre o castão de
ouro da bengala, e a bengala entre os joelhos.
— Então? então? perguntou.
— Logo digo.
— Mas que foi?
— Logo.
— Bem ou mal? Dize só se bem.
— Bem. Coisas futuras.
— É pessoa séria?
— Séria, sim; até logo, repetiu
Natividade estendendo-lhe os dedos.
Mas o marido não podia
despegar-se do coupé; queria saber ali mesmo tudo, as perguntas e as
respostas, a gente que lá estava à espera, e se era o mesmo destino para os
dois, ou se cada um tinha o seu. Nada disso foi escrito como aqui vai, devagar,
para que a ruim letra do autor não faça mal à sua prosa. Não, senhor; as
palavras de Santos saíram de atropelo, umas sobre outras, embrulhadas, sem
princípio ou sem fim. A bela esposa tinha já as orelhas tão afeitas ao falar do
marido, mormente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia
dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não teve
remédio e despediu-se.
Em caminho, advertiu que, não
crendo na cabocla, era ocioso instar pela predição. Era mais; era dar razão à
mulher. Prometeu não indagar nada quando voltasse. Não prometeu esquecer, e daí
a teima com que pensou muitas vezes no oráculo. De resto, elas lhe diriam tudo
sem que ele perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.
Não concluas daqui que os
fregueses do banco padecessem alguma desatenção aos seus negócios. Tudo correu
bem, como se ele não tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castelo nem
cabocla Não era só a mão que fazia o seu ofício, assinando; a boca ia falando,
mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ânsia existia e as
figuras passavam e repassavam diante dele; no intervalo de duas letras, Santos
resolvia uma coisa ou outra, se não eram ambas a um tempo. Entrando no carro, à
tarde, agarrou-se inteiramente ao oráculo. Trazia as mãos sobre o castão, a
bengala entre os joelhos, como de manhã, mas vinha pensando no destino dos
filhos.
Quando chegou a casa, viu
Natividade a contemplar os meninos, ambos nos berços, as amas ao pé, um pouco
admiradas da insistência com que ela os procurava desde manhã. Não era só
fitá-los, ou perder os olhos no espaço e no tempo; era beijá-los também e
apertá-los ao coração. Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpétua mudou primeiro
de roupa que a irmã e foi achá-la diante dos berços, vestida como viera do
Castelo.
— Logo vi que você estava com os
grandes homens, disse ela.
— Estou, mas não sei em que é
que eles serão grandes.
— Seja em que for, vamos almoçar.
Ao almoço e durante o dia,
falaram muita vez da cabocla e da predição. Agora, ao ver entrar o marido,
Natividade leu-lhe a dissimulação nos olhos. Quis calar e esperar, mas estava
tão ansiosa de lhe dizer tudo, e era tão boa, que resolveu o contrário.
Unicamente não teve o tempo de cumpri-lo; antes mesmo de começar, já ele
acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a
resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pai.
— Mas então grandes destinos!
— Coisas futuras, repetiu ela.
— Seguramente futuras. Só a
pergunta da briga é que não entendo. Brigar por quê? E brigar como? E teriam
deveras brigado?
Natividade recordou os seus
padecimentos do tempo da gestação, confessando que não falou mais deles para o
não afligir; naturalmente é o que a outra adivinhou que fosse briga.
— Mas briga por quê?
— Isso não sei, nem creio que
fosse nada mau.
— Vou consultar...
— Consultar a quem?
— Uma pessoa.
— Já sei, o seu amigo Plácido.
— Se fosse só amigo não
consultava, mas ele é o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida,
dada pelo céu... Consulto só por hipótese, não digo os nossos nomes...
— Não! Não! Não!
— Só por hipótese.
— Não, Agostinho, não fale
disto. Não interrogue ninguém a meu respeito, ouviu? Ande, prometa que não
falará disto a ninguém, espíritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que
terão sorte feliz. Grandes homens, coisas futuras... Jure, Agostinho.
— Mas você não foi em pessoa à
cabocla?
— Não me conhece, nem de nome;
viu-me uma vez, não me tornará a ver. Ande, jure!
— Você é esquisita. Vá lá,
prometo. Que tem que falasse, assim, por acaso?
— Não quero. Jure!
— Pois isto é coisa de
juramento?
— Sem isso, não confio, disse
ela sorrindo.
— Juro.
— Jure por Deus Nosso Senhor!
— Juro por Deus Nosso Senhor!
CAPÍTULO XI / UM CASO ÚNICO!
Santos cria na santidade do
juramento; por isso, resistiu, mas enfim cedeu e jurou. Entretanto, o
pensamento não lhe saiu mais da briga uterina dos filhos. Quis esquecê-la.
Jogou essa noite, como de costume; na seguinte, foi ao teatro; na outra a uma
visita; e tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com ele. Era um
mistério. Talvez fosse um caso único... único! Um caso único! A singularidade
do caso fê-lo agarrar-se mais à idéia, ou a idéia a ele; não posso explicar
melhor este fenômeno íntimo, passado lá onde não entra olho de homem, nem
bastam reflexões ou conjeturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro
domingo, Santos pegou em si, e foi à casa do doutor Plácido, Rua do Senador
Vergueiro, uma casa baixa, de três janelas, com muito terreno para o lado do
mar. Creio que já não existe: datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho,
para diferençar do Caminho Novo.
Perdoa estas minúcias. A ação
podia ir sem elas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo
que ali havia uma espécie de clube, templo ou o que quer que era espírita.
Plácido fazia de sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes
barbas, olho azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma
vara na mão, e fica um mágico, mas, em verdade, as barbas e a camisola não as
trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrário de Santos, que teria trocado dez
vezes a cara, se não fora a oposição da mulher Plácido usava as barbas inteiras
desde moço e a camisola há dez anos.
— Venha, venha, disse ele, ande
ajudar-me a converter o nosso amigo Aires; há meia hora que procuro incutir-lhe
as verdades eternas, mas ele resiste.
— Não, não, não resisto, acudiu
um homem de cerca de quarenta anos, estendendo a mão ao recém-chegado.
CAPÍTULO XII / ESSE AIRES
Esse Aires que aí aparece
conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício.
Não atribuas tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco
de homenagem à modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural
efeito. Apesar dos quarenta anos, ou quarenta e dois, e talvez por isso mesmo,
era um belo tipo de homem. Diplomata de carreira, chegara dias antes do
Pacífico, com uma licença de seis meses.
Não me demoro em descrevê-lo.
Imagina só que trazia o calo do ofício, o sorriso aprovador, a fala branda e
cautelosa, o ar da ocasião, a expressão adequada, tudo tão bem distribuído que
era um gosto ouvi-lo e vê-lo. Talvez a pele da cara rapada estivesse prestes a
mostrar os primeiros sinais do tempo. Ainda assim o bigode, que era moço na cor
e no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura ao
rosto, quando o meio século chegasse. O mesmo faria o cabelo, vagamente
grisalho, apartado ao centro. No alto da cabeça havia um início de calva. Na
botoeira uma flor eterna.
Tempo houve, — foi por ocasião
da anterior licença, sendo ele apenas secretário de legação, — tempo houve em
que também ele gostou de Natividade. Não foi propriamente paixão; não era homem
disso. Gostou dela, como de outras jóias e raridades, mas tão depressa viu que
não era aceito, trocou de conversação. Não era frouxidão ou frieza. Gostava
assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas A questão para ele é que nem as
queria à força, nem curava de as persuadir. Não era general para escala à
vista, nem para assédios demorados; contentava-se de simples passeios
militares, — longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em suma,
extremamente cordato.
Coincidência interessante: foi
por esse tempo que Santos pensou em casá-lo com a cunhada, recentemente viúva.
Esta parece que queria. Natividade opôs-se, nunca se soube por quê. Não eram
ciúmes; invejas não .creio que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na
família pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras
hipóteses negadas. O desgosto de cedê-lo a outra, ou tê-los felizes ao pé de
si, não podia ser, posto que o coração seja o abismo dos abismos. Suponhamos
que era com o fim de o punir por havê-la amado.
Pode ser; em todo caso, o maior
obstáculo viria dele mesmo. Posto que viúvo, Aires não foi propriamente casado.
Não amava o casamento. Casou por necessidade do ofício; cuidou que era melhor
ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu
adequada ao seu destino. Enganou-se: a diferença de temperamento e de espírito
era tal que ele, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse só. Não se
afligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.
Era cordato, repito, embora esta
palavra não exprima exatamente o que quero dizer. Tinha o coração disposto a
aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.
Para conhecer esta aversão, bastava tê-lo visto entrar, antes, em visita ao
casal Santos. Pessoas de fora e da família conversavam da cabocla do Castelo.
— Chega a propósito,
conselheiro, disse Perpétua. Que pensa o senhor da cabocla do Castelo?
Aires não pensava nada, mas
percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos.
Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média,
que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabes que o
destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires, — José da Costa Marcondes
Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a
oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se
não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas. Não lhe queiras mal por
isso; a droga amarga engole-se com açúcar. Aires opinou com pausa, delicadeza,
circunlóquios, limpando o monóculo ao lenço de seda, pingando as palavras a
graves e obscuras, fitando os olhos no ar, como quem busca uma lembrança, e
achava a lembrança, e arredondava com ela o parecer. Um dos ouvintes aceitou-o
logo, outro divergiu um pouco e acabou de acordo, assim terceiro, e quarto, e a
sala toda.
Não cuides que não era sincero,
era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a
sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas, observações,
reflexões críticas e anedotas, tendo para isso uma série de cadernos, a que
dava o nome de Memorial. Naquela noite escreveu estas linhas:
"Noite em casa da família
Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do Castelo. Desconfio que Natividade
ou a irmã quer consultá-la; não será decerto a meu respeito.
"Natividade e um Padre
Guedes que lá estava, gordo e maduro eram as únicas pessoas interessantes da
noite. O resto insípido, mas insípido por necessidade, não podendo ser outra
coisa mais que insípido. Quando o padre e Natividade me deixavam entregue à
insipidez dos outros, eu tentava fugir-lhe pela memória, recordando sensações,
revivendo quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi
hoje pelas costas, na Rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel de D.
Pedro, lá vão anos. Era dançarina; eu mesmo já a tinha visto dançar em Veneza.
Pobre Capponi! Andando o pé esquerdo saía-lhe do sapato e mostrava no calcanhar
da meia um buraquinho de saudade.
"Afinal tornei à eterna
insipidez dos outros. Não acabo de crer como é que esta senhora, aliás tão
fina, pode organizar noites como a de hoje. Não é que os outros não buscassem
ser interessantes, e, se intenções valessem, nenhum livro os valeria; mas não o
eram. por mais que tentassem. Enfim, lá vão; esperemos outras noites que tragam
melhores sujeitos sem esforço algum. O que o berço dá só a cova o tira, diz um
velho adágio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever de tais
insípidos:
Dico, che quando l'anima mal
nata..."
CAPÍTULO XIII / A EPÍGRAFE
Ora, aí está justamente a
epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não
é somente um meio de completar as pessoas da narração com as idéias que
deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que
for menos claro ou totalmente escuro.
Por outro lado, há proveito em
irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma
lei de solidariedade espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus
trebelhos.
Se aceitas a comparação,
distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer
de torre, nem a torre de peão. Há ainda. a diferença da cor, branca e preta,
mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem
ganhar a partida, e assim vai o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando em
quando, como nas publicações do jogo, um diagrama das posições belas ou
difíceis. Não havendo tabuleiro, é um grande auxílio este processo para
acompanhar os lances, mas também pode ser que tenhas visão bastante para
reproduzir na memória as situações diversas. Creio que sim. Fora com diagramas!
Tudo irá como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou
mais claramente, entre Deus e o Diabo.
CAPÍTULO XIV / A LIÇÃO DO
DISCÍPULO
— Fique, fique, conselheiro,
disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.
— Verdades eternas pedem horas
eternas, ponderou este, consultando o relógio.
Um tal Aires não era fácil de
convencer. Plácido falou-lhe de leis científicas para excluir qualquer mácula
de seita, e Santos foi com ele. Toda a terminologia espírita saiu fora, e mais
os casos, fenômenos, mistérios, testemunhos, atestados verbais e escritos...
Santos acudiu com um exemplo: dois espíritos podiam tornar juntos a este mundo;
e, se brigassem antes de nascer?
— Antes de nascer, crianças não
brigam, replicou Aires, temperando o sentido afirmativo com a entonação
dubitativa.
— Então nega que dois espíritos?
...Essa cá me fica, conselheiro! Pois que impede que dois espíritos?...
Aires viu o abismo da
controvérsia, e forrou-se à vertigem por uma concessão, dizendo:
— Esaú e Jacó brigaram no seio
materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado
que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo,
porque a Providência a esconde da notícia humana... Se fosse uma causa
espiritual, por exemplo...
— Por exemplo?
— Por exemplo, se as duas
crianças quiserem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Criador. Aí está um
caso de conflito, mas de conflito espiritual, cujos processos escapam à
sagacidade humana. Também poderia ser um motivo temporal. Suponhamos a
necessidade de se acotovelarem para ficar melhor acomodados; é uma hipótese que
a ciência aceitaria; isto é, não sei... Há ainda o caso de quererem ambos a
primogenitura.
— Para quê? perguntou Plácido.
— Conquanto este privilégio
esteja hoje limitado às famílias régias, à câmara dos lords e não sei se mais,
tem todavia um valor simbólico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra
vantagem social ou política, pode dar-se por instinto, principalmente se as
crianças se destinarem a galgar os altos deste mundo.
Santos afiou o ouvido neste
ponto, lembrando-se das "coisas futuras". Aires disse ainda algumas
palavras bonitas, e acrescentou outras feias, admitindo que a briga podia ser.
prenúncio de graves conflitos na terra; mas logo temperou esse conceito com
este outro:
— Não importa; não esqueçamos o
que dizia um antigo, que "a guerra é a mãe de todas as coisas". Na
minha opinião, Empédocles, referindo-se à guerra, não o fez só no sentido
técnico. O amor, que é a primeira das artes da paz, pode-se dizer que é um
duelo, não de morte, mas de vida, — concluiu Aires sorrindo leve, como falava
baixo, e despediu-se.
CAPÍTULO XV / "TESTE DAVID
CUM SIBYLLA"
— E Então? disse Santos. Não é
que o conselheiro, em vez de aprender, ensina-nos? Eu acho que ele deu algumas
razões boas.
— Quando menos, plausíveis,
completou mestre Plácido.
— Foi pena que se despedisse,
continuou Santos, mas felizmente o meu caso é com o senhor. Venho consultá-lo,
e as suas luzes são as verdadeiras do mundo.
Plácido agradeceu sorrindo. Não
era novo o elogio, ao contrário; mas ele estava tão acostumado a ouvi-lo que o
sorriso era já agora um sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos
seus discípulos.
— Trata-se...
— Trata-se disto. Aquela
hipótese que eu formulei é um fato real; sucedeu com os meus filhos.
— Como?
— É o que me parece, e vim
justamente para que me explique. Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo,
mas tenho pensado, e suspeito que tal briga se deu, e que é um caso extraordinário.
Santos expôs então a consulta,
gravemente, com um gesto particular que tinha de arregalar os olhos para
arregalar a novidade. Não esqueceu nem escondeu nada; contou a própria ida da
mulher ao Castelo, com desdém, é verdade, mas ponto por ponto. Plácido ouvia
atento, perguntando, voltando atrás, e acabou por meditar alguns minutos.
Enfim, declarou que o fenômeno, caso se houvesse dado, era raro, se não único,
mas possível. Já o fato de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma
rivalidade, porque esses dois apóstolos brigaram também.
— Perdão, mas o batismo...
— Foi posterior, sei, mas os
nomes podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veio,
como o senhor me disse, por inspiração à tia dos meninos.
— Justamente.
— D. Perpétua é muito devota.
— Muito.
— Creio que os próprios
espíritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem escolhido aquela senhora para
inspirar os nomes que estão no Credo; advirta que ela reza muitas vezes o
Credo, mas foi naquela ocasião que se lembrou deles.
— Exato, exato!
O doutor foi à estante e tirou
uma Bíblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epístola
de S. Paulo aos Gálatas, e leu a passagem do capitulo II, versículo 11,
em que o apóstolo conta que, indo a Antioquia, onde estava S. Pedro,
"resistiu-lhe na cara".
Santos leu e teve uma idéia. As
idéias querem-se festejadas, quando são belas, e examinadas, quando novas; a
dele era a um tempo nova e bela. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na
folha, bradando:
— Sem contar que este número
onze do versículo, composto de dois algarismos iguais, 1 e 1, é um número
gêmeo, não lhe parece?
— Justamente. E mais: o capítulo
é o segundo, isto é, dois, que é o próprio número dos irmãos gêmeos.
Mistério engendra mistério.
Havia mais de um elo íntimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga,
Pedro e Paulo, irmãos gêmeos, números gêmeos, tudo eram águas de mistério que
eles agora rasgavam, nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não
seriam os dois meninos os próprios espíritos de S. Pedro e de S. Paulo, que
renasciam agora, e ele, pai dos dois apóstolos?... A fé transfigura; Santos
tinha um ar quase divino, trepou em si mesmo, e os olhos, ordinariamente sem
expressão, pareciam entornar a chama da vida. Pai de apóstolos! E que
apóstolos! Plácido esteve quase, quase a crer também, achava-se dentro de um
mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia
que os espíritos de S. Pedro e S. Paulo tinham chegado à perfeição; não
tornariam cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos
podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.
— Deixe às senhoras as suas
crenças da meninice, concluiu; se elas têm fé na tal mulher do Castelo, e acham
que é um veículo de verdade, não as desminta por hora. Diga-lhes que eu estou
de acordo com o seu oráculo. Teste David cum Sibylla.
— Digo, digo! escreva a frase.
Plácido foi à secretária,
escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que
mostrá-lo à mulher era confessar a consulta espírita, e naturalmente o
perjúrio. Referiu ao amigo os escrúpulos de Natividade e pediu que calassem
tudo.
— Estando com ela, não lhe diga
o que se passou entre nós.
Saiu logo depois, arrependido da
indiscrição, mas deslumbrado da revelação. Ia cheio de números da Escritura, de
Pedro e Paulo, de Esaú e Jacó. O ar da rua não espanou a poeira do mistério; ao
contrário, o céu azul, a praia sossegada, os montes verdes como que o cercavam
e cobriam de um véu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, fato raro
ou único, era uma distinção divina. Contrariamente à esposa, que cuidava
somente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflito passado.
Entrou em casa, correu aos pequenos,
e acarinhou-os com tão estranha expressão, que a mãe desconfiou alguma coisa, e
quis saber o que era.
— Não é nada, respondeu ele
rindo.
— É! alguma coisa, anda, acaba.
— Que há de ser?
— Seja o que for, Agostinho,
acaba.
Santos pediu-lhe que se não
zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, a Escritura, os apóstolos, o símbolo,
tudo tão espalhadamente, que ela mal pôde entender, mas entendeu ao final, e
replicou com os dentes cerrados:
— Ah! você! você!
— Perdoa, amiguinha; estava tão
ansioso de saber a verdade... E nota que eu creio na cabocla, e o doutor
também; ele até me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o
papelinho: Teste David cum Sibylla.
CAPÍTULO XVI / PATERNALISMO
Daí a pouco, Santos pegou na mão
da mulher, que a deixou ir à toa, sem apertar a dele; ambos fitavam os meninos,
tendo esquecido a zanga para só ficarem pais.
Já não era espiritismo, nem
outra religião nova; era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva, à qual
chama, se queres, paternalismo. Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos,
uma espécie de cerimônia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual
deles era o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso. A missa é que era
a mesma, e o evangelho começava como o de S. João (emendado): "No
princípio era o amor, e o amor se fez carne." Mas venhamos aos nossos
gêmeos.
CAPÍTULO XVII / TUDO O QUE
RESTRINJO
Os gêmeos, não tendo que fazer,
iam mamando. Nesse ofício portavam-se sem rivalidade, a não ser quando as amas
estavam às boas, e eles mamavam ao pé um do outro; cada qual então parecia
querer mostrar que mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e
chupando com alma. Elas, à sua parte, tinham glória dos peitos e os comparavam
entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para elas.
Se não fosse a necessidade de
pôr os meninos em pé, crescidos e homens, espraiava este capítulo. Realmente, o
espetáculo, posto que comum, era belo. Os peraltas nutriam-se ao contrário dos
pais, sem as artes do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas
postas em cristais e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de
comer. A eles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não deixava
aparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso ou pelo sono.
Quando era o sono, cada uma levava o seu menino ao berço, e ia cuidar de outra
coisa. Este cotejo dar-me-ia três ou quatro páginas sólidas.
Uma página bastava para os
chocalhos que embelezavam os pequenos, como se fosse a própria música do céu.
Eles sorriam, estendiam as mãos, alguma vez zangavam-se com as negaças, mas
tanto que lhos davam, calavam-se, e se não podiam tocar não se zangavam por
isso. A propósito de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memória
de si; alguém que os veja em mãos de crianças, se parecer que lhe lembram os
seus, cai logo no engano, e adverte que a recordação há de ser mais recente,
alguma arenga do ano passado, se não foi a vaca de leite da véspera.
A operação de desmamar, podia fazer-se
em meia linha, mas as lástimas das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a
mãe deu a cada uma delas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa
página ou mais. Poucas linhas bastariam para as amas-secas, porquanto não diria
se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do ofício,
amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavalinhos de pau, bandeirolas,
teatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia da infância
ocuparia muito mais que o lugar de seus nomes.
Tudo isso restrinjo só para não
enfadar a leitora curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos
vê-los, querida. Com pouco, estão crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si
mesmos; eles que abram a ferro ou língua, ou simples cotovelos, o caminho da
vida e do mundo.
CAPÍTULO XVIII / DE COMO VIERAM
CRESCENDO
Eei-los que vêm crescendo. A
semelhança, sem os confundir já, continuava a ser grande. Os mesmos olhos
claros e atentos, a mesma boca cheia de graça, as mãos finas, e uma cor viva nas
faces que as fazia crer pintadas de sangue. Eram sadios; excetuada a crise dos
dentes, não tiveram moléstia alguma, porque eu não conto uma ou outra
indigestão de doces, que os pais lhes davam, ou eles tiravam às escondidas.
Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ninguém.
Aos sete anos eram duas
obras-primas, ou antes uma só em dois volumes, como quiseres. Em verdade, não
havia por toda aquela praia, nem por Flamengos ou Glórias, Cajus e outras
redondezas, não havia uma, quanto mais duas crianças tão graciosas. Nota que
eram também robustos. Pedro com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo
com um pontapé deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chácara por aposta.
Alguma vez quiseram trepar às árvores, mas a mãe não consentia; não era bonito.
Contentavam-se de espiar cá de baixo a fruta.
Paulo era mais agressivo, Pedro
mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fruta das árvores, era um
moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro.
A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se
sempre, e às vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e
outro dos gêmeos não soubessem agredir e dissimular; a diferença é que cada um
sabia melhor o seu gosto, coisa tão óbvia que custa escrever.
Obedeciam aos pais sem grande
esforço, posto fossem teimosos. Nem mentiam mais que outros meninos da cidade.
Ao cabo, a mentira é alguma vez meia virtude. Assim é que, quando eles disseram
não ter visto furtar um relógio da mãe, presente do pai, quando eram noivos,
mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por eles em
plena ação de furto. Mas era tão amiga deles! e com tais lágrimas lhes pediu
que não dissessem a ninguém, que os gêmeos negaram absolutamente ter visto
nada. Contavam sete anos. Aos nove, quando já a moça ia longe, é que
descobriram, não sei a que propósito, o caso escondido. A mãe quis saber por
que é que eles calaram outrora; não souberam explicar-se, mas é claro que o
silêncio de l878 foi obra da afeição e da piedade, e daí a meia virtude, porque
é alguma coisa pagar amor com amor. Quanto à revelação de 1880 só se pode
explicar pela distância do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina;
talvez já estivesse morta. Demais, veio tão naturalmente a referência...
— Mas, por que é que vocês até
agora não me disseram? teimava a mãe.
Não sabendo mais que razão
dessem, um deles, creio que Pedro, resolveu acusar o irmão:
— Foi ele, mamãe!
— Eu? redargüiu Paulo. Foi ele,
mamãe, ele é que não disse nada.
— Foi você!
— Foi você! Não minta!
— Mentiroso é ele!
Cresceram um para o outro.
Natividade acudiu prestemente, não tanto que impedisse a troca dos primeiros
murros. Segurou-lhe os braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar
ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que eles não acharam melhor ocasião
de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram também um passeio, à tarde, no
carrinho do pai.
Na volta estavam amigos ou
reconciliados. Contaram à mãe o passeio, a gente da rua, as outras crianças que
olhavam para eles com inveja, uma que metia o dedo na boca, outra no nariz, e
as moças que estavam às janelas, algumas que os acharam bonitos Neste último
ponto divergiam, porque cada um deles tomava para si só as admirações, mas a
mãe interveio:
— Foi para ambos. Vocês são tão
parecidos, que não podia senão para ambos. E sabem por que é que as moças
elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos
bonitos não brigam, ainda menos sendo irmãos. Quero vê-los quietos e amigos,
brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?
Pedro respondeu que sim; Paulo
esperou que a mãe repetisse a pergunta, e deu igual resposta. Enfim, porque
esta mandasse, abraçaram-se, mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quase sem
braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos às costas do irmão, e
deixaram-nas cair.
De noite, na alcova, cada um
deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce, os beijos
e o carro, à briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais.
Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na
primeira ocasião. Isto que devia ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao
coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do
soco recebido naquele dia. mas também satisfação de um desejo íntimo, profundo,
necessário. Sem ódio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de
uma ou outra lembrança da rua, até que o sono entrou com os seus pés de lã e bico
calado, e tomou conta da alcova inteira.
CAPÍTULO XIX / APENAS DUAS. —
QUARENTA ANOS. TERCEIRA CAUSA
Um dos meus propósitos neste
livro é não lhe pôr lágrimas. Entretanto, não posso calar as duas que
rebentaram certa vez dos olhos de Natividade depois de uma rixa dos pequenos.
Apenas duas, e foram morrer-lhe aos cantos da boca. Tão depressa as verteu como
as engoliu, renovando às avessas e por palavras mudas o fecho daquelas
histórias de crianças: "Entrou por uma porta, saiu por outra, manda el-rei
nosso senhor que nos conte outra." E a segunda criança contava segunda
história, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o fastio ou o
sono. Pessoas que datam do tempo em que se contavam tais histórias afirmam que
as crianças não punham naquela fórmula nenhuma fé monárquica, fosse absoluta,
fosse constitucional; era um modo de ligar o seu Decameron delas,
herdado do velho reino português, quando os reis mandavam o que queriam, e a
nação dizia que era muito bem.
Engolidas as duas lágrimas,
Natividade riu da própria fraqueza. Não se chamou tola, porque esses desabafos
raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do coração, lá muito ao
fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma coisa parecida
com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.
Em verdade, qualquer outra
viveria a tremer pela sorte dos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e
interior. Agora as lutas eram mais freqüentes, as mãos cada vez mais aptas, e
tudo fazia recear que eles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui
surgia a idéia da grandeza e da prosperidade, — coisas futuras! — e esta
esperança era como um lenço que enxugasse os olhos da bela senhora. As Sibilas
não terão dito só do mal, nem os Profetas, mas ainda do bem, e principalmente
dele.
Com esse lenço verde enxugou ela
os olhos, e teria outros lenços, se aquele ficasse roto ou enxovalhado; um, por
exemplo, não verde como a esperança, mas azul, como a alma dela. Ainda lhes não
disse que a alma de Natividade era azul. Aí fica. Um azul celeste, claro e
transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a noite
escurecia.
Não, leitor, não me esqueceu a
idade da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje. Chegou assim aos quarenta
anos. Não importa; o céu é mais velho e não trocou de cor. Uma vez que lhe não
atribuas ao azul da alma nenhuma significação romântica, estás na conta. Quando
muito, no dia em que perfez aquela idade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que
passara? Nada, um dia mais que na véspera, algumas horas apenas. Toda uma
questão de número, menos que número, o nome do número, esta palavra quarenta,
eis o mal único. Daí a melancolia com que ela disse ao marido, agradecendo o
mimo do aniversário: "Estou velha, Agostinho!" Santos quis esganá-la
brincando.
Pois faria mal se a esganasse.
Natividade ainda tinha as formas do tempo anterior à concepção, a mesma
flexibilidade, a mesma graça miúda e viva. Conservava o donaire dos trinta. A
costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda
lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer
engrossar, e os quadris e o colo eram do mesmo estofador antigo.
Há dessas regiões em que o verão
se confunde com o outono, como se dá na nossa terra, onde as duas estações só
diferem pela temperatura. Nela nem pela temperatura. Maio tinha o calor de
janeiro. Ela, aos quarenta anos, era a mesma senhora verde, com a mesmíssima
alma azul.
Esta cor vinha-lhe do pai e do
avô, mas o pai morreu cedo, antes do avô, que chegara aos oitenta e quatro.
Nessa idade cria sinceramente que todas as delícias deste mundo, desde o café
de manhã até os sonos sossegados, haviam sido inventados somente para ele. O
melhor cozinheiro da terra nascera na China para o único fim de deixar família,
pátria, língua, religião, tudo, e vir assar-lhe as costeletas e fazer-lhe o
chá. As estrelas davam às suas noites um aspecto esplêndido, o luar
também, e a chuva, se chovia, era para que ele descansasse do sol. Lá está
agora no cemitério de S. Francisco Xavier; se alguém pudesse ouvir a voz dos
mortos, dentro das sepulturas, ouviria a dele, bradando que é tempo de fechar a
porta ao cemitério, e não deixar entrar ninguém, uma vez que ele já lá descansa
para todo sempre. Morreu azul; se chegasse aos cem anos, não teria outra cor.
Ora, se a natureza queria poupar
esta senhora, a riqueza dava a mão à natureza, e de uma e de outra saía a mais
bela cor que alma de gente pode ter. Tudo concorria assim para lhe secarem os
olhos depressa, como vimos atrás. Se ela bebeu aquelas duas lágrimas
solitárias, pudera ter bebido outras pela idade adiante, e isto é ainda uma
prova daquele matiz espiritual; mostrará assim que as tem poucas, e engole-as
para poupá-las.
Mas há ainda uma terceira causa
que dava a esta senhora o sentimento da cor azul, causa tão particular que
merecia ir em capítulo seu, mas não vai, por economia. Era a isenção, era o ter
atravessado a vida intacta e pura. O Cabo das Tormentas converteu-se em Cabo da
Boa Esperança, e ela venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos
lhe derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. Não negaria que alguma lufada
mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso de João de Melo, ou
ainda pior, no de Aires, mas foram bocejos de Adamastor. Consertou a vela
depressa e o gigante ficou atrás cercado de Tétis, enquanto ela seguiu o
caminho da índia. Agora lembrava-se da viagem próspera. Honrava-se dos ventos
inúteis e perdidos. A memória trazia-lhe o sabor do perigo passado. Es aqui a
terra encoberta, os dois filhos nados, criados e amados da fortuna.
CAPÍTULO XX / A JÓIA
Os quarenta e um anos não lhe
trouxeram arrepio. Já estava acostumada à casa dos quarenta. Sentiu, sim, um
grande espanto; acordou e não viu o presente do costume, a "surpresa"
do marido ao pé da cama. Não a achou no toucador, abriu gavetas, espiou, nada.
Creu que o marido esquecera a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu
olhando; nada. No gabinete estava o marido, calado, metido consigo, a ler
jornais, mal lhe estendeu a mão. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a
um canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A mãe ainda
relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um painel, um
vestido, foi tudo vão. Embaixo de uma das folhas do dia que estava na cadeira
fronteira à do marido podia ser que... Nada. Então sentou-se, e, abrindo a
folha, ia dizendo consigo: "Será possível que não se lembre do dia de
hoje? Será possível?" Os olhos entraram a ler à toa, saltando as notícias,
tornando atrás...
Defronte o marido espreitava a
mulher, sem absolutamente importar-lhe o que parecia ler. Assim se passaram
alguns minutos. De repente, Santos viu uma expressão nova no rosto de
Natividade; os olhos dela pareciam crescer, a boca entreabriu-se, a cabeça
ergueu-se, a dele também, ambos deixaram a cadeira, deram dois passos e caíram
nos braços um do outro, como dois namorados desesperados de amor. Um, dois,
três, muitos beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de pé. O pai,
quando pôde falar, disse-lhes:
— Venham beijar a mão da Senhora
Baronesa de Santos.
Não entenderam logo. Natividade
não sabia que fizesse; dava a mão aos filhos, ao marido, e tornava ao jornal
para ler e reler que do despacho imperial da véspera o Sr. Agostinho José dos
Santos fora agraciado com o título de Barão de Santos. Compreendeu tudo. O
presente do dia era aquele; o ourives desta vez foi o imperador.
— Vão, vão, agora podem ir
brincar, disse o pai aos filhos.
E os rapazes saíram a espalhar a
notícia pela casa. Os criados ficaram felizes com a mudança dos amos. Os
próprios escravos pareciam receber uma parcela da liberdade e condecoravam-se
com ela: "Nhã Baronesa!" exclamavam saltando. E João puxava Maria,
batendo castanholas com os dedos: "Gente, quem é esta crioula? Sou escrava
de Nhã Baronesa!"
Mas o imperador não foi o único
ourives. Santos tirou do bolso uma caixinha, com um broche em que a coroa nova
rutilava de brilhantes. Natividade agradeceu-lhe a jóia e consentiu em pô-la,
para que o marido a visse. Santos sentia-se autor da jóia, inventor da forma e
das pedras; mas deixou logo que ela a tirasse e guardasse, e pegou das gazetas,
para lhe mostrar que em todas vinha a notícia, algumas com adjetivo, conceituado
aqui, ali distinto etc.
Quando Perpétua entrou no
gabinete, achou-os andando de um lado para outro, com os braços passados pela
cintura, conversando, calando, mirando os pés. Também ela deu e recebeu
abraços.
Toda a casa estava alegre. Na
chácara as árvores pareciam mais verdes que nunca, os botões do jardim
explicavam as folhas, e o sol cobria a terra de uma claridade infinita. O céu,
para colaborar com o resto, ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir
cartões e cartas de parabéns. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do comércio,
homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares também, vieram ou
mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram continuar o
esquecimento. Nomes houve que eles só puderam reconhecer à força de grande
pesquisa e muito almanaque.
CAPÍTULO XXI / UM PONTO ESCURO
Sei que há um ponto escuro no
capítulo que passou; escrevo este para esclarecê-lo.
Quando a esposa inquiriu dos
antecedentes e circunstâncias do despacho, Santos deu as explicações pedidas.
Nem todas seriam estritamente exatas; o tempo é um rato roedor das coisas, que
as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a matéria
era tão propícia ao alvoroço que facilmente traria confusão à memória. Há, nos
mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a
imaginação inventa para suprir os perdidos, e nem por isso a história morre.
Resta saber (é o ponto escuro)
como é que Santos pôde calar por longos dias um negócio tão importante para ele
e para a esposa. Em verdade, esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por
gesto, se achasse algum, aquele segredo de poucos; mas, sempre havia uma força
maior que lhe tapava a boca. Ao que parece, foi a expectação de uma alegria
nova e inesperada que lhe deu a alma de pacientar. Naquela cena do gabinete
tudo foi composto de antemão, o silêncio, a indiferença, os filhos que ele pôs
ali, estudando ao domingo, só para efeito daquela frase: "Venham beijar a
mão da Senhora Baronesa de Santos!"
CAPÍTULO XXII / AGORA UM SALTO
Que os dois gêmeos participassem
da lua-de-mel nobiliária dos pais não é coisa que se precise escrever. O amor
que lhes tinham bastava a explicá-lo, mas acresce que, havendo o título
produzido em outros meninos dois sentimentos opostos, um de estima, outro de
inveja, Pedro e Paulo concluíram ter recebido com ele um mérito especial.
Quando, mais tarde, Paulo adotou a opinião republicana nunca envolveu aquela
distinção da família na condenação das instituições. Os estados de alma que
daqui nasceram davam matéria a um capítulo especial, se eu não preferisse agora
um salto, e ir a 1886. O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisível em
que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo.
Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais subtil obra
deste mundo, e acaso do outro.
CAPÍTULO XXIII / QUANDO TIVEREM
BARBAS
Naquele ano, uma noite de
agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, sucedeu que uma
delas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dois irmãos que idade tinham.
Paulo respondeu:
— Nasci no aniversário do dia em
que Pedro I caiu do trono.
E Pedro:
— Nasci no aniversário do dia em
que Sua Majestade subiu ao trono.
As respostas foram simultâneas,
não sucessivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez.
A mãe explicou:
— Nasceram no dia 7 de abril de
1870.
Pedro repetiu vagarosamente:
— Nasci no dia em que Sua
Majestade subiu ao trono.
E Paulo, em seguida:
— Nasci no dia em que Pedro I caiu
do trono.
Natividade repreendeu a Paulo a
sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu
outra, e a sala viraria clube, se a mãe não os acomodasse por esta maneira:
— Isto hão de ser grupos de
colégio; vocês não estão em idade de falar em política. Quando tiverem barbas.
As barbas não queriam vir, por
mais que eles chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões políticas e outras
vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raízes grandes
nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de cor particular, que eles atavam
ao pescoço, à espera que a cor cansasse e viesse outra. Naturalmente cada um
tinha a sua. Também se pode crer que a de cada um era, mais ou menos, adequada
à pessoa. Como recebiam as mesmas aprovações e distinções nos exames,
faltava-lhes matéria a invejas; e, se a ambição os dividisse algum dia, não era
por ora águia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No colégio
de Pedro II todos lhe queriam bem. As barbas é que não queriam vir. Que é que
se lhes há de fazer quando as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu
pé, que apareçam, que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume delas,
salvo as que não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo
isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do último gênero,
célebres naquele tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro lugar em
que fale delas, aproveito este capítulo, e o leitor que volte a página, se
prefere ir atrás da história. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as
duas barbas mortas, sem as entender agora, como não as entendemos então, as
mais inexplicáveis barbas do mundo.
A primeira daquelas barbas era
de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei***. Podia escrever-lhe o
nome, — ninguém mais o conheceria, — mas prefiro esse sinal trino, número de
mistério, expresso por estrelas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade.
Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando
uma cabeça máscula e formosa. A boca era risonha, os olhos rútilos. Ria por ela
e por eles, tão docemente que metia a gente no coração. Tinha o peito largo, as
espáduas fortes. O pé nu, atado à sandália, mostrava agüentar um corpo de
Hércules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma página evangélica. A fé era
viva, a afeição segura, a paciência infinita.
Frei*** despediu-se um dia de
Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio de Janeiro, S. Paulo, — creio que ao Paraná
também, — viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um
semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior
espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que dantes, mas
negríssima e brilhantíssima. Não explicou a mudança, nem ninguém lhe perguntou
por ela; podia ser milagre ou capricho da natureza; também podia ser correção
de homem, posto que o último caso fosse mais difícil de crer que o primeiro.
Durou nove meses esta cor; feita outra viagem por trinta dias, a barba apareceu
de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.
Quanto à segunda de tais barbas,
foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que
vivia de dívidas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa língua por
esta maneira: "Paga o que deves, vê o que te não fica." Chegou aos
cinqüenta anos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma
idade, os sapatos não menor que ela. A barba é que não chegou aos cinqüenta;
ele pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira
qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma
rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas
enxovalhadas, por não haver quem lhas pintasse na Santa Casa.
Or, bene, para falar como o meu capucho,
por que é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que
adivinhe, se pode: dou-lhe vinte capítulos para alcançá-lo. Talvez eu, por
essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro
nada. Vá que malignos atribuam a frei*** alguma paixão profana; ainda assim não
se compreende que ele se descobrisse por aquele modo. Quanto ao maltrapilho, a
que damas queria ele agradar, a ponto de trocar algumas vezes o pão pela tinta?
Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, pode ser. O
frade, lido na Escritura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egito,
teria também chorado, e as suas lágrimas caíram negras. Pode ser, repito. Este
desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao
tempo dá Deus habeas corpus.
CAPÍTULO XXIV / ROBESPIERRE E
LUÍS XVI
Tanto cresceram as opiniões de
Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a incorporar-se em alguma coisa. Iam
descendo pela Rua da Carioca. Havia ali uma loja de vidraceiro, com espelhos de
vário tamanho, e, mais que espelhos, também tinha retratos velhos e gravuras
baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando à toa. Logo
depois, Pedro viu pendurado um retrato de Luís XVI, entrou e comprou-o por
oitocentos réis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante.
Paulo quis ter igual fortuna, adequada às suas opiniões, e descobriu um Robespierre.
Como o lojista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.
— Então o senhor vende mais
barato um rei, e um rei mártir?
— Há de perdoar, mas é que esta
outra gravura custou-me mais caro, redargüiu o velho lojista. Nós vendemos conforme
o preço da compra. Veja; está mais nova.
— Lá isso, não, acudiu Paulo.
São do mesmo tempo; mas é que este vale mais que aquele.
— Ouvi dizer que também era
rei...
— Qual rei! responderam os dois.
— Ou quis sê-lo não sei bem...
Que eu de histórias, apenas conheço a dos mouros que aprendi na minha terra com
a avó, alguns bocados em verso. E ele ainda há mouras lindas; por exemplo,
esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda é, se vive... Mal lhe saiba
ao marido!
Foi a um canto e trouxe um retrato
de Madame de Stael, com o famoso turbante na cabeça. Ó efeito da beleza! Os
rapazes esqueceram por um instante as opiniões políticas e ficaram a olhar
longamente a figura de Corina. O lojista, apesar dos seus setenta anos, tinha
os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabeça, a boca um tanto
grossa, mas expressiva, e dizia que não era caro. Como nenhum quisesse
comprá-la, talvez por ser só uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas esse
era "uma pouca-vergonha", frase que os deuses lhe perdoariam, quando
soubessem que ele não quis mais que abrir o apetite aos fregueses. E foi a um
armário, tirou de lá, e trouxe uma Diana, nua como vivia cá embaixo, outrora
nos matos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos
políticos.
Quis ainda ver se colhia algum
dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da
parede; mas, Pedro recusou por não ter dinheiro disponível, e Paulo disse que
não daria um vintém pela "cara de traidores". Antes não dissesse
nada! O lojista, tão depressa lhe ouviu a resposta como despiu as formas
obsequiosas, vestiu outras indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moço
tinha razão.
— Tem muita razão. Foi um
traidor, mau filho, mau irmão, mau tudo. Fez todo o mal que pôde a este mundo;
e no inferno, onde está, se a religião não mente, deve ainda fazer mal ao
Diabo. Este moço falou há pouco em rei mártir, — continuou mostrando-lhes um
retrato de D. Miguel de Bragança, meio perfil, sobrecasaca, mão ao peito, —
este é que foi um verdadeiro mártir daquele, que lhe roubou o trono, que não
era seu, para dá-lo a quem não pertencia; e foi morrer à míngua o meu pobre rei
e senhor, dizem que na Alemanha, ou não sei onde. Ah! malhados! Ah!
filhos do Diabo! Os senhores não podem imaginar o que era aquela canalha de
liberais.
Liberais! Liberais do alheio!
— É tudo a mesma farinha,
reflexionou Paulo.
— Eu não sei se eles eram de
farinha, sei que levaram muita pancada. Venceram, mas apanharam deveras. Meu
pobre rei!
Pedro quis responder ao remoque do
irmão; e propôs comprar o retrato de Pedro I. Quando o lojista tornou a si,
começou a negociar a venda, mas não puderam entender-se no preço; Pedro dava os
mesmos oitocentos réis do outro, o lojista pedia dois mil-réis. Notava-lhe que
estava encaixilhado, e Luís XVI não; além disto, era mais novo. E vinha à
porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a atenção para o rosto, os olhos
principalmente, que bela expressão que tinham! E o manto imperial...
— Que lhe custa dar dois
mil-réis?
— Dou-lhe dez tostões: serve?
— Não serve. Mais que isso me
custou ele.
— Pois então...
— Veja sempre. Pois isto não
vale até três mil-réis? O papel não está encardido; a gravura é fina.
— Dez tostões, já disse.
— Não, senhor. Olhe, por dez
tostões leve este de D. Miguel; o papel está bem conservado, e, com pouco
dinheiro, manda-lhe pôr um caixilho. Vá; dez tostões.
— Se eu já estou arrependido...
Dez tostões pelo imperador.
— Ah! isso não! Custou-me mil e
setecentos, há três semanas ganho uns trezentos réis, quase nada. Ganho menos
com o Senhor D. Miguel, mas também concordo que é menos procurado. Este de D.
Pedro I, se passar amanhã, talvez já o não ache. Vá, sim?
— Eu passo depois.
Paulo já ia andando e mirando
Robespierre; Pedro alcançou-o.
— Olhe, leve por sete tostões o
Senhor D. Miguel.
Pedro abanou a cabeça.
— Seis tostões serve?
Pedro, ao lado do irmão,
desenrolara a sua gravura. O velho lojista quis ainda bradar: "Cinco
tostões!" mas iam já longe, e ficava mal negociar assim.
CAPÍTULO XXV / D. MIGUEL
— "Assim como assim, ficou
pensando o velho, não há de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou
mandá-lo encaixilhar; põem-se-lhe aqui umas tabuinhas velhas...
D. Miguel voltou para ele os
olhos turvos de tristeza e reproche; assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia
ter sido ilusão. Em todo caso, pareceu também que os olhos tornavam ao seu
lugar, fitando à direita, ao longe... Para onde? Para onde há justiça eterna,
cuidou naturalmente o dono. Como estivesse a contemplá-lo, à porta, parou um
homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O lojista reparou na
expressão; podia ser algum miguelista, mas também podia ser um colecionador...
— Quanto pede o senhor por isto?
— Isto? Há de perdoar; quer
saber quanto peço pelo meu rico senhor D. Miguel? Não peço muito, está um tanto
encardido, mas ainda se lhe aprecia bem a figura. Que soberba que ela é! Não é
caro; dou-lhe pelo custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro
mil-réis. Leve-o por três.
O freguês tirou tranqüilamente o
dinheiro do bolso, enquanto o velho enrolava o retrato, e, trocados um por
outro, despediram-se corteses e satisfeitos; o lojista, depois de ir até à
porta, tornou à cadeira do costume. Talvez pensasse no mal a que escapara, se
vendesse o retrato por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fora, para
longe, para onde há justiça eterna... Três mil-réis!
CAPÍTULO XXVI / A LUTA DOS
RETRATOS
Quase que não é preciso dizer o
destino dos retratos do rei e o convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu
à cabeceira da cama. Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças às
pobres gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes
feios, desenhos de animais, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, e Pedro a
de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro, a mãe ouviu rumor e subiu
apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados e recolheu-se triste.
Nunca mais acabaria aquela maldição de rivalidade? Fez esta pergunta calada,
atirada à cama, a cara metida no travesseiro, que desta vez ficou seco, mas a
alma chorou.
Natividade confiava na educação,
mas a educação, por mais que ela a apurasse, apenas quebrava as arestas ao
caráter dos pequenos, o essencial ficava; as paixões embrionárias trabalhavam
por viver, crescer, romper, tais quais ela sentira os dois no próprio seio,
durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por maldizer da
cabocla do Castelo. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado não se
muda, mas não se sabe. Agora, pode ser que isto de não calar confirme a opinião
de que a Cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal
o que é que ela disse a Natividade? Não fez mais que uma pergunta misteriosa; a
predição é que foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castelo
ressoaram aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Coisas futuras!
Hei-los grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade
sorriu, ergueu-se, foi à porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.
— Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe
ouvisse os horrores que ele solta pela boca fora, mamãe morria de medo.
Custa-me muito não ir à cara dele; ainda lhe não tirei um olho...
— Meu filho, não fales assim, é
teu irmão.
— Pois que não se meta comigo,
não me aborreça. Que blasfêmias que ele dizia! Como eu rezava por alma de Luís
XVI, ele para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compôs uma ladainha
chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papai nem mamãe
ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos...
— Aí está!
— Mas é que ele é que me dava
primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Então, eu havia de
apanhar calado?
— Nem calado, nem falando.
— Então, como? Apanhar sempre,
não é?
— Não, senhor; não quero
pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus
pais se querem? As brigas acabaram de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas.
Afinal que têm vocês com um sujeito mau que morreu há tantos anos?
— É o que eu digo, mas ele não
se emenda.
— Há de emendar-se; os estudos
fazem esquecer criancices. Você também quando for médico tem muito que brigar
com as moléstias e a morte; é melhor que andar dando pancada em seu irmão...
Que é lá isso? Não quero arremessos, Pedro! Sossegue, ouça-me.
— Mamãe é sempre contra mim.
— Não sou contra nenhum, sou por
ambos, ambos são meus filhos. E demais gêmeos. Anda cá, Pedro. Não penses que
eu desaprovo as tuas opiniões políticas. Até gosto e são as minhas, são as
nossas. Paulo há de tê-las também. Na idade dele aceita-se quanta tolice há,
mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes
homens, mas com a condição de serem também grandes amigos.
— Estou pronto a ser grande
homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quase com resignação.
— E grande amigo também.
— Se ele for, serei.
— Grandes homens! exclamou
Natividade, dando-lhe dois abraços, um para ele, outro para o irmão quando
viesse.
Mas Paulo veio logo, e recebeu o
abraço inteiro e de verdade. Vinha também queixar-se, e sempre resmungou alguma
coisa, mas a mãe não quis ouvi-lo, e falou outra vez a linguagem das grandezas.
Paulo consentiu também em ser grande.
— Você será médico, disse
Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e
ganha as piores demandas.
— Eu, disseram ambos a um tempo.
— Patetas! Cada um terá a sua
carreira especial, a sua ciência diferente. Já estão curados do nariz? Já; não
há mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.
Foi um recurso hábil separá-los;
um ficava no Rio, estudando Medicina, outro ia para São Paulo, estudar Direito.
O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para
o seu lado. Era a paz perpétua; mais tarde viria a perpétua amizade.
CAPÍTULO XXVII / DE UMA REFLEXÃO
INTEMPESTIVA
Eis aqui entra uma reflexão da
leitora: "Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue,
contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única
mulher?"
O que a senhora deseja, amiga
minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse
particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse:
"Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser
amadas ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber
que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que
assisto às blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor,
às duas, se não é uma só a pessoa..."
Francamente eu não gosto de
gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com
método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser
impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá
que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas
escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não.
senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me vissem sugerindo. Se
quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador;
mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe
que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator
destas aventuras.
CAPÍTULO XXVIII / O RESTO É
CERTO
Sim, houve uma pessoa, mais moça
que eles, um a dois anos, que os agrilhoou, à força de costume ou de natureza,
se não foi de ambas as coisas. Antes dessa, pode ser que houvesse outras e mais
velhas que eles, mas de tais não rezam as notas que servem a este livro. Se
brigaram por elas, não ficou memória disso, mas é possível, dado que tivessem
tido as mesmas preferências; no caso contrário também, como sucedia aos
cavaleiros que defendiam a sua dama.
Conjeturas tudo. Era natural
que, assim bonitos, iguais, elegantes dados à vida e ao passeio, à conversação
e à dança, finalmente herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse
deles. As que os viam passar a cavalo, praia fora ou rua acima, ficavam
namoradas daquela ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os próprios cavalos
eram iguaizinhos, quase gêmeos, e batiam as patas com o mesmo ritmo, a mesma
força, e a mesma graça. Não creias que o gesto da cauda e das crinas fosse
simultâneo nos dois animais; não é verdade e pode fazer duvidar do resto. Pois
o resto é certo.
CAPÍTULO XXIX / A PESSOA MAIS
MOÇA
A pessoa mais moça não entra já
neste capítulo por uma razão valiosa, que é a conveniência de apresentar
primeiro os pais. Não é que se não possa vê-la bem sem eles; pode-se, os três
são diversos, acaso contrários, e, por mais especial que a acheis, não é preciso
que os pais estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os pais. Camões
afirmou que de certo pai só se podia esperar tal filho, e a ciência confirma
esta regra poética. Pela minha parte creio na ciência como na poesia, mas há
exceções, amigo. Sucede, às vezes, que a natureza faz outra coisa, e nem por
isso as plantas deixam de crescer e as estrelas de luzir. O que se deve crer
sem erro é que Deus é Deus; e, se alguma rapariga árabe me estiver lendo,
ponha-lhe Alá! Todas as línguas vão dar ao Céu.
CAPÍTULO XXX / A GENTE BATISTA
A gente Batista conheceu a gente
Santos em não sei que fazenda da Província do Rio. Não foi Maricá, embora ali
tivesse nascido o pai dos gêmeos; seria em qualquer outro município. Fosse qual
fosse, ali é que se conheceram as duas famílias, e como morassem próximas em
Botafogo, a assiduidade e a simpatia vieram ajudando o caso fortuito.
Batista, o pai da donzela, era
homem de quarenta e tantos anos, advogado do cível, ex-presidente de província
e membro do Partido Conservador. A ida à fazenda tivera por objeto exatamente
uma conferência política para fins eleitorais, mas tão estéril que ele tornou
de lá sem, ao menos, um ramo de esperança. Apesar de ter amigos no governo, não
alcançara nada, nem deputação nem presidência. Interrompera a carreira desde
que foi exonerado daquele cargo "a pedido", disse o decreto, mas as
queixas do exonerado fariam crer outra coisa. De fato, perdera as eleições, e
atribuía a esse desastre político a demissão do cargo.
— Não sei o que é que ele queria
que eu fizesse mais, dizia Batista falando do ministro. Cerquei igrejas; nenhum
amigo pediu polícia que eu não mandasse; processei talvez umas vinte pessoas.
Outras foram para a cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim
houve duas mortes no Ribeirão das Moças.
O final era excessivo, porque as
mortes não foram obra dele; quando muito, ele mandou abafar o inquérito, se se
pode chamar inquérito a uma simples conversação sobre a ferocidade dos dois
defuntos. Em suma, as eleições foram incruentas.
Batista dizia que por causa das
eleições perdera a presidência, mas corria outra versão, um negócio de águas,
concessão feita a um espanhol, a pedido do irmão da esposa do presidente. O
pedido era verdadeiro, a imputação de sócio é que era falsa. Não importa; tanto
bastou para que a folha da oposição dissesse que houve naquilo um bom
"arranjo de família", acrescentando que, como era de águas, devia ser
negócio limpo. A folha da administração retorquiu que, se águas havia, não eram
bastantes para lavar o sujo do carvão deixado pela última presidência liberal,
um fornecimento de palácio. Não era exato; a folha da oposição reviveu o
processo antigo e mostrou que a defesa fora cabal. Podia parar aqui, mas
continuou que, "como agora estávamos em Espanha", o presidente
emendou o poeta espanhol, autor daquele epitáfio:
Cunados y juntos:
Es cierto que están difuntos;
e emendou-o por não ser obrigado
a matar ninguém, antes deu vida a si e aos seus, dizendo pela nossa língua:
Cunhados e cunhadíssimos;
E certo que são vivíssimos!
Batista acudiu depressa ao mal,
declarando sem efeito a concessão, mas isso mesmo serviu à oposição para novos
arremessos: "Temos a confissão do réu!" foi o título do primeiro
artigo que rendeu à folha da oposição o ato do presidente. Os correspondentes
tinham já escrito para o Rio de Janeiro falando da concessão, e o governo
acabou por demitir o seu delegado. Em verdade, só os políticos cuidaram do
negócio. D. Cláudia apenas aludia à campanha da imprensa, que foi violentíssima.
— Não valia a pena sair daqui,
disse Natividade.
— Lá isso não, baronesa!
E D. Cláudia afirmou que valia.
Sofre-se, mas paciência. Era tão bom chegar à província! Tudo anunciado, as
visitas a bordo, o desembarque, a posse, os cumprimentos... Ver a magistratura,
o funcionalismo, a oficialidade, muito calva, muito cabelo branco, a flor da
terra, enfim, com as suas cortesias longas e demoradas, todas em ângulo ou em
curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da oposição eram
agradáveis. Ouvir chamar tirano ao marido, que ela sabia ter um coração de
pomba, ia bem à alma dela. A sede de sangue que se lhe atribuía, ele que nem
bebia vinho, o guante de ferro de um homem que era uma luva de pelica, a
imoralidade, a desfaçatez, a falta de brio, todos os nomes injustos, mas
fortes, que ela gostava de ler, como verdades eternas, onde iam eles agora? A
folha da oposição era a primeira que D. Cláudia lia em palácio. Sentia-se
vergastada também e tinha nisso uma grande volúpia, como se fosse na própria
pele, almoçava melhor. Onde iam os látegos daquele tempo? Agora mal podia ler o
nome dele impresso no fim de algumas razões do foro, ou então na lista das
pessoas que iam visitar o imperador.
— Nem sempre, explicou D.
Cláudia; Batista é muito acanhado; vai de longe em longe a S. Cristóvão, para
não parecer que se faz lembrado, como se isto fosse crime; ao contrário, não ir
nunca é que pode parecer arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebe-lo
com muita benevolência, e a mim também. Nunca esqueceu o meu nome. Já deixei de
lá ir dois anos, e quando apareci, perguntou-me logo: "Como vai, D.
Cláudia?"
Afora essas saudades do poder,
D. Cláudia era uma criatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os
olhos que pareciam não ver nada à força de não pararem nunca, e o sorriso
benévolo, e a admiração constante, tudo nela era ajustado a curar as
melancolias alheias. Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quisesse
comer vivas, comer de amor, não de ódio, metê-las em si, muito em si, no mais
fundo de si.
Batista não tinha as mesmas
expansões. Era alto, e o ar sossegado dava um bom aspecto de governo. Só lhe
faltava ação, mas a mulher podia inspirar-lha, nunca deixou de consultá-la nas
crises da presidência. Agora mesmo, se lhe desse ouvidos, já teria ido pedir
alguma coisa ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia
da fraqueza: "Hão de chamar-me, deixa estar", dizia ele a D. Cláudia,
quando aparecia alguma vaga de governo provincial. Certo é que ele sentia a
necessidade de tornar à vida ativa. Nele a política era menos uma opinião que
uma sarna; precisava coçar-se a miúdo e com força.
CAPÍTULO XXXI / FLORA
Tal era aquele casal de
políticos. Um filho, se eles tivessem um filho varão, podia ser a fusão das
suas qualidades opostas, e talvez um homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa
consolação dinástica.
Tinham uma filha única, que era
tudo o contrário deles. Nem a paixão de D. Cláudia, nem o aspecto governamental
de Batista distinguia a alma ou a figura da jovem Flora. Quem a conhecesse por
esses dias, poderia compará-la a um vaso quebradiço ou à flor de uma só manhã,
e teria matéria para uma doce elegia. Já então possuía os olhos grandes e
claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que não era o espalhado
da mãe, nem o apagado do pai, antes mavioso e pensativo, tão cheio de graça que
faria amável a cara de um avarento. Põe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a boca
meio risonha, formando tudo um rosto comprido, alisa-lhe os cabelos ruivos, e
aí tens a moça Flora.
Nasceu em agosto de 1871. A mãe,
que datava por ministérios, nunca negou a idade da filha:
— Flora nasceu no ministério Rio
Branco, e foi sempre tão fácil de aprender, que já no ministério Sinimbu sabia
ler e escrever correntemente.
Era retraída e modesta, avessa a
festas públicas, e dificilmente consentiu em aprender a dançar. Gostava de
música, e mais do piano que do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz
de não comer um dia inteiro. Há aí o seu tanto de exagerado, mas a hipérbole é
deste mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas que só à força de
muita retórica se pode meter por elas um sopro de verdade.
Até aqui nada há que
extraordinariamente distinga esta moça das outras, suas contemporâneas, desde
que a modéstia vai com a graça, e em certa idade é tão natural o devaneio como
a travessura. Flora, aos quinze anos, dava-lhe para se meter consigo. Aires,
que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade. acreditava que a moça
viria a ser uma inexplicável.
— Como diz? inquiriu a mãe.
— Verdadeiramente, não digo
nada, emendou Aires; mas, se me permite dizer alguma coisa, direi que esta moça
resume as raras prendas de sua mãe.
— Mas eu não sou inexplicável,
replicou D. Cláudia sorrindo.
— Ao contrário, minha senhora.
Tudo está, porém, na definição que dermos a esta palavra. Talvez não haja
nenhuma certa. Suponhamos uma criatura para quem não exista perfeição na terra,
e julgue que a mais bela alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com
o ponto de vista, a perfeição...
— A perfeição é copas, insinuou
Santos.
Era um convite ao voltarete.
Aires não teve animo de aceitar, tão inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos
nele, interrogativos, curiosos de saber por que é que ela era ou viria a ser
inexplicável. Além disso, preferia a conversação das mulheres. É dele esta
frase do Memorial: "Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no
homem, agrava."
Não foi preciso aceitar nem
recusar o convite de Santos; chegaram dois habituados do jogo, e com eles
Batista, que estava na saleta próxima, Santos foi ao recreio de todas as
noites. Um daqueles era o velho Plácido, doutor em espiritismo; o segundo era
um corretor da praça, chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia
menos perder dinheiro que partidas. Lá se foram ao voltarete, enquanto Aires
ficava no salão, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se
despegassem dele.
CAPÍTULO XXXII / O APOSENTADO
Já então este ex-ministro estava
aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro, depois de um último olhar às coisas
vistas, para aqui viver o resto dos seus dias. Podia fazê-lo em qualquer
cidade, era homem de todos os climas, mas tinha particular amor à sua terra, e
porventura estava cansado de outras. Não atribuía a estas tantas calamidades. A
febre amarela, por exemplo, à força de a desmentir lá fora, perdeu-lhe a fé, e
cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já corrompido por aquele
credo que atribui todas as moléstias a uma variedade de nomes. Talvez porque
era homem sadio.
Não mudara inteiramente; era o
mesmo ou quase. Encalveceu mais, é certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao
cabo, uma velhice rija de sessenta anos. Os bigodes continuam a trazer as
pontas finas e agudas. O passo é firme, o gesto grave, com aquele toque de galanteria,
que nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.
Também a cidade não lhe pareceu
que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma ópera menos,
cabeças brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A própria
casa dele no Catete estava bem conservada. Aires despediu o inquilino, tão
polidamente como se recebesse o ministro dos negócios estrangeiros, e meteu-se
nela a si e a um criado, por mais que a irmã teimasse em levá-lo para Andaraí.
— Não, mana Rita, deixe-me ficar
no meu canto.
— Mas eu sou a sua última
parenta, disse ela.
— De sangue e de coração, isso
é, concordou ele; pode acrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde
estão aqueles cabelos?... Não precisa baixar os olhos. Você os cortou para
meter no caixão de seu finado marido. Os que aí estão embranqueceram; mas os
que lá ficaram eram pretos, e mais de uma viúva os teria guardado todos para as
segundas núpcias.
Rita gostou de ouvir aquela
referência. Outrora, não; pouco depois de viúva, tinha vexame de um ato tão
sincero; achava-se quase ridícula. Que valia cortar os cabelos por haver
perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera
bem, a aprovar que lho dissessem, e, na intimidade, a lembrá-lo. Agora serviu a
alusão para replicar:
— Pois se eu sou isso, por que é
que você prefere viver com estranhos?
— Que estranhos? Não vou viver
com ninguém. Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a Praia de Botafogo e a
do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos
chafarizes e das lojas. Há lá coisas esquisitas, mas sei eu se venho achar em
Andaraí uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que
sabemos. Lá os meus pés andam por si. Há ali coisas petrificadas e pessoas
imortais, como aquele Custódio da confeitaria, lembra-se?
— Lembra-me, a Confeitaria do
Império.
— Há quarenta anos que a
estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem.
Pois o diabo está velho, mas não acaba; ainda me há de enterrar. Parece rapaz;
aparece-me lá todas as semanas.
— Você também parece rapaz.
— Não brinque, mana; eu estou
acabado. Sou um velho gamenho, pode ser; mas não é por agradar a moças, é
porque me ficou este jeito... E a propósito, por que não vai você morar comigo?
— Ah! é para saber que também eu
gosto de estar comigo. Irei lá de vez em quando, mas já não saio daqui, senão
para o cemitério.
Ajustaram visitar um ao outro;
Aires viria jantar às quintas-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de
moléstia dele, ao que Aires replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse
viria para Andaraí; o coração dela era o melhor dos hospitais. Talvez que em
todas essas recusas houvesse também a necessidade de fugir à contradição,
porque a irmã sabia inventar ocasiões de dissidência. Naquele mesmo dia (era ao
almoço) ele achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o
a um grande esforço para tornar atrás e achá-lo detestável.
A princípio, Aires cumpriu a
solidão, separou-se da sociedade, meteu-se em casa, não aparecia a ninguém ou a
raros e de longe em longe. Em verdade estava cansado de homens e de mulheres,
de festas e de vigílias. Fez um programa. Como era dado a letras clássicas
achou no Padre Bernardes esta tradução daquele salmo: "Alonguei-me fugindo
e morei na soedade." Foi a sua divisa. Santos, se lha dessem, fá-la-ia
esculpir, à entrada do salão, para regalo dos seus numerosos amigos. Aires
deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo
sentido, parte pela linguagem velha: "!Alonguei-me fugindo e morei na
soedade."
Assim foi a princípio. Às
quintas-feiras ia jantar com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas
ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compor o Memorial ou
rever o composto, para relembrar as coisas passadas. Estas eram muitas e de
feição diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções
diplomáticas, uma braçada de folhas secas, que lhe pareciam verdes agora.
Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e ele não acertava logo
quem fossem, mas era um recreio procurá-las, achá-las e completá-las.
Mandou fazer um armário
envidraçado, onde meteu as relíquias da vida, retratos velhos, mimos de
governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memórias
femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruínas gregas e romanas,
uma infinidade de coisas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não
estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por
línguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capítulos e seriam
lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete
encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assinado por iniciais, um M
e um P que ele traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.
CAPÍTULO XXXIII / A SOLIDÃO
TAMBÉM CANSA
Mas tudo cansa, até a solidão.
Aires entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha
sede de gente viva, estranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Metia-se
por bairros excêntricos, trepava aos morros, ia às igrejas velhas, às ruas
novas, a Copacabana e à Tijuca. O mar ali, aqui o mato e a vista acordavam nele
uma infinidade de ecos, que pareciam as próprias vozes antigas. Tudo isso
escrevia, às noites, para se fortalecer no propósito da vida solitária. Mas não
há propósito contra a necessidade.
A gente estranha tinha a
vantagem de lhe tirar a solidão, sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor
que ele fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso foram os
primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a
nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou que o aposentado da
diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação. A solidão, tanto no texto
bíblico como na tradução do padre, era arcaica. Aires trocou-lhe uma palavra e
o sentido: "Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente."
Assim se foi o programa da vida
nova. Não é que ele já a não entendesse nem amasse, ou que a não praticasse
ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de um remédio que obriga a ficar
na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a
outra gente, ouvi-la, cheirá-la, gostá-la, apalpá-la, aplicar todos os sentidos
a um mundo que podia matar o tempo, o imortal tempo.
CAPÍTULO XXXIV / INEXPLICÁVEL
Assim o deixamos, há apenas dois
capítulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversação com as senhoras.
Hás de lembrar-te que Flora não despegava os olhos dele, ansiosa de saber por
que é que a achava inexplicável. A palavra rasgava-lhe o cérebro, ferindo sem
penetrar. Inexplicável que era? Que se não explica, sabia; mas que se não
explica por quê?
Quis perguntá-lo ao conselheiro,
mas não achou ocasião, e ele saiu cedo. A primeira vez, porém, que Aires foi a
S. Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obséquio de uma definição mais
desenvolvida. Aires sorriu e pegou na mão da mocinha, que estava de pé.
Foi só o tempo de inventar esta
resposta:
— Inexplicável é o nome que podemos
dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta,
outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a
árvore é árvore, nem a choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais
que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que eles não dizem
nada. E retocam com tanta paciência, que alguns morrem entre dois olhos, outros
matam-se de desespero.
Flora achou a explicação
obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ela,
pode ser que a não aches mais clara. Ele é que não acrescentou nada, para não
ficar incluído entre os artistas daquela espécie. Bateu paternalmente na palma
da mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como é que não
iriam bem os estudos? E sentando-se ao pé dele, a mocinha confessou que tinha
idéia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de
mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na música.
A música ia bem com ela, o francês também, e o inglês.
— Pois só a música, o inglês e o
francês, concordou Aires.
— Mas o senhor promete que não
me achará inexplicável? pergunta ela com doçura.
Antes que ele respondesse,
entraram na sala os dois gêmeos. Flora esqueceu um assunto por outro, e o velho
pelos rapazes. Aires não se demorou mais que o tempo de a ver rir com eles, e
sentir em si alguma coisa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.
CAPÍTULO XXXV / EM VOLTA DA MOÇA
Já então os dois gêmeos
cursavam, um a Faculdade de Direito, em S. Paulo; outro a Escola de Medicina,
no Rio. Não tardaria muito que saíssem formados e prontos, um para defender o
direito e o torto da gente, outro para ajudá-la a viver e a morrer. Todos os
contrastes estão no homem.
Não era tanta a política que os
fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a política.
Também não eram tais as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na
idade em que tudo se combina sem quebra de essência de cada coisa. Lá que
viessem a amar a pequena com igual força é o que se podia admitir desde já, sem
ser preciso que ela os atraísse de vontade. Ao contrário, Flora ria com ambos,
sem rejeitar nem aceitar especialmente nenhum; pode ser até que nem percebesse
nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas férias, como que a
achava mais cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as suas finezas
para se não deixar vencer do irmão, que vinha pródigo delas. E Flora recebia-as
todas com o mesmo rosto amigo.
Note-se — e este ponto deve ser
tirado à luz, — note-se que os dois gêmeos continuavam a ser parecidos e eram
cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança
diminuía em cada um deles a feição pessoal. Demais, Flora simulava às vezes
confundi-los, para rir com ambos. E dizia a Pedro:
— Dr. Paulo!
E dizia a Paulo:
— Dr. Pedro!
Em vão eles mudavam da esquerda
para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes também, e os
três acabavam rindo. A familiaridade desculpava a ação e crescia com ela. Paulo
gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o
piano que com a conversa; Flora tocava. Ou então fazia ambas as coisas, e
tocava falando, soltava a rédea aos dedos e à língua.
Tais artes, postas ao serviço de
tais graças, eram realmente de acender os gêmeos, e foi o que sucedeu pouco a
pouco. A mãe dela cuido que percebeu alguma coisa; mas a princípio não lhe deu
grande cuidado. Também ela foi menina e moça, também se dividiu a si sem se dar
nada a ninguém. Pode ser até que, a seu parecer, fosse um exercício necessário
aos olhos do espírito e da cara. A questão é que estes se não corrompessem, nem
se deixassem ir atrás de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os
feitiços de Orfeu. Ao contrário, Flora é que fazia de Orfeu, ela é que era a
cantiga. Oportunamente, escolheria a um deles, pensava a mãe.
A intimidade tinha intervalos
grandes, além das ausências obrigadas de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não a
buscava sempre, nem ela ia muita vez à casa da praia. Não se viam dias e dias.
Que pensassem um no outro, é possível; mas não possuo o menor documento disto.
A verdade é que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua e
de aventura, os partidos de teatro, os passeios à Tijuca e outros arrabaldes.
Ao demais, os dois gêmeos estavam ainda no ponto de falar dela nas cartas,
louvá-la, descrevê-la, dizer mil coisas doces, sem ciúme.
CAPÍTULO XXXVI / A DISCÓRDIA NÃO
É TÃO FEIA COMO SE PINTA
A discórdia não é tão feia como
se pinta, meu amigo. Nem feia, nem estéril. Conta só os livros que tem
produzido, desde Homero até cá, sem excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que
este, mas a Modéstia acena-me de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a
Modéstia, que mal suporta a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas,
mas há de ir com ela e com eles. Viva a Modéstia, e excluamos este livro;
fiquem só os grandes livros épicos e trágicos, a que a Discórdia deu vida, e
digam-me se tamanhos efeitos não provam a grandeza da causa. Não, a discórdia
não é tão feia como se pinta.
Teimo nisto para que as almas
sensíveis não comecem de tremer pela moça ou pelos rapazes. Não há mister
tremer, tanto mais que a discórdia dos dois começou por um simples acordo,
naquela noite. Costeavam a praia, calados, pensando só, até que ambos, como se
falassem para si, soltaram esta frase única:
— Está ficando bem bonita.
E voltando-se um para outro:
— Quem?
Ambos sorriram; acharam pico ao
simultâneo da reflexão e da pergunta. Sei que este fenômeno é tal qual o do
capítulo XXV, quando eles disseram da idade, mas não me culpem a mim; eram
gêmeos, podiam ter o falar gêmeo. O principal é que não se amofinaram; não era
ainda amor o que sentiam. Cada um expôs a sua opinião acerca das graças da
pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mãos, tudo com tão boa sombra, que
excluía a idéia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha da melhor
prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; mas como acabavam
achando um total harmônico, era visto que não brigavam por isso. Nenhum deles
atribuía ao outro a coisa vaga ou o que quer que era que principiavam a sentir,
e mais pareciam estetas que enamorados. Aliás, a mesma política os deixou em
paz essa noite: não brigaram por ela. Não é que não sentissem alguma coisa
oposta, à vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, água
quieta, vozes confusas e esparsas, algum tílburi a passo ou a trote, segundo ia
vazio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.
A imaginação os levou então ao
futuro, a um futuro brilhante com ele é em tal idade. Botafogo teria um papel
histórico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo
sem doge, nem conselho dos dez, ou então um doge com outro título, um simples
presidente, que se casaria em nome do povo com este pequenino Adriático. Talvez
o doge fosse ele mesmo. Esta possibilidade, apesar dos anos verdes, enfunou a
alma do moço. Paulo viu-se à testa de uma república, em que o antigo e o
moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Convenção
Nacional, a República Francesa e os Estados Unidos da América.
Pedro, à sua parte, construía a
meio caminho como um palácio para a representação nacional, outro para o
imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho. Falava, dominava
o tumulto e as opiniões, arrancava um voto à Câmara dos Deputados ou então
expedia um decreto de dissolução. É uma minúcia, mas merece inseri-la aqui:
Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de
dissolução. Via-se em casa, com o ato assinado, referendado, copiado, mandado
aos jornais e às Câmaras, lido pelos secretários, arquivado na secretaria, e os
deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados. Só ele estava
tranqüilo, no gabinete, recebendo os amigos que iam cumprimentá-lo e pedir os
recados para a província.
Tais eram as grandes pinceladas
da imaginação dos dois. As estrelas recebiam no céu todos os pensamentos dos
rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a preguiça do
costume. Voltaram a si ao pé de casa. Tal ou qual impulso quis levá-los a
discutir acerca do tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum
murmúrio vago pode ser que lhes fizesse mover os beiços e começar a quebrar o
silêncio, mas o silêncio era tão augusto que concordaram em respeitá-lo. E logo
acharam de si para si que a lua era esplêndida, a enseada bela e a temperatura
divina.
CAPÍTULO XXXVII / DESACORDO NO
ACORDO
Não esqueça dizer que, em 1888,
uma questão grave e gravíssima os fez concordar também, ainda que por diversa
razão. A data explica o fato: foi a emancipação dos escravos. Estavam então
longe um do outro, mas a opinião uniu-os.
A diferença única entre eles
dizia respeito à significação da reforma, que para Pedro era um ato de justiça,
e para Paulo era o início da revolução. Ele mesmo o disse, concluindo um
discurso em S. Paulo, no dia 20 de maio: "A abolição é a aurora da
liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco."
Natividade ficou atônita quando
leu isto; pegou da pena e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu
com trinta mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia
sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. "Não,
mamãe; as opiniões é que não."
— As opiniões é que não. repetiu
Natividade acabando de ler a carta.
Natividade não acabava de
entender os sentimentos do filho, ela que sacrificara as opiniões aos
princípios, como no caso de Aires, e continuou a viver sem mácula. Como então
não sacrificar?... Não achava explicação. Relia a frase da carta e a do
discurso; tinha medo de o ver perder a carreira política, se era a política que
o faria grande homem. "Emancipado o preto, resta emancipar o branco",
era uma ameaça ao imperador e ao império.
Não atinou... Nem sempre as mães
atinam. Não atinou que a frase do discurso não era propriamente do filho; não
era de ninguém. Alguém a proferiu um dia. em discurso ou conversa, em gazeta ou
em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua.
Era nova, era enérgica, era expressiva, ficou sendo patrimônio comum.
Há frases assim felizes. Nascem
modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o
mundo, à semelhança das idéias. As próprias idéias nem sempre conservam o nome
do pai; muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém. Cada um pega
delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas.
CAPÍTULO XXXVIII / CHEGADA A
PROPÓSITO
Quando, às duas horas da tarde
do dia seguinte, Natividade se meteu no bonde, para ir a não sei que compras na
Rua do Ouvidor, levava a frase consigo. A vista da enseada não a distraiu, nem
a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a frase ia diante e dentro
dela, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Catete, alguém entrou de salto, sem
fazer parar o veículo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha também que,
posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para lá
rápido e aceitou a ponta do banco que ela lhe ofereceu. Depois dos primeiros
cumprimentos:
— Pareceu-me vê-la olhar
assustada, disse Aires.
— Naturalmente, não imaginei que
fosse capaz deste ato de ginástica.
— Questão de costume. As pernas
saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodas passam por cima...
— Fosse como fosse, chegou a
propósito.
— Chego sempre a propósito. Já
lhe ouvi isso, uma vez, há muitos anos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não
me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castelo. Não se lembra de
uma tal ou qual cabocla que morava no Castelo, e adivinhava a sorte da gente?
Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer coisas do arco-da-velha. Como sempre
tive fé em Sibilas, acreditei na cabocla. Que fim levou ela?
Natividade olhou para ele, como
receando se teria adivinhado então a consulta que ela fez à cabocla.
Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incrédulo. Aires negou que fosse
incrédulo; ao contrário, sendo tolerante, professava virtualmente todas as
crenças deste mundo. E concluiu:
— Mas, enfim, por que é que
chego a propósito?
Ou o passado, ou a pessoa, com
as suas maneiras discretas e espírito repousado, ou tudo isso junto, dava a
este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ela não achava
agora em ninguém, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidência, um papel
que não mostraria ao marido.
— Quero um conselho,
conselheiro; e demais, para que incomodar a meu marido? Quando muito, contarei
o negócio a mana Perpétua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.
Aires concordou que não valia a
pena aborrecê-lo, se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da
cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em política, e
tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a frase da carta e perguntou o que
cumpria fazer mais útil. Aires entendeu que eram ardores da mocidade. Que não
teimasse; teimando, ele mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
— Então crê que Paulo será
sempre isto?
— Sempre, não digo; também não
digo o contrário. Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me
o que é que há definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido?
Esse mesmo falha. Há quantos dias não sei o que é uma licença? É verdade que
não tenho aparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto
que os homens casados que lá vão são de outro parecer?
— Talvez.
— Só os solteirões podem avaliar
as idéias das mulheres. Um viúvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão;
minto, aos sessenta anos, como eu, vale por dois ou três. Quanto ao jovem
Paulo. não pense mais no discurso. Também eu discursei em rapaz.
— Já cuidei em casá-los.
— Casar é bom, assentiu Aires.
— Não digo casar já, mas daqui a
dois ou três anos. Talvez faça antes uma viagem com eles. Que lhe parece? Vamos
lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro.
Acha que uma viagem?...
— Acho que uma viagem...
— Acabe.
— As viagens fazem bem, mormente
na idade deles. Formam-se para o ano, não é? Pois então! Antes de começar
qualquer carreira. casados ou não, é útil ver outras terras... Mas que
necessidade tem a senhora de ir com eles?
— As mães...
— Mas eu também (desculpe
interrompê-la) mas eu também sou seu filho. Não acha que o costume, o bom
rosto, a graça, a afeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem
uma espécie de maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria órfão.
— Pois venha conosco.
— Ah! baronesa, para mim já não
há mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por várias línguas. Agora o
mundo começa aqui no cais da Glória ou na Rua do Ouvidor e acaba no Cemitério
de S. João Batista. Ouço que há uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do
Caju, mas eu sou um velho incrédulo, como a senhora dizia há pouco, e não
aceito essas notícias sem prova cabal e visual, e para ir averiguá-las,
falíam-me pernas.
— Sempre gracioso! Não as vi
treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta
anos.
— Rita exagera. Mas, voltando à
viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?
— Não.
— Não os encomendou sequer?
— Também não.
— Então, pensemos em outra
coisa. Cada dia traz a sua ocupação, quanto mais as semanas e os meses.
Pensemos em outra coisa. e deixe lá o Paulo pedir a república.
Natividade achou consigo que ele
tinha razão; depois, pensou em outra coisa, e esta foi a idéia do princípio.
Não disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. Não era difícil
com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair
na banalidade nem subir às nuvens; tinha um modo particular, que não sei se
estava na idéia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguém,
e aliás seria uma distração. Quero crer que não dissesse mal por indiferença ou
cautela; provisoriamente, ponhamos caridade.
— Mas, a senhora ainda me não
disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?
— Custa-me pedir-lhe.
— Peça sempre.
— Sabe que os meus dois gêmeos
não combinam em nada, ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito para
os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu
mesma já não me sinto com forças, e então pensei que um amigo, um homem
moderado, um homem de sociedade, hábil, fino, cauteloso, inteligente,
instruído...
— Eu, em suma?
— Adivinhou.
— Não adivinhei; é o meu retrato
em pessoa. Mas então que lhe parece que possa fazer?
— Pode corrigi-los por boas
maneiras; fazê-los unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou
nada. Não imagina; parece até propósito. Não discordam da cor da Lua, por
exemplo, mas aos onze anos Pedro descobriu que as sombras da Lua eram nuvens, e
Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei.
Imagine em política...
— Imagine em amores, diga logo;
mas não é propriamente para este caso...
— Oh! não!
— Para os outros é igualmente
inútil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baronesa, o seu pedido
equivale a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não me dou por
diminuído. Contanto que me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me
em palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha ação é
inútil.
— Por quê?
— É inútil.
— Uma pessoa de autoridade, como
o senhor, pode muito, contanto que os ame, porque eles são bons, creia.
Conhece-os bem?
— Pouco.
— Conheça-os mais e verá.
Aires concordou rindo. Para
Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na ação do conselheiro, e
para dizer tudo... Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga
inclinação do velho diplomata. As cãs não lhe tirariam o desejo de a servir.
Não sei quem me lê nesta ocasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é
mulher creio que entenderá. Se ninguém entender, paciência; basta saber que ele
prometeu o que ela quis, e também prometeu calar-se; foi a condição que a outra
lhe pos. Tudo isso polido, sincero e incrédulo.
CAPÍTULO XXXIX / UM GATUNO
Chegaram ao Largo da Carioca,
apearam-se e despediram-se; ela entrou pela Rua Gonçalves Dias, ele enfiou pela
da Carioca. No meio desta, Aires encontrou um magote de gente parada, logo
depois andando em direção ao largo. Aires quis arrepiar caminho, não de medo,
mas de horror. Tinha horror à multidão. Viu que a gente era pouca, cinqüenta ou
sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou num corredor,
à espera que o magote passasse. Duas praças de polícia traziam o preso pelo
braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastá-lo ou
forçá-lo por outro método. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.
— Não furtei nada! — bradava o
preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto!
protesto!
— Siga para a estação!
— Não sigo!
— Não siga! bradava a gente
anônima. Não siga! não siga!
Uma das praças quis convencer a
multidão que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassossego
pareceu minorar um pouco; mas, indo a praça a andar com a outra e o preso, —
cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a
violência. O preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora agressivo, convidava
a defesa. Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um
claro. A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do
ninho ou do alimento, voou de atropelo, pula aqui, pula ali, pula acolá, para
todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas
logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo,
desafrontando, encheu a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez
compacta e caminhou para a estação policial. Aires seguiu caminho.
A vozeira morreu pouco a pouco,
e Aires entrou na Secretaria do Império. Não achou o ministro, parece, ou a
conferência foi curta. Certo é que, saindo à praça, encontrou partes do magoté
que tornavam comentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno,
fiando que era mais doce, e tanto bradavam há pouco contra a ação das praças,
como riam agora das lástimas do preso.
— Ora o sujeito!
Mas então... perguntarás tu.
Aires não perguntou nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquela
manifestação dupla e contraditória; foi o que ele pensou. Depois, imaginou que
a grita da multidão protestante era filha de um velho instinto de resistência à
autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador,
que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto
da oposição. Que o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo à força e
ao bel-prazer, vá também; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas
que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a
liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão. Ia assim cogitando o
conselheiro Aires.
Não lhe atribuam todas essas
idéias. Pensava assim, como se falasse alto, à mesa ou na sala de alguém. Era
um processo de crítica mansa e delicada, tão convencida em aparência, que algum
ouvinte, à cata de idéias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...
Ia a descer pela Rua Sete de
Setembro, quando a lembrança da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.
CAPÍTULO XL / RECUERDOS
Essa outra vozeria maior e mais
remota não caberia aqui, se não fosse a necessidade de explicar o gesto
repentino com que Aires parou na calçada. Parou, tornou a si e continuou a
andar com os olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde ele
servirá na qualidade de adido de legação. Estava em casa, de palestra com uma
atriz da moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande,
vozes tumultuosas, vibrantes, crescentes...
— Que rumor é este, Carmen?
perguntou ele entre duas carícias.
— Não se assuste, amigo meu; é o
governo que cai.
— Mas eu ouço aclamações...
— Então é o governo que sobe.
Não se assuste. Amanhã é tempo de ir cumprimentá-lo.
Aires deixou-se ir rio abaixo
daquela memória velha, que lhe surdia agora do alarido de cinqüenta ou sessenta
pessoas. Essa espécie de lembranças tinha mais efeito nele que outras. Recompôs
a hora, o lugar e a pessoa da sevilhana. Cármen era de Sevilha. O ex-rapaz
ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, à despedida, depois de
retificar as ligas, compor as saias, e cravar o pente no cabelo, — no momento
em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:
Tienen
las sevillanas,
En
la mantilla,
Un
letrero que dice:
¡Viva
Sevilla!
Não posso dar a toada, mas Aires
ainda a trazia de cor, e vinha a repeti-la consigo, vagarosamente, como ia
andando. Outrossim, meditava na ausência de vocação diplomática. A ascensão de
um governo, — de um regímen que fosse, — com as suas idéias novas, os seus
homens frescos, leis e aclamações, valia menos para ele que o riso da jovem
comediante. Onde iria ela? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente,
o gatuno, para ficar só diante do velho Aires, dando aos quadris e cantarolando
a trova andaluza:
Tienen las sevillanas,
En la mantilla...
CAPÍTULO XLI / CASO DO BURRO
Se Aires obedecesse ao seu
gosto, e eu a ele, nem ele continuaria a andar, nem eu começaria este capítulo;
ficaríamos no outro, sem nunca mais acabá-lo. Mas não há na memória que dure,
se outro negócio mais forte puxa pela atenção, e um simples burro fez
desaparecer Cármen e a sua trova.
Foi o caso que uma carroça
estava parada, ao pé da Travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e
o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este
espetáculo fez parar o nosso Aires, não menos condoído do asno do homem. A
força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não
sair do lugar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo.
Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta
situação; finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do
lugar e foi andando.
Nos olhos redondos do animal viu
Aires uma expressão profunda de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo
de espírito invencível. Depois leu neles este monólogo; "Anda, patrão,
atulha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé
no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te
chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido
patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu
domínio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar..."
— Vê-se, quase que se lhe ouve a
reflexão, notou Aires consigo.
Depois riu de si para si, e foi
andando. Inventara tanta coisa no serviço diplomático, que talvez inventasse o
monólogo do burro. Assim foi; não lhe leu nada nos olhos, a não ser a ironia e
a paciência, mas não se pôde ter que lhes não desse uma forma de palavra, com
as suas regras de sintaxe. A própria ironia estava acaso na retina dele. O olho
do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.
Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memória a
esquecer Caracas e Cármen, os seus beijos e experiência política.
CAPÍTULO XLII / UMA HIPÓTESE
Visões e reminiscências iam
assim comendo o tempo e o espaço ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem
esquecer o pedido de Natividade; mas não o esqueceu de todo, e as palavras
trocadas há pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que não perdia
muito em estudar os rapazes. Chegou a apanhar uma hipótese, espécie de andorinha,
que avoaça entre árvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa ali, arranca de
novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hipótese vaga e
colorida, a saber, que se os gêmeos tivessem nascido dele talvez não
divergissem tanto nem nada, graças ao equilíbrio do seu espírito. A alma do
velho entrou a ramalhar não sei que desejos retrospectivos, e a rever essa
hipótese, outra Caracas, outra Cármen, ele pai, estes meninos seus, toda a
andorinha que se dispersava num farfalhar calado de gestos.
CAPÍTULO XLIII / O DISCURSO
Natividade é que não teve
distrações de espécie alguma. Toda ela estava nos filhos, e agora especialmente
na carta e no discurso. Começou por não dar resposta às efusões políticas de
Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas férias
tinha esquecido a carta que escrevera.
O discurso é que ele não
esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memória
os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O
melhor dos remédios, no segundo caso, é supô-los excelentes, e, se a razão não
aceita esta imaginação, consultar pessoas que a aceitem, e crer nelas. A
opinião é um velho óleo incorruptível.
Paulo tinha talento. O discurso
daquele dia podia pecar aqui ou ali por alguma ênfase, e uma ou outra idéia
vulgar e exausta. Tinha talento Paulo. Em suma, o discurso era bom. Santos
achou-o excelente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevê-lo nos jornais.
Natividade não se opôs, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.
— Cortadas, por quê? perguntou
Santos, e ficou esperando a resposta.
— Pois você não vê, Agostinho;
estas palavras têm sentido republicano, explicou ela relendo a frase que a
afligira.
Santos ouviu-as ler, leu-as para
si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as suprimir.
— Pois não se transcreve o
discurso.
— Ah! isso não! O discurso é
magnífico, e não há de morrer em S. Paulo; é preciso que a Corte o leia, e as
províncias também, e até não se me daria fazê-lo traduzir em francês. Em
francês, pode ser que fique ainda melhor.
— Mas, Agostinho, isto pode
fazer mal à carreira do rapaz; o imperador pode ser que não goste...
Pedro que assistia desde alguns
instantes ao debate, interveio docemente para dizer que os receios da mãe não
tinham base; era bom pôr a frase toda, e, a rigor, não diferia muito do que os
liberais diziam em 1848.
— Um monarquista liberal pode
muito bem assinar esse trecho, concluiu ele depois de reter as palavras do
irmão.
— Justamente! assentiu o pai.
Natividade, que em tudo via a
inimizade dos gêmeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente
comprometer Paulo. Olhou para ele a ver se lhe descobria essa intenção torcida,
mas a cara do filho tinha então o aspecto do entusiasmo. Pedro lia trechos do
discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais novas, cantando as
mais redondas, revolvendo-as na boca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu
a suspeita, e a impressão do discurso foi resolvida. Também se tirou uma edição
em folheto, e o pai mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos
ministros, e um ainda mais rico para a Regente.
— Você diga-lhe, aconselhou
Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...
— Liberal de 1848, completou
Santos lembrando as palavras de Pedro.
Santos cumpriu à risca. A
entrega se fez naturalmente, e, no palácio Isabel, a definição do "liberal
de 1848" saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro
revolucionário da frase condenada pela mulher, ou porque trazia valor histórico.
Quando ele voltou a casa, a primeira coisa que lhe disse foi que a Regente
perguntara por ela, mas apesar de lisonjeada com a lembrança, Natividade quis
saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lera.
— Parece que foi boa. Disse-me
que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os
sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhe notávamos certo ardor,
compreendíamos sempre que eles eram os de um liberal de 1848...
— Papai disse isso? perguntou
Pedro.
— Por que não, se é verdade?
Paulo é o que se pode chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo
convencer o filho.
CAPÍTULO XLIV / O SALMÃO
Pelas férias é que Paulo soube
da interpretação que o pai dera à Regente daquele trecho do discurso. Protestou
contra ela, em casa; quis fazê-lo também em público, mas Natividade interveio a
tempo. Aires pôs água na fervura, dizendo ao futuro bacharel:
— Não vale a pena, moço, o que
importa é que cada um tenha as suas idéias e se bata por elas, até que elas
vençam. Agora que outros as interpretem mal é coisa que não deve afligir o
autor.
— Afligir, sim, senhor; pode
parecer que é assim mesmo... Vou escrever um artigo a propósito de qualquer
coisa, e não deixarei dúvidas...
— Para quê? inquiriu Aires.
— Não quero que suponham...
— Mas quem duvida dos seus
sentimentos?
— Podem duvidar.
— Ora, qual! Em todo caso, vá
primeiro almoçar comigo um dia destes... Olhe, vá domingo, e seu irmão Pedro
também. Seremos três à mesa, um almoço de rapazes. Beberemos certo vinho que me
deu o ministro da Alemanha...
No domingo foram os dois ao
Catete, menos pelo almoço que pelo anfitrião. Aires era amado dos dois;
gostavam de ouvi-lo, de interrogá-lo, pediam-lhe anedotas políticas de outro
tempo, descrição de festas, notícias de sociedade.
— Vivam os meus dois jovens,
disse o conselheiro, vivam os meus dois jovens que não esqueceram o amigo
velho. Papai como está? E mamãe?
— Estão bons, disse Pedro.
Paulo acrescentou que ambos lhe
mandavam lembranças.
— E tia Perpétua?
— Também está boa, disse Paulo.
— Sempre com a homeopatia e as
suas histórias do Paraguai, acrescentou Pedro.
Pedro estava alegre, Paulo
preocupado. Depois das primeiras saudações e notícias, Aires notou essa
diferença, e achou que era bom para tirar a monotonia da semelhança; mas,
enfim, não queria caras fechadas, e indagou do estudante de Direito o que é que
ele tinha.
— Nada.
— Não pode ser; acho-lhe um ar
meio sorumbático. Pois eu acordei disposto a rir, e desejo que ambos riam
comigo.
Paulo rosnou uma palavra que nenhum
deles entendeu e sacou do bolso um maço de folhas de papel. Era um artigo...
— Um artigo?
— Um artigo em que tiro todas as
dúvidas a meu respeito, e peço ao senhor que me ouça, é pequeno. Escrevi-o a
noite passada.
Aires propôs ouvi-lo depois do
almoço, mas o rapaz pediu que fosse logo, e Pedro concordou com este alvitre,
alegando que, sobre o almoço, podia perturbar a digestão, como ruim droga que
devia ser, naturalmente. Aires meteu o caso à bulha e aceitou ouvir o artigo.
— É pequeno, sete tiras.
— Letra miúda?
— Não, senhor; assim, assim.
Paulo leu o artigo. Tinha por
epígrafe isto de Amós: "Ouvi esta palavra, vacas gordas que estais no
Monte de Samaria..." As vacas gordas eram o pessoal do regímen, explicou
Paulo. Não atacava o imperador, por atenção à mãe, mas com o princípio e o
pessoal era violento e áspero. Aires sentiu-lhe aquilo que, em tempo, se chamou
"a bossa da combatividade". Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de
mofa:
— Conheço tudo isso, são idéias
paulistas.
— As tuas são idéias coloniais,
replicou Paulo.
Deste intróito podiam nascer
piores palavras, mas felizmente um criado chegou à porta anunciando que o
almoço estava na mesa. Aires ergueu-se e disse que à mesa daria a sua opinião.
— Primeiro o almoço, tanto mais
que temos um salmão, coisa especial! Vamos a ele.
Aires queria cumprir deveras o
ofício que aceitara de Natividade. Quem sabe se a idéia de pai espiritual dos
gêmeos, pai de desejo somente, pai que não foi, que teria sido, não lhe dava uma
afeição particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem é fora de
propósito que ele buscasse somente matéria nova para as páginas nuas de seu Memorial.
Ao almoço, ainda se falou do
artigo, Paulo com amor, Pedro com desdém, Aires sem uma nem outra coisa. O
almoço ia fazendo o seu ofício. Aires estudava os dois rapazes e suas opiniões.
Talvez estas não passassem de uma erupção de pele da idade. E sorria, fazia-os
comer e beber, chegou a falar de moças, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos,
não acompanharam o ex-ministro. A política veio morrendo. Na verdade, Paulo
ainda se declarou capaz de derribar a monarquia com dez homens, e Pedro de
extirpar o gérmen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem mais
decreto que uma caçarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, envolveu os
dois regimens no mesmo salmão delicioso.
CAPÍTULO XLV / MUSA, CANTA...
No fim do almoço, Aires deu-lhes
uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho
poeta os cantara separadamente, Paulo no começo da Ilíada:
— "Musa, canta a cólera de
Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta aos gregos, que precipitou à estância
de Plutão tantas almas válidas de heróis, entregues os corpos às aves e aos
cães..."
Pedro estava no começo da Odisséia:
— "Musa, canta aquele herói
astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruída a santa Ílion..."
Era um modo de definir o caráter
de ambos, e nenhum deles levou a mal a aplicação. Ao contrário, a citação
poética valia por um diploma particular. O fato é que ambos sorriam de fé, de
aceitação, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou sílaba com que
desmentissem o adequado dos versos. Que ele, o conselheiro, depois de os citar
em prosa nossa, repetiu-os no próprio texto grego e os dois gêmeos sentiram-se
ainda mais épicos, tão certo é que traduções não valem originais. O que eles
fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era aplicável ao irmão:
— Tem razão, Sr. conselheiro. —
disse Paulo, — Pedro é um velhaco...
— E você é um furioso...
— Em grego, meninos, em grego e
em verso, que é melhor que a nossa língua e a prosa do nosso tempo.
CAPÍTULO XLVI / ENTRE UM ATO E
OUTRO
Aqueles almoços repetiram-se, os
meses passaram, vieram férias, acabaram-se férias, e Aires penetrava bem os
gêmeos. Escrevia-os no Memorial, onde se lê que a consulta ao velho
Plácido dizia respeito aos dois, e mais a ida à cabocla do Castelo a briga
antes de nascer, casos velhos e obscuros que ele relembrou, ligou e decifrou.
Enquanto os meses passam, faze de
conta que estás no teatro, entre um ato e outro, conversando. Lá dentro
preparam a cena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no
camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fora com os espectadores.
Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vê-lo pelas costas; é
pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e
flores. Deixa-te estar cá fora no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos;
têm ainda as lágrimas que lhe arrancou a dama da peça. Fala-lhe da peça e dos
artistas. Que é obscura. Que não sabem os papéis. Ou então que é tudo sublime.
Depois percorre os camarotes com o binóculo, distribui justiça, chama belas às
belas e feias às feias, e não te esqueças de contar anedotas que desfeiem as
belas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as
anedotas engraçadas. Também as há banais, mas a mesma banalidade na boca de um
bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as lágrimas secam
inteiramente, e a realidade substitui a ficção. Falo por imagem; sabes que tudo
aqui é verdade pura e sem choro.
CAPÍTULO XLVII / S. MATEUS, IV,
1-10
Se há muito riso quando um
partido sobe, também há muita lágrima do outro que desce, e do riso e da lágrima
se faz o primeiro dia da situação, como nos Gênesis. Venhamos ao evangelista
que serve de título ao capítulo. Os liberais foram chamados ao poder, que os
conservadores tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Batista
foi enorme.
— Justamente agora que eu tinha
esperanças, disse ele à mulher.
— De quê?
— Ora de quê! de uma
presidência. Não disse nada, porque podiam falhar, mas é quase certo que não.
Tive duas conferências, não com ministros, mas com pessoa influente que sabia,
e era negócio de esperar um mês ou dois...
— Presidência boa?
— Boa.
— Se você tivesse trabalhado
bem...
— Se tivesse trabalhado bem,
podia estar já de posse, mas vínhamos agora a toque de caixa.
— Isso é verdade, concordou D.
Cláudia olhando para o futuro.
Batista passeava, as mãos nas
costas, os olhos no chão, suspirando, sem prever o tempo em que os
conservadores tornariam ao poder. Os liberais estavam fortes e resolutos. As
mesmas idéias pairavam na cabeça de D. Cláudia. Este casal só não era igual na vontade;
as idéias eram muitas vezes tais que, se aparecessem cá fora, ninguém diria
quais eram as dele, nem quais as dela, pareciam vir de um cérebro único.
Naquele momento nenhum achava esperança imediata ou remota. Uma só idéia
vaga... E foi aqui que a vontade de D. Cláudia fincou os pés no chão e cresceu.
Não falo só por imagem; D. Cláudia levantou-se da cadeira, rápida, e disparou
esta pergunta ao marido:
— Mas, Batista, você o que é que
espera mais dos conservadores?
Batista parou com um ar digno e respondeu
com simplicidade:
— Espero que subam.
— Que subam? Espera oito ou dez
anos, o fim do século, não é? E nessa ocasião você sabe se será aproveitado?
Quem se lembrará de você?
— Posso fundar um jornal.
— Deixe-se de jornais. E se
morrer?
— Morro no meu posto de honra.
D. Cláudia olhou fixa para ele.
Os seus olhos miúdos enterravam-se pelos dele abaixo, como duas verrumas
pacientes. Súbito, levantando as mãos abertas:
— Batista, você nunca foi
conservador!
O marido empalideceu e recuou,
como se ouvira a própria ingratidão de um partido. Nunca fora conservador? Mas
que era ele então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos
seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Cláudia não atendeu a explicações,
repetiu-lhe as palavras, e acrescentou:
— Você estava com eles, como a
gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas idéias para dançar a
mesma quadrilha.
Batista sorriu leve e rápido;
amava as imagens graciosas e aquela pareceu-lhe graciosíssima, tanto que
concordou logo; mas a sua estrela inspirou-lhe uma refutação pronta.
— Sim, mas a gente não dança com
idéias, dança com pernas.
— Dance com que for, a verdade é
que todas as suas idéias iam para os liberais; lembre-se que os dissidentes na
província acusavam a você de apoiar os liberais...
— Era falso; o governo é que me
recomendava moderação. Posso mostrar cartas.
— Qual moderação! Você é
liberal.
— Eu liberal?
— Um liberalão, nunca foi outra
coisa.
— Pense no que diz, Cláudia. Se
alguém a ouvir é capaz de crer, e daí a espalhar...
— Que tem que espalhe? Espalha a
verdade, espalha a justiça, porque os seus verdadeiros amigos não o hão de
deixar na rua, agora que tudo se organiza. Você tem amigos pessoais no
ministério, por que é que os não procura?
Batista recuou com horror. Isto
de subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava às ordens não era
concebível sequer. D. Cláudia admitiu que não, mas um amigo faria tudo, um
amigo íntimo do governo que dissesse ao Ouro Preto: "Visconde, você por que
é que não convida o Batista? Foi sempre liberal nas idéias. Dê-lhe uma
presidência, pequena que seja, e...
Batista fez um gesto de ombros,
outro de mão que se calasse. A mulher não se calou; foi dizendo as mesmas
coisas, agora mais graves pela insistência e pelo tom. Na alma do marido a
catástrofe era já tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só
lhe faltava a força necessária. Quisera querer. Quisera não ver nada, nem
passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de coisas, e obedecer
aos dados da sorte, mas não podia.
E façamos justiça ao homem.
Quando ele pensava só na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma fé
existia, o mesmo costume, a mesma esperança. O mal vinha de olhar para o lado
de lá; e era D. Cláudia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a
vida, a marcha certa e longa, a presidência, o ministério... Ele torcia os
olhos e ficava.
A sós consigo, Batista pensou
muita vez na situação pessoal e política. Apalpava-se moralmente. Cláudia podia
ter razão. Que é que havia nele propriamente conservador, a não ser esse
instinto de toda criatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador
em política, porque o pai o era, o tio, os amigos da casa, o vigário da
paróquia, e ele começou na escola a execrar os liberais. E depois não era
propriamente conservador, mas saquarema, como os liberais eram luzias.
Batista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que
mudavam o estilo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre ele o grande
abismo de 1842 e 1848. E lembrava-se do Visconde de Albuquerque ou de outro
senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador
que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o Partido Progressista,
Olinda, Nabuco, Zacarias, que foram eles senão conservadores que compreenderam
os tempos novos e tiraram às idéias liberais aquele sangue das revoluções, para
lhes pôr uma cor viva, sim, mas serena. Nem o mundo era dos emperrados... Neste
ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa ocasião apareceu Flora.
O pai abraçou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir para alguma província,
sendo ele presidente.
— Mas os conservadores não
caíram?
— Caíram, sim, mas supõe que...
— Ah! não, papai!
— Não, por quê?
— Não desejo sair do Rio de
Janeiro.
Talvez o Rio de Janeiro para ela
fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pai não apurou as causas
da recusa; supô-las políticas, e achou novas forças para resistir às tentações
de D. Cláudia: "Vai-te, Satanás; porque escrito está: Ao Senhor teu Deus
adorarás, e a ele servirás." E seguiu-se como na Escritura: "Então o
deixou o Diabo; e eis que chegaram os anos e o serviram." Os anjos foram
só um, que valia por muitos; e o pai lhe disse beijando-a carinhosamente:
— Muito bem, muito bem, minha
filha.
— Não é, papai?
Não, não foi a filha que tolheu
a deserção do pai. Ao contrário. Batista, se tivesse de ceder, cederia à mulher
ou ao Diabo, sinônimos neste capítulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força
precisa de trair os amigos, por mais que estes parecessem havê-lo abandonado.
Há dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas,
moralmente falando. Não valem só estóicos e mártires. Virtudes meninas também
são virtudes. É certo, porém, que a linguagem dele, em relação aos liberais,
não era já de ódio ou impaciência; chegava à tolerância, roçava pela justiça.
Concordava que a alternação dos partidos era um princípio de necessidade
pública. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D.
Cláudia opinava o contrário; para ela, os liberais iriam ao fim do século.
Quando muito, admitiu que na primeira entrada não dessem lugar a um converso da
última hora; era preciso esperar um ano ou dois, uma vaga na Câmara, uma
comissão, a vice-presidência do Rio...
CAPÍTULO XLVIII / TERPSÍCORE
Nenhuma dessas coisas preocupava
Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da Ilha Fiscal, que se realizou em
novembro para honrar os oficiais chilenos. Não é que ainda dançasse, mas
sabia-lhe bem ver dançar os outros, e tinha agora a opinião de que a dança é um
prazer dos olhos. Esta opinião é um dos efeitos daquele mau costume de
envelhecer. Não pegues tal costume, leitora. Há outros também ruins, nenhum
pior, este é o péssimo. Deixa lá dizerem filósofos que a velhice é um estado
útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças, amiga minha, por mais
que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O
estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não
trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre.
Bem sei que há gente para quem a
dança é antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras são outra coisa mais que
mulheres de ofício. Também eu, se é lícito citar alguém a si mesmo, também eu
acho que a dança é antes prazer dos olhos que dos pés, e a razão não é só dos
anos longos e grisalhos, mas também outra que não digo, por não valer a pena.
Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que
não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui
integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto,
sem ser preciso notá-lo, mas não se perde nada em repeti-lo.
Por exemplo, D. Cláudia. Também
ela pensava no baile da Ilha Fiscal, sem a menor idéia de dançar, nem a razão
estética da outra. Para ela, o baile da ilha era um fato político, era o baile
do ministério, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma
presidência. Via-se já com a família imperial. Ouvia a princesa:
— Como vai, D. Cláudia?
— Perfeitamente bem, Sereníssima
senhora.
E Batista conversaria com o
imperador, a um canto, diante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o
diálogo, à força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do
marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a
gosto; pode ser que traduzissem esse ato por meia conversão. Não é que só
fossem liberais ao baile, também iriam conservadores, e aqui cabia bem o
aforismo de D. Cláudia que não é preciso ter as mesmas idéias para dançar a
mesma quadrilha.
Santos é que não precisava de
idéias para dançar. Não dançaria sequer. Em moço dançou muito, quadrilhas,
polcas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam então, sem que
eu possa definir melhor a diferença; presumo que na primeira os pés não saíam
do chão, e na segunda não caíam do ar. Tudo isso até os vinte e cinco anos.
Então os negócios pegaram dele e o meteram naquela outra contradança, em que
nem sempre se volta ao mesmo lugar ou nunca se sai dele. Santos saiu e já
sabemos onde está. Ultimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade
abanou a cabeça, por mais que ele explicasse que não queria ser orador nem
ministro, mas tão-somente fazer da Câmara um degrau para o Senado, onde possuía
amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.
— Eterno? interrompeu ela com um
sorriso fino e descorado.
— Vitalício, quero dizer.
Natividade teimou que não, que a
posição dele era comercial e bancária. Acrescentou que política era uma coisa e
indústria outra. Santos replicou, citando o Barão de Mauá, que as fundiu ambas.
Então a mulher declarou por um modo seco e duro que aos sessenta anos ninguém
começa a ser deputado.
— Mas é de passagem; os senhores
são idosos.
— Não, Agostinho, concluiu a
baronesa com um gesto definitivo.
Não conto Aires, que
provavelmente dançaria, a despeito dos anos; também não falo de D. Perpétua,
que nem iria lá. Pedro iria, e é natural que dançasse, e muito, não obstante o
afinco e paixão dos seus estudos. Vivia enfeitiçado pela medicina. No quarto de
dormir, além do busto de Hipócrates, tinha os retratos de algumas sumidades
médicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita moléstia pintada, peitos
cortados verticalmente para se lhes verem os vasos, cérebros descobertos, um
cancro de língua, alguns aleijões, coisas todas que a mãe, por seu gosto,
mandaria deitar fora, mas era a ciência do filho, e bastava. Contentava-se de
não olhar para os quadros.
Quanto a Flora, ainda verde para
os meneios de Terpsícore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a mãe. E isto
era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se não pudesse vir logo
para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha,
teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o
mar, e se consolasse com a esperança de o mirar, advertiria também que a noite
escura tolheria a consolação. Que multidão de dependências na vida, leitor!
Umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se,
e o tempo vai andando sem se perder a si.
Mas donde viria o tédio a Flora,
se viesse? Com Pedro no baile, não; este era, como sabes, um dos dois que lhe
queriam bem. Salvo se ela queria principalmente ao que estava em S. Paulo.
Conclusão duvidosa, pois não é certo que preferisse um a outro. Se já a vimos
falar a ambos com a mesma simpatia, o que fazia agora a Pedro na ausência de
Paulo, e faria a Paulo na ausência de Pedro, não me faltará leitora que presuma
um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que não fosse ao baile,
algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca que o coração verde e
quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem terceiro, nem quarto, nem quinto,
ninguém mais. Uma esquisitona, como lhe chamava a mãe.
Não importa; a esquisitona foi
ao baile da Ilha Fiscal com a mãe e o pai. Assim também Natividade, o marido e
Pedro, assim Aires, assim a demais gente convidada para a grande festa. Foi uma
bela idéia do governo, leitor. Dentro e fora, do mar e de terra, era como um
sonho veneziano; toda aquela sociedade viveu algumas horas suntuosas, novas
para uns, saudosas para outros e de futuro para todos, — ou, quando menos, para
a nossa amiga Natividade — e para o conservador Batista.
Aquela considerava o destino dos
filhos, — coisas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o século XX
e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquela mesma
ilha. Compunha a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna
que entraria na história. Também ela ali estaria, sentada a um canto, sem lhe
dar do peso dos anos, uma vez que visse a grandeza e a prosperidade dos filhos.
Era assim que enfiara os olhos pelo tempo adiante, descontando no presente a
felicidade futura, caso viesse a morrer antes das profecias. Tinha a mesma
sensação que ora lhe dava aquela cesta de luzes no meio da escuridão tranqüila
do mar.
A imaginação de Batista era
menos longa que a de Natividade. Quero dizer que ia antes do princípio do
século, Deus sabe se antes do fim do ano. Ao som da música, à vista das galas,
ouvia umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escocesas; pelo menos,
as palavras eram análogas às que saudaram Macbeth: — "Salve, Batista,
ex-presidente de província!" — "Salve, Batista, próximo presidente de
província!" — "Salve, Batista, tu serás ministro um dia!" A
linguagem dessas profecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade é que
ele se arrependia de as escutar, e forcejava por traduzi-las no velho idioma
conservador, mas já lhe iam faltando dicionários. A primeira palavra ainda
trazia o sotaque antigo: "Salve, Batista, ex-presidente de
província!" mas a segunda e a última eram ambas daquela outra língua
liberal, que sempre lhe pareceu língua de preto. Enfim, a mulher, como lady Macbeth,
dizia nos olhos o que esta dizia pela boca, isto é, que já sentia em si aquelas
futurações. O mesmo lhe repetiu na manhã seguinte, em casa. Batista, com um
sorriso disfarçado, descria das feiticeiras, mas a memória guardava as palavras
da ilha: "Salve, Batista, próximo presidente!" Ao que ele respondia
com um suspiro: Não, não, filhas do Diabo...
Ao contrário do que ficou dito
atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturei mal, emendo-me a tempo. Podia
aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que poupei ao leitor
apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a
vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus
lampiões de gás, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis aí aspectos
novos que a encantaram durante aquelas horas rápidas.
Não lhe faltavam pares, nem
conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia da felicidade dos
outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Também
invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto
poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais
recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que
Flora definia o ofício de governar. Tais idéias passavam e tornavam. De uma vez
alguém lhe disse, como para lhe dar força: "Toda alma livre é
imperatriz!"
Não foi outra voz, semelhante à
das feiticeiras do pai nem às que falavam interiormente a Natividade, acerca
dos filhos. Não; seria pôr aqui muitas vozes de mistério, coisa que, além do
fastio da repetição, mentiria à realidade dos fatos. A voz que falou a Flora
saiu da boca do velho Aires, que se fora sentar ao pé dela e lhe perguntara:
— Em que é que está pensando?
— Em nada, respondeu Flora.
Ora, o conselheiro tinha visto
no rosto da moça a expressão de alguma coisa e insistia por ela. Flora disse
como pôde a inveja que lhe metia a vista da princesa, não para brilhar um dia,
mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quisesse ficar súbdita de si
mesma. Foi então que ele lhe murmurou, como acima:
— Toda alma livre é imperatriz.
A frase era boa, sonora, parecia
conter a maior soma de verdade que há na terra e nos planetas. Valia por uma
página de Plutarco. Se algum político a ouvisse poderia guardá-la para os seus
dias de oposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que ele
mesmo escreveu no Memorial. Com esta nota: "A meiga criatura
agradeceu-me estas cinco palavras."
CAPÍTULO XLIX / TABULETA VELHA
Toda a gente voltou da ilha com
o baile na cabeça, muita sonhou com ele, alguma dormiu mal ou nada. Aires foi
dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio-dia almoçou; depois escreveu
no Memorial as impressões da véspera, notou várias espáduas, fez reparos
políticos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capítulo.
Fumou, leu, até que resolveu ir à Rua do Ouvidor. Como chegasse à vidraça de
uma das janelas da frente, viu à porta da confeitaria uma figura inesperada, o
velho Custódio, cheio de melancolia. Era tão novo o espetáculo que ali se
deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os
olhos, deu com ele entre as cortinas, e enquanto Aires voltava para dentro,
Custódio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.
— Que suba, disse o conselheiro
ao criado.
Custódio foi recebido com a
benevolência de outros dias e um pouco mais de interesse. Aires queria saber o
que é que o entristecia.
— Vim para contá-lo a V. Exª; é
a tabuleta.
— Que tabuleta?
— Queira V. Exª ver por seus
olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir à janela.
— Não vejo nada.
— Justamente, é isso mesmo.
Tanto me aconselharam que fizesse reformar a tabuleta que afinal consenti, e
fi-la tirar por dois empregados. A vizinhança veio para a rua assistir ao
trabalho e parecia rir de mim. Já tinha falado a um pintor da Rua da
Assembléia; não ajustei o preço porque ele queria ver primeiro a obra. Ontem, à
tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V. Exª o que me mandou dizer o pintor? Que a
tábua está velha, e precisa outra; a madeira não agüenta tinta. Lá fui às
carreiras. Não pude convencê-lo de pintar na mesma madeira; mostrou-me que
estava rachada e comida de bichos. Pois cá de baixo não se via. Teimei que
pintasse assim mesmo, respondeu-me que era artista e não faria obra que se
estragasse logo.
— Pois reforme tudo. Pintura
nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da nossa
vida.
— A outra também durava; bastava
só avivar as letras.
Era tarde, a ordem fora
expedida, a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintado o fundo
para então se desenhar e pintar o título. Custódio não disse que o artista lhe
perguntara pela cor das letras, se vermelha, se amarela, se verde em cima de
branco ou vice-versa, e que ele, cautelosamente, indagara do preço de cada cor
para escolher as mais baratas. Não interessa saber quais foram.
Quaisquer que fossem as cores,
eram tintas novas, tábuas novas, uma reforma que ele, mais por economia que por
afeição, não quisera fazer; mas a afeição valia muito. Agora que ia trocar de
tabuleta sentia perder algo do corpo, — coisa que outros do mesmo ou diverso
ramo de negócio não compreenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer
crescer com elas a nomeada. São naturezas. Aires ia pensando em escrever uma
Filosofia das Tabuletas, na qual poria tais e outras observações, mas nunca deu
começo à obra.
— V. Exª há de me perdoar o
incômodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V. Exª é sempre tão bom comigo,
fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?
— Sim, homem de Deus.
— Conquanto V. Exª aprove a
reforma da tabuleta, sentirá comigo a separação da outra, a minha amiga velha,
que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminárias, por S. Sebastião e
outras, fazia aparecer aos olhos da gente. V. Exª, quando se aposentou, veio
achá-la no mesmo lugar em que a deixou por ocasião de ser nomeado. E tive alma
para me separar dela!
— Está bom, lá vai; agora é
receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.
Custódio saiu recuando, como era
o seu costume, e desceu trôpego as escadas. Diante da confeitaria deteve-se um
instante, para ver o lugar onde estivera a tabuleta velha. Deveras, tinha
saudades.
CAPÍTULO L / O TINTEIRO DE EVARISTO
— ...Este caso prova que tudo se
pode amar muito bem, ainda um pedaço de madeira velha. Creiam que não era só a
despesa que ele naturalmente sentia, eram também saudades. Ninguém se despega
assim de um objeto tão íntimo, que faz parte integral da casa e da pele, porque
a tabuleta não foi sequer arriada um dia. Custódio não teve ocasião de ver se
estava estragada. Vivia ali como as portadas e a parede.
Era ao jantar, em Botafogo. Só
quatro pessoas, as duas irmãs, Santos e Aires. Pedro fora jantar a S. Clemente,
com a família Batista.
D. Perpétua aprovou os
sentimentos do confeiteiro. Citou, a propósito, o tinteiro de Evaristo. A irmã
sorriu para o marido, e este para a mulher, como se dissessem: "Lá vem
ele!" Era um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado
e da Regência, obra simples, feita de barro, igual aos tinteiros que a gente
chã comprava nas lojas de papel daquele e deste tempo. O sogro de D. Perpétua,
que lho dera em lembrança, tivera um da mesma idade, massa e feição.
— Veio assim de mão em mão parar
às minhas. Não chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que são
luxuosos, mas tem grande valor para mim.
— Sem dúvida, concordou Aires,
valor histórico e político.
— Meu sogro dizia que dele
saíram os grandes artigos da Aurora. A falar verdade, eu nunca li tais
artigos, mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por
ouvi-la a outros, e fazia-lhe louvores que não acabavam mais...
Natividade buscou desviar a
conversação para o baile da véspera. Tinham já falado dele, mas não achou outro
derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. Não era só uma das
lembranças de D. Perpétua, relíquia de família, era também uma de suas idéias.
Prometeu mostrá-lo ao conselheiro. Ele prometeu vê-lo com muito gosto.
Confessou que tinha veneração aos objetos de uso dos grandes homens. Enfim, o
jantar acabou, e eles passaram ao salão. Aires, falando da enseada:
— Aqui está uma obra, que é mais
velha que o tinteiro do Evaristo e a tabuleta do Custódio, e, não obstante,
parece mais moça, não é verdade, D. Perpétua? A noite é clara e quente; podia
ser escura e fria, e o efeito seria o mesmo. A enseada não difere de si. Talvez
os homens venham algum dia a atulhá-la de terra e pedras para levantar casas em
cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de cavalos. Tudo
é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morreremos
antes.
— Não fale em morte,
conselheiro.
— A morte é uma hipótese,
redargüiu Aires, talvez uma lenda. Ninguém morre de uma boa digestão, e os seus
charutos são deliciosos.
— Estes são novos. Parecem-lhe
bons?
— Deliciosos.
Santos estimou ouvir este
louvor; achava-lhe uma intenção direta à sua pessoa, aos seus méritos, ao seu
nome, à posição que tinha na sociedade, à casa, à chácara, ao banco, aos
coletes. É talvez muito; seria um modo enfático de explicar a força da ligação
dele aos charutos. Valiam pela tabuleta e pelo tinteiro, com a diferença que
estes significavam só afeição e veneração, e aqueles, valendo pelo sabor e pelo
preço, tinham a superioridade do milagre, pela reprodução de todos os dias.
Tais eram as suspeitas que
vagavam no cérebro de Aires, enquanto ele olhava mansamente para o anfitrião.
Aires não podia negar a si mesmo a aversão que este lhe inspirava. Não lhe
queria mal, de certo; podia até querer-lhe bem, se houvesse um muro entre
ambos. Era a pessoa, eram as sensações, os dizeres, os gestos, o riso, a alma
toda que lhe fazia mal.
CAPÍTULO LI / AQUI PRESENTE
Perto das nove horas, ou logo
depois, chegou Pedro com o casal Batista e Flora.
— Vimos trazer o seu menino,
disse Batista a Natividade.
— Obrigado, doutor, acudiu
Santos, mas ele já não está em idade de se perder por essas ruas, e, se perder,
acha-se logo, acrescentou sorrindo.
Natividade não gostou da graça,
tratando-se do filho e ao pé dela. Era talvez excesso de pudor. Há muito
excesso nesse sentido, e o acertado é perdoá-lo. Há também excessos contrários,
condescendências fáceis, pessoas que entram com prazer na troca de alusões
picantes. Também se devem perdoar. Em suma, o perdão chega ao Céu. Perdoai-vos
uns aos outros, é a lei do Evangelho.
Ele, o rapaz, é que não ouvia
nada; interrompeu a conversa que trazia com Flora, e trocadas algumas palavras,
os dois foram reatar o fio a um canto. Aires reparou na atitude de ambos;
ninguém mais lhes prestava atenção. Ao cabo, a conversa era em voz surda; não
os poderiam ouvir. Ela escutava, ele falava; depois era o contrário, ela é que
falava, ele é que ouvia, tão absortos que pareciam não atender a ninguém, mas
atendiam. Possuíam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. Que
conversassem de amores, é possível; mas que conspiravam, é certo. Quanto à
matéria da conspiração, podereis sabê-la, depois, brevemente, daqui a um
capítulo. O próprio Aires não descobriu nada, por mais que quisesse fartar os
olhos naquele diálogo de mistérios. Persuadiu-se que não era grave, porque eles
sorriam com freqüência; mas podia ser íntimo, escondido, pessoal e acaso estranho.
Supõe um fio de anedotas ou uma história comprida, coisa alheia; ainda assim
podia ser deles somente, porque há estados da alma em que a matéria da narração
é nada, o gosto de a fazer e de a ouvir é que é tudo. Também podia ser isto.
Vede, porém, como a natureza
encaminha as coisas mínimas ou máximas, mormente se a fortuna a ajuda. A
conversação tão doce, ao que parecia, começou por um enfado. A causa foi uma
carta de Paulo, escrita ao irmão, e que este se lembrou de mostrar a Flora,
dizendo-lhe que também a mostrara à mãe, e a mãe se zangara muito.
— Com o senhor?
— Com Paulo.
— Mas que dizia a carta?
Pedro leu-lhe o ponto principal,
que era quase toda a carta; falava da questão militar. Já havia a "questão
militar", um conflito de generais e ministros, e a linguagem de Paulo era
contra os ministros.
— Mas por que é que o senhor foi
mostrar essa carta a sua mãe?
— Mamãe quis saber o que é que
ele me dizia.
— E sua mãe zangou-se, aí está;
vai talvez repreendê-lo.
—Tanto melhor; Paulo precisa ser
emendado; mas, diga-me, por que é que a senhora defende sempre a meu irmão?
— Para ter o direito de defender
também ao senhor.
— Então ele já lhe tem falado
mal de mim?
Flora quis dizer que sim, depois
que não, afinal calou. Desconversou, perguntando por que eles se davam mal.
Pedro negou que se dessem mal. Ao contrário, viviam bem. Não teriam as mesmas
opiniões, e também podia ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que
ambos a amavam era uma vírgula; Pedro pintou o ponto final. Esse astuto era
também tímido. Mais tarde, compreendeu que, calando, andou melhor, e deu a si
mesmo o aplauso da escolha; mas era falso, não escolhera nada. Não digo isto
para fazê-lo desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e é mister
deixar aqui esta reflexão.
Veio a zanga. Flora não replicou
mais nada, e, por seu gosto, não teria jantado, a tal ponto sentia piedade do
outro. Felizmente, o outro era este mesmo, aqui presente, com os olhos
presentes, as mãos presentes, as palavras presentes. Não tardou que a zanga
fugisse diante da graça, da brandura e da adoração. Bem-aventurados os que
ficam, porque eles serão compensados.
CAPÍTULO LII / UM SEGREDO
Eis agora a matéria da
conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor
do tempo com a carta e o jantar, pôde revelar à moça um segredo:
— Titia disse lá em casa que D.
Cláudia lhe contara em segredo (não diga nada) que seu pai vai ser nomeado
presidente de província.
— Não sei nada disso, mas não
creio, porque papai é conservador.
— D. Cláudia disse a titia que
ele é liberal, quase radical. Parece que a presidência é certa; ela pediu
segredo, e titia, quando nos contou, também pediu segredo. Eu também lhe peço
que não diga nada, mas é verdade.
— Verdade como? Papai não vai
com liberais; o senhor não sabe como papai é conservador. Se ele defende os
liberais é porque é tolerante.
— Se a província fosse a do Rio
de Janeiro, eu gostaria, porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se
ele fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá todos os dias.
— Era capaz?
— Apostemos.
Flora, depois de um instante:
— Para que, se não há
presidência?
— Suponha que há.
— É preciso supor muito, — que
há presidência e que a província é a do Rio. Não, não há nada.
— Então suponha só metade, — que
há presidência e que é Mato Grosso.
Flora teve um calefrio. Sem
admitir a nomeação, tremeu ao nome da província. Pedro lembrou ainda o
Amazonas, Pará, Piauí... Era o infinito, mormente se o pai fizesse boa
administração, porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos,
achava possível e abominável, mas dizia isto para si, dentro do coração. De
repente, Pedro, quase estacando o passo:
— Se ele for, eu peço ao governo
o lugar de secretário e vou também.
A luz intermitente das lojas
refletindo no rosto da moça, à medida que eles iam passando por elas, ajudava a
dos lampiões da rua, e mostrava a emoção daquela promessa. Sentia-se que o
coração de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ela a pensar
em outra coisa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... Não
podia ser. Pensou em algum escândalo. Que ele fugisse, embarcasse, fosse atrás
dela...
Tudo isto era visto ou pensado
em silêncio. Flora não se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era
como o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não
calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer idéias. Que isto
lhe desse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé dela, Pedro ia naturalmente
cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não sabia que dissesse no
meio de tão longo silêncio. Entretanto, a solução parecia-lhe única. Já não
pensava na presidência do Rio. Queria-se com ela, no ponto mais remoto do
império, sem o irmão. A esperança de se desterrarem assim de Paulo verdejou na
alma de Pedro. Sim, Paulo não iria também, a mãe não se deixaria ficar
desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...
A quem quer que este final de
monólogo pareça egoísta, peço-lhe pelas almas dos seus parentes e amigos, que
estão no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma
do rapaz, a contiguidade da moça, as raízes e as flores da paixão, a própria
idade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere tudo, idade de
Pedro, o mal da Terra, o bem da mesma Terra. Considere mais a vontade do Céu,
que vela por todas as criaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a
outra, porque então o Céu é um abismo de iniqüidades, e não lhe importe esta
imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se
passou naquele curto trânsito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam
de boca.
Em cima, como viste, continuaram
a falar, até que o assunto da presidência voltou. Flora notou então a cautelosa
insistência com que Aires olhava para eles, como se buscasse adivinhar a
matéria da conversação. Sentia que não estivesse ali também, ouvindo e falando,
finalmente prometendo fazer alguma coisa por ela. Aires podia, sim, — era seu
amigo e todos o tinham em grande conta, — podia intervir e destruir o projeto
da presidência.
Sem querer nem saber, diria isto
mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas eles iam de si mesmos
repetir o monólogo, e acaso perguntar alguma coisa que Aires não percebia e
devia ser interessante. Pode ser que refletissem a angústia ou o que quer que
era que lhe doía dentro. Pode ser; a verdade é que Aires começou a ficar
curioso, e tão depressa Pedro deixou o lugar para acudir ao chamado da mãe,
deixou ele Natividade para ir falar à moça.
Flora, já de pé, mal teve tempo
de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dor ou
prurido, ao menos. Aires perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia
adivinhar.
— Não, senhor.
— Pois sei; adivinhei agora mesmo
que me quer dizer um segredo.
Flora ficou espantada. Não
querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhara metade.
— A outra é?...
— A outra é pedir-lhe um
obséquio de amizade.
— Peça.
— Não, agora não, já nos vamos
embora; mamãe e papai estão fazendo as despedidas. Só se for na rua. Quer vir
conosco a S. Clemente?
— Com o maior prazer.
CAPÍTULO LIII / DE CONFIDÊNCIAS
Entenda-se que não. Não era com
prazer maior nem menor. Era imposição de sociedade, desde que Flora o pedira,
não sei se discretamente. Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum
segredo, não serei eu que o negue, nem tu, nem ele mesmo. Ao cabo de alguns
instantes, Aires ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas,
falhadas ou não nascidas, vozes de pai. Os gêmeos não lhe deram um dia a mesma
sensação, senão porque eram filhos de Natividade. Aqui não era a mãe, era a
mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e porventura a sua fatalidade.
— Mas quer-me parecer que desta
vez ela está presa; escolheu enfim, pensou Aires.
Flora falou-lhe da presidência,
mas não lhe pediu segredo, como as outras pessoas; confessou-lhe que não queria
ir daqui, fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mãos
deles. Só ele podia despersuadir o pai de aceitar a presidência. Aires achou
tão absurdo este pedido que esteve quase a rir, mas susteve-se bem. A palavra
de Flora era grave e triste. Aires respondeu, com brandura, que não podia nada.
— Pode muito, todos atendem ao
seus conselhos.
— Mas eu não dou conselhos a
ninguém, acudiu Aires. Conselheiro é um título que o imperador me conferiu, por
achar que o merecia, mas não obriga a dar conselhos; a ele mesmo só lhos darei,
se mos pedir. Imagine agora se eu vou à casa de um homem ou mando chamá-lo à
minha para lhe dizer que não seja presidente de província. Que razão lhe daria?
Não tinha razões a moça; tinha
necessidade. Apelou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razão boa.
Nem se precisavam razões, bastava o falar dele, a arte que Deus lhe dera de
agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quisesse.
Aires viu que ela exagerava para o atrair, e não lhe pareceu mal. Não obstante,
contestou tais méritos e virtudes. Deus não lhe dera arte nenhuma, disse ele, mas
a moça ia sempre afirmando, em tal maneira que Aires suspendeu a contestação, e
fez uma promessa.
— Vou pensar; amanhã ou depois,
se achar algum recurso, tentarei o negócio.
Era um paliativo. Era também um
modo de fazer cessar a conversação, estando a casa próxima. Não contava com o
pai de Flora, que à fina força lhe quis mostrar, àquela hora, uma novidade,
aliás uma velharia, um documento de valor diplomático. "Venha, suba, cinco
minutos apenas, conselheiro."
Aires suspirou em segredo, e
curvou a cabeça ao Destino. Não se luta contra ele, dirás tu; o melhor é deixar
que pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou
despenhar-nos. Batista nem lhe deu tempo de refletir; era todo desculpas.
— Cinco minutos e está livre de
mim, mas verá que lhe pago o sacrifício.
O gabinete era pequeno; poucos
livros e bons, os móveis graves, um retrato de Batista com a farda de
presidente, um almanaque sobre a mesa, um mapa na parede, algumas lembranças do
governo da província. Enquanto Aires circulava os olhos, Batista foi buscar o
documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento,
que não estava só, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel velho,
amarelo, em partes roído. Era uma carta do Conde de Oeiras, escrita ao ministro
de Portugal na Holanda.
— É o dia das antigüidades,
pensou Aires; a tabuleta, o tinteiro, este autógrafo...
— A carta é importante, mas
longa, disse Batista, não podemos lê-la agora. Quer levá-la?
Não lhe deu tempo de responder;
pegou de uma sobrecarta grande e meteu dentro o manuscrito, com esta nota por
fora: "Ao meu excelentíssimo amigo Conselheiro Aires." Enquanto ele
fazia isto, Aires passava os olhos pela lombada de alguns livros. Entre eles
havia dois Relatórios da presidência de Batista, ricamente encadernados.
— Não me atribua esse luxo,
acudiu o ex-presidente; foi um mimo da secretaria do governo que nunca fez isto
a ninguém. Era um pessoal muito distinto.
E foi à estante e tirou um dos
relatórios para ser melhor visto. Aberto, mostrou a impressão e as vinhetas;
lido, podia mostrar o estilo por um lado, e, por outro, a prosperidade das
finanças. Batista limitou-se aos algarismos totais: despesa, mil duzentos e
noventa e quatro contos, setecentos e noventa mil-réis; receita, mil quinhentos
e quarenta e quatro contos, duzentos e nove mil-réis; saldo, duzentos e
quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil-réis. Verbalmente, explicou
o saldo, que alcançou pela modificação de alguns serviços, e por um pequeno
aumento de impostos. Reduziu a dívida provincial, que achou em trezentos e
oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e cinqüenta contos. Fez obras
novas e consertos importantes; iniciou uma ponte...
— A encadernação corresponde à
matéria, disse Aires para concluir a visita.
Batista fechou o livro, e
redargüiu que já agora não iria sem lhe resolver uma consulta.
— Tudo às avessas, concluiu; eu
de manhã resolvo consultas, agora à noite sou eu que as faço.
Tal foi o intróito, mas do
intróito ao Credo há sempre um passo estirado, e o principal da missa para ele
estava no Credo. Não achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma
pena de ouro, um exemplar do Código Criminal. O Código, posto que velho, valia
por trinta novos, não que tivesse melhor rosto, senão que trazia anotações
manuscritas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado longa parte da vida no
exterior, o conselheiro mal conhecera o autor das notas, mas desde que ouviu
chamar-lhe grande assumiu a expressão adequada. Pegou do código com cuidado,
leu algumas das notas com veneração.
Durante esse tempo, Batista ia
criando fôlego. Compôs uma frase para iniciar a consulta, e só esperava que
Aires fechasse o livro para soltá-la; mas o outro ia demorando o exame do
código. Podia ser uma pontinha de malignidade, mas não era. Os olhos de Aires
tinham uma faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros
a possuirão calados. Vinha a ser que eles não saíam da página, mas em verdade
já lhe prestava menos atenção, o tempo, a gente, a vida, coisas passadas,
surdiam a espiá-lo por detrás do livro com que tinham vivido, e Aires ia
tornando a ver um Rio de Janeiro que não era este, ou apenas o fazia lembrado.
Nem cuides que eram só réus e juízes, era o passeio, a rua, a festa, velhos
patuscos e mortos, rapazes frescos e agora enferrujados como ele. Batista
tossiu. Aires voltou a si e leu alguma das notas que o outro devia trazer de
cor, mas eram tão profundas! Enfim, mirou a encadernação, achou o livro bem
conservado, fechou-o e restituiu-o à biblioteca.
Batista não perdeu um instante,
correu imediato ao assunto, com medo de o ver pegar em outro livro.
— Confesso-lhe que tenho o
temperamento conservador.
— Também eu guardo presentes
antigos.
— Não é isso; refiro-me ao
temperamento político. Verdadeiramente há opiniões e temperamentos. Um homem
pode muito bem ter o temperamento oposto às suas idéias. As minhas idéias, se
as cotejarmos com os programas políticos do mundo, são antes liberais e algumas
libérrimas. O sufrágio universal, por exemplo, é para mim a pedra angular de um
bom regímen representativo. Ao contrário, os liberais pediram e fizeram o voto
censitário. Hoje estou mais adiantado que eles; aceito o que está, por ora, mas
antes do fim do século é preciso rever alguns artigos da Constituição, dois ou
três.
Aires escondia o espanto...
Convidado assim àquela hora... Uma profissão de fé política... Batista insistia
na distinção do temperamento e das idéias. Alguns amigos velhos, que conheciam
esta dualidade moral e mental, é que teimavam em querer que ele aceitasse uma
presidência; ele não queria. Francamente, que lhe parecia ao conselheiro?
— Francamente, acho que não tem
razão.
— Que não tenho razão em quê?
— Em recusar.
— Propriamente, não recusei
nada; há um grande trabalho neste sentido, e o meu desejo, — acrescentou com
mais clareza, — é que os bons amigos sagazes me digam se tal coisa é acertada;
não me parece que seja...
— Eu penso que é.
— De maneira que, se o caso
fosse com o senhor...
— Comigo não podia ser. Sabe que
eu já não sou deste mundo e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia
tem este efeito que separa o funcionário dos partidos e o deixa tão alheio a
eles, que fica impossível de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza.
— Mas não me disse que acha...
— Acho.
— ...Que posso aceitar uma
presidência, se me oferecerem?
— Pode; uma presidência
aceita-se.
— Pois então saiba tudo; é a
única pessoa de sociedade com quem me abro assim francamente. A presidência
foi-me oferecida.
— Aceite, aceite.
— Está aceita.
— Já?
— O decreto assina-se sábado.
— Então aceite também os meus
parabéns.
— Propriamente, a lembrança não
foi do ministério; ao contrário, o ministério não se resolveu antes de saber se
efetivamente fiz uma eleição contra os liberais, há anos; mas logo que soube
que por não os perseguir é que fui demitido, aceitou a indicação de chefes
políticos, e recebi pouco depois este bilhete.
O bilhete estava no bolso,
dentro da carteira. Qualquer outro, alvoroçado com a nomeação próxima, levaria
tempo a achar o bilhete no meio dos papéis; mas Batista possuía o tacto dos
textos. Tirou a carteira, abriu-a descansado e com os dedos sacou o bilhete do
ministro convidando-o a uma conversação. Na conversação ficou tudo assentado.
CAPÍTULO LIV / ENFIM, SÓ!
Enfim, só! Quando Aires se achou
na rua, só, livre, solto, entregue a si mesmo, sem grilhões nem considerações,
respirou largo. Fez um monólogo, que daí a pouco interrompeu por se lembrar de
Flora. Tudo o que ela não quisera ia acontecer; lá ia o pai a uma presidência,
e ela com ele, e a recente inclinação ao jovem Pedro vinha parar a meio
caminho. Entretanto, não se arrependia do que dissera e ainda menos do que não
dissera. Os dados estavam lançados. Agora era cuidar de outra coisa.
CAPÍTULO LV / "A MULHER É A
DESOLAÇÃO DO HOMEM"
Ao desperdir-se, fez Aires uma
reflexão, que ponho aqui, para o caso de que algum leitor a tenho feito também.
A reflexão foi obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem tão
difícil em ceder às instigações da esposa (Vai-te, Satanás, etc.; capítulo
XLVII) deitou tão facilmente o hábito às urtigas. Não achou explicação nem a
acharia, se não soubesse o que lhe disseram mais tarde, que os primeiros passos
da conversão do homem foram dados pela mulher. "A mulher é a desolação do
homem", dizia não sei que filósofo socialista, creio que Proudhon. Foi
ela, a viúva da presidência, que por meios vários e secretos, tramou passar a
segundas núpcias. Quando ele soube do namoro, já os banhos estavam corridos;
não havia mais que consentir e casar também.
Ainda assim, custou-lhe muito. O
clamor dos seus aturdia-lhe de antemão os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a
esposa servia-lhe de guia e amparo, e, com poucas horas, Batista viu claro e
ficou firme.
— Estamos à porta do terceiro
reinado, ponderou D. Cláudia, e certamente o Partido Liberal não deixa tão cedo
o poder. Os seus homens são válidos, a inclinação dos tempos é para o
liberalismo, e você mesmo...
— Sim, eu... suspirou Batista.
D. Cláudia não suspirou, cantou
vitória; a reticência do marido era a primeira figura de aquiescência. Não lhe
disse isto assim, nu e cru; também não revelou alegria descomposta; falou
sempre a linguagem da razão fria e da vontade certa. Batista, sentindo-se apoiado,
caminhou para o abismo e deu o salto nas trevas. Não o fez sem graça, nem com
ela. Posto que a vontade que trazia fosse de empréstimo, não lhe faltava desejo
a que a vontade da esposa deu vida e alma. Daí a autoria de que se investiu e
acabou confessando.
Tal foi a conclusão de Aires,
segundo se lê no Memorial. Tal será a do leitor, se gosta de concluir.
Note que aqui lhe poupei o trabalho de Aires; não o obriguei a achar por si o
que, de outras vezes, é obrigado a fazer. O leitor atento, verdadeiramente
ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os
atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar
escondida.
CAPÍTULO LVI / O GOLPE
O dia seguinte trouxe à menina
Flora a grande novidade. Sábado seria assinado o decreto, a presidência era no
Norte. D. Cláudia não lhe viu a palidez, nem sentiu as mãos frias, continuou a
falar do caso e do futuro, até que Flora, querendo sentar-se, quase caiu. A mãe
acudiu-lhe:
— Que é? Que tens?
— Nada mamãe, não é nada.
A mãe fê-la sentar-se.
— Foi uma tonteira, passou.
D. Cláudia deu-lhe a cheirar um
pouco de vinagre, esfregou-lhe os pulsos; Flora sorriu.
— Este sábado? perguntou.
— O decreto? Sim, este sábado.
Mas não digas por ora a ninguém; são segredos de gabinete. É coisa certa;
enfim, alguém nos fez justiça; provavelmente o imperador. Amanhã irás comigo a
algumas encomendas. Fazer uma lista do que precisas.
Flora precisava não ir e só
pensava nisso. Uma vez que o decreto estava prestes a ser assinado, não havia
já desaconselhar a nomeação; restava-lhe a ela ficar. Mas como? Todos os sonhos
são próprios ao sono de uma criança. Não era fácil, mas não seria impossível.
Flora cria tudo; não tirava o pensamento de Aires, e já agora de Natividade
também. Os dois podiam fazê-lo, ou antes os três, se contardes também o barão,
e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco estrelas do
Cruzeiro, as nove musas, anjos e arcanjos, virgens e mártires... Juntai-os
todos, e todos poderiam fazer esta simples ação de impedir que Flora fosse para
a província. Tais eram as esperanças vagas, rápidas, que corriam a substituir
as tristezas do rosto da moça, enquanto a mãe, atribuindo o efeito ao vinagre,
ajustava a rolha de vidro ao frasco, e restituía o frasco ao toucador.
— Faze uma lista do que
precisas, repetiu à filha.
— Não, mamãe, eu não preciso
nada.
— Precisas, sim, eu sei o que
precisas.
CAPÍTULO LVII / DAS ENCOMENDAS
Não escreveria este capítulo, se
ele fosse propriamente das encomendas, mas não é. Tudo são instrumentos nas
mãos da Vida. As duas saíram de casa, uma lépida, a outra melancólica, e lá
foram a escolher uma quantidade de objetos de viagem e de uso pessoal. D.
Cláudia pensava nos vestidos da primeira recepção e de visitas; também ideou o
do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os
chapéus, entretanto, foram o principal artigo da lista. Ao parecer de D.
Cláudia, o chapéu da mulher é que dava a nota verdadeira do gosto, das maneiras
e da cultura de uma sociedade. Não valia a pena aceitar uma presidência para
levar chapéus sem graça, dizia ela sem convicção, porque intimamente pensava
que a presidência dá graça a tudo.
Estavam justamente na loja de
chapéus, Rua do Ouvidor, sentadas, os olhos fora e longe, quando a verdadeira
matéria deste capítulo apareceu. Era o gêmeo Paulo, que chegara pelo trem
noturno, e sabendo que elas andavam a compras, viera procurá-las.
— O senhor! exclamaram.
— Cheguei esta manhã.
Flora tinha-se levantado, com o
alvoroço que lhe deu a vista inesperada de Paulo. Ele correu a elas,
apertou-lhes as mãos, indagou da saúde e reconheceu que pareciam vender saúde e
alegria. A impressão era exata; Flora tinha agora uma agitação, que contrastava
com o abatimento daquela triste manhã, e um riso que a fazia alegre.
— Tive sempre notícias das
senhoras, que mamãe me dava, e Pedro também, às vezes. Da senhora, continuou
ele falando a D. Cláudia, recebi duas cartas. Como vai o doutor?
— Bem.
— Ora, enfim, cá estou!
E Paulo dividia os olhos com as
duas, mas a melhor parte ia naturalmente para a filha. Pouco depois era todo e
pouco para esta. D. Cláudia voltara à escolha dos chapéus, e Flora, que até
então opinava de cabeça, perdeu este último gesto. Paulo sentou-se na cadeira
que um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moça; falavam de coisas
mínimas, alheias ou próprias, tudo o que bastasse para os reter disfarçadamente
na contemplação um do outro. Paulo viera o mesmo que fora, o mesmo que Pedro,
sempre com alguma nota particular, que ela não podia achar claramente, menos
ainda definir. Era um mistério, Pedro teria o seu.
D. Cláudia interrompia-os, de
vez em quando, a propósito da escolha; mas, tudo acaba, até a escolha de chapéus.
Foram dali aos vestidos. Paulo, não sabendo da presidência, estimou esta
casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava anedotas de S. Paulo,
sem grande interesse para Flora; as notícias que ela lhe dava acerca das
amigas, eram mais ou menos dispensáveis. Tudo valia pelos dois interlocutores.
A rua ajudava aquela absorção recíproca; as pessoas que iam ou vinham, damas ou
cavalheiros, parassem ou não, serviam de ponto de partida a alguma digressão.
As digressões entraram a dar as mãos ao silêncio, e os dois seguiam com os
olhos espraiados e a cabeça alta, ele mais que ela, porque uma pontinha de
melancolia começava a espancar do rosto da moça a alegria da hora recente.
Na Rua Gonçalves Dias, indo para
o Largo da Carioca, Paulo viu dois ou três políticos de S. Paulo, republicanos,
parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem
advertir que a última vez que os vira ia já a alguma distância.
— Conhecem? perguntou às duas.
Não, não os conheciam. Paulo
disse-lhes os nomes. A mãe talvez fizesse alguma pergunta política, mas deu por
falta de um objeto, advertiu que o não comprara, e propôs voltarem atrás. Tudo
era aceito por ambos, com docilidade, apesar do véu de tristeza, que se ia
cerrando mais no rosto da moça. Aquelas encomendas tinham já um ar de bilhetes
de passagem, não tardava o paquete, iam correr às malas, aos arranjos, às
despedidas, ao camarote de bordo, ao enjôo de mar, e àquele outro de mar e
terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Daí o silêncio crescente, que
Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e contudo ela estava bem com ele,
gostava de lhe ouvir dizer coisas soltas, algumas novas, outras velhas,
recordações anteriores à partida daqui para S. Paulo.
Assim se deixaram ir, guiados
por D. Cláudia, quase esquecida deles. No meio daquela conversação truncada,
mais entretida por ele que por ela, Paulo sentia ímpetos de lhe perguntar, ao
ouvido, na rua, se pensara nele, ou, ao menos, sonhara com ele algumas noites.
Ouvindo que não, daria expansão à cólera, dizendo-lhe os últimos impropérios;
se ela corresse, correria também, até pegá-la pelas fitas do chapéu ou pela
manga do vestido, e, em vez de a esganar, dançaria com ela uma valsa de Strauss
ou uma polca de ***. Logo depois, ria destes delírios, porque, a despeito da
melancolia da moça, os olhos que ela erguia para ele eram de quem sonhou e
pensou muito na pessoa, e agora cuida de descobrir se é a mesma do sonho e do
pensamento. Assim lhe parecia ao estudante de Direito; pelo que, quando ele desviava
o rosto, era para repetir a experiência e tornar a ver-lhe os olhos aguçados do
mesmo espírito crítico e de livre exame. Quanto ao tempo que os três gastaram
nessa agitação de compras e escolhas, visões e comparações, não há memória,
dele, nem necessidade. Tempo é propriamente ofício de relógio, e nenhum deles
consultou o relógio que trazia.
CAPÍTULO LVIII / MATAR SAUDADES
Ora bem, acabas de ver como
Flora recebeu o irmão de Pedro, tal qual recebia o irmão de Paulo. Ambos eram
apóstolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns meses antes, e disse-lho
nessa mesma tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:
— A senhora enfeitou muito.
Flora julgava a mesma coisa,
relativamente ao estudante de Direito; calou a impressão. Ou a tristeza que
trazia, ou qualquer outro sensação particular, fê-la acanhada, a princípio. Não
tardou, porém, que achasse outra vez o gêmeo no gêmeo, e que ele e ela matassem
saudades.
Como é que se matam saudades não
é coisa que se explique de um modo claro. Ele não há ferro nem fogo, corda nem
veneno, e todavia as saudades expiram, para a ressurreição, alguma vez antes do
terceiro dia. Há quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse
ponto, no nosso caso, não pode ser ventilado, nem eu quero desenvolvê-lo, como
aliás cumpria.
As saudades morreram, não todas,
nem logo, logo, mas em parte e tão vagarosamente que Paulo aceitou o convite de
lá jantar. Era o dia da chegada; Natividade quisera tê-lo consigo à mesa, ao pé
de Pedro, para cimentar a pacificação começada pela distância. Paulo nem se deu
ao trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bela criatura, entre o pai e a
mãe que pensava em outra coisa, próxima no tempo e remota no espaço. Sabendo o
que era, Flora passava do prazer ao tédio, e Paulo não entendia essa alternação
de sentimentos. De quando em quando, vendo a mãe agitada e preocupada, mas com
outra expressão, Paulo interrogava a filha. Em vez de dar uma explicação
qualquer, Flora passou uma vez a mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem
os descobrir. A ação do estudante de Direito, devia ser arredar-lhe a mão,
encará-la de perto, mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um
modo em que a eloqüência do gesto dispensasse a fala. Se tal idéia teve, não
saiu cá fora. Nem ela lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:
— Que é que tem?
— Nada, respondeu Flora.
— Tem alguma coisa, insistiu ele
querendo pegar-lhe na mão.
Não acabou o gesto, não o
começou sequer; abriu e fechou os dedos apenas, enquanto ela sorria para sacudir
tristezas, e deixou-se estar a matar saudades.
CAPÍTULO LIX / NOITE DE 14
Tudo se explicou à noite, em
casa da família Santos. O ex-presidente de província confessou as esperanças de
uma investidura nova; a esposa afirmou a eminência do ato. Daí a publicidade da
notícia, que pouco antes D. Cláudia só dizia em segredo. Já não havia segredos
que calar.
Paulo soube então tudo, e Pedro,
que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente
sentiram a separação próxima. A dor os fez amigos por instantes; é uma das
vantagens dessa grande e nobre sensação. Já me não lembra quem afirmava, ao
contrário, que um ódio comum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas
não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a outra,
e ambas podem ser verdadeiras.
Demais, a dor não era ainda o
desespero. Havia até uma consolação para os dois gêmeos; é que a moça ficaria
longe de ambos. Nenhum deles teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal
que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez
indispensável, alguma vez delicioso. Os dois quiseram falar à amiguinha, em
particular, para sondá-la acerca daquela separação, já agora certa, mas nenhum
conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre
juntos, e de coisas familiares e ordinárias. O gesto de Flora não traduzia o
estado da alma; este podia ser lépido, melancólico, ou indiferente, não vinha
cá fora. Em verdade, ela falava pouco. Os olhos também não diziam muito. Mais
de uma vez, Pedro deu com ela fitando Paulo, e gemeu com a preferência, mas
também ele era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia
os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue à sua recepção, que era a
última do ano, não acompanhou de perto as agitações morais daquele trio. Quando
deu por elas, chegou a senti-las também.
Pouco a pouco, a gente se foi
dispersando. Não era muita, e dominava a nota íntima. Quando a maioria saiu,
ficou só a porção mais íntima, três ou quatro homens a um canto da sala,
falando e rindo de ditos e anedotas. Não conversavam de política, e aliás não
faltaria matéria. As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as
impressões do grande baile recente. Também falavam de músicas e teatros, das festas
próximas de Petrópolis, da gente que ia naquele ano, e da que só iria em
Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar alguns
instantes com Aires, confiara-lhe o seu receio acerca do amor dos filhos, e ao
mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma longa separação de
Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.
— É uma felicidade que o Batista
seja nomeado e leve a filha daqui, disse ela.
— Certamente, mas...
— Mas quê?
— Certamente a levará, mas a senhora
pode não conhecer bem aquela menina.
— Penso que é boa.
— Também eu penso assim. A
bondade, porém, não tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe disse
há tempos, uma inexplicável. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da
minha impressão, depois lhe direi. Note que gosto muito dela; acho-lhe um sabor
particular naquele contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fora do
mundo, tão etérea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recôndita...
Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu ele,
estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explicá-las.
— Explique-as agora, enquanto os
outros parecem rir de algum dito engraçado.
Efetivamente, os homens riam de
algum dito ou trocadilho; Aires quis falar, mas reteve a língua, e
desculpou-se. A explicação era longa e difícil, e não era urgente, disse ele.
— Eu mesmo não sei se me
entendo, baronesa, nem se penso a verdade; pode ser. Em todo caso, minha boa
amiga, até amanhã ou até Petrópolis. Quando espera subir?
— Lá para o fim do ano.
— Então ainda nos veremos
algumas vezes.
— Sim, e se me não vir a mim,
quero que veja os meus rapazes, que os receba e estime. Eles o têm em grande
conta; não lhe fazem senão justiça. Pedro acha que o senhor é o espírito mais
fino, e Paulo o mais rijo da nossa terra...
— Veja como a senhora os educa,
ensinando-lhes a pensar errado, disse Aires sorrindo e fazendo um gesto de
agradecimento. Eu rijo?
— O mais rijo e o mais fino.
Os últimos habituados da casa
vieram dar boa noite à dona. Dez minutos depois, Aires despedia-se do casal
Santos.
A noite era clara e tranqüila.
Aires recompôs uma parte do serão para escrevê-la no Memorial. Poucas
linhas, mas interessantes, nas quais Flora era a principal figura:
"Que o Diabo a entenda, se
puder, eu, que sou menos que ele, não acerto de a entender nunca. Ontem parecia
querer a um, hoje quis ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos.
Encontrei outrora desses sentimentos alternos e simultâneos; eu mesmo fui uma e
outra coisa, e sempre me entendi a mim. Mas aquela menina e moça... A condição
dos gêmeos explicará esta inclinação dupla; pode ser também que alguma
qualidade falte a um que sobre a outro, e vice-versa, e ela, pelo gosto de ambas,
não acha de escolher de vez. É fantástico, sei; menos fantástico é se eles,
destinados à inimizade, acharem nesta mesma criatura um campo estreito de ódio,
mas isto os explicaria a eles, não a ela... seja o que for a nossa organização
política é útil; a presidência de província, arredando Flora daqui, por algum
tempo, tira esta moça da situação em que se acha como a asna de Buridan. Quando
voltar, a água estará bebida e a cevada comida, um decreto ajudará a
natureza."
Isto feito, Aires meteu-se na
cama, rezou uma ode do seu Horácio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu.
Tentou então uma página do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente
os olhos, até que dormiu. Pouco foi; às cinco horas e quarenta minutos estava
de pé. Em novembro, sabes que é dia.
CAPÍTULO LX / MANHÃ DE 15
Quando lhe acontecia o que ficou
contado, era costume de Aires sair cedo, a espairecer. Nem sempre acertava.
Desta vez foi ao Passeio Público. Chegou às sete horas e meia, entrou, subiu ao
terraço e olhou para o mar. O mar estava crespo. Aires começou a passear ao
longo do terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se à borda, de quando em quando,
para vê-las bater e recuar. Gostava delas assim; achava-lhes uma espécie de
alma forte, que as movia para meter medo à terra. A água, enroscando-se em si
mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de pessoa também, a que não
faltavam nervos nem músculos, nem a voz que bradava as suas cóleras.
Enfim, cansou e desceu, foi-se
ao lago, ao arvoredo, e passeou à toa, revivendo homens e coisas, até que se
sentou em um banco. Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada,
como de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma
noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando
na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos.
Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministério,
etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para ele a ver se lhe espertavam
a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha às notícias. Não juro que assim
fosse, porque o dia vai longe, e as pessoas não eram conhecidas. O próprio
Aires, se tal coisa suspeitou, não a disse a ninguém; também não afiou o ouvido
para alcançar o resto. Ao contrário, lembrando-lhe algo particular, escreveu a
lápis uma nota na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem,
não sem algum epíteto de louvor, uns ao governo, outros ao exército: podia ser
amigo de um ou de outro.
Quando Aires saiu do Passeio
Público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o Largo da Carioca. Poucas
palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam
caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa. Na Rua do Ouvidor, soube que
os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das
pessoas, e notícias desencontradas. Voltou ao largo, onde três tílburis o
disputaram; ele entrou no que lhe ficou mais à mão, e mandou tocar para o
Catete. Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto. Falou
de uma revolução, de dois ministros mortos, um fugido, os demais presos. O
imperador, capturado em Petrópolis, vinha descendo a serra.
Aires olhava para o cocheiro,
cuja palavra saía deliciosa de novidade. Não lhe era desconhecida esta
criatura. Já a vira, sem o tílburi, na rua ou na sala, à missa ou a bordo, nem
sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda ou de chita. Quis saber mais,
mostrou-se interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o
que dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da Rua dos
Inválidos e levara ao Largo da Glória, por sinal que estava assombrado, não
podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o dobro; e pagou.
— Talvez fosse algum implicado
no barulho, sugeriu Aires.
— Também pode ser, porque ele
levava o chapéu derrubado, e a princípio pensei que tinha sangue nos dedos, mas
reparei e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas,
pensando bem, creio que era sangue; barro não tem aquela cor. A verdade é que
ele pagou o dobro da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a
gente corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...
Chegavam justamente à porta de
Aires; este mandou parar o veículo, pagou pela tabela e desceu. Subindo a escada,
ia naturalmente pensando nos acontecimentos possíveis. No alto achou o criado
que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...
— O que é que não é certo, José?
É mais que certo.
— Que mataram três ministros?
— Não; há só um ferido.
— Eu ouvi que mais gente também,
falaram em dez mortos...
— A morte é um fenômeno igual à
vida; talvez os mortos vivam. Em todo caso, não lhes rezes por almas, porque
não és bom católico, José.
CAPÍTULO LXI / LENDO XENOFONTE
Como é que, tendo ouvido falar
da morte de dois e três ministros, Aires afirmou apenas o ferimento de um, ao
retificar a notícia do criado? Só se pode explicar de dois modos, — ou por um
nobre sentimento de piedade, ou pela opinião de que toda a notícia pública
cresce de dois terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do
ferimento era a única verdadeira. Pouco depois passava pela Rua do Catete a
padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e
sãos e o imperador era esperado de Petrópolis, não acreditou na mudança de
regímen que ouvira ao cocheiro de tílburi e ao criado José. Reduziu tudo a um
movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
— Temos gabinete novo, disse
consigo.
Almoçou tranqüilo, lendo
Xenofonte: "Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas
por cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e
oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao
poder uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e
felizes..." Sabes a conclusão do autor, em prol da tese de que o homem é
difícil de governar; mas logo depois a pessoa de Ciro destrói aquela conclusão,
mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quais não só o temiam, mas
ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto em grego, e com tal pausa
que ele chegou ao fim do almoço, sem chegar ao fim do primeiro capítulo.
CAPÍTULO LXII / "ARE NO
D."
— Mas, S. Exª está almoçando,
dizia o criado no patamar da escada a alguém que pedia para falar ao
conselheiro.
Era falso, Aires acabava
justamente de almoçar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o
charuto depois do almoço, sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu o
diálogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.
— Não pode ser.
— Bem, eu espero; logo que S.
Exª acabe...
— O melhor é voltar depois; não
mora ali defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas...
A pessoa era o Custódio e foi
para casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, não esperou que acabasse o
charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custódio saiu, correu; subiu e entrou
assombrado.
— Que é isso, Sr. Custódio?
disse-lhe Aires. O senhor anda a fazer revoluções?
— Eu, senhor? Ah! senhor! Se V.
Exª soubesse...
— Se soubesse o quê?
Custódio explicou-se. Vá,
resumamos a explicação.
Na véspera, tendo de ir abaixo,
Custódio foi à Rua da Assembléia, onde se pintava a tabuleta. Era já tarde; o
pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas, — a
palavra Confeitaria e a letra d. A letra o e a palavra Império
estavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da cor, reconciliou-se com a
forma, e apenas perdoou a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a
tabuleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube
logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notícias, viu
passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que afirmavam a
revolução e vagamente a república. A princípio, no meio do espanto,
esqueceu-lhe a tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a
pintura. Escreveu às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O
bilhete dizia só isto: "Pare no D." Com efeito, não era preciso
pintar o resto, que seria perdido, nem perder o princípio, que podia valer.
Sempre haveria palavra que ocupasse o lugar das letras restantes. "Pare no
D."
Quando o portador voltou trouxe
a notícia de que a tabuleta estava pronta.
— Você viu-a pronta?
— Vi, patrão.
— Tinha escrito o nome antigo?
— Tinha, sim, senhor:
"Confeitaria do Império."
Custódio enfiou um casaco de
alpaca e voou à Rua da Assembléia. Lá estava a tabuleta, por sinal que coberta
com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua,
quiseram rasgá-la; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais
eficaz cobri-la. Levantada a cortina, Custódio leu: "Confeitaria do
Império." Era o nome antigo, o próprio, o célebre, mas era a destruição
agora; não podia conservar um dia a tabuleta, ainda que fosse em beco escuro,
quanto mais na Rua do Catete...
— O senhor vai despintar tudo
isto, disse ele.
— Não entendo. Quer dizer que o
senhor paga primeiro a despesa. Depois, pinto outra coisa.
— Mas que perde o senhor em
substituir a última palavra por outra? A primeira pode ficar, e mesmo o d...
Não leu o meu bilhete?
— Chegou tarde.
— E por que pintou, depois de
tão graves acontecimentos?
— O senhor tinha pressa, e eu
acordei às cinco e meia para servi-lo. Quando me deram as notícias, a tabuleta
estava pronta. Não me disse que queria pendurá-la domingo? Tive de pôr muito
secante na tinta, e além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custódio quis repudiar a obra,
mas o pintor ameaçou de pôr o número da confeitaria e o nome do dono na
tabuleta, e expô-la assim, para que os revolucionários lhe fossem quebrar as
vidraças do Catete. Não teve remédio senão capitular. Que esperasse: ia pensar
na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa
do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de título, —
uma casa tão conhecida, desde anos e anos! Diabos levassem a revolução! Que
nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o vizinho Aires e correu a ouvi-lo.
CAPÍTULO LXIII / TABULETA NOVA
Referí-lo o que lá fica atrás,
Custódio confessou tudo o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe
trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um
abismo, um suma. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de
espírito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com
política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado,
respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública...
— Mas o que é que há? perguntou
Aires.
— A república está proclamada.
— Já há governo?
— Penso que já; mas diga-me V.
Exª: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto...
Uma fatalidade! Venha em meu socorro. Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste
embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. — "Confeitaria do
Império", a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o
trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava
de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei?
V. Exª crê que, se ficar "Império", venham quebrar-me as vidraças?
— Isso não sei.
— Realmente, não há motivo, é o
nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo.
— Mas pode pôr "Confeitaria
da República"...
— Lembrou-me isso, em caminho,
mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova
reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
— Tem razão... Sente-se.
— Estou bem.
— Sente-se e fume um charuto.
Custódio recusou o charuto, não
fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas
curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito.
Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Exª, com a grande inteligência
que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título
que iria com ambas as hipóteses, — "Confeitaria do Governo."
— Tanto serve para um regímen
como para outro.
— Não digo que não, e, a não ser
a despesa perdida... Há porém, uma razão contra. V. Exª sabe que nenhum governo
deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar
comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto, o que
eu procuro é o respeito de todos.
Aires compreendeu bem que o
terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem
malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia
menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um
título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a
celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe
compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no
Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com outros,
puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano...
— Isso não, interrompeu Aires; o
senhor não há de recolher a edição de um almanaque.
E depois de alguns instantes:
— Olhe, dou-lhe uma idéia. que
pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão; e será a
última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como
está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras
que explicam o título: "Fundada em 1860." Não foi em 1860 que abriu a
casa?
— Foi, respondeu Custódio.
— Pois...
Custódio refletia. Não se lhe
podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava
para o diplomata, nem para o chão nem para as paredes ou móveis, mas para o ar.
Como Aires insistisse, ele acordou a confessou que a idéia era boa. Realmente,
mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da
pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera
comparar as duas.
— A outra idéia não tem a
vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir o título, que
fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regímen. Deixe-lhe estar a palavra
império e acrescente-lhe embaixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser
graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária,
e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
Custódio leu, releu e achou que
a idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as
letras de baixo menores; podiam não ser lidas tão depressa e claramente com as
de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum
político ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo, e... A primeira idéia,
bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o
confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe
se não era pior que nada?
— Tudo é pior que nada.
— Procuremos.
Aires achou outro título, o nome
da rua, "Confeitaria do Catete." sem advertir que, havendo outra
confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente à do Custódio a
designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa,
e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descobriu
que o que fez falar o Custodio foi a idéia de que esse título ficava comum às
duas casas. Muita gente não atinaria com o título escrito e compraria na
primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da
pinturas e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isto, Aires não
admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações;
contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar
a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome:
"Confeitaria do Custódio". Muita gente certamente lhe não conhecia a
casa por outra designação. Um nome; o próprio nome do dono, não tinha
significação política ou figuração história, ódio nem amor, nada que chamasse a
atenção dos dois regimens, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus
pastéis de Santa Clara; menos ainda a vida do proprietário e dos empregados.
Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma
palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções
trazem sempre despesas.
— Sim vou pensar,
Excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as
modas, disse Custódio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Aires
foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do
ministro aposentado um ilustre particular que faria esquecer por instantes a
crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia
amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a
rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o
seu desespero.
CAPÍTULO LXIV / PAZ!
Que, em meio de tão graves
sucessos, Aires tivesse bastante pausa e claridade para imaginar tal descoberta
no vizinho, só se pode explicar pela incredulidade com que recebera as
notícias. A própria aflição de Custódio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer
muito boato falso. Uma de suas máximas é que o homem vive para espalhar a
primeira invenção de rua, e que tudo se fará crer a cem pessoas juntas ou
separadas. Só às duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa,
acreditou na queda do império.
— É verdade, conselheiro, vi
descer as tropas pela Rua do Ouvidor, ouvi as aclamações à república. As lojas
estão fechadas, os bancos também, e o pior é se se não abrem mais, se vamos
cair na desordem pública; é uma calamidade.
Aires quis aquietar-lhe o
coração. Nada se mudaria; o regímen, sim, era possível, mas também se muda de
roupa sem trocar de pele. Comércio é preciso. Os bancos são indispensáveis. No
sábado, ou quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera,
menos a constituição.
— Não sei, tenho medo,
conselheiro.
— Não tenha medo. A baronesa já
sabe o que há?
— Quando eu saí de casa, não
sabia, mas agora é provável.
— Pois vá tranqüilizá-la;
naturalmente está aflita.
Santos receava os fuzilamentos;
por exemplo, se fuzilassem o imperador, e com ele as pessoas de sociedade?
Recordou que o Terror... Aires tirou-lhe o Terror da cabeça. As ocasiões fazem
as revoluções, disse ele, sem intenção de rimar, mas gostou que rimasse, para dar
forma fixa à idéia. Depois lembrou a índole branda do povo. O povo mudaria de
governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade. Para provar o
que dizia referiu um caso que lhe contara um velho amigo, o Marechal
Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regência. O imperador fora ao Teatro de S.
Pedro de Alcântara. No fim do espetáculo, o amigo, então moço, ouviu grande
rumor do lado da Igreja de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um
homem, que bradava indignado, e soube dele que o cocheiro do imperador não
tirara o chapéu no momento em que este chegara à porta para entrar no coche; o
homem acrescentou: "Eu sou ré..." Naquele tempo os
republicanos por brevidade eram assim chamados. "Eu sou ré, mas não
consinto que faltem ao respeito a este menino!"
Nenhuma feição de Santos mostrou
apreciar ou entender aquele rasgo anônimo. Ao contrário, todo ele parecia
entregue ao presente, ao momento, ao comércio fechado, aos bancos sem
operações, ao receio de uma suspensão total de negócios, durante prazo
indeterminado. Cruzava e descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.
— Então, parece-lhe?...
— Que descanse.
Santos aceitou o conselho, mas
vai muito do aceitar ao cumprir, e a aparência era mui diversa do coração. O
coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se tudo. Quis despedir-se, mas fez
duas ou três investidas antes de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a
escada. Instava pela certeza. Conquanto tivesse visto e ouvido a república,
podia ser... Em todo caso, a paz é que era necessária, e haveria paz? Aires
inclinava-se a crer que sim, e novamente o convidou a descansar.
— Até logo, concluiu.
— Por que não vai lá jantar
conosco?
— Tenho de jantar com um amigo,
no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranqüilizar a
baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza;
vá pô-los em ordem.
— O senhor podia ajudar-me
nisso. Vá lá de noite.
— Pode ser; se puder, vou.
Amanhã com certeza.
Santos saiu; tinha o carro à
espera, entrou e seguiu para Botafogo. Não levava a paz consigo, não a poderia
dar à mulher, nem à cunhada, nem aos filhos. Quisera chegar a casa, por medo da
rua, mas quisera também ficar na rua, por não saber que palavras nem que
conselhos daria aos seus. O espaço do carro era pequeno e bastante para um
homem; mas, enfim, não viveria ali a tarde inteira. Ao demais, a rua estava
quieta. Via gente à porta das lojas. No Largo do Machado viu outra que ria,
alguma calada, havia espanto, mas não havia propriamente susto.
CAPÍTULO LXV / ENTRE OS FILHOS
Quando Santos chegou a casa,
Natividade estava inquieta, sem notícia exata e definitiva dos acontecimentos.
Não sabia da república. Não sabia do marido nem dos filhos. Aquele saíra antes
dos primeiros rumores, estes iam fazer a mesma coisa, logo que os boatos
chegaram. O primeiro gesto da mãe foi para impedir que os filhos saíssem, mas
não pôde, era tarde. Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, a fim
de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto de meio-dia; foi
então que os minutos entraram a parecer séculos.
A ânsia da mãe era naturalmente
maior que a da tia. Natividade via andar o tempo com ferros aos pés. Não havia
alvoroço que atasse um par de asas àquelas horas longas do relógio da casa, nem
aos do cinto, o dela e o da irmã; todos eles coxeavam de ambos os ponteiros.
Enfim, ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.
Natividade acudiu ao patamar da
escada. Santos subiu, e as mãos de ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa
vida conjunta acaba por fazer da ternura uma coisa grave e espiritual.
Entretanto, parece que o gesto do marido não foi original, mas secundário,
filho ou imitativo do da mulher. Pode ser que a corda da sensibilidade fosse
menos vibrante na lira dele que na dela, posto que muitos anos atrás, aquele
outro gesto no coupé, quando voltavam da missa de S. Domingos,
lembras-te... Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que não ficariam mal, se
as acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata das palavras
riscadas. Menos vale supri-las.
Que nos bastam as quatro mãos
apertadas. Natividade perguntou pelos filhos. Santos opinou que não tivesse
medo. Não havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas
sossegadas, as caras mudas. Não correria sangue, o comércio ia continuar. Toda
a animação de Aires tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo
estilo.
Os filhos chegaram tarde, cada
um por sua vez, e Pedro mais cedo que Paulo. A melancolia de um ia com a alma
da casa, a alegria de outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que,
apesar da expansão da segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar,
falaram pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns
correligionários e soube do que se passara à noite e de manhã, a marcha e a
reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto ao Marechal Floriano,
a resposta deste, a aclamação da República. A família ouvia e perguntava, não
discutia, e esta moderação contrastava com a glória de Paulo. O silêncio de Pedro
principalmente era como um desafio. Não sabia Paulo que a própria mãe é que
pedira ao irmão com muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto
do coração do rapaz.
O coração de Paulo, ao
contrário, era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os
sentimentos republicanos, em que os princípios se incrustavam, viviam ali tão
fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da
outra gente sua. Ao fim do jantar, bebeu à República, mas calado, sem ostentação,
apenas olhando para o teto, e levantando o copo um tantinho mais que de
costume. Ninguém replicou por outro gesto ou palavra.
Certamente, o moço Pedro quis
dizer alguma frase de piedade relativamente ao regímen imperial e às pessoas de
Bragança, mas a mãe quase que não tirava os olhos dele, como impondo ou pedindo
silêncio. Demais, ele não cria nada mudado; a despeito de decretos e
proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como dantes, alterado apenas
o pessoal do governo. Custa pouco, dizia ele baixinho à mãe, ao deixarem a
mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.
Paulo saiu, logo depois do
jantar, prometendo vir cedo. A mãe, receosa de o ver metido em barulhos, não
queria que ele saísse; mas outro receio fê-la consentir, e este era que os dois
irmãos brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por
dar o que negou. Não é menos certo que ela raciocinou alguns minutos antes de
resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma página antes da que vou escrever
agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que os atos se
praticassem, sem oposição dela, nem comentário meu.
CAPÍTULO LXVI / O BASTO E A
ESPADILHA
Vieram amigos da casa, trazendo
notícias e boatos. Variavam pouco e geralmente não havia opinião segura acerca
do resultado. Ninguém sabia se a vitória do movimento era um bem, se um mal,
apenas sabiam que era um fato. Daí a ingenuidade com que alguém propôs o
voltarete do costume, e a boa vontade de outros em aceitá-lo. Santos, embora
declarasse que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os outros
opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem ele, não havia graça. Quis
resistir; não era bonito que no próprio dia em que o regímen caíra ou ia cair,
entregasse o espírito a recreações de sociedade... Não pensou isto em voz alta
nem baixa, mas consigo, e talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto
para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada.
Santos acabou aceitando. Provavelmente era essa mesma a inclinação íntima.
Muitas há que precisam ser atraídas cá fora como um favor ou concessão da
pessoa. Enfim, o basto e a espadilha fizeram naquela noite o seu ofício, como
as mariposas e os ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrelas e o sono dos
cidadãos.
CAPÍTULO LXVII / A NOITE INTEIRA
Saindo de casa, Paulo foi à de
um amigo, e os dois entraram a buscar outros da mesma idade e igual intimidade.
Foram aos jornais, ao quartel do campo, e passaram algum tempo diante da casa
de Deodoro. Gostavam de ver os soldados, a pé ou a cavalo, pediam licença,
falavam-lhes, ofereciam cigarros. Era a única concessão destes; nenhum lhes
contou o que se passara, nem todos saberiam nada.
Não importa, iam cheios de si.
Paulo era o mais entusiasta e convicto. Aos outros valia só a mocidade, que é
um programa, mas o filho de Santos tinha frescas todas as idéias do novo
regímen, e possuía ainda outras que não via aceitar; bater-se-ia por elas.
Trazia até o desejo de achar alguém na rua, que soltasse um grito, já agora
sedicioso, para lhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou
perdera a bengala. Não deu por falta dela; se desse, bastavam-lhe os braços e
as mãos.
Propôs cantarem a Marselhesa;
os outros não quiseram ir tão longe, não por medo, senão de cansados. Paulo,
que resistia mais que eles à fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.
— Vamos esperá-la do alto de um
morro, ou da Praia do Flamengo; teremos tempo de dormir amanhã.
— Eu não posso, disse um.
Os outros repetiram a recusa, e
assentaram de ir para suas casas. Era perto de duas horas Paulo acompanhou-os a
todos, e só depois de ver o último recolhido foi sozinho para Botafogo.
Quando entrou, deu com a mãe que
esperava por ele, inquieta e arrependida de o haver deixado sair. Paulo não
achou desculpa e censurou a mãe por não dormir, à espera dele. Natividade
confessou que não teria sono, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam
baixo e pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.
— Olha, disse Natividade, se
achares Pedro acordado não lhe contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanhã
saberemos tudo e o mais que se passar esta noite.
Paulo entrou no quarto pé ante
pé. Era ainda aquele vasto quarto em que os dois gêmeos brigaram por causa de
duas velhas gravuras; Robespierre e Luís XVI. Agora, havia mais que os
retratos, uma revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao
conselho da mãe, Paulo não quis saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que
não. Efetivamente, não. Pedro viu as cautelas de Paulo, e cumpriu também os
conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até aí os conselhos; mas um pouco de
glória fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a
primeira estrofe da Marselhesa que os amigos tinham recusado fora:
Allons, enfants de la patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Pedro percebeu antes pela toada
que pela letra, e concluiu que a intenção do outro era afligi-lo. Não era, mas
podia ser. Vacilou entre a réplica e o silêncio, até que uma idéia fantástica
lhe atravessou o cérebro, cantarolar, também baixinho, a segunda parte da
estrofe: "Entendez-vous dans vos campagnes...", que alude às tropas
estrangeiras, mas desviada do natural sentido histórico, para restringi-la às
tropas nacionais. Era um desforço vago, a idéia passou depressa. Pedro
contentou-se de simular a indiferença suprema do sono. Paulo não acabou a
estrofe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da vitória dos seus sonhos
políticos. Não se meteu logo na cama; foi primeiro à do irmão, a ver se dormia.
Pedro respirava tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve ímpeto de
acordá-lo, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma coisa era a instituição
derribada. Recuou a tempo e foi meter-se entre os lençóis.
Nenhum dormia. Enquanto o sono
não chegava, iam pensando nos acontecimentos do dia; ambos espantados de como
foram fáceis e rápidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos efeitos
últeriores. Não admira que não chegassem à mesma conclusão.
— Como diabo é que eles fizeram
isto, sem que ninguém desse pela coisa? refletia Paulo. Podia ter sido mais
turbulento. Conspiração houve, decerto, mas uma barricada não faria mal. Seja
como for, venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro,
batê-lo sempre, e renová-lo. Deodoro é uma bela figura. Dizem que a entrada do
marechal no quartel, e a saída, puxando os batalhões, foram esplêndidas. Talvez
fáceis demais; é que o regímen estava podre e caiu por si...
Enquanto a cabeça de Paulo ia
formulando essas idéias, a de Pedro ia pensando o contrário; chamava ao
movimento um crime.
— Um crime e um disparate, além
de ingratidão; o imperador devia ter pegado os principais cabeças e mandá-los
executar. Infelizmente, as tropas iam com eles. Mas nem tudo acabou. Isto é
fogo de palha; daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu
acharei duzentos rapazes bons e prontos, e desfaremos esta caranguejola. A
aparência é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que o
imperador não sai daqui, e, ainda que não queira, há de governar; ou governará
a filha, e, na falta dela, o neto. Também ele ficou menino e governou. Amanhã é
tempo; por ora tudo são flores. Há ainda um punhado de homens...
A reticência final dos discursos
de ambos quer dizer que as idéias se iam tornando esgarçadas, nevoentas e
repetidas, até que se perderam e eles dormiram. Durante o sono cessou a
revolução e a contra-revolução, não houve monarquia nem república, D. Pedro II
nem Marechal Deodoro, nada que cheirasse a política. Um e outro sonharam com a
bela enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só pessoa: Flora.
CAPÍTULO LXVIII / DE MANHÃ!
Flora abriu os olhos de ambos, e
esvaiu-se tão depressa que eles mal puderam ver a barra do vestido e ouvir uma
palavrinha meiga e remota. Olharam um para o outro, sem rancor aparente. O
receio de um e a esperança de outro deram tréguas. Correram aos jornais. Paulo,
meio tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma idéia vaga
de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial de anistia. Nem
traição nem decreto. A esperança e o receio fugiram deste mundo.
CAPÍTULO LXIX / AO PIANO
Enquanto eles sonhavam com
Flora, esta não sonhou com a república. Teve uma daquelas noites em que a
imaginação dorme também, sem olhos nem ouvidos, ou, quando muito, a retina não
deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão
remoto. Não posso dar melhor definição, nem ela é precisa; cada um de nós terá
tido dessas noites mudas e apagadas.
Não sonhou sequer com música; e,
aliás, tocara antes algumas das suas páginas queridas. Não as tocou somente por
gostar delas, senão por fugir à consternação dos pais, que era grande. Nenhum
destes podia crer que as instituições tivessem caído, outras nascido, tudo
mudado. D. Cláudia ainda apelava para o dia seguinte e perguntava ao marido se
vira bem, e o que é que vira; ele mordia os beiços, batia na perna, erguia-se,
dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as notícias coladas
às portas dos jornais, a prisão dos ministros, a situação, tudo extinto,
extinto, extinto...
Flora não era avessa à piedade,
nem à esperança, como sabeis; mas não ia com a agitação dos pais, e meteu-se
com o seu piano e as suas músicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou
para lhe tirar o presente. A música tinha para ela a vantagem de não ser
presente, passado ou futuro; era uma coisa fora do tempo e do espaço, uma
idealidade pura. Quando parava, sucedia-lhe ouvir alguma frase solta do pai ou
da mãe: "...Mas como foi que...?" — "Tudo às escondidas..."
— "Há sangue?" Às vezes um deles fazia algum gesto, e ela não via o
gesto. O pai, com a alma trôpega, falava muito e incoerente. A mãe trazia outro
vigor. Já lhe sucedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrário do
marido que, em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava,
quando não ameaçava o tecto com o punho.
— Lá, lá, dó, ré, sol, ré,
ré, lá, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas
eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissensões.
Também se pode achar na sonata
de Flora uma espécie de acordo com a hora presente. Não havia governo
definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia. ou com esse
derradeiro crepúsculo da tarde, — como queiras, — em que nada é tão claro ou
tão escuro que convide a deixar a cama ou acender velas. Quando muito, ia haver
um governo provisório. Flora não entendia de formas nem de nomes A sonata
trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarquia da inocência
primitiva naquele recanto do Paraíso que o homem perdeu por desobediente, e um
dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e única. Não haverá
então progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abraão agasalhará
todas as coisas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe
diziam sem palavras, ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó...
CAPÍTULO LXX / DE UMA CONCLUSÃO
ERRADA
Os sucessos vieram vindo, à
medida que as flores iam nascendo. Destas houve que serviram ao último baile do
ano. Outras morreram na véspera. Poetas de um e outro regímen tiraram imagem do
fato para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A diferença é que a
segunda abafava os seus suspiros, enquanto a primeira levava longe os seus
tripúdios. O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores é que
continuavam a nascer e morrer, igual e regularmente.
D. Cláudia colheu as rosas do
último baile do ano, primeiro da República, e adornou a filha com elas. Flora
obedeceu e aceitou-as. Pai de família antes de tudo, Batista acompanhou a
esposa e a filha ao baile. Também lá foi Paulo, pela moça e pelo regímen. Se,
em conversa com o ex-presidente de província, disse todo o bem que pensava do
Governo Provisório, não lhe ouviu palavras de acordo nem de contestação. Não
entrou mais fundo na confissão do homem, porque a moça o atraía, e ele gostava
mais dela que do pai.
Flora viu uma semelhança entre o
baile da ilha Fiscal e este, apesar de particular e modesto. Este era dado por
pessoa que vinha dos tempos da propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda
que só meia hora. Daí a ausência de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a
falta de Pedro, como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhança das duas
festas. Ambas traziam a ausência de um gêmeo.
— Por que é que seu irmão não
veio? perguntou ela.
Paulo enfiou; depois de alguns
instantes:
— Pedro é teimoso, disse. Teimou
em recusar o convite. Crê naturalmente que a monarquia levou a arte de dançar.
Não faça caso; é um lunático.
— Não diga isso.
— Acha também que a dança se foi
com o império?
— Não, a prova é que estamos
dançando. Não; digo que lhe não chame nomes feios.
— Parece-lhe então que Pedro é
um rapaz de juízo?
— Certamente, como o senhor.
— Mas...
Paulo ia a perguntar-lhe qual
deles, tendo ela de jurar por um ou por outro, lhe mereceria o juramento; mas
recuou a tempo. Então ela falou do calor, e ele achou que sim, que estava
quente. Acharia que estava frio, se ela se queixasse de frio. Flora, se só
cedesse à vista, era também capaz de aceitar todas as opiniões de Paulo, para
ir com ele. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava
por cima, firme em que os seus escritos de um ano é que haviam feito a
República, posto que incompleta, sem certas idéias que expusera e defendera, e
teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo à moça, e ela escutava com prazer,
sem opinião; era só o gosto de o escutar. Quando a lembrança de Pedro surgia na
cabeça da moça, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia de pressa a
outra, e assim, acabou o baile. Então as duas, tristeza e alegria,
agasalharam-se no coração de Flora, como as suas gêmeas que eram.
O baile acabou. O capítulo é que
não acaba sem que deixe um pouco de espaço a quem quiser pensar naquela
criatura. Pai nem mãe podiam entendê-la, os rapazes também não, e provavelmente
Santos e Natividade menos que ninguém. Tu, mestra de amores ou aluna deles, tu,
que escutas a diversos, concluis que ela era...
Custa pôr o nome do ofício. Se
não fosse a obrigação de contar a história com as próprias palavras, preferia
calá-lo, mas tu sabes qual é ele, e aqui fica. Concluis que Flora era
namoradeira, e concluis mal.
Leitora, é melhor negar já isto
que esperar pelo tempo. Flora não conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda
se podia dizer namoradeira de ofício. A namoradeira de ofício é a planta das
esperanças, e alguma vez das realidades, se a vocação o impõe e a ocasião o
permite. Também é preciso ter em lembrança aquilo de um publicista, filho de
Minas e do outro século, que acabou senador, e escrevia contra os ministros
adversários: "Pitangueira não dá manga". Não, Flora não dava para
namorados.
A prova disto é que no Estado em
que viveu alguns meses de 1891, com o pai e a mãe, para o fim que direi
adiante, ninguém alcançou o menor dos seus olhares amigos ou sequer
complacentes. Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e atraído
dela. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe
as cores, os gestos e os vidros, sem obter outra coisa que a atenção cortês e
acaso uma palavra sem valor.
Flora só se lembrava dos gêmeos.
Se nenhum deles a esqueceu, ela não os perdeu de memória. Ao contrário,
escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada de ambos. As
cartas falavam pouco da terra ou da gente, e não diziam mal nem bem. Usavam
muito a palavra saudades, que cada um dos dois gêmeos lia para si.
Também eles a escreviam nas cartas que mandavam a D. Cláudia e a Batista, com a
mesma intenção duplicada e misteriosa, que ela entendia muito bem.
Tais eram de longe, ela e eles.
A rixa velha, que os desunia na vida, continuava a desuni-los no amor. Podiam
amar cada um a sua moça, casar com ela e ter os seus filhos, mas preferiam amar
a mesma, e não ver o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem
diversa música, antes, durante e depois da comissão do Batista.
CAPÍTULO LXXI / A COMISSÃO
Lá me escapou a palavra. Sim,
foi uma comissão dada ao pai, e da qual não sei nada, nem ela. Negócio
reservado. Flora chamava-lhe comissão do inferno. O pai, sem ir tão fundo,
concordava mentalmente com ela; verbalmente, desmentia a definição.
— Não digas isso, Flora; é
comissão de confiança para fins nobremente políticos.
Creio que sim, mas daí a saber o
objeto especial e real, ia largo espaço. Também não se sabe como foi parar às
mãos de Batista aquele recado do governo. Sabe-se que ele não desprezou a
escolha, quando um amigo íntimo correu a chamá-lo ao palácio do generalíssimo.
Viu que era reconhecer nele muita finura e capacidade de trabalho. Não é menos
certo, porém, que a comissão entrava a aborrecê-lo, posto que na
correspondência oficial dissesse exatamente o contrário. Se tais papéis
mostrassem sempre o coração da gente, Batista, cujas instruções eram, aliás, de
concórdia, parecia querer levar a concórdia a ferro e fogo; mas o estilo não é
o homem. O coração de Batista fechava-se, quando ele escrevia, e deixava ir a
mão adiante, com a chave do coração apertada... "Já é tempo, suspirava o
músculo, já é tempo de um lugar de governador."
Quanto a D. Cláudia, não queria
ver acabada a comissão, que restituía ao esposo a ação política; faltava-lhe
somente uma coisa, oposição. Nenhum jornal dizia mal dele. Aquele prazer de ler
todas as manhãs as descomposturas dos adversários, lê-las e relê-las com os
seus nomes feios, como látegos de muitas pontas, que lhe rasgavam as carnes e a
excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe dava a comissão reservada. Ao
contrário, havia uma espécie de aposta em achar o comissário justo, eqüitativo
e conciliador, digno de admiração, tipo cívico, caráter sem mácula. Tudo isto
ela conheceu outrora, mas para lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse
entremeado de ralhos e calúnias. Sem eles, era água insossa. Também não tinha
aquela parte de cerimônias a que obrigava o sumo cargo, mas não lhe faltavam
atenções, e era alguma coisa.
CAPÍTULO LXXII / O REGRESSO
Quando o Marechal Deodoro
dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Batista recordou o tempo dos
manifestos liberais, e quis fazer um. Chegou a principiá-lo, em segredo,
empregando as belas frases que trazia de cor, citações latinas, duas ou três
apóstrofes. D. Cláudia reteve-o à beira do abismo, com razões claras e
robustas. Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um benefício. Serve-se
muita vez a liberdade parecendo sufocá-la. Depois, era o mesmo homem que a
havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e a emendar
a constituição, salvo nas partes essenciais. A palavra do generalíssimo, como a
sua espada, bastava a defender e consumar a obra principiada. D. Cláudia não
tinha estilo próprio, mas sabia comunicar o calor do discurso ao coração de um
homem de boa vontade. Batista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no ombro
imperativamente:
— Tens razão, filha.
Não rasgou o papel escrito;
queria guardá-lo como simples lembrança, e a prova é que ia escrever uma carta
ao presidente. D. Cláudia também lhe tirou esta idéia da cabeça. Não havia
necessidade de lhe mandar o seu sufrágio; bastava conservar-se na comissão.
— O governo não está satisfeito
com você?
— Está.
— Vendo que você se conserva,
conclui que aprova tudo, e basta.
— Sim, Cláudia, concordou ele
após alguns instantes. Ao contrário, qualquer coisa que escrevesse contra a
assembléia sediciosa que o Presidente acaba de dissolver, pareceria falta de
piedade. Paz aos mortos! Tens razão, filha.
Conservou-se calado, operando,
fiel às instruções recebidas. Vinte dias depois, o Marechal Deodoro passava o
governo às mãos do Marechal Floriano, o congresso era restabelecido e todos os
decretos do dia 3 anulados.
Ao saber de tais fatos, Batista
pensou morrer. Ficou sem fala por alguns instantes, e D. Cláudia não achou a
menor parcela de ânimo que lhe desse. Nenhum contara com a marcha rápida dos
acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropelo que parecia um bando de
gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e sossego, esperanças e
grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.
Agora é que Batista compreendeu
o erro de haver dado ouvidos à esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto
no dia 4 ou 5, estaria com um documento de resistência na mão para reivindicar
um posto de honra qualquer, — ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou
a pensar em imprimi-lo, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como este:
"O dia da opressão é a véspera da liberdade." Citava a bela Roland
caminhando para a guilhotina: "Ó liberdade, quantos crimes em teu
nome!" D. Cláudia fez-lhe ver que
era tarde, e ele concordou.
— Sim, é tarde. Naquele dia é
que não era tarde, vinha à hora própria, para o efeito certo.
Batista amarrotou o papel
distraidamente; depois alisou-o e guardou-o. Em seguida, fez um exame de
consciência, profundo e sincero. Não devia ter cedido; a resistência era o
melhor; se tem resistido às palavras da mulher, a situação seria outra.
Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e
passado adiante. Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atrás o
tempo, e mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos.
Não era preciso saber nada do que anteriormente sucedeu; a consciência
dizia-lhe que, em situação idêntica à do dia 3, faria outra coisa... Oh! com
certeza! faria coisa muito diversa, e mudaria o seu destino.
Um ofício ou telegrama veio
arrancar Batista à comissão política e reservada. A volta para o Rio de Janeiro
foi breve e triste, sem os epítetos que o haviam regalado por alguns meses, nem
acompanhamento de amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas
as noites pela terminação daquele exílio.
— Parece que estás contente com
o desastre de teu pai, disse-lhe a mãe já a bordo.
— Não, mamãe; alegro-me de ver
que acabou esta canseira. Papai pode muito bem fazer política no Rio de
Janeiro, onde é muito apreciado. A senhora verá. Eu, se fosse papai, apenas
desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar as instruções e dizer
o que tinha feito; dizia mais que a dispensa veio muito a propósito, a fim de
não parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá mesmo...
D. Cláudia, a despeito do
amargor dos tempos, gostou de ver que a filha pensava e dava conselhos em
política. Não advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moça era
não sair da capital, fazer aqui mesmo o seu congresso, que em breve seria uma
só assembléia legislativa, como no Rio Grande do Sul; mas a qual das câmaras,
Pedro ou Paulo, caberia esse único poder político? Eis o que ela mesma não
sabia.
Ambos se lhe apresentaram a
bordo, logo que o paquete entrou no porto do Rio de Janeiro. Não foram em duas
lanchas, foram na mesma, e saltaram com tal presteza para a escada, que
escaparam de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim
não acaba mal o capítulo, porque a razão da presteza com que eles saltaram para
a escada foi a ambição de ser o primeiro que cumprimentasse a moça; aposta de
amor, que ainda uma vez os igualou na alma dela. Enfim chegaram, e não consta qual
efetivamente a cumprimentou primeiro; pode ser que ambos.
CAPÍTULO LXXIII / UM ELDORADO
No cais Pharoux esperavam por
eles três carruagens, — dous coupés e um landau, com três belas
parelhas de cavalos. A gente Batista ficou lisonjeada com a fineza da gente
Santos, e entrou no landau. Os gêmeos foram cada um no seu coupé.
A primeira carruagem tinha o seu cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho,
botões de metal branco, em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das
outras tinha apenas o cocheiro, com igual libré. E todas três se puseram a
andar, estas atrás daquela, os animais batendo rijo e compassado, a golpes
certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquela recepção. De quando
em quando, encontravam outros trens, outras librés, outras parelhas, a mesma
beleza e o mesmo luxo.
A capital oferecia ainda aos recém-chegados um espetáculo
magnífico. Vivia-se dos restos daquele deslumbramento e agitação, epopéia de
ouro da cidade e do mundo, porque a impressão total é que o mundo inteiro era
assim mesmo. Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra
das empresas e companhias de toda espécie. Quem não viu aquilo não viu nada.
Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras
e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares,
milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos
os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de
ferro, bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação,
importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões, tudo o
que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e
praças, com estatutos, organizadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas
públicas, os títulos sucediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só
morria o que era frouxo, mas a princípio nada era frouxo. Cada ação trazia a
vida intensa e liberal, alguma vez imortal, que se multiplicava daquela outra
vida com que a alma acolhe as religiões novas. Nasciam as ações a preço alto,
mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.
Pessoas do tempo, querendo
exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade.
Quando muito, caía do céu. Cândido e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes
que é o nome daquele índio que Basílio da Gama cantou no Uruguai.
Voltaire pegou dele para o meter no seu livro, e a ironia do filósofo venceu a
doçura do poeta. Pobre José Basílio! tinhas contra ti o assunto estreito e a
língua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindóia, felizmente, mas Cacambo
é dele, mais dele que teu, patrício da minha alma.
Candido e Cacambo, ia eu
dizendo, ao entrarem no Eldorado, conta Voltaire que viram crianças brincando
na rua com rodelas de ouro, esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira
hospedaria em que comeram quiseram pagar o jantar com duas delas. Sabes que o
dono da casa riu às bandeiras despregadas, já por quererem pagar-lhe com pedras
do calçamento, já porque ali ninguém pagava o que comia, era o governo que
pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade atribuída ao
Estado, que fez crer iguais fenômenos entre nós, mas é tudo mentira.
O que parece ser verdade é que
as nossas carruagens brotavam do chão. As tardes, quando uma centena delas se
ia enfileirar no Largo de S. Francisco de Paula, à espera das pessoas, era um
gosto subir a Rua do Ouvidor, parar e contemplá-las. As parelhas arrancavam os
olhos à gente; todas pareciam descer das rapsódias de Homero, posto fossem
corcéis de paz. As carruagens também. Juno certamente as aparelhara com suas
correias de ouro, freios de ouro, rédeas de ouro, tudo de ouro incorruptível.
Mas nem ela nem Minerva entravam nos veículos de ouro para os fins da guerra
contra Ílion. Tudo ali respirava a paz. Cocheiros e lacaios, barbeados e
graves, esperando tesos e compostos, davam uma bela idéia do ofício. Nenhum
aguardava o patrão, deitado no interior dos carros, com as pernas de fora. A
impressão que davam era de uma disciplina rígida e elegante, aprendida em alta
escola e conservada pela dignidade do indivíduo.
"Casos há, — escrevia o
nosso Aires — em que a impassibilidade do cocheiro na boléia contrasta com a
agitação do dono no interior carruagem, fazendo crer que é o patrão que, por
desfastio, trepou à boléia e leva o cocheiro a passear."
CAPÍTULO LXXIV / A ALUSÃO DO
TEXTO
Antes de continuar, é preciso
dizer que o nosso Aires não se referia vagamente ou de modo genérico a algumas
pessoas, mas a uma só pessoa particular. Chamava-se então Nóbrega; outrora não
se chamava nada, era aquele simples andador das almas que encontrou Natividade
e Perpétua na Rua de S. José, esquina da Misericórdia. Não esqueceste que a
recente mãe deitou uma nota de dois mil-réis à bacia do andador. A nota era
nova e bela; passou da bacia à algibeira, no fundo de um corredor, não sem
algum combate.
Poucos meses depois, Nóbrega
abandonou as almas a si mesmas, e foi a outros purgatórios, para os quais achou
outras opas, outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz.
Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se
sabe se também o país. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de réis,
que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Enfim, alvoreceu a famosa quadra
do "encilhamento". Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande
esmola, o grande purgatório. Quem já sabia do andador das almas? A antiga roda
perdera-se na obscuridade e na morte. Ele era outro; as feições não eram as
mesmas, senão as que o tempo lhe veio compondo e melhorando.
Se a grande bacia, ou qualquer
das outras recebeu notas que tivessem o destino da primeira, é o que se não
sabe, mas é possível. Foi por esse tempo que Aires o viu de carro, quase a sair
pela portinhola fora, cumprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o
lacaio (creio que eram escoceses) salvassem a dignidade pessoal da casa, Aires
fez a observação do fim do outro capítulo, sem nenhuma intenção geral.
Posto não achasse já nenhum
conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andara a pedir
para as primeiras almas. Um dia, porém, tais foram as saudades dele que pensou
em afrontar o perigo e lá foi. Tinha cócegas de mirar as ruas e as pessoas,
recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde
apareciam tais e tais moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou
por outra parte. Só passava de carro; depois quis ver tudo a pé, devagar,
parando, se fosse possível, e revivendo o extinto.
Lá se foi a pé; desceu pela Rua
de S. José, dobrou a da Misericórdia, foi parar à Praia de Santa Luzia, tornou
pela Rua de D. Manuel, enfiou de beco em beco. A princípio olhava de esguelha,
rápido, os olhos no chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro.
Dos sobrados de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e
nenhuma era a mesma. Nóbrega foi-se animando e encarando. Talvez esta velha
fosse moça, há vinte anos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar a outra
criança. Nóbrega acabou parando e andando devagar.
Voltou mais vezes. Só as casas,
que eram as mesmas, pareciam reconhecê-lo, e algumas quase que lhe falavam. Não
é poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se
admirar delas, contar-lhes a vida, obrigá-las a comparar o modesto de outrora
com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras mudas: "Vejam, manas, é
ele mesmo." Passava por elas, fitava-as, interrogava-as, quase ria, quase
as tocava para sacudi-las com força: "Falem, diabos, falem!"
Não confiaria de homem aquele
passado, mas às paredes mudas, às grades velhas, às portas gretadas, aos
lampiões antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quisera
dar olhos, ouvidos e boca, uma boca que só ele escutasse, e que proclamasse a
prosperidade daquele velho andador.
Uma vez, viu a Matriz de S. José
aberta e entrou. A igreja era a mesma, aqui estão os altares, aqui está a
solidão, aqui está o silêncio. Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado
e outro, andando na direção do altar-mor. Tinha receio de ver aparecer o
sacristão, podia ser o mesmo, e conhecê-lo. Ouviu passos, recuou depressa e
saiu.
Ao subir pela Rua de S. José,
encostou-se à parede, para deixar passar uma carroça. A carroça subiu a
calçada, ele refugiou-se num corredor. O corredor podia ser qualquer; aquele
era o próprio em que ele fez a operação da nota de dois mil-réis de Natividade.
Olhou bem, era o mesmo. Ao fundo estavam os três ou quatro degraus da primeira
escada que dobrava à esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso reviu por
um instante aquela manhã, viu no ar a nota de dois mil-réis. Outras lhe teriam
vindo às mãos por maneiras assim fáceis, mas nunca lhe esqueceu aquela graciosa
folha gravada com tantos símbolos, números, datas e promessas, entregue por uma
senhora desconhecida, sabe Deus se a própria Santa Rita de Cássia. Era a sua
particular devoção. Sem dúvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes
dispersas não foram senão levar a outras notas um convite para a algibeira do
dono, e todas acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as
ouvissem crescer.
Por mais que ele olhasse pela
vida dentro, não achava igual obséquio do Céu, ou sequer do inferno. Mais
tarde, se alguma jóia lhe levou os olhos, não lhe levou as mãos. Tinha
aprendido a respeitar o alheio, ou ganhara com que o comprar. A nota de dois
mil-réis... Um dia. ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
Não, leitor, não me apanhas em
contradição. Eu bem sei que a princípio o andador das almas atribuiu a nota ao
prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras dele:
"Aquelas duas viram passarinho verde!" Mas se agora atribuía a nota à
proteção da santa, não mentia então nem agora. Era difícil atinar com a
verdade. A única verdade certa eram os dois mil-réis. Nem se pode dizer que era
a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dois mil-réis equivalia, pelo
menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não subia de uma
gorjeta de cocheiro.
Também não há contradição em pôr
a santa agora e a namorada outrora. Era mais natural o contrário, quando era
maior a intimidade dele com igreja. Mas, leitor dos meus pecados, amava-se
muito em 1871, como já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881,
1891 e 1901. O século dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a
opinião do andador das almas acerca de Natividade foi anterior ao gesto do
corredor, quando ele agasalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, depois do
gesto, a opinião fosse a mesma.
CAPÍTULO LXXV / PROVÉRBIO ERRADO
Pessoa a quem li
confidencialmente o capítulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo
foi a cabocla do Castelo. Sem as suas predições grandiosas, a esmola de
Natividade seria mínima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por
falta de nota. "A ocasião faz o ladrão", conclui o meu
correspondente.
Não conclui mal. Há todavia
alguma injustiça ou esquecimento, porque as razões do gesto do corredor foram
todas pias. Além disso, o provérbio pode estar errado. Uma das afirmações de
Aires, que também gostava de estudar adágios, é que esse não estava certo.
— Não é a ocasião que faz o
ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser
esta: "A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito."
CAPÍTULO LXXVI/ TALVEZ FOSSE A
MESMA!
Nóbrega saiu enfim do corredor,
mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:
— Meu senhor, uma esmolinha por
amor de Deus!
Nóbrega meteu a mão no bolso do
colete e pegou um níquel, entre dois que lá havia, um de tostão, outro de dois.
Pegou o primeiro, mas indo a dar-lho, mudou de idéia; não deu o níquel; disse à
velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua,
introduziu a mão na algibeira das calças e sacou um maço de dinheiro; procurou
e achou uma nota de dois mil-réis, não nova, antes velha, tão velha como a
mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a
velhice.
— Tome lá, murmurou ele.
Quando a mendiga voltou do espanto,
Nóbrega acabava de restituir o maço à algibeira e ia a querer sair. O que a
mendiga então disse veio entremeado de lágrimas:
— Meu senhor! Obrigada, meu
senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santíssima...
E beijava a nota, e queria
beijar a mão que lhe dera a esmola, mas ele a escondeu, como no Evangelho,
murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha
um som quase místico, uma espécie de melodia do Céu, um coro de anjos e fazia
bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão trêmula, segurando a nota. Nóbrega
não esperou que ela se fosse, saiu, desceu a rua, com as bênçãos da mulher
atrás de si; dobrou a esquina, a passo rápido, e aí foi pensando não se sabe em
quê.
Atravessou a praça, passou a
catedral e a Igreja do Carmo, e chegou ao Carceler, onde entregou as botas a um
italiano para que lhas engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo,
para a direita ou para esquerda, — em todo caso para longe, — e acabou
murmurando esta frase, que tanto podia referir-se à nota como à mendiga, mas
provavelmente era à nota:
— Talvez fosse a mesma.
Nenhum obséquio, por ínfimo que
seja, esquece ao beneficiado. Há exceções. Também há casos em que a memória dos
obséquios aflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra
é guardá-los na memória, como as jóias nos seus escrínios; comparação justa,
porque o obséquio é muita vez alguma jóia, que o obsequiado esqueceu de
restituir.
CAPÍTULO LXXVII / HOSPEDAGEM
A família Batista foi aposentada
em casa de Santos. Natividade não pôde ir a bordo, e o marido estava ocupado em
"lançar uma companhia"; mandaram recado pelos filhos que a casa de
Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro se pôs a andar,
Batista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.
— Numa casa de pensão era
melhor, até que nos despejassem a de S. Clemente.
— Que queria você? Não havia
remédio senão aceitar, ponderou a mulher.
Flora não disse nada, mas sentia
o contrário do pai e da mãe. Pensar, não pensou; ia tão atordoada com a vista
dos rapazes que as idéias não se enfileiraram naquela forma lógica do
pensamento. A própria sensação não era nítida. Era uma mistura de opressivo e
delicioso, de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma aflição consoladora,
e o mais que puderes achar no capítulo das contradições. Eu nada mais lhe
ponho. Nem ela saberia dizer o que sentia. Teve alucinações extraordinárias.
Agora o que é mister dizer é que
a idéia da hospedagem cabe toda aos dois jovens doutores. Que eles eram já doutores,
posto não houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de médico. Viviam
do amor da mãe e da bolsa do pai, inesgotáveis ambos. O pai abanou as orelhas à
lembrança, mas os gêmeos insistiram pelo obséquio, a tal ponto que a mãe,
contente de os ver de acordo, saiu do silêncio e concordou com eles. A idéia de
ter a pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era o melhor
aceito, e o que deveras a amava, pode ser que também influísse na adoção do
voto, mas não afirmo nada a tal respeito. Também não asseguro que tivesse
grande gosto em agasalhar a mãe e o pai de Flora. Não obstante, o encontro foi
cordial de parte a parte. Foi um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de
mimos que não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra cor, outro ar.
Flora era um encanto para Natividade e Perpétua; nenhuma destas sabia aonde
iria parar aquela moça tão senhoril, tão esbelta, tão...
— Não digam o resto, interrompeu
a moça sorrindo; eu tenho a mesma opinião.
Santos recebeu-os, à tarde, com
a mesma cordialidade, -- talvez menos aparente, mas tudo se desculpa a quem
anda com grandes negócios .
— Uma idéia sublime, disse ele
ao pai de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as ações valem já ouro.
Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação deste mamífero nos campos do
Paraná. Em cinco anos poderemos vestir a América e a Europa. Viu o programa nos
jornais?
— Não, não leio jornais daqui
desde que embarquei.
— Pois verá!
No dia seguinte, antes de
almoçar, mostrou ao hóspede o programa e os estatutos. As ações eram maços e
maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Batista somava mal, em regra;
daquela vez, pior. Mas os algarismos cresciam à vista, trepavam uns nos outros,
enchiam o espaço, desde o chão até as janelas, e precipitavam-se por elas
abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Batista saiu dali fascinado, e foi
repetir tudo à mulher.
CAPÍTULO LXXVIII / VISITA AO
MARECHAL
D. Cláudia, quando ele acabou,
perguntou-lhe com simplicidade:
— Você vai hoje ao marechal?
Batista, caindo em si:
— Naturalmente.
Tinham ajustado que ele iria ter
com o presidente da República explicar-lhe a comissão que exercera, toda
reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o espírito de concórdia com que
andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniência de um
governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalíssimo; e
uma frase final bem estudada.
— Isso na ocasião, disse
Batista.
— Não, é melhor levá-la feita.
Eu lembrei-me desta: "Creia V. Exª que Deus está com os fortes e os
bons."
— Sim, não é má. Você pode
acrescentar um gesto que indique o Céu.
— Isso é que não. Você sabe que
eu não dou para gestos, não sou ator. Eu, sem mexer um pé; inspiro respeito.
D. Cláudia dispensou o gesto; não
era essencial. Quis que ele escrevesse a frase, mas lá estava de cor. Batista
tinha boa memória.
Naquele mesmo dia. Batista foi
ao Marechal Floriano. Não disse nada às pessoas da casa; contaria tudo na
volta. D. Cláudia também calou, era por pouco tempo; ficou esperando ansiosa.
Esperou duas mortais horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o
esposo, por intrigas. Não era devota, mas o medo inspira devoção, e ela rezou
consigo. Enfim, chegou Batista. Ela correu a recebê-lo, alvoroçada, pegou-lhe
na mão e recolheram-se ao quarto. Perpétua (vede o que são testemunhos pessoais
na história!) exclamou enternecida:
— Parecem dois pombinhos!
Batista contou que a recepção
foi melhor do que esperava, conquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o
com interesse. A frase? A frase saiu bem, apenas com uma emenda. Não estando
certo se ele preferia bons a fortes, ou se fortes a bons...
— Deviam ser as duas palavras,
interrompeu a mulher.
— Sim, mas lembrou-me empregar
uma terceira: "Creia V. Exª que Deus está com os dignos!"
Com efeito, a última palavra
podia abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar à frase um arranjo
pessoal dele.
— Mas o marechal que disse?
— Não disse nada, ouviu-me com
atenção obsequiosa e chegou a sorrir, — um sorriso leve, um sorriso de
acordo...
— Ou seria... Quem sabe... Você
não andou bem, decerto. Comigo ele diria alguma coisa. Você expôs tudo,
conforme tínhamos combinado?
— Tudo.
— Expôs as razões da comissão, o
desempenho, a nossa moderação?...
— Tudo, Cláudia.
— E o aperto de mão do marechal?
— Não estendeu a mão, a
princípio; fez um gesto de cabeça; eu é que estendi a minha, dizendo: Sempre às
ordens de Vossa Exª.
— E ele?
— Ele apertou-me a mão.
— Apertou bem?
— Você sabe, não podia ser um
apertão de amigo, mas deve ter sido cordial.
— E nenhuma palavra? Um passe
bem, ao menos?
— Não, nem era preciso.
Cortejei-o e saí.
D. Cláudia deixou-se estar
pensando. A recepção não lhe pareceu que fosse má, mas podia ser melhor. Com
ela, seria muito melhor.
CAPÍTULO LXXIX / FUSÃO, DIFUSÃO,
CONFUSÃO...
Atrás falei das alucinações de
Flora. Realmente, eram extraordinárias.
Em caminho, depois do
desembarque, não obstante virem os gêmeos separados e sós, cada um no seu coupé,
cismou que os ouvia falar; primeira parte da alucinação. Segunda parte: as duas
vozes confundiam-se, de tão iguais que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a
imaginação fez dos dois moços uma pessoa única.
Este fenômeno não creio que
possa ser comum. Ao contrário, não faltará quem absolutamente me não creia, e
suponha invenção pura o que é verdade puríssima. Ora, é de saber que, durante a
comissão do pai, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na
mesma voz e mesma criatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o
fenômeno. Quando ouvia os dois, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do
ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinárias.
Tudo isto não é menos
extraordinário, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dois rapazes fariam
um só mancebo, nem a moça seria uma só donzela. Corrigiria a natureza
desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto na unificação de Pedro e
Paulo. Porquanto, esse efeito de visão repetia-se ao pé deles, tal qual na
ausência, quando ela se deixava esquecer do lugar, e soltava a rédea a si
mesma. Ao piano, à palestra, ao passeio na chácara, à mesa de jantar, tinha
dessas visões repentinas e breves, e das quais ela mesma sorria, a princípio.
Se alguém quiser explicar este
fenômeno pela lei da hereditariedade supondo que ele era a forma afetiva da
variação política da mãe de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em
ninguém. São coisas diversas. Conheceis os motivos de D. Cláudia; a filha teria
outros que ela própria não sabia. O único ponto de semelhança é que, tanto na
mãe como na filha, o fenômeno era agora mais freqüente, mas em relação à
primeira vinha do atropelo dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revolução se
faz como a simples passagem de uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas
de palácio trazem alguma agitação que fica por certo prazo, até que a água
volte ao nível. D. Cláudia cedia à inquietação dos tempos.
A filha obedeceria a outra causa
qualquer, que se não podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um
espetáculo misterioso, vago, obscuro, em que as figuras visíveis se faziam
impalpáveis, o dobrado ficava único, o único desdobrado, uma fusão, uma
confusão, uma difusão...
CAPÍTULO LXXX / TRANSFUSÃO,
ENFIM
Uma transfusão, tudo o que puder
definir melhor, pela repetição e graduação das formas e dos estados, aquele
particular fenômeno, podes empregá-lo no outro e neste capítulo.
Dito o fenômeno, é preciso dizer
também que Flora, a princípio, achava-lhe graça. Minto; nos primeiros tempos,
como estava longe, não lhe achou nada; depois, sentiu uma espécie de susto ou
vertigem, mas logo que se acostumou a passar de dois a um e de um a dois,
pareceu-lhe graciosa a alternação, e chegava a evocá-la com o propósito de
divertir a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se de si
mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantânea. Não eram tão
freqüentes que confinassem com o delírio. Enfim, ela se foi acostumando e
deleitando.
Uma ou outra vez, na cama, antes
de dormir, repetia-se o fenômeno, depois de muita resistência da parte dela,
que não queria perder o sono. Mas o sono vinha, e o sonho completava a vigília.
Flora passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro, e
ambos iam admirar estrelas e montanhas, ou então o mar, que suspirava ou
tempestuava, e as flores e as ruínas. Não era raro ficarem os dois a sós,
diante de uma nesga de céu, claro de luar, ou todo repregado de estrelas como
um pano azul escuro. Era à janela, supõe; vinha de fora a cantiga dos ventos
mansos, um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras dela e
dele, confirmando a imaginação dela. Como era sonho, a imaginação trazia
espetáculos desconhecidos, tais e tantos que mal se podia crer bastasse o
espaço de uma noite. E bastava. E sobrava. Sucedia que Flora acordava de
repente, perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo ilusão, e raro
então dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cansava-se, até adormecer
novamente e sonhar outra coisa.
Outras vezes, a visão ficava sem
o sonho, e diante dela uma só figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo
gesto súplice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braços sobre os ombros com o fim
inconsciente de cruzar os dedos atrás do pescoço, a realidade, posto que
ausente, clamou pelos seus foros, e o único moço se desdobrou nas duas pessoas
semelhantes.
A diferença deu às duas visões
de acordada um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no
Diabo.
CAPÍTULO LXXXI / AI, DUAS
ALMAS...
Anda, Flora, ajuda-me, citando
alguma coisa, verso ou prosa, que exprima a tua situação. Cita Goethe, amiga
minha, cita um verso do Fausto, adequado:
Ai, duas almas no meu seio
moram!
A mãe dos gêmeos, a bela
Natividade, podia havê-lo citado também, antes deles nascerem, quando elas os
sentia lutando dentro em Si mesma:
Ai, duas almas no meu seio
moram!
Nisto as duas se parecem, — uma
os concebeu, outra os recolheu. Agora, como é que se dá ou se dará a escolha de
Flora, nem o próprio Mefistófeles no-lo explicaria de modo claro e certo. O
verso basta:
Ai, duas almas no meu seio
moram!
Talvez aquele velho Plácido, que
lá deixamos nas primeiras páginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em
matérias escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos números, a
significação dos gestos não só visíveis como invisíveis, a estatística da
eternidade a divisibilidade do infinito. Era já morto desde alguns anos. Hás de
lembrar-te que ele, consultado pelo pai de Pedro e Paulo, acerca da hostilidade
original dos gêmeos, explicou-a prontamente. Morreu no seu ofício; expunha a
três discípulos novos a correspondência das letras vogais com os sentidos do
homem. quando caiu de bruços e expirou.
Já então os adversários de
Plácido, — que os tinha na própria seita, — afirmavam haver ele aberrado da
doutrina, e, por natural efeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com
esses divergentes da causa comum, que acabaram formando outra igrejinha em
outro bairro, onde pregavam que a correspondência exata não era entre as vogais
e os sentidos, mas entre os sentidos e as vogais. Esta outra fórmula, parecendo
mais clara, fez com que muitos discípulos da primeira hora acompanhassem os da
última, e proclamem agora, como conclusão final, que o homem é um alfabeto de
sensações.
Venceram estes, ficando mui
poucos fiéis à doutrina do velho Plácido. Evocado algum tempo depois de morto,
confessou ele ainda uma vez a sua fórmula, como a única das únicas, e
excomungou a quantos pregassem o contrário. Aliás, os dissidentes já o haviam
excomungado também, declarando abominável a sua memória, com aquele ódio rijo,
que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão da piedade.
Talvez o velho Plácido
deslindasse o problema em cinco minutos. Mas para isso era preciso evocá-lo, e
o discípulo Santos cuidava agora de umas liquidações últimas e lucrativas. Não
só de fé vive o homem, mas também de pão e seus compostos e similares.
CAPÍTULO LXXXII / EM S. CLEMENTE
Ao cabo de poucas semanas, a
família Batista saiu da casa Santos, e tornou à Rua de S. Clemente. A despedida
foi terna, as saudades começaram antes da separação, mas a afeição, o costume,
a estima, — a necessidade, em suma, de se verem a miúdo compensaram a
melancolia, e a gente Batista levou promessa de que a gente Santos iria vê-la
daí a poucos dias.
Os gêmeos cumpriram cedo a
promessa. Um deles, parece que Paulo, foi lá nessa mesma noite com recado da
mãe para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, acrescentando
Batista, para abreviar a visita, que estavam bastante cansados. Os olhos de
Flora desmentiram esta afirmação; mas dentro em pouco achavam-se não menos
tristes que alegres. A alegria vinda da prontidão de Paulo, a tristeza da
ausência de Pedro. Quisera-os ambos naturalmente; mas, como é que as duas
sensações se mostravam a um tempo; eis o que não entenderás bem nem mal.
Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu à moça
ouvir rumor na escada; tudo ilusão. Mas estes gestos que Paulo não viu, tão
contente estava de se haver adiantado ao irmão, não eram tais que a fizessem
esquecer o irmão presente.
Paulo saiu tarde, não só para o
fim de aproveitar a ausência de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar,
com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensação
enchia os olhos da moça, até a hora da despedida, em que a parte triste foi
maior que a alegre, pois que eram duas ausências, em vez de uma. Conclui o que
quiseres, minha dona; ela recolheu-se para dormir, e reconheceu que, se não
dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.
CAPÍTULO LXXXIII / A GRANDE
NOITE
Há muito remédio contra a
insônia. O mais vulgar é contar de um até mil, dois mil, três mil ou mais, se a
insônia não ceder logo. É remédio que ainda não fez dormir ninguém, ao que
parece, mas não importa. Até agora, todas as aplicações eficazes contra a
física vão de par com a noção de que a tísica é incurável. Convém que os homens
afirmem o que não sabem, e, por ofício, o contrário do que sabem; assim se
forma esta outra incurável, a Esperança.
Flora, incurável também, se não
preferes a definição de inexplicável, que lhe deu Aires, a graciosa Flora teve
naquela noite a sua insônia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar
quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um dos dois deles, e
gastar uma parte da noite, à janela ou sentada, a recordar e a pensar, a
cotejar e a completar, metida no roupão de linho, com os cabelos atados para
dormir.
A princípio pensou no que lá
estivera, e evocou todas as suas graças, realçadas pela virtude particular de a
ter ido ver à noite, sem embargo de se terem visto de manhã. Sentia-se grata.
Toda a conversação foi ali repetida na solidão da alcova, com as entonações
diversas, o vário assunto, e as interrupções freqüentes, ora dos outros, ora
dela mesma. Ela, em verdade, só interrompia, para pensar no ausente, — e
portanto não fazia mais que converter o diálogo em monólogo, o qual por sua vez
acabava em silêncio e contemplação.
Agora, pensando em Paulo, queria
saber por que é que o não escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a
nota aventurosa do caráter, e esta feição não lhe desprazia. Inexplicável ou
não, deixava-se levar pelos ímpetos do rapaz, que queria trocar o mundo e o
tempo por outros mais puros e felizes. Aquela cabeça, apenas masculina, era
destinada a mudar a marcha do Sol, que andava errado. A Lua também. A Lua pedia
um contacto mais freqüente com os homens, menos quartos, não descendo o
minguante de metade. Visível todas as noites, sem que isso acarretasse a decadência
das estrelas, continuaria modestamente o ofício do Sol, e faria sonhar os olhos
insones ou só cansados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de Paulo, faminta
de perfeição. Era um bom marido, em suma. Flora cerrou as pálpebras, para vê-lo
melhor, e achou-o a seus pés, com as mãos dela entre as suas, risonho e
extático.
— Paulo! meu querido Paulo!
Inclinou-se, para vê-lo de mais
perto, e não perdeu o tempo nem a intenção. Visto assim; era mais belo que
simplesmente conversando das coisas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos
olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que lá viu não soube dizê-lo bem;
foi tudo tão novo e radiante que a pobre retina da moça não podia fitar nada
com segurança nem continuidade. As idéias faiscavam como saindo de um fogareiro
à força de abano, as sensações batiam-se em duelo, as reminiscências subiam
frescas, algumas saudades, e ambições principalmente, umas ambições de asas
largas, que faziam vento só com agitá-las. Sobre toda essa mescla e confusão
chovia ternura, muita ternura...
Flora recolheu os olhos, Paulo
estava na mesma postura; mas do lado da porta, metido na penumbra, a figura de
Pedro aparecia, não menos bela, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada
daquela tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo
podia chorar lágrimas de sangue, sem lhe merecer a menor simpatia. Que o amor,
conforme as ninfas antigas e modernas, não tem piedade. Quando há piedade para
outro, dizem elas, é que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu de
todo, e assim o coração não lhe importa vestir essa primeira camisa do afeto.
Perdoa a figura; não é nobre, nem clara, mas a situação não me dá tempo de ir à
cata de outra.
Pedro aproximou-se, a passo
lento, ajoelhou-se também e tomou-lhe as mãos que Paulo apertava entre as suas.
Paulo ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava
entre elas. Talvez Paulo fosse bramindo de cólera; ela é que não ouviu nada,
tão docemente vivo era o gesto de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos
tão extáticos como os do irmão. Não eram tais que saíssem, como os deste, às
aventuras. Tinham a quietação de quem não queria mais sol nem lua que esses que
andam aí, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida de os
trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o acordo entre si e
as coisas, não menos simpáticos ao coração da moça, ou por trazerem a idéia de
perpétua ventura, ou por darem a sensação de uma alma capaz de resistir.
Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, até chegar à alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia ser o escrúpulo de cotejar as duas pa