Aluísio Azevedo
Seriam onze horas da manhã.
O Campos, segundo o costume, acabava
de descer do almoço e, a pena atrás da orelha, o lenço por dentro do colarinho,
dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no seu
escritório e foi sentar-se à secretária.
Defronte dele, com uma gravidade
oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração mercantil. Ao lado, uma
prensa de copiar, um copo de água, sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante,
sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se o Diário deitado de costas
e aberto de par em par.
Tratava-se de fazer a
correspondência para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma nova carta,
lançando cuidadosamente no papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando
foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe perguntou se
podia falar com o Sr. Luís Batista de Campos.
— Tenha bondade de entrar, disse
este.
O rapaz aproximou-se das grandes de
cedro polido que o separavam do comerciante.
Era de vinte anos, tipo do Norte,
franzino, amorenado, pescoço estreito, cabelos crespos e olhos vivos e
penetrantes se bem que alterados por um leve estrabismo.
Vestia casimira clara, tinha um
alfinete de esmeralda na camisa, um brilhante na mão esquerda e uma grossa
cadeia de ouro sobre o ventre. Os pés, coagidos em apertados sapatinhos de
verniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da calça.
— Que deseja o senhor? perguntou
Campos, metendo de novo a pena atrás da orelha e pousando um pedaço de papel
mata-borrão sobre o trabalho.
O moço avançou dois passos, com ar
muito acanhado, o chapéu de pelo seguro por ambas as mãos, a bengala debaixo do
braço.
— Desejo entregar esta carta, disse,
cada vez mais atrapalhado com o seu chapéu e a sua bengala, sem conseguir tirar
da algibeira um grosso maço de papéis que levava.
Não havia onde pôr o maldito chapéu,
e a bengala tinha-lhe já caído no chão, quando Campos foi em seu socorro.
— Cheguei hoje do Maranhão,
acrescentou o provinciano, sacando as cartas finalmente.
As últimas palavras do moço pareciam
interessar deveras o negociante, porque este, logo que as ouviu, passou a
considerá-lo da cabeça aos pés, e exclamou depois:
— Ora espere... O senhor é o
Amâncio!
O outro sorriu, e, entregando-lhe a
carta, pediu-lhe com um gesto que a lesse.
Não foi preciso romper o
sobrescrito, porque vinha aberta.
— É de meu pai... disse Amâncio.
— Ah! é do velho Vasconcelos?...
Como vai ele?
— Assim, assim... O que o atrapalha
mais é o reumatismo. Agora está em uso da Salça-ecaroba, do Holanda.
— Coitado! lamentou Campos com um
suspiro — Ele sofre há tanto tempo!...
E passou a ler a carta depois de dar
uma cadeira a Amâncio, que já estava para dentro das grades.
— Pois, sim, senhor! disse ao
terminar a leitura. — Está o meu amigo na Corte, e homem! Como corre o
tempo!...
Amâncio tornou a sorrir.
— Parece que ainda foi outro dia que
o vi, deste tamanho, a brincar no armazém de seu pai.
E mostrou com a mão aberta o tamanho
de Amâncio naquela época.
— Foi há seis anos, observou o moço,
limpando o suor que lhe corria abundante pelo rosto.
Fez-se uma pequena pausa e em
seguida Campos falou do muito que devia ao falecido irmão e sócio do velho
Vasconcelos; citou os obséquios que lhe merecera; disse que encontrara nele “um
segundo pai” e terminou perguntando quais eram as intenções de Amâncio na
Corte. — Se vinha estudar ou empregar-se.
— Estudar! acudiu o provinciano.
Queria ver se era possível
matricular-se ainda esse ano na Escola de Medicina. Não negava que se havia
demorado um pouquinho nos preparatórios... mas seria dele a culpa?... Só com
umas sezões que apanhara na fazenda da avó, perdera três anos...
Campos escutava-o com atenção.
Depois perguntou-lhe se já havia almoçado.
Amâncio disse que sim, por
cerimônia.
— Venha então jantar conosco;
precisamos conversar mais à vontade. Quero apresentá-lo à minha gente.
O rapaz concordou, mas ainda tinha
que entregar várias cartas e várias encomendas que trouxera. Campos talvez
conhecesse os destinatários.
Mostrou-lhe as cartas; eram quase
todas de recomendação.
— O melhor é tomar um carro,
aconselhou o negociante. — Olhe, vou dar-lhe um moço aí de casa, para o guiar.
E, pelo acústico, que havia a um
canto do escritório, chamou um caixeiro.
Dali a pouco Amâncio saía,
acompanhado por este, prometendo voltar para o jantar.
A casa de Luís Campos era na Rua
Direita. Um desses casarões do tempo
antigo, quadrados e sem gosto, cujo o ar severo e recolhido está a dizer
no seu silêncio os rigores do velho comércio português.
Compunha-se do vasto armazém ao
rés-do-chão, e mais dois andares; no primeiro dos quais estava o escritório e à
noite aboletavam-se os caixeiros, e no segundo morava o negociante com a mulher
— D. Maria Hortênsia, e uma cunhada — D. Carlotinha.
A mesa era no andar de cima.
Faziam-se duas: uma para o dono da casa, a família, o guarda-livros e hóspedes,
se os havia, o que era freqüente; e a outra só para os caixeiros, que subiam ao
número de cinco ou seis.
Apesar de inteligente e de
brasileiro, Campos nunca logrou espantar de sua casa o ar triste que a
ensombrecia. À mesa, quando raramente se palestrava, era sempre com muita
reserva; não havia risadas expansivas, nem livres exclamações de alegria. Os
hóspedes, pobre gente de província, faziam uma cerimônia espessa; o
guarda-livros poucas vezes arriscava a sua anedota e só se determinava a isso
tendo de antemão escolhido um assunto discreto e conveniente.
Campos não apertava a bolsa em
questões de comida; queria mesa farta: quatro pratos ao almoço, café e leite à
discrição; ao jantar seis, sopa e vinho. Os caixeiros falavam com orgulho dessa
generosidade e faziam em geral boa ausência do patrão, que, entretanto, fora
sempre de uma sobriedade rara: comia pouco, bebia ainda menos e não conhecia os
vícios senão de nome.
Aos domingos, às vezes mesmo em dia
de semana, aparecia para o jantar um ou outro estudante comprovinciano dos
Campos ou algum freguês do interior, que estivesse de passagem na Corte e a
quem lhe convinha agradar.
Luís Campos era homem ativo, caprichoso
no serviço de que se encarregava e extremamente suscetível em pontos de honra;
quer se tratasse de sua individualidade privada, quer de sua responsabilidade
comercial.
Não descia nunca ao armazém, ou
simplesmente ao escritório, sem estar bem limpo e preparado. Caprichava no
asseio do corpo: as unhas, os cabelos e dentes mereciam-lhe bons desvelos e
atenções.
Entre os companheiros, passava por
homem de vistas largas e espírito adiantado; nos dias de descanso dava-se todo
ao Figuier, ao Flammarion e ao Júlio Verne; outras vezes, poucas, atirava-se à
literatura; mas os verdadeiros mestres aborreciam-no e entreturbavam-no com os
rigorismos da forma.
— É um bom tipo! diziam os
estudantes à volta do jantar, e no seguinte domingo lá estavam de novo. O “bom
tipo” tratava-o muito bem, levava-os com a família para a sala, oferecia-lhes
charutos, cerveja, e nunca exigia que lhe restituíssem os livros que lhes
emprestava.
Quanto à sua vida comercial, pouco
se tem a dizer. Até aos dezoito anos, Campos estivera no Maranhão, para onde
fora em pequeno de sua província natal, o Ceará. No Maranhão fez os primeiros
estudos e deu os primeiros passos no comércio, pela mão de um velho negociante,
amigo de seu pai.
Esse velho foi o seu protetor e seu
guia; só com a morte dele se passou Campos para o Rio de Janeiro, onde, graças
ainda a certas relações da família de seu benfeitor, conseguiu arranjar-se logo
como ajudante de guarda-livros, em uma casa de comissões. Desta saiu para
outra, melhorando sempre de fortuna, até que afinal o admitiram, como gerente,
no armazém de uns tais Garcia, Costa & Cia.
O tal Garcia morreu, Campos passou a
ser interessado na casa; morreu depois o Costa, e Campos chamou um sócio de
fora, um capitalista, e ficou sendo a principal figura da firma.
Por esse tempo encontrou D. Maria
Hortênsia, menina de boa família, sofrivelmente ajuizada e com dote. Pouco
levou a pedi-la e a casar-se.
Nunca se arrependera de semelhante
passo. Hortênsia saíra uma excelente dona de casa, muito arranjadinha, muito
amiga de poupar, muito presa aos interesses de seu marido, e limpa, “limpa, que
fazia gosto”!
O segundo andar vivia, pois, num
brinco; nem um escarro seco no chão. Os móveis luziam, como se tivessem chegado
na véspera da casa do marceneiro; as roupas da cama eram de uma brancura fresca
e cheirosa; não havia teias de aranha nos tetos ou nos candeeiros e os globos
de vidro não apresentavam sequer a nódoa de uma mosca.
E Campos sentiu-se bem no meio dessa
ordem, desse método. Procurava todos os dias enriquecer os trens de sua casa,
já comprando umas jardineiras, que lhe chamaram a atenção em tal rua; já
trazendo uma estatueta, um quadro, uma nova máquina de fazer sorvetes, ou um
sistema aperfeiçoado para esta ou aquela utilidade doméstica.
Gostava que em sua casa houvesse um
pouco de tudo. Não aparecia por aí qualquer novidade, qualquer novo aparelho de
bater ovos, gelar vinhos, regar plantas, que Campos não fosse um dos primeiros
a experimentar.
A mulher, às vezes, já se ria quando
ele entrava da rua abraçado a um embrulho.
— Que foi que se inventou?...
perguntava com uma pontinha de mofa.
O marido não fazia esperar a
justificação do seu novo aparelho, e, tal interesse punha em jogo, que parecia
tratar de uma obra própria, de cujo sucesso dependesse a sua felicidade. E,
logo que encontrasse algum amigo, não deixava de falar nisso; gabava-se da
compra que fizera, encarecia a utilidade do objeto e aconselhava a todos que
comprassem um igual.
Campos, depois do casamento,
principiou a prosperar de um modo assombroso; dentro de três anos era o que
vimos: — rico, muito acreditado e seguro na praça.
E, contudo, não tinha mais do que
trinta e seis anos de idade.
— É um felizardo! resmungavam os
colegas com o olhar fito. — É um felizardo! Quem o viu, como eu, há tão pouco
tempo!...
— Mas sempre teve boa cabeça!...
— São fortunas, homem! Outros há por
aí que fazem o dobro e não conseguem a metade!
— Não! ele merece, coitado! É muito
bom moço, muito expedito e trabalhador!
— Homem! todos nós somos bons!... O
que lhe afianço é que nunca em minha vida consegui pôr de parte um bocado de
dinheiro!
E o caso era que Campos, ou devido à
fortuna ou ao bom tino para os negócios, prosperava sempre.
*
* *
Às quatro horas da tarde apareceu de novo Amâncio.
Vinha esbaforido. O dia estava
horrível de calor. Campos foi recebê-lo com muito agrado.
— Então? disse-lhe. Está livre das
cartas?
— Qual! respondeu o moço — tenho
ainda cinco para entregar. Uma estafa! No Maranhão nunca senti tanto calor!...
— Falta de hábito! observou o outro.
Daqui a dias verá que isto é muito mais fresco!
— Estou desta forma!... queixava-se
Amâncio, quase sem fôlego, a mostrar o colarinho desfeito e os punhos
encardidos.
— Suba, volveu Campos, empurrando-o
brandamente. — Tome qualquer coisa. Vá entrando sem-cerimônia.
E, já na escada do segundo andar,
perguntou de súbito:
— É verdade! e a sua bagagem?...
— Está tudo no Coroa de Ouro.
Hospedei-me lá.
— Bem.
E subiram.
Amâncio deixou-se ficar na sala de
visitas; o outro correu a prevenir a mulher.
— Neném! disse ele. Sabes? hoje
temos ao jantar um moço que chegou do Norte, um estudante. É preciso
oferecer-lhe a casa.
Hortênsia respondeu com um gesto de
má vontade.
— Não! replicou o negociante. É uma
questão de gratidão!... Devo muitos obséquios à família deste rapaz! Lembras-te
daquele velho, de que te falei, aquele que foi quem me deu a mão lá no
Norte?... Pois este é o sobrinho, é filho do Vasconcelos. Não nos ficaria bem
recebê-lo assim, sem mais nem menos!...
— Mas, Lulu, isto de meter
estudantes em casa é o diabo! Dizem que é uma gente tão esbodegada!
— Ora, coitado! ele até me parece
meio tolo! Além disso, não seria o primeiro hóspede!...
— Queres agora comparar um estudante
com aqueles tipos de Minas que se hospedam aqui!...
— Mas se estou dizendo que o rapaz
até parece tolo...
— Manhas, homem! Todos eles parecem
muito inocentes, e depois... Enfim, tu farás o que entenderes!... Só te previno
de que esta gente é muito reparadeira!
— Não há de ser tanto assim!...
E Campos voltou à sala.
Amâncio soprava, estendido em uma
cadeira de balanço a abanar-se com o lenço.
— Muito calor, hein? perguntou
Campos, entrando.
— Está horroroso, disse aquele.
E resfolegou-se com mais força.
— Venha antes para este lado. Aqui
para a sala de jantar é mais fresco. Venha! Eu vou dar-lhe um paletó de brim.
Amâncio esquivava-se, fazendo
cerimônia; mas o outro, com o segredo da hospitalidade que em geral possui o
cearense, obrigou-o a entrar para um quarto e mudar de roupa.
O jantar, como sempre, correu frio e contrafeito. Amâncio não
tinha apetite, porque pouco antes comera mães-bentas em um café; Campos, porém,
desfazia-se em obséquios e empregava todos os meios de lhe ser agradável.
— Vá, mais uma fatia de pudim,
insistia ele a tentá-lo.
— Não, não é possível, respondia o
hóspede, limpando sempre o rosto com o lenço.
À sobremesa falou-se no velho
Vasconcelos e mais no irmão. O negociante lembrou ainda as obrigações que devia
à família de Amâncio, citou pormenores de sua vida no Maranhão; elogiou muito a
província; disse que havia lá mais sociabilidade que no Rio de Janeiro, e
acabou brindando a memória de seu benfeitor, de seu segundo pai.
Maria Hortênsia parecia tomar parte
no reconhecimento do marido e, sempre que se dirigia ao estudante, tinha nos
lábios um sorriso de amabilidade.
Carlotinha não dera uma palavra
durante o jantar. Comia vergada sobre o seu prato e só ergueu a cabeça na
ocasião de deixar a mesa.
Amâncio, todavia, não a perdera de
vista.
Às sete horas da tarde, quando se
despediu, estava já combinado que no dia seguinte ele voltaria com as malas,
para hospedar-se em casa do Campos.
— É melhor... disse este — é muito
melhor! Ali o senhor não pode estar bem; sempre é vida de hotel! venha para cá;
faça de conta que minha família é a sua!
Amâncio prometeu, e saiu,
reconsiderando pelo caminho todas as impressões desse dia.
Mais tarde, deitado na cama do Coroa
de Ouro, com o corpo moído, o espírito saturado de sensações, procurava
recapitular o que tinha a fazer no dia seguinte; e, bocejando, via, de olhos
fechados, o vulto amoroso de Hortênsia a sorrir para ele, estendendo-lhe no ar
os belos braços, palpitantes e carnudos.
II
No dia seguinte mudava-se Amâncio
para a casa do Campos. Seria por pouco tempo —
até que descobrisse um “cômodo definitivo”.
Deixou com algum pesar o hotel.
Aquela vida boêmia, com os seus almoços em mesa-redonda, o seu quartinho, uma
janela sobre os telhados, e a plena liberdade de estar como bem entendesse,
tinha para ele um sedutor encanto de novidade.
Nunca saíra do Maranhão; vira de
longe a Corte através do prisma fantasmagórico de seus sonhos. O Rio de
Janeiro, afigurava-se-lhe um Paris de Alexandre Dumas ou de Paulo de Kock, um
Paris cheio de canções de amor, um Paris de estudantes e costureiras, no qual
podia ele à vontade correr as suas aventuras, sem fazer escândalo como no diabo
da província.
Há muito tempo ardia de impaciência
por tal viagem: pensara nisso todos os dias; fizera cálculos, imaginara futuras
felicidades. Queria teatros bufos, ceias ruidosas ao lado de francesas,
passeios fora de horas, a carro, pelos arrabaldes. Seu espírito, excessivamente
romântico, como o de todo maranhense nessas condições, pedia uma grande cidade,
velha, cheia de ruas tenebrosas, cheias de mistérios, de hotéis, de casas de
jogo, de lugares suspeitos e de mulheres caprichosas; fidalgas encantadoras e
libertinas, capazes de tudo, por um momento de gozo. E Amâncio sentia
necessidade de dar começo àquela existência que encontrara nas páginas de mil
romances. Todo ele reclamava amores perigosos, segredos de alcova e loucuras de
paixão.
Entretanto, o seu tipo franzino,
meio imberbe, meio ingênuo, dizia justamente o contrário. Ninguém, contemplando
aquele insignificante rosto moreno, um tanto chupado, aqueles pômulos
salientes, aqueles olhos negros, de uma vivacidade quase infantil, aquela boca
estreita, guarnecida de bons dentes, claros e alinhados, ninguém acreditaria
que ali estivesse um sonhador, um sensual, um louco.
Sua pequena testa, curta e sem espinhas,
margeada de cabelos crespos, não denunciava o que naquela cabeça havia de
voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e modesto, não deixava transparecer
a brutalidade daquele temperamento cálido e desensofrido.
Amâncio fora muito mal-educado pelo
pai, português antigo e austero, desses que confundem o respeito com o terror.
Em pequeno levou muita bordoada; tinha um medo horroroso de Vasconcelos; fugia
dele como de um inimigo, e ficava todo frio e a tremer quando lhe ouvia a voz
ou lhe sentia os passos. Se acaso algumas vezes se mostrava dócil e amoroso,
era sempre por conveniência: habituou-se a fingir desde esse tempo.
Sua mãe, D. Ângela, uma santa de
cabelos brancos e rosto de moço, não raro se voltava contra o marido e
apadrinhava o filho. Amâncio agarrava-se-lhe às saias fora de si, sufocado de
soluços.
Aos sete anos entrou para a escola.
Que horror!
O mestre, um tal de Antônio Pires,
homem grosseiro, bruto, de cabelo duro e olhos de touro, batia nas crianças por
gosto, por um hábito de ofício. Na aula só falava a berrar, como se dirigisse
uma boiada. Tinha as mãos grossas, a voz áspera, a catadura selvagem; e quando
metia para dentro um pouco mais de vinho, ficava pior.
Amâncio, já na Corte, só de pensar
no bruto, ainda sentia os calafrios dos outros tempos, e com eles vagos desejos
de vingança. Um malquerer doentio invadia-lhe o coração, sempre que se lembrava
do mestre e do pai. Envolvia-os no mesmo ressentimento, no mesmo ódio surdo e
inconfessável.
Todos os pequenos da aula tinham
birra ao Pires. Nele enxergavam o carrasco, o tirano, o inimigo e não o mestre;
mas, visto que qualquer manifestação de antipatia redundava fatalmente em
castigo, as pobres crianças fingiam-se satisfeitas; riam muito quando o
beberrão dizia alguma chalaça, e afinal, coitadas! iam-se habituando ao
servilismo e à mentira.
Os pais ignorantes, viciados pelos
costumes bárbaros do Brasil, atrofiados pelo hábito de lidar com escravos,
entendiam que aquele animal era o único professor capaz de “endireitar os
filhos”.
Elogiavam-lhe a rispidez,
recomendavam-lhe sempre que “não passasse a mão pela cabeça dos rapazes” e que,
quando fosse preciso, “dobrasse por conta deles a dose de bolos”.
Ângela, porém, não era dessa
opinião: não podia admitir que seu querido filho, aquela criaturinha fraca,
delicada, um mimo de inocência e de graça, um anjinho, que ela afagava com
tanta ternura e com tanto amor, que ela podia dizer criada com os seus beijos —
fosse lá apanhar palmatoadas de um brutalhão daquela ordem! “Ora! isso não tinha
jeito!”
Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo
em cima: Que deixasse lá o pequeno com o mestre!... Mais tarde ele havia de
agradecer aquelas palmatoadas!
Assim não sucedeu. Amâncio alimentou
sempre contra o Pires o mesmo ódio e a mesma repugnância. Verdade é que também
fora sempre tido e havido pelo pior dos meninos da aula, pelo mais atrevido e
insubordinado. Adquiriu tal fama com o seguinte fato:
Havia na escola um rapazito,
implicante e levado dos diabos, que se assentava ao lado dele e com quem vivia sempre
de turra.
Um dia pegaram-se mais seriamente.
Amâncio teria então oito anos. Estava a coisa ainda em palavras, quando entrou
o professor, e os dois contendores tomaram à pressa os seus competentes
lugares.
Fez-se respeito. Todos os meninos
começaram a estudar em voz alta, com afetação. Mas, de repente, ouviu-se o
estalo de uma bofetada.
Houve rumor. Pires levantou-se,
tocou uma campainha, que usava para esses casos, e sindicou do fato.
Amâncio foi único acusado.
— Sr. Vasconcelos! — gritou o mestre
— por que espancou aquele menino?
Amâncio respondera humildemente que
o menino insultara sua mãe.
— É mentira! protestou o novo
acusado.
— Que disse ele?! perguntou Pires.
Amâncio repetiu o insulto que
recebera. Toda a escola rebentou em gargalhadas.
— Cale-se atrevido! berrou o
professor encolerizado a tocar a campainha. — Mariola! Dizer tal coisa em pleno
recinto de aula!
E, puxando a pura força o
delinqüente para junto de si, ferrou-lhe meia dúzia de palmatoadas.
Amâncio, logo que se viu livre, fez
um gesto de raiva.
— Ah! ele é isso? exclamou o
professor. — Tens gênio, tratante?! Ora espera! isso tira-se.
E voltando-se para o rapazito que
levou a bofetada, entregou-lhe a férula e disse-lhe que aplicasse outras tantas
palmatoadas em Amâncio.
Este declarou formalmente que não se
submetia ao castigo. O professor quis submetê-lo à força; Amâncio não abriu as
mãos. Os dedos pareciam colados contra a palma.
O professor, então, desesperado com
semelhante contrariedade, muito nervoso, deixou escapar a mesma frase que pouco
antes provocara tudo aquilo.
Amâncio recuou dois passos e soltou
uma nova bofetada, mas agora na cara do próprio mestre. Em seguida deitou a
fugir, correndo.
Um “Oh!” formidável encheu a sala.
Pires, rubro de cólera, ordenou que prendessem o atrevido. A aula ergueu-se em
peso, com grande desordem. Caíram bancos e derramaram-se tinteiros. Todos os
meninos abraçaram sem hesitar a causa do mestre, e Amâncio foi agarrado no
corredor quando ia alcançar a rua.
Mas quatro pontapés puseram em
fugida os dois primeiros rapazes que lhe lançaram os dedos. Dois outros
acudiram logo e o seguraram de novo, depois vieram mais três, mais oito, vinte,
até que todos os quarenta ou cinqüenta estudantes o levaram à presença do
Pires, alegres, vitoriosos, risonhos, como se houvessem alcançado uma glória.
Amâncio sofreu novo castigo; serviu
de escárnio aos seus condiscípulos e, quando chegou a casa, o pai, informado do
que sucedera na escola, deu-lhe ainda uma boa sova e obrigou-o a pedir perdão,
de joelhos, ao professor e ao menino da bofetada.
Desde esse instante, todo o
sentimento de justiça e de honra que Amâncio possuía, transformou-se em ódio
sistemático pelos seus semelhantes. Ficou fazendo um triste juízo dos homens:
— Pois se até seu próprio pai,
diretamente ofendido na questão, abraçara a causa mais forte!...
Só Ângela, sua adorada, sua santa
mãe, à noite, ao beijá-lo antes de dormir, depois de lhe perguntar se ficara
muito magoado com o castigo, segredara-lhe entre lágrimas que “ele fizera muito
bem...”
Como aquele, outros fatos se deram
na meninice de Amâncio. Todas às vezes que lhe aparecia um ímpeto de coragem,
sempre que lhe assistia um assomo de
dignidade, sempre que pretendia repelir uma afronta, castigar um insulto, o
pai, ou professor, caía-lhe em cima, abafando-lhe os impulsos pundonorosos.
Ficou medroso e descarado.
No fim de algum tempo já podiam na
escola insultar a mãe quantas vezes quisessem que ele não se abalaria; podiam
lançar-lhe em rosto as ofensas que entendessem porque ele se conservaria
impossível. Temia as conseqüências de qualquer desafronta. “Estava
domesticado”, segundo a frase do Pires.
Todavia, esses pequenos episódios da
infância, tão insignificantes na aparência, decretaram a direção que devia
tomar o caráter de Amâncio. Desde logo habituou-se a fazer uma falsa idéia de
seus semelhantes; julgou os homens por seu pai, seu professor e seus
condiscípulos. — E abominou-os. Principiou a aborrecê-los secretamente, por uma
fatalidade de ressentimento; principiou a desconfiar de todos, a prevenir-se
contra tudo, a disfarçar, a fingir que era o que exigiam brutalmente que ele
fosse.
Nunca lhe deram liberdade de espécie
alguma: Se lhe vinha uma idéia própria e desejava pô-la em prática,
perguntavam-lhe “a quem vira ele fazer semelhante asneira”.
Convenceram-mo de que só devemos
praticar aquilo que outros já praticaram. Opunham-lhe sempre o exemplo das
pessoas mais velhas; exigiam que ele procedesse com o mesmo discernimento de
que dispunham seus pais.
E os rebentões da individualidade, e
o que pudesse haver de original no seu caráter e na sua inteligência, tudo se
foi mirrando e falecendo, como os renovos de uma planta que regassem
diariamente com água morna.
À mesa devia ter a sisudez de um
homem. Se lhe apetecia rir, cantar, conversar, gritavam-lhe logo: “Tenha modo,
menino! Esteja quieto! comporte-se!”
E Amâncio, com medo da bordoada,
fazia-se grave, e cada vez ia-se tornando mais hipócrita e reservado. Sabia
afetar seriedade, quando tinha vontade de rir; sabia mostrar-se alegre, quando
estava triste; calar-se, tendo alguma recriminação a fazer; e, na igreja, ao
lado da família, sabia fingir que rezava e sabia agüentar por mais de uma hora
a máscara de um devoto.
Como o pai o queria inocente e
dócil, ele afetava grande toleima, fazia-se um ingênuo, muito admirado com as
coisas mais simples.
— É uma menina!... dizia a mãe,
convicta — Amâncinho tem já dez anos e conserva a candura de um anjo!
Vasconcelos nunca o puxava para
junto de si, nem conversava com ele, o interrogava; e quando a infeliz criança,
justamente na idade em que a inteligência se desabotoa, ávida de fecundação,
fazia qualquer pergunta, respondiam-lhe com um berro: “Não seja bisbilhoteiro,
menino!”
Amâncio emudecia e abaixava os
olhos, mas logo que o perdiam de vista, ia escutar e espreitar pelas portas.
Com semelhante esterco não podia
desabrochar melhor no seu temperamento o leite, que lhe deu a mamar uma preta
da casa.
Diziam que era uma excelente
escrava: tinha muito boas maneiras; não respingava aos brancos, não era
respondona: aturava o maior castigo sem dizer uma palavra mais áspera, sem
fazer um gesto mais desabrido. Enquanto o chicote lhe cantava nas costas, ela
gemia apenas e deixava que as lágrimas lhe corressem silenciosamente pelas faces.
Além disso — forte, rija para o
trabalho. Poderia nesse tempo valer bem um conto de réis.
Vasconcelos a compara, todavia,
muito em conta, “uma verdadeira pechincha!”, porque o demônio da negra estava
então que valia duas patacas; mas o senhor a metera em casa, dera-lhe algumas
garrafadas de laranja-da-terra, e a preta em breve começou a deitar corpo e a
endireitar, que era aquilo que se podia ver!
O médico, porém, não ia muito em que
a deixassem amamentar o pequeno.
— Esta mulher tem reuma no sangue,
dizia ele — e o menino pode vir a sofrer para o futuro.
Vasconcelos sacudiu os ombros e não
quis outra ama.
— O doutor que se deixasse de
partes!
A negra tomou muita afeição à cria.
Desvelava por ela noites consecutivas e, tão carinhosa, tão solícita se
mostrou, que o senhor, quando o filho deixou a mama, consentiu em passar-lhe a
carta de alforria por seiscentos mil-réis, que ela ajuntara durante quinze
anos. Mas a preta não abandonou a casa de seus brancos e continuou a servir,
como dantes; menos, está claro, no que dizia respeito aos castigos, porque a
desgraçada, além de forra, ia já caindo na idade.
Amâncio dera-lhe bastante que fazer.
Fora um menino levado da breca; só não chorava enquanto dormia e quando se
punha a espernear, não havia meio de contê-lo.
Era muito feio em pequeno. Um nariz
disforme, uma boca sem lábios e dois rasgões no lugar dos olhos. Não tinha um
fio de cabelo e estava sempre a fazer caretas.
A princípio — muito achacado de
feridas, coitadinho! Os pés frios, o ventre duro constantemente.
Levou muito para andar e custou-lhe
a balbuciar as primeiras palavras. Ângela adorava-o com entusiasmo do primeiro
parto; por duas vezes supôs vê-lo morto e deu promessas aos santos da sua
devoção.
Conseguiram faze-lo viver, mas
sempre fraquinho, anêmico, muito propenso aos ingurgitamentos escrofulosos.
Quando acabou as primeiras letras, não era, entretanto, dos
rapazes mais débeis da aula do Pires. Para isso contribuíram em grande parte
uns passeios que costumava dar, pelas férias, à fazenda de sua avó materna, em
São Bento.
Esses passeios representavam para
Amâncio a melhor época do ano. A avó, uma velha quase analfabeta, supersticiosa
e devota, permitia-lhe todas as vontades e babava-se de amores por ele. O
rapaz, escondia-lhe o cachimbo, pisava-lhe os canteiros da horta, divertia-se
em quebrar a pedradas as lamparinas dos santos suspensas na capela, e, às
vezes, quando não estava de boa maré, atirava com os pratos nos escravos que
serviam à mesa.
A avó ralhava, mas não podia conter
o riso. O netinho era o seu encanto, o fraco de sua velhice; só um pedido
daquele diabrete faria suspender o castigo dos negros e desviar do serviço da
roça algum dos moleques — para ir brincar com Nhôzinho. Estava sempre a dizer
que se queixava ao genro e que o devolvia para a cidade; mas no ano seguinte,
se Amâncio não aparecia logo no começo das férias, choviam os recados da velha
em casa de Vasconcelos, rogando que lhe mandassem o neto.
— Mande! mande o pequeno!
aconselhava o médico.
E lá ia Amâncio.
Só aos doze anos fez o seu exame de
português na aula do Pires.
Houve muita formalidade. A
congregação era presidida pelo Sotero dos Reis; havia vinte e tantos
examinandos. Amâncio tremia naqueles apuros. Não tinha em si a menor confiança.
Foi, contudo, “aprovado plenamente”.
Mas não sabia nada, quase que não sabia ler. Da gramática apenas lhe ficaram de
cor algumas regras, sem que ele compreendesse patavina do que elas definiam.
Pires nunca explicava: — se o pequeno tinha a lição de memória, passava outra,
e, se não tinha, dava-lhe algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma
para o dia seguinte.
Mas, enfim, estava habilitado a
entrar para o Liceu onde iria cursar as aulas de francês e geografia.
O Liceu, que bom! — oh! Aí não havia
castigos, não havia as pequenas misérias aterradoras da escola! Não poderia
faltar às aulas, é certo; mas, em todo o caso, estudaria quando bem entendesse
e, lá uma vez por outra, havia de “fazer a sua parede”!
E, só com pensar nisso, só com se
lembrar de que já não estava ao alcance das garras do maldito Pires, o coração
lhe saltava por dentro, tomado de uma alegria nervosa.
*
* *
O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar
oferecido aos senhores examinadores e aos velhos amigos da família.
À noite houve dança. Amâncio
convidou os companheiros do ano; compareceram somente os pobres — os que não
tinham em casa também a sua festa.
O pai, por instâncias de Ângela,
fizera-lhe presente de um relógio com a competente cadeia, tudo de ouro. A avó,
que se abalara da fazenda para assistir ao regozijo do seu querido mimalho,
trouxera-lhe de presente um moleque o Sabino.
Amâncio, todo cheio de si, a
rever-se na sua corrente e a consultar as horas de vez em quando, foi nesse dia
o alvo de mil felicitações, de mil brindes e de mil abraços.
Alguns amigos do pai profetizavam
nele uma glória da pátria e diziam que o João Lisboa, o Galvão e outros, não
tinham tido melhor princípio.
Lembraram-se todas as partidas
engraçadas de Amâncio, vieram à baila os repentes felizes que o diabrete tivera
até aí. Na cozinha a mãe preta, a ama, contava às parceiras as
travessuras do menino e, com os olhos embaciados de ternura, com uma espécie de
orgulho amoroso, referia sorrindo os trabalhos que ele lhe dera, as noites que
ela desvelara.
— Já em pequeno, diziam — era muito
sabido, muito esperto! enganava os mais velhos; tinha lábias, como ninguém,
para conseguir as coisas, e sabia empregar mil artimanhas para obter o que
desejava! — Não! definitivamente não havia outro!
Ângela, a um canto da varanda,
assentada entre as suas visitas, seguia o filho com um olhar temperado de mágoa
e doçura.
— O que lhe estaria reservado?... o
que o esperaria no futuro?... cismava a boa senhora, meneando tristemente a
cabeça — oh! às vezes cria-se um filho com tanto amor, com tanto amor, com
tanta lágrima, para depois vê-lo andar por aí aos trambolhões, nesse mundo de
Cristo!... E a idéia de que, talvez, nem sempre o teria perto de si, que nem
sempre o poderia obrigar a mudar a camisa quando estivesse suado; obrigá-lo a
tomar o remédio quando estivesse doente; obrigá-lo a comer, a dormir com
regularidade; a evitar, enfim, tudo que lhe pudesse prejudicar a saúde; oh! a
idéia de tudo isso lhe entrava no coração como um sopro gelado, e fazia tremer
a pobre mãe.
— Ai! ai! disse ela.
— Que suspiros são esses, D. Ângela?
perguntou o Dr. Silveira, que estava ao seu lado. Homem íntimo da casa e figura
conhecida na política da terra.
— Malucando cá comigo... respondeu a
senhora. E como o outro estranhasse a resposta: — Quem tem filho, tem cuidados,
senhor doutor!...
— Oh! oh! exclamou este, com um
gesto autorizado, abrindo muito a boca e os olhos. — A quem o diz, Sr.ª D.
Ângela, a quem o diz... Só eu sei o que me custam esses quatro pecados que aí
tenho!...
E para provar que dizia a verdade,
teria falado nos seus cabelos brancos, se não os pintasse.
Quando Ângela se afligia daquele
modo, sendo rica; quanto mais ele — pobre jurisconsulto, com pequenos
vencimentos e uma família enorme!...
— Ah os tempos vão muito maus...
Puseram-se logo a falar na ruindade
dos tempos. “Estava tudo pela hora da morte! — Comia-se dinheiro!”
Mas Silveira voltara-se rapidamente
para dar atenção a Amâncio, que acabava de aproximar-se, em silêncio, com o ar
presumido de quem tinha consciência de que toda aquela festa lhe pertencia.
— Então, meu estudante! — disse o
jurisconsulto, empinando a cabeça. — Já escolheu a carreira que deseja seguir?
— Marinha, respondeu Amâncio
secamente.
A farda seduzia-o. Nada conhecia
“tão bonito” como um oficial de marinha.
A mãe riu-se com aquela resposta, e
olhou em torno de si, chamando a atenção dos mais para o desembaraço do filho.
À meia-noite foram todos de novo
para a mesa. Vasconcelos era muito rigoroso quando recebia gente em casa; queria
que houvesse toda a fartura de vinhos e comidas. Os brindes reapareceram.
Abriram-se garrafas de Moscato d’Asti, Chateau Yquem e Champagne.
Conversou-se a respeito dos vinhos
de Vasconcelos. “O Maranhão era incontestavelmente uma das províncias onde melhor
se bebia!”
Do meio para o fim da ceia, Amâncio
sentiu-se outro.
Em uma ocasião que o pai se afastara
da mesa, ele pediu um brinde e cumprimentou as “pessoas presentes”.
Este fato causou delírios. O próprio
pai não se pôde conter e disse entredentes, a rir:
— Ora o rapaz saiu-me vivo!
Ângela abraçou o filho, chorando de
comovida.
— Que lhe disse eu?... resmungou
delicadamente Silveira ao ouvido dela. — Este menino promete! Dêem-lhe asas e
hão de ver... dêem-lhe asas!...
Amâncio foi coberto de ovações.
Batiam-se no copo, faziam-lhe saúdes. Ele a todos respondia, rindo e bebendo.
Daí a uma hora recolheram-no à cama
da mãe, porque lhe aparecera uma aflição na boca do estômago; mas vomitou logo
e adormeceu depois, completamente aliviado.
Foi a sua primeira bebedeira.
*
* *
Aos quatorze anos prestou exame de
francês e geografia e matriculou-se na aulas de gramática geral e inglês.
Já eram válidos felizmente, os
exames do Liceu do Maranhão, e com as cartas que daí houvesse, podia entrar nas
academias da Corte.
Amâncio, depois da escola do Pires,
nunca mais voltou a passar férias na fazenda da avó. Preferia ficar na cidade:
tinha namoros, gostava loucamente de dançar, já fumava e já fazia pândegas
grossas com os colegas do Liceu.
Como o pai não lhe dava liberdade,
nem dinheiro, e como exigia que ele às nove horas da noite se recolhesse à
casa, Amâncio arranjava com a mãe os cobres que podia e, quando a família já
estava dormindo, evadia-se pelos fundos do quintal. Era Sabino quem lhe abria e
fechava o portão.
O moleque gostava muito dessas
patuscadas. O senhor-moço levava-o às vezes em sua companhia. Amigos esperavam
por eles lá fora, reuniam-se; tinham um farnel de sardinhas, pão, queijo,
charutos e vinhos. Era pagodear até pela madrugada!
Se havia chinfrim — entravam,
ou então iam tomar banho no Apicum ou cear ao Caminho Grande. Em
noites de luar faziam serenatas; aparecia sempre alguém que tocasse violão ou
flauta ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos sábados o passeio era maior;
no dia seguinte Amâncio estava a cair de cansaço, aborrecido, necessitando de
repouso.
Mas não deixava de ir — Era tão bom
passear pela rua, quando toda a população dormia, fumar, quando tinha certeza
de que nenhum dos amigos de seu pai o pilharia com o charuto no queixo; era tão
bom beber pela garrafa, comer ao relento e perseguir uma ou outra mulher que
encontrassem desgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da cidade!
Tudo isso lhe sorria por prisma
voluptuoso e romanesco.
Às vezes entrava em casa ao amanhecer.
Não podia dormir logo; vinha excitado, sacudido pelas impressões e pela
bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem impotente de conceber
poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo, cantar
orgias, extravagâncias, delírios.
E afinal adormecia, lendo Mademoiselle
de Maupin, Olympia de Clèves ou Confession d’un enfant du siècle.
Não penetrava bem na intenção deste
último livro, mas tinha-o em grande conta e, visto conhecer a biografia de
Musset, embriagava-se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias estranhas,
amores céticos, viagens misteriosas e paixões indefinidas.
As criadas da casa ou as mulatinhas
da vizinhança já o enfaravam; era preciso descobrir amores mais finos, mais
dignos, que, nem só lhe contentassem a carne, como igualmente lhe socorres sem
as ânsias da imaginação.
Por esse tempo leu a Graziella
e o Raphael de Lamartine. Ficou possuído de uma grande tristeza; as
lágrimas saltaram-lhe sobre as páginas do livro. Sentiu necessidade de amar por
aquele processo, mergulhar na poesia, esquecer-se de tudo que o cercava, para
viver mentalmente nas praias de Nápoles, ou nas ilhas adoráveis da Sicília,
cujos nomes sonoros e musicais lhe chegavam ao coração como o efeito de uma
saudade, de uma nostalgia inefável, profunda, sem contornos, que o atraía para
um outro mundo desconhecido, para uma existência que lhe acenava de longe, a
puxá-lo com todos os tentáculos do seu mistério e da sua irresistível
melancolia.
Uma ocasião, deitado ao pé da janela
de seu quarto, pensava em Graziella.
À tarde precipitava-se no
crepúsculo, e enchia a natureza de tons plangentes e doloridos. A um canto da
rua um italiano tocava uma peça no seu realejo. Era a Marselhesa.
Amâncio conhecia algumas passagens
da revolução de França: lera os Girondinos, de Lamartine. E a
reminiscência do sentimentalismo enfático dessa obra, coada pela retórica
poderosa da música de Lisle, trouxe-lhe aos nervos um sobressalto muito mais
veemente que das outras vezes.
Julgou-se infeliz, sacrificado nas
suas aspirações, no seu ideal. Precisava viver, gozar, gozar sem limites!...
Não ali, perto da família, estudando miseráveis lições do Liceu, mas além,
muito além, onde não fosse conhecido, onde tudo para ele apresentasse surpresas
de uma outra vida, atrativos de um mundo vasto, enorme, que sua imaginação mal
podia delinear.
Por isto estimou deveras ter de
seguir para o Rio de Janeiro. A Corte era “um Paris”, diziam na província, e
ele, por conseguinte, havia de lá encontrar boas aventuras, cenas imprevistas,
impressões novas e amores, — oh! amores principalmente!
E, com efeito, desde que pôs o pé a
bordo, principiou a gozar a impressão de novidade, produzida no seu espírito
pela viagem.
A circunstância de achar-se em um
paquete sozinho, ouvindo o ronrom monótono da máquina e sentindo, como
nos romances, as vozes misteriosas dos elementos sussurrarem à volta de seus
ouvidos — encantava-o. Prestava muita atenção ao mais pequeninos episódios de
bordo: olhava interessado para a grossa figura dos marinheiros que baldeavam
pela manhã o tombadilho, a dançar com a vassoura aos pés; estudava o tipo dos
outros passageiros, procurando descobrir em cada qual um personagem de seus
livros favoritos; ao abrir e fechar das portas do camarotes, espiava sempre, e
às vezes lobrigava de relance, ao fundo no beliche, uma figura pálida,
ofegante, toda descomposta na imprudência do enjôo.
Ele é que nunca enjoava. À noite ia
fumar para a tolda, estendido sobre um banco, as pernas cruzadas, os olhos
perdidos pelo oceano.
Vinham-lhe então as nostalgias da
província: o coração dilatava-se por um sentimento morno de saudade. Via
defronte de si o vulto carinhoso de sua mãe, a chorar, com o rosto escondido no
lenço, o corpo sacudido pelos soluços.
Quanto não custou à pobre mulher separar-se
ao filho?... Que violência não foi preciso para lho arrancarem dos braços! foi
como se pela segunda vez lho tirassem a ferro das entranhas.
Antes mesmo da partida de Amâncio,
muito sofrera a mísera com a idéia daquela separação. Pensava nisso a todo
instante, sem se poder capacitar de que ele devia ir, atirado a bordo de um
vapor, tão sozinho, tão em risco de perigos. “Oh! era muito duro! Era muito
duro!...” Mas Vasconcelos opunha-lhe argumentos terríveis: — O rapaz precisava
fazer carreira, ter uma posição! Não seria agarrado às saias da mãe que iria
pra diante! Há muito mais tempo devia ter seguido — o filho de fulano fora aos quinze anos; o de beltrano voltara com
vinte e três, e Amâncio já tinha vinte. Ia tarde! Ângela que se deixasse de
pieguices. Justamente por estimá-lo é que devia ser a primeira a querer que ele
fosse, que se instruísse, que se fizesse homem! além disso o rapaz poderia
visitá-la pelas férias, nem sempre, mas de dois em dois anos.
Ângela parecia resignar-se com as
palavras de Vasconcelos; fazia-se forte: jurava que “não era egoísta”, que “não
seria capaz de cortar a carreira de seu filho”; mal porém, o marido lhe dava as
costas, voltava-lhe a fraqueza; vinham-lhe as lágrimas, tornavam as agonias.
Por vezes, no meio do jantar, enquanto os outros riam e conversavam, ela, que
até aí estivera a pensar, abria numa explosão de soluços e retirava-se para o
quarto, aflita, envergonhada de não poder dominar aquele desespero. Outras
vezes acordava por alta noite, a gritar, a debater-se, a reclamar o filho, a
disputá-lo contra os fantasmas do pesadelo.
No dia da viagem não se pôde
levantar da cama, tinha febre, vertigens; a cabeça andava-lhe à roda. E não
queria mais ninguém perto de si, além do filho, só ele! “Não a privassem de
Amâncio ao menos naquele dia!” E tomava-o nos braços, procurava agasalhá-lo ao
colo, com fazia dantes, quando ele era pequenino. Afagava-lhe a cabeça,
beijava-lhe os cabelos, prendia-o contra o seio. Depois, voltava a acarinhá-lo,
beijava-lhe de novo as mãos, os olhos, o pescoço, envolvia-o tudo em mimos,
como, se, na santa loucura de seu amor, imaginasse que eles lhe preservariam o
filho contra os escolhos da jornada e contra os futuros perigos que o
ameaçavam.
— Minha pobre mãe!... suspirava
Amâncio no tombadilho, derramando o olhar lacrimoso pela inconstante planície
das águas.
— Minha pobre mãe!...
E vinham-lhe então fundas saudades
de sua terra, de sua casa e de seus parentes. As palavras de Ângela
palpitavam-lhe em torno da cabeça, com uma expressão de beijos estalados.
Lembrava-se dos últimos conselhos que ela lhe dera, das suas recomendações, das
suas pequeninas providências; de tudo isso, porém, o que mais lhe ficara
grudado à memória foi o que lhe disse a boa velha, muito em particular, a
respeito de dinheiro. “Se te não chegar
a mesada, ou se te vierem a faltar os recursos, escreve-me logo duas linhas,
que eu te mandarei o que precisares. Mas não convém que teu pai saiba disto...”
Para as primeiras despesas na corte
e para os gastos nas províncias, juntem, ao que dera Vasconcelos ao filho, mais
quinhentos mil-réis; não achava bom, entretanto, que Amâncio saltasse em todos
os portos. “Era muito arriscado! Ele não se devia expor de semelhante forma!”
E a lembrança do dinheiro puxou logo
outras consigo e arremessou-o no frívolo terreno de seus devaneios voluptuosos.
Vieram as recordações; começou a desenfiar mentalmente o rosário dos amores que
acumulara dos quinze anos até ali.
Era um rosário extravagante; havia
contas de todos os matizes e de todos os feitios.
Entre elas, porém, só três se
destacavam, três belas contas de marfim: a filha mais velha do Costa Lobo, a
mulher de um comendador, amigo de seu pai, e uma viúva de um oficial do
Exército.
E só. Todas as suas outras
conquistas não valiam nada; de algumas tinha, contudo, bem boas recordações: a
Francisca de Vila do Paço, por exemplo — uma caboclinha, que se apaixonou por
ele e vinha persegui-lo até à cidade, uma espanhola, mulher de um tipo barbado
e calvo, que andava a mostrar figuras de cera pelas províncias do Norte, uma
senhora gorda, amasiada com um boticário, da qual elogiavam muito as virtudes,
mas que um dia atirou-se brutalmente sobre Amâncio, dizendo que o amava e
trincando-lhe os beiços.
E como estas, outras e outras
recordações foram-se enfiando e desenfiando pelo espírito sensual e mesquinho
do vaidoso, até deixá-lo mergulhado na apatia dos entes sem ideais e sem
aspirações.
Mas, já não queria pensar nesses
amores da província; tudo isso agora se lhe afigurava ridículo e acanhado. A
Corte, sim! é que lhe havia de proporcionar boas conquistas. “Ia principiar a
vida!!”
E, nessa disposição, chegou ao Rio
de Janeiro.
III
Estava hospedado havia dois dias em
Casa do Campos; esse tempo levara ele a entregar cartas e encomendas. À noite,
fatigado e entorpecido pelo calor, mal tinha ânimo para dar uma vista de olhos
pelas ruas da cidade.
Entretanto, a vida externa o atraía de um modo desabrido;
estalava por cair no meio desse formigueiro, desse bulício vertiginoso, cuja
vibração lhe chegava aos ouvidos como os ecos longínquos de uma saturnal.
Queria ver de perto o que vinha a ser essa grande Corte, de que tanto lhe
falavam; ouvira contar maravilhas a respeito das cortesãs cínicas e formosas,
ceias pela madrugada, passeios pelo Jardim Botânico, em carros descobertos, o
champanha ao lado, o cocheiro bêbado; — e tudo isso o atraía em silêncio, e
tudo isso o fascinava, o visgava com o domínio secreto de um vício antigo.
Mas por onde havia de principiar?...
Não tinha relações, não tinha amigos que o encaminhassem!... Além disso, Campos
estava sempre a lhe moer o juízo com as matrículas, com a entrada na academia,
com um inferno de obrigações a cumprir, cada qual mais pesada, mais antipática,
mais insuportável!
— Olhe, seu Amâncio, que o tempo não
espicha — encolhe!... É bom ir cuidando disso!... repetia-lhe o negociante,
fazendo ar sério e compenetrado. Veja agora se vai perder o ano! Veja se quer
arranjar por aí um par de botas!...
Amâncio fingia-se logo muito
preocupado com os estudos e falava calorosamente na matrícula.
— Mexa-se então, homem de Deus!
bradava o outro. Os dias estão correndo!...
Afinal, graças aos esforços do
Campos, conseguiu matricular-se na academia, duas semanas depois, de ter
chegado ao Rio de Janeiro.
O medo às matemáticas levara-o a
desistir da Marinha e agarrar-se à Medicina, como quem se agarra a uma tábua de
salvação: pois o Direito, se bem que, para ele, fosse de todas as formaturas as
mais risonha, não lhe servia igualmente, visto que Amâncio não estava disposto
a deixar a Corte e ir ser estudante na província.
A Medicina, contudo, longe de
seduzi-lo, causava-lhe um tédio atroz. Seu temperamento aventuroso e frívolo
não se conciliava com as frias verdades da cirurgia e com as pacientes
investigações da terapêutica. Pressentia claramente que nunca daria um bom
médico, que jamais teria amor à sua profissão.
Esteve a desistir logo nos primeiros
dias de aula: o cheiro nauseabundo do anfiteatro da escola, o aspecto nojento
dos cadáveres, as maçantes lições de Química, Física e Botânica, as troças dos
veteranos, a descrição minuciosa e fatigante da Osteologia, a cara insociável
dos explicadores; tudo isso, o fazia vacilar; tudo isso lhe punha no coração um
duro sentimento de má vontade, uma antipatia angustiosa, um não querer doloroso
e taciturno.
Às vezes, no entanto, pretendia
reagir: atirava-se ao Baunis Bouchard e ao Vale, disposto a ler durante horas
consecutivas, disposto a prestar atenção, a compreender; mal, porém, ele se
entregava aos compêndios, o pensamento, pé ante pé, ia-se escapando da leitura,
fugia sorrateiramente pela janela, ganhava a rua, e prendia-se ao primeiro
frufru de saia que encontrasse.
E Amâncio continuava a ler a
estranha tecnologia da ciência, a repetir maquinalmente, de cor, os caracteres
distintivos das vértebras, ou a cismar abstrato nas propriedades do cloro e do
bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo lhe ficasse na cabeça.
— Não haver uma academia de Direito
no Rio de Janeiro! lamentava ele, bocejando, a olhar vagamente a sua enfiada de
vértebras, que havia comprado no dia anterior.
Porque, no fim de contas, tudo que
cheirasse a ciência de observação o enfastiava: “Deixassem lá, que a tal
Osteologia e a tal Química nada ficavam a dever às Matemáticas!...”
Ah! o Direito, o Direito é que,
incontestavelmente, devia ser a sua carreira. Preferia-o por achá-lo menos
áspero, mais tangível, mais dócil, que outra qualquer matéria. E esse
mesmo...Valha-me Deus! tinha ainda contra si o diabo do latim, que era bastante
para o tornar difícil.
E lembrar-se Amâncio de que havia
por aí criaturas tão dotadas de paciência, tão resignadas, tão perseverantes,
que se votavam de corpo e alma ao cultivo das artes... das artes, que, segundo
várias opiniões, exigiam ainda mais constância e mais firmeza do que as
ciências!... Com efeito! Era preciso ter muita coragem, muito heroísmo, porque
as tais belas-artes, no Brasil, nem sequer ofereciam posição social, nem davam
sequer um titulozinho de doutor!
— Qual! Não seria com ele!... Fosse
gastando quem melhor quisesse a existência na concepção de um bom quadro, de
uma boa estátua, de uma ópera genial ou de um bom livro de literatura, que ele
ficava cá de fora — para apreciar. O mais que podia fazer, era — aplaudir;
aplaudir e pagar! — E já não fazia pouco!...
Isso justamente ouviu, por mais de
uma vez, da boca de seu pai. O velho Vasconcelos nunca tomou a sério os
artistas “Uns pedaço-d’asnos!” qualificava ele, e, de uma feita em que o Franco
de Sá lhe comunicou os seus projetos de estudar pintura na Europa, o negociante
fez uma careta e exclamou, batendo-lhe no ombro: “Homem, seu Sazinho! não seria
eu que lhe aconselhasse semelhante cabeçada... porque, meu amigo, isto de artes
é uma cadelagem! Procures meios de obter cobres, e o senhor terá à sua disposição
os artistas que quiser!”
— E nisto tinha o velho toda a
razão, pensava Amâncio. Acho apenas que devia estender a sua teoria até o
estudo de certas ciências... como a Medicina... Sim! porque, afinal, com
dinheiro também obtemos os médicos de que precisamos, e não vale a pena, por
conseguinte, gramar seis anos de academia e curtir as maçadas que estou aqui
suportando, sabe Deus como!
— Mas, neste caso, a questão muda
muito de figura!... dizia-lhe em resposta uma voz que vinha de dentro do seu
próprio raciocínio. Não se trata aqui de fazer um “médico”, trata-se de fazer
um “doutor”, seja ele do que bem quiser! Não se trata de ganhar uma
“profissão”, trata-se de obter um “título”. Tu não precisas de meios de vida,
precisas é de uma posição na sociedade.
— Visto isso, porém, objetava
Amâncio, quero crer que o mais acertado seria comprar uma carta na Bélgica ou
na Alemanha, e mandar ao diabo, uma vez por todas, aquela peste de Medicina!
Ora, Medicina! Medicina servia para
algum moço pobre que precisasse viver da clínica; ele não estava nessas
circunstâncias. Era rico! só com o que lhe tocava por parte materna, podia
passar o resto da vida sem se fatigar!... Por que, pois, sofrer aquelas
apoquentações do estudo? Por que razão havia de ficar preso aos livros, entre
quatro paredes, quando dispunha de todos os elementos para estar lá fora, em
liberdade, a divertir-se e a gozar?!...
Mas uma idéia sustinha-lhe o vôo do
pensamento; o vulto angélico de sua mãe vinha colocar-se defronte dele, abrindo
os braços, como se o quisesse proteger de um abismo.
Ah! quanto empenho não fazia a pobre
velha em vê-lo formado às direitas, numa faculdade do Brasil... Vê-lo
doutor!...
— Doutor, hein?! repetia Amâncio,
meio animado com o prestígio que ao nome lhe daria o título.
E ligava-os mentalmente, para ver o
efeito que juntos produziam:
— Doutor Amâncio! Doutor Amâncio de
Vasconcelos! Não fica mal! não fica! A mãe tinha razão. Era preciso ser doutor!
E quanto gosto, que prazer, não
sentiria nisso a querida velha!... Oh! ele agora pensava em Ângela com muito
mais ternura; nela resumia toda a família e tudo que houvesse de bom no seu
passado. Só com a ausência pôde avaliar o muito que a respeitava e o muito que a estremecia. Ele, que não chorara
ao despedir-se da mãe; ele, que algumas vezes chegou até a aborrecer-se de seus
desvelos e da insistência de seus carinhos — agora não a podia ter na memória,
sem ficar com o coração opresso e os olhos relentados de pranto. Pungia-lhe a
consciência uma espécie de remorso por não se ter mostrado mais afetuoso e mais
amigo, enquanto a possuiu perto de si, por não ter melhor aproveitado essa
ocasião para deixar bem patente que sabia ser “bom filho”.
E punha-se então a mentalizar planos
de melhor conduta para quando voltasse ao lado de Ângela; considerava os mimos
que teria com ela, os afagos que lhe havia de dispensar, os beijos que lhe
havia de pedir.
— Ah! Se naquele momento ele a
tivesse ali, o que não lhe diria!
E, por uma necessidade urgente de
expansão, levantou-se da cadeira em que estava e correu à secretária, disposto
a escrever uma carta, longa, à sua mãe. Precisava queixar-se do isolamento em
que vivia, contar-lhe as suas tristezas, as suas contrariedades, justamente
como fazia dantes, em pequeno, ao voltar da aula de Pires. Sua alma tornava
atrás, fazia-se muito infantil, muito criança, muito ingênua e carecida de
amparo.
A mãe, enquanto esteve ao lado dele,
foi sempre um coração aberto para lhe receber as lágrimas e os queixumes.
Também, só elas, só as mães, podem
servir a tão delicado mister. O que se lança ao peito da amante desde logo arde
e se evapora, porque aí o fogo é por demais intenso; o que se atira ao de um
estranho gela-se de pronto na indiferença e na aridez; mas, tudo aquilo que um
filho semeia no coração materno — brota, floreja e produz consolações. Neste
não há chama que devore, nem frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e
fecundo, como a palidez de um seio intumescido e ressumbrante de leite.
E escreveu: “Mamãe.”
Hesitou logo. Aquele modo de tratar
não lhe pareceu conveniente; queria uma carta de efeito, com estilo, uma carta
a primor, que desse idéia de seu talento e ao mesmo tempo de sua afeição:
... “Minha querida mãe.
Eis-me na grande Corte, que aliás me parece estúpida e
acanhada por achar-me longe de
vosse-mecê...”
Vinham, em seguida, muitos protestos
de amor filial e depois uma extensa descrição da cidade, a qual ocupava duas
laudas da carta. Na terceira escreveu o seguinte:
“Desde que vim daí, o Sabino só me
tem dado maçadas; a bordo vivia a brigar com os outros criados; aqui nunca me
aparece; sai pela manhã e já faz muito quando volta à noite. Pilhou-se sem
castigo e abusa desse modo. Ainda não lhe consegui arranjar a matrícula no
Tesouro e nem sei como isso se obtém: o Campos é que há de ver.
“Como sabe, há mês e meio que me
acho hospedado em casa deste. Aqui nada me falta, é certo, mas igualmente nada
me satisfaz, porque estou muito isolado e aborrecido. A família é atenciosa o
quanto pode ser comigo; eu, porém, apesar disso, não deixo de ser para eles um
estranho, como tal, apenas recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hortênsia
é amável, mas por uma simples questão de delicadeza; da irmã, D. Carlotinha,
nem é bom falar! Esta, se já me dispensou duas palavras, foi o máximo, parece
até que tem medo de olhar para mim; talvez com receio de desagradar ao
guarda-livros, que, pelos modos, é lá o seu namorado. O que não resta dúvida é
que o tal guarda-livros é de todos o mais antipático e difícil de suportar. Um
hipócrita! Está sempre com a carinha na água e já, por várias vezes, se tem
querido meter a espirituoso cá para o meu lado. — São ditinhos, indiretas de
instantes a instante. Eu, qualquer dia destes, o chamo à ordem! Ainda não há
uma semana, veja isto! fui a um espetáculo dramático no São Pedro de Alcântara
e à volta, quando cheguei a casa, quis acender a vela para estudar. Quem
disse?... o fogo não se comunicava ao pavio. Verifico: no lugar da torcida
haviam posto um prego; fiquei com os dedos queimados. E esta graça não foi de outro
senão do tal cara de mono!
“Já me lembrou mudar-me; o Campos,
porém, acha que o não devo fazer enquanto não descobrir por aí um bom cômodo,
em alguma casa de pensão.”
E no mesmo teor ia por diante, até
encher duas folhas de papel marca pequena. Amâncio narrava à mãe todos os seus
passos e todos os seus desgostos, sem lhe confessar, todavia, que o principal
motivo daquele descontentamento estava em não se poder recolher de noite às
horas que entendesse; em ter por único companheiro de passeios o Luís Campos,
cuja sobriedade nos gestos e costumes, cuja discrição nos termos, cujo aspecto
repreensivo e pedagógico de mentor faziam-no já perfeitamente insuportável aos
olhos do estudante.
— Ora adeus! considerava este,
deveras enfiado. — Não foi para me fazer santo que vim ao Rio de Janeiro!
Boas! Podia lá estar disposto a
sofrer aquele maçante do Campos!... Mas também não seria muito divertido andar
sozinho pela cidade, a trocar pernas, sem um companheiro, sem um amigo. Além
disso temia do seu provincialismo, receava “fazer figura triste”; ainda não
conhecia o preço das coisas e o nome das ruas. No Maranhão falavam com tanto
assombro dos gatunos da Corte! — os tais capoeiras! E Amâncio sobressaltava-se
pensando num encontro desagradável, em que lhe cambiassem o dinheiro e as jóias
por uma navalhada.
Seu maior desejo era ter ali um dos
amigos da província, a quem confiasse as impressões recebidas e com quem pudesse conversar livremente, à franca, sem
maior palavras, nem tomar as enfadonhas reservas e composturas, que lhe impunha
a censória presença do negociante.
Por isso, numa ocasião, em que
atravessava pela manhã o Beco do Cotovelo, sentiu grande alegria ao dar cara a
cara com Paiva Rocha. O Paiva era seu comprovinciano e fora seu condiscípulo;
pertenceram à mesma turma de exames na aula do Pires e matricularam-se juntos
no Liceu. Mas, enquanto o filho de Vasconcelos estudou as três primeiras
matérias, o outro fez todos os preparatórios.
Abraçaram-se. Houve exclamações de
parte a parte.
— Ora Paiva! disse Amâncio afinal,
encarando o amigo com um olhar muito satisfeito. — Não te fazia aqui na Corte!
— Estou na Politécnica.
— Ah! exclamou Amâncio, com
interesse. — Que ano?
— Terceiro.
— Bom. Estás quase livre!
— Qual! resmungou Paiva, mascando o
cigarro. — Tenho ainda muito que aturar!
E passaram então a falar de estudos.
Amâncio fazia recriminações: “Só encontrara dificuldades”. Disse a sua
antipatia pelas ciências práticas; queixou-se de alguns veteranos, que, por
serem mais antigos na escola, se julgavam com direito de maltratar os outros.
“Era estúpido! simplesmente estúpido!”
— Tradições respondeu Paiva, com a
indiferença de quem não preocupam tais bagatelas. — Isso há de acabar... A
natureza não dá saltos!
Amâncio, como qualquer provinciano
que ainda não tivesse ocasião de apreciar o Rio de Janeiro, julgava-se tão
desiludido a respeito dele, quanto a respeito de estudos.
— Sempre imaginei que fosse outra
coisa!... disse. — A tal Rua do Ouvidor, por exemplo!...
Paiva já não o ouvia, era todo
atenção para um cartaz de teatro que um sujeito pregava na parede defronte.
Amâncio prosseguiu, declarando que,
até ali, nada encontrara de extraordinário na Corte.
— Com franqueza — antes o Maranhão!
Com franqueza que antes! Não achas?... perguntou.
— É! respondeu o outro, distraído.
Mas Amâncio precisava desabafar e
não se contentou com aquela resposta. Insistiu na pergunta; chamou a atenção do
Paiva, agarrando-lhe à gola esgarçada do fraque.
— Não, filho, deixa-te disso,
retorquiu o interrogado. A Corte sempre é Corte!...
— Ora qual!
— É porque ainda não estás
acostumado, ainda não conheces o Rio! Hás de ver depois!...
Amâncio duvidava.
— Verás! repetia Paiva. Daqui a um
ou dois anos é que te quero ouvir!
E passaram de novo a falar de estudos,
de matrícula e de exames.
Paiva bocejou; o outro estava
“caceteando”. Quis safar-se.
— Espera! implorou Amâncio,
apoderando-se-lhe de novo da gola do fraque. — Espere! Onde vais tu?...
Conversa mais um pouco! suplicava ele com voz infeliz de quem pede uma esmola.
Não te vás ainda! Que pressa!
Paiva tinha de ir almoçar com um
amigo. Estava muito ocupado! “Naquele dia não dispunha de um momento de seu!”
Depois, depois se encontrariam!
— Não! Vem cá! Espera!
Paiva levantou as sobrancelhas,
impacientando-se.
— Mas, vem cá, dize-me uma coisa: o
que é que tanto tens hoje a fazer?... inquiriu o outro.
— Filho, questões de interesse
respondeu aquele, procurando abreviar explicações. Veio-lhe, porém, um ímpeto
de raiva e começou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado na véspera com o
seu correspondente.
— Um burro! exclamava — um vinagre!
Imagina tu que o malvado sabe perfeitamente que não tenho ninguém por mim aqui
no Rio, e põe-se com dúvidas para me dar a mesada!... Como se aquele dinheiro
lhe saísse do bolso! Diabo da peste!
— Ele então não te quis dar a
mesada?... perguntou Amâncio muito espantado.
— É o costume aqui! retrucou Paiva
desabridamente. — Eles julgam que nos fazem grande obséquio em dar-nos aquilo
que nos pertence!
E, olhando para Amâncio com os olhos
apertados:
— Mas também, filho, disse-lhe meia
dúzia de desaforos, como ele nunca ouviu em sua vida! Cão!
E expôs a descompostura por inteiro,
na qual as palavras galego, ladrão, cachorro entravam repetidas
vezes.
— De sorte que, terminou o estudante
mais tranqüilo, como se houvesse despejado um peso das costas — não tenho lá
ido! Questão de capricho, sabes? olha, estou assim!
E bateu nas algibeiras.
— Isso arranja-se... disse Amâncio
timidamente, receoso de humilhar o colega. E depois, com um vislumbre: Vamos
almoçar a um hotel?!
Paiva concordou, sacudindo os
ombros. E, como Amâncio perguntasse onde deviam ir, começou a citar os melhores
hotéis, já sem deixar transparecer o menor indício de pressa.
Fazia-se grande conhecedor da Corte,
muito carioca, saboreando voluptuosamente o efeito de pasmaceira, que a sua
superioridade causava no amigo. Deu-se logo ares de cicerone; mostrou-se
habituadíssimo com tudo aquilo que pudesse causar admiração a um provinciano
recém-chegado; fingiu desdém por umas tantas coisas, que à primeira vista
pareciam boas e falou de outras, menos conhecida, com entusiasmo, com interesse
pessoal e com orgulho.
Amâncio escutava-o em recolhido
silêncio, mas, como estivesse a cair de apetite, voltou logo à idéia do almoço:
lembrou que poderiam ir ao Coroa de Ouro.
Paiva fitou-o espantado, e espocou depois uma risada
falsa:
— Aquela era mesma de quem vinha do
norte! Almoçar no Coroa de Ouro! Vade retro!
Amâncio não teve ânimo de defender a
sua proposta, e seguiu o companheiro que se pusera a andar com ímpeto.
Entraram na Rua do Carmo,
atravessaram a de São José e, ao caírem na da Assembléia, Paiva, que ia a
pensar, voltou-se de súbito para Amâncio e perguntou-lhe decisivamente.
— Tu queres almoçar bem?!
E feriu a última palavra.
— É! respondeu o outro.
— Pois então vamos ao Hotel dos
Príncipes!
E seguiram pela Rua Sete de Setembro até o Rocio.
Ao penetrarem no largo, uma menina
italiana, de alguns dez anos de idade, toda vestida de luto, morena, e ar
suplicantemente risonho e cheio de miséria, abraçou-se às pernas de Amâncio,
pedindo-lhe dinheiro — para levar à mãe que estava em casa morrendo de fome.
— Sai gritou-lhe o Paiva, procurando
arredá-la.
Mas a pequena ajoelhou-se, sem
largar as pernas do calouro, de cujas mãos já se tinha apoderado e cobria de
beijos.
— Então, papai! papaizinho bonito!
uma esmolinha sim?... dizia ela, voltando para o moço seus belos olhos de
criança, e rindo com uns dentes muito brancos que se lhe destacavam vivamente
da cor morena do rosto.
— Coitadinha! lamentou Amâncio,
fazendo-lhe uma festa no queixo e procurando dinheiro na algibeira das calças.
Puxou um maço grosso de cédulas.
— Não seja tolo! gritou-lhe o
companheiro. — Isto é especulação de algum vadio! Vestem por aí essas bichinhas
de luto e mandam-nas perseguir a humanidade! É uma esperteza, não seja tolo!
A pequena lançou ao Paiva um gesto
de raiva e sorriu para Amâncio, suplicando.
— Em todo o caso faz dó, coitada!
murmurou este dando-lhe uma cédula de dois mil-réis.
A italianinha agarrou-se ao dinheiro
e olho surpresa para o calouro. Depois beijou-lhe novamente as mãos e fugiu,
atirando-lhe beijos.
— Coitada! repetiu ele.
— Ainda estás muito peludo!
resmungou o Paiva. Olha que isto por cá não é o Maranhão!...
E pôs-se logo a falar nas
especulações do Rio de Janeiro. Contou fatos horrorosos de cinismo e gatunagem.
“Amâncio que se acautelasse: no caminho em que ia, haviam de arrancar-lhe até
os olhos. — Ali, a ciência de cada um consistia em fazer com que o dinheiro
passasse das algibeiras dos outros para
as próprias algibeiras.” Estava indignado! “Não podia, a sangue frio, ver assim
se atirar à rua — dois mil-réis! Ah! se o outro soubesse quanto o dinheiro
custava a ganhar, não teria as mãos tão rotas!”
E mostrava-se extremamente empenhado
nos interesses do colega: dava-lhe conselhos; havia de abrir-lhe os olhos,
indicar-lhe o verdadeiro caminho a seguir. “Não! Que ele não era desses, que só
querem desfrutar!... Quando simpatizava com um rapaz, sabia ser amigo! Amâncio
o veria no futuro!...”
— Olha! segredou-lhe, passando-lhe
um braço nas costas. — Hás de encontrar por aí muito artista! Acautela-te,
filho! acautela-te, que os cabras sabem levar água ao seu moinho! Digo-te isto,
porque te estimo, porque sou teu amigo, percebes?
Amâncio percebia e jurava muito
grato àquela dedicação. Tiveram, porém, de interromper o diálogo: dois outros
estudantes acabavam de parar defronte deles.
Eram amigos do Paiva. Houve logo
novas exclamações e cumprimentos rasgados.
— Meus senhores, exclamou aquele,
apresentando Amâncio. O nosso colega, Amâncio de Vasconcelos, estudante de
medicina. Escuso dizer que é muito talentoso e um caráter excelente.
Os dois
apertaram a mão de Amâncio com solenidade, e afiançaram que tinham imenso gosto
em conhecê-lo.
— João Coqueiro e Salustiano Simões!
nomeou o Paiva, indicando os dois. — São ambos da Politécnica.
E acrescentou em voz baixa, ao
ouvido de Amâncio, mas de modo que fosse ouvido por todos:
— Muitos distintos!...
O Coqueiro observava em silêncio o
novo colega, enquanto o Paiva e o Salustiano reatavam um velho colóquio,
interrompido à última vez que estiveram juntos; aquele saiu do seu recolhimento
para indagar de que província era Amâncio, como se ia dando nos estudos e onde estava
hospedado. Entretanto o Simões afrouxava lentamente na conversa com o outro e
caía aos poucos na sua habitual concentração; já respondia apenas por
monossílabos e só despregava o cigarro dos dentes para bocejar. Afinal, sem
conter a impaciência, quis dissolver o grupo; mas Amâncio tolheu-lhe a idéia
perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se já tinham almoçado e, visto que não,
pediu-lhes que lhe fizessem companhia.
Aceitaram, depois de alguma
resistência por parte do último; e os quatro rapazes seguiram imediatamente
caminho do hotel, a rir e a dar língua, como se fossem todos amigos de muito
tempo.
Paiva Rocha pediu um gabinete
particular e aí se instalou com os outros.
Amâncio estava maravilhado. O
aspecto daquelas salas afestoadas, cheias de espelhos, de cortinas e
douraduras, no gênero pretensioso dos hotéis, o ar parisiense dos criados,
vestidos de preto e avental branco; a
cor estridente do gabinete; o perfume das flores que guarneciam jarras de
proporções luxuosas; o alvoroço palavroso e alegre dos que faziam a sobremesa;
o crepitar do riso das mulheres, cujos penteadores branquejavam sobre o escuro
dos tapetes; a reverberação dos cristais; a expectativa de um bom almoço, que
seria devorado com apetite, e finalmente a circunstância de que Amâncio, havia
muito não gozava uma pândega; tudo isso lhe refrescava o humor e o fazia feliz
naquele momento.
— Garçom! gritou o Paiva,
entrando no gabinete com um ar sem-cerimônia. La carte!
O criado disparou.
— Tu falas francês?... inquiriu
Amâncio, já com admiração na voz.
— Ora respondeu Paiva, levantando os
ombros. Aqui na Corte será difícil encontrar alguém que não fale francês!...
— Pois eu ainda não sei... disse
aquele tristemente.
— Questão de prática! observou o
outro.
Coqueiro, que acabava nesse momento
de entrar no gabinete, conversando com Simões, propôs que se despissem os
paletós.
Principiaram a comer.
O Paiva encarregara-se do menu.
Estava radiante; parecia empenhado na direção do almoço, como se tratasse de um
trabalho difícil e glorioso. Escolhia pratos esquisitos e determinava os vinhos
que os deviam acompanhar.
— Este Paiva é terrível para um menu!
observou Simões em ar de troça.
— Não! disse aquele. — Não admito
que ninguém dirija um almoço melhor do que eu!
— Sim, considerou Coqueiro — mas
vais ver por que preço sai tudo isso!...
— Não faz mal!... apressou-se
Amâncio a declarar. — Sinto-me tão bem entre os senhores... há tanto tempo não
tinha um momento livre, que...
— Bem, de acordo, respondeu
Coqueiro, mas é preciso deixar esse tratamento de “senhor”. Entre rapazes não
deve haver cerimônias, mal-entendidos; somos colegas, temos de ser amigos, por
conseguinte tratemo-nos desde já por “tu”. Não és da mesma opinião, ó Paiva?
— In totum! respondeu este,
abraçando Amâncio pela cintura. — Nós cá somos camaradas velhos! Vem de longe!
E parecia querer provar que os seus direitos sobre o
comprovinciano eram muito mais legítimos que os dos outros dois; que Amâncio
lhe pertencia quase exclusivamente, como um tesouro, como uma fortuna que se
traz do berço. E para deixar isso bem patente, fazia-se muito íntimo com ele:
batia-lhe nas pernas; evocava recordações; lembrava-lhes as correrias da
província:
— Ah! nós éramos muito camaradas!
Lembras-te, Amâncio, daquele passeio que fizemos ao Portinho?...
— Em que Malheiros tomou uma
bebedeira de charuto? Perguntou o interrogado a rir. — Naquele dia do barulho
no Liceu; quando o Chico moleque foi expulso!...
— É verdade! que fim levou esse
rapaz! quis saber Paiva — Era um bom tipo. Inteligente!
— Morreu, coitado! de bexigas.
Ultimamente estava no comércio.
E aquele pequeno, o...
— Qual?
— Aquele bonito, de cabelos
grandes... ora, como se chamava ele?... o...
— Ah! exclamou Amâncio, soltando uma
risada — o Dominguinhos?
— Isso! isso! Dominguinhos
justamente! Que fim levou?
— Não sei, não! Creio que seguiu
para Manaus com a família. Um bobo! Lembra-se da troça que lhe fizemos no
convento?...
E os dois riram-se muito com a mesma
idéia.
Simões, que até aí parecia pouco
disposto à pândega, foi-se animando na proporção das garrafas que se enxugavam.
O almoço aquecia. João Coqueiro propôs um brinde a Amâncio e declarou, depois
de lhe fazer muitos elogios, que folgaria imenso em ser recebido no rol de seus
amigos.
Amâncio abraçou-o e prometeu que o
iria visitar no primeiro domingo.
— Vá feito! sustentou Coqueiro. Ali
não há cerimônia, minha família é muito despida dessas coisas.
— Ah! mora com a família? interrogou
o provinciano.
— Sou casado, respondeu o outro. —
Isso, porém, nada quer dizer. Apareça.
Ficou decidido que Amâncio iria sem
falta no próximo domingo.
Simões principiou então a falar
sobre casamento; daí passou às mulheres: descreveu a sua indiferença por elas.
Só lhe conhecia dois gêneros: “a mulher cínica e a mulher hipócrita.”
Paiva Rocha protestava: — Havia
muita mulher honesta, verdadeiros anjos de virtude! E que deixassem lá falar!
em certas ocasiões uma boa rapariga tinha o seu cabimento! Sim! Quem não
gostava da estética?...
Amâncio era da mesma opinião, e
queixou-se de sua infelicidade no Rio a esse respeito.
— Ainda é cedo elucidou o
Salustiano. — Quando te começarem as aventuras, há de ver o que vai por essa
sociedade!
— Não é tanto assim! opôs Coqueiro.
— Vocês são todos homens dos extremos!
E voltando-se confidencialmente para
Amâncio:
— O Doutor, decerto, encontrará
muita mulher perigosa, de quem deve fugir como o diabo da cruz; mas terá também
ocasião de ver algumas raparigas bem educadas, honestas e inteligentes. Não as
vá procurar na alta sociedade, não, que aí se escondem as piores! mas
indague-as cá por baixo, na mediocracia, que as há de descobrir. E olhe, se
quer aceitar um conselho de amigo, case-se! Não há melhor vidinha! Estou casado
há três anos e ainda não tive um segundo de arrependimento!... Ao menos
conserva-se a saúde, desenvolve-se o espírito e trabalhe-se mais... O método,
homem! o método é o segredo da existência!
E, puxando a cadeira para mais perto
de Amâncio falou-lhe em voz baixa. Que no Rio de Janeiro era preciso ter um
amigo sincero, não que “primasse nos menus”, mas que fosse capaz, que
tivesse imputabilidade moral! — Amâncio estava defronte de duas estradas; uma
que conduzia à verdadeira felicidade e outra que conduzia à desordem, ao vício
e à completa desmoralização! Que se não deixasse levar pelos pândegos!... E
olhava à esconsa os dois outros companheiros. Aquilo era gente sem nada a
perder!... Amâncio, enfim, que aparecesse no domingo e teriam ocasião de falar
mais de espaço. Não deixasse de ir: havia muito o que dizer e conversar.
Amâncio prometeu de novo.
O almoço chegara ao ponto em que os
comensais falam todos ao mesmo tempo e em voz alta. Havia agitação;
afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do gabinete. Simões
discutia com Paiva a incompetência dos professores da Politécnica.
— Uma súcia! uma cambada!
sintetizava ele. — Se fosse preciso despedir dali os que não prestam, não
ficaria nenhum!
O outro protestava, gritando e
batendo punhadas sobre a mesa. Havia já dois copos quebrados.
O criado trouxera a sobremesa — uma
salada russa.
Paiva pediu gelados e quis que lhe
dessem uma omelete ao rum. “Não podia passar sem isso no almoço!”
Suavam.
Amâncio tornava-se expansivo: falou
de seus amores na província; contou as suas intenções a respeito da mulher do
Campos.
— Ela parece que tem medo, dizia. —
Mas eu sou perseverante! Espero!
— Menino segredou-lhe Paiva. — Vai
aproveitando, vai aproveitando, porque é isso o que se leva deste mundo!
— E o mais são histórias... concluiu
o filho de Vasconcelos.
E fazia-se muito fino, perigoso, e
continuava a parolar com embófia, loquaz, um pouco sacudido pelo almoço.
Coqueiro estudava-o de socapa, a
seguir-lhe os gestos, a fariscar-lhe as intenções. Dos quatro era o único que
não estava tonto: seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a mesma
penetração e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca, estreita, bem
guarnecida e quase sem lábios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro e frio,
de quem escuta e observa.
Era de altura regular, compleição
ética, rosto comprido, de um moreno embaciado, pouca barba, pescoço magro,
nariz agudo, mãos pálidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido
incerto, entre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava,
quanto muito, vinte e dois.
Paiva erguera-se para fazer um bestialógico,
e soltava de enfiada frases sonoras e ocas de sentido: ouvia-se-lhe falar em
“gazofiliáceos, camelos da Patagônia e constelações híbridas do mapa-mundi”.
Simões, o macambúzio, derreara a cadeira contra a parede, e jazia palitar a
boca, estendido para trás, em uma posição de homem farto: barriga ao vento,
braços moles e um olhar muito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em
sorrisos de preguiça. Amâncio reatava a sua conversa com Coqueiro.
— É como lhe digo, recapitulava
este. — Aquilo não é um hotel, é uma — casa de família! Não temos hóspedes,
temos amigos! Minha mulher é quem toma conta de tudo!... E dando à voz um tom
grave: — Ela é muito asseada, muito exigente em questões de comida! Você não
imagina!... Ao almoço temos três pratos a escolher, leite, chá ou café, e
vinho; pelo almoço pode calcular o que não será o jantar! — E depois é preciso
observar a qualidade dos gêneros!... enfim, só mesmo você indo ver!
Amâncio reprometia.
— Fica-se muito melhor em uma casa
de família, continuava o outro. A vida em hotel ou a vida em república é o diabo: estraga-se tudo — o
estômago, o caráter, a bolsa; ao passo que ali, você têm o seu banho frio pela
manhã, torradas à noite e, se cair doente (o que lhe não desejo), há quem o
trate, quem lhe prepare um remédio, um caldo, um suadouro, um escalda-pés...
Olhe! até, se você quiser, eu...
Mas a porta abriu-se com violento
empurrão, e uma mulher loura, gorda, vestida de seda amarela, precipitou-se no
gabinete, espavorida, a soltar gritos. Vinha-lhe no encalço um sujeito idoso,
cheio de corpo, o chapéu à ré, o olhar desvairado e convulso.
— Podes ir para onde quiseres, que
eu não te deixo! berrava ele com fúria, a dardejar o guarda-chuva sobre as
costas da perseguida. Esta corria de uma lado para outro, procurando
escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos e conseguiu arrebatá-la,
levando os dois, aos trambolhões, tudo o que encontravam no caminho.
Em menos de um segundo era completa
a desordem no gabinete. Caíram
cadeiras; a mesa estremeceu com um encontrão e a saleira e duas garrafas
perderam o equilíbrio e tombaram, varrendo copos e esmagando pratos. O
guarda-chuva do sujeito havia com um só golpe espatifado os globos do candeeiro
e reduzido um espelho a mil pedaços.
— Isto não tem jeito! gritou Paiva
ao homem. — O senhor faz mal em invadir desta forma um gabinete ocupado!
Mas o invasor já não ouvia coisa
alguma e acabava de sair aos pescoções com a sujeita.
Paiva atirou-se-lhe à pista, armado
de uma garrafa. O gerente do hotel apareceu, porém, cortando-lhe o passo e
pedindo-lhe, por amor de Deus que não fizesse caso, que deixasse lá os dois se
esbordoarem à vontade!
— Era o costume! Acabariam por
entender-se perfeitamente!
— O senhor então acha que isto é
razoável?! perguntou Paiva furioso.
— Não, decerto!
E o gerente dava aos rapazes toda a
razão: — Deviam estar maçados, mas que tivessem paciência! que desculpassem!
Não fora possível evitar tão grande sensaboria: O Brás, em questões de
mulheres, perdia sempre a cabeça! E ele não sabia que diabo de rabicho tinha o
basbaque pelo demônio da Rita Baiana, que, de vez em quando, era aquilo!
— Pois que se vá enrabichar para o
diabo que o carregue!
— Decerto, decerto! apoiava o
gerente, procurando acalmar o estudante.
— Ajuste as suas contas onde quiser,
menos nos gabinetes ocupados pelos outros! Arre!
— É exato! Os senhores têm todo o
direito, mas por quem são, não façam caso! Não façam caso.
— E esta?! insistia Paiva. — Pois se
a gente paga muito mais para ficar em liberdade, como o diabo há de admitir
isto?!...
— Tem toda a razão! Tem toda a
razão!... repetia o gerente, erguendo as cadeiras e apanhando do tapete os
cacos de vidro.
Só então intervieram os outros
rapazes. Amâncio, até aí, parecia colado à cadeira. Estava lívido e as pernas
tremiam-lhe.
O gerente ia responder a todos, quando a porta se tornou a
abrir, e Brás, ainda transformado pela comoção da briga, ofegante e pálido,
quase sem poder falar, entre, dizendo — que ia pedir desculpa da grosseria por
ele praticada há pouco.
— Mas estava possesso!
Justificava-se ele. — Aquela não-sei-que-diga lhe fazia perder as estribeiras!
Que o desculpasse, porque um homem em certas ocasiões nem se podia conter! Uma
mulher, com quem já havia gasto para mais de dez contos de réis!... exclamava
ele fora de si. Uma mulher “que erguera da lama” podia assim dizer! Uma
desgraçada, que, antes de o conhecer, não podia ir a parte alguma por não ter
um vestido capaz!... Uma miserável, que dantes, para matar a fome, precisava
aviar encomendas de costura e se andar alugando na casa das modistas... Era
duro! Pois não achavam?!...
Os estudantes meneavam a cabeça,
afirmativamente.
— Ah! continuou o Brás. Aquelas
contas tinham-se de ajustar na primeira ocasião em que ele a encontrasse com o
tal troca-tintas! Ah! Já não podia! Era demais! Uf!
E passeava no gabinete, a empurrar
com o pé os cacos esquecidos no chão, e a sorver o ar em grandes haustos,
consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da consciência.
As palavras do Brás tranqüilizaram
os rapazes, cuja embriaguez parecia ter fugido com o susto. Simões chegou mesmo
a rir do fato, jactando-se mais uma vez da sua eterna indiferença pelas
mulheres! Com ele é que nunca haveria de suceder semelhante coisa!... afirmava.
Amâncio convidou Brás a beber, e
vazou-lhe vinho num copo.
— Aquela descarada! resmungava o
ciumento, examinando uma arranhadura que vinha de descobrir na mão direita. —
Ela, porém, comigo está iludida! — ou me anda muito direitinha ou há de me
ficar debaixo dos pés! Pedaço de uma ingrata!
E, voltando-se para o gerente, que
acabava de entrar:
— O sujeitinho foi-se, hein?
— Ora!... respondeu aquele com um
riso servil. — Ganhou logo a rua e... por aqui é o caminho! Ela é que, pelos
modos, ficou bem convidada! Meteu-se no quarto a chorar.
— Pois que chore na cama, que é
lugar quente! Não fosse ordinária! Faça lá o que bem entender, mas, com os
diabos! não enquanto estiver comigo! Vá divertir-se com o boi! Sebo!
E passando logo em seguida para um
tom de voz calma e amiga, disse baixo ao gerente:
— Veja de quanto foi o prejuízo e
faça-me uma conta à parte.
Pediu ainda uma vez desculpa aos
rapazes, afiançou que eles tinham um criado na Ladeira da Glória, número tanto,
e saiu, sempre às voltas com a sua arranhadura da mão direita.
Amâncio quis condenar o fato, mas
Paiva observou-lhe que aquilo se dava todos os dias no Rio de Janeiro.
— Eu já não estranho, disse. — Falta
de educação!...
— Bem, meus senhores, são horas de
eu me ir também chegando, advertiu Coqueiro, erguendo-se e enfiando o paletó.
Simões fez igual movimento e
declarou que o acompanhava.
— Então, que é isto, já? exclamou
Amâncio, querendo detê-los.
— É. Está se fazendo tarde,
respondeu Coqueiro, a consultar o relógio. — Três horas.
— Impossível! negou Amâncio.
Era exato.
E Coqueiro, já de chapéu na cabeça e
guarda-chuva debaixo do braço, apertou-lhe a mãos com as duas, dizendo que
folgava em extremo haver travado relações com ele e que o esperava, sem falta,
no domingo. Simões fez igualmente as suas despedidas, e os dois saíram a
conversar sobre o quanto poderia custar a Amâncio aquele almoço.
— Também que diabo ficamos nós
fazendo aqui? lembrou Paiva, quando se viu a sós com o amigo. — Paga isso e
vamo-nos embora. Queres tu ir até lá a casa?...
— Mas eu já estou há muito tempo na
rua... considerou Amâncio.
— E o que tem isso?!... Deves contas
de ti a alguém?! Ora essa!
— É que Campos pode reparar!...
— Pois que repare! Manda plantar
batatas o tal Campos! Tu não és nenhum caixeiro dele... Eu, no teu caso, nem
ficava ali mais um dia! Que necessidade tens agora de passar às sopas de um
negociante, e sujeitar-te a regulamentos comerciais? É de mau gosto estar
hospedado em casa de negócio! Olha! Se quiseres, muda-te lá para a república.
Sempre é outra coisa morar com rapazes! Aprende-se!
O criado, a quem já tinham pedido a
conta, entrou com uma pequena salva na mão e foi, instintivamente, depô-la em
frente de Amâncio.
— Espere, disse este, tirando
dinheiro do bolso. E entregou-lhe uma nota de cem mil-réis.
O moço saiu correndo.
— Quanto foi? desejou saber Paiva.
— Oitenta e cinco mil-réis,
respondeu o outro.
— Oitenta e cinco mil-réis! Oh! que
grande ladroeira!
E logo que o criado voltou com o
troco:
— Tomem, faça o favor de dizer em
que se gastaram aqui oitenta e cinco mil-réis... Salvo se vossemecês metem
também na conta o que quebrou Brás!
— Não senhor! Eu só cobrei os copos,
que já estavam partidos antes do rolo.
— Que enorme ladroeira! insistia
Paiva, a sacudir a cabeça.
— Deixa lá! aconselhou Amâncio,
puxando-o para fora.
Precisava andar e tomar fresco.
Aqueles gabinetes eram um forno — sentia-se mal.
— É que não posso ver extorquir
desta forma o dinheiro de ninguém! disse Paiva indignado.
E principiou a fazer as contas pelo
que se lembrava de ter vindo à mesa.
Amâncio o puxou de novo:
— Deixa lá isso, homem!
— Nada! Pelo menos hei de vingar-me
aqui em alguma coisa!
O criado havia saído. Paiva Rocha
principiou a derramar o resto das garrafas no açucareiro, a emporcalhar o
damasco da cortina e a cuspir dentro das chávenas.
Amâncio ria-se formalmente, mas, no
íntimo, aborrecido:
— Agora podemos ir! disse afinal o
outro. — Ao menos deixo-lhes um prejuízo!
E ainda meteu no bolso um paliteiro
e duas colheres.
Lá na república precisava-se
daqueles objetos! acrescentou rindo.
Já na rua, Amâncio reparou que a
cabeça lhe estava muito pesada e queixou-se de suores frios. Paiva chamou um
carro, e, uma vez dentro com o colega, mandou tocar para a Rua de Mata-Cavalos.
— Esqueceste aquilo de que falamos?
perguntou em viagem ao companheiro.
Amâncio já não se lembrava.
Paiva respondeu, fazendo um sinal
com os dedos.
— Ah! Quanto queres?
— Dá cá daí uns cinqüenta ou
sessenta... depois te pagarei.
— Pois não, gaguejou Amâncio,
passando-lhe três notas de vinte mil-réis.
IV
Amâncio chegou à república muito
indisposto. Quase que não dava conta dos quatro lances de escada que a
precediam.
Também foi só chegar e atirar-se à
primeira cama, gemendo e resbunando ao peso de uma grande aflição. Estava mais
branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo; respirava
com dificuldade, a abrir a boca e a retorcer os olhos.
— Então? disse Paiva, batendo-lhe no
ombro.
— Mal! respondeu Amâncio, sem levantar
a cabeça, que deixara cair sobre o peito. E com um gesto pediu água.
— Isso passa! afiançou o colega,
entregando-lhe o púcaro cheio. Estás é com um formidável pifão.
E riu-se.
— Eu quero vomitar! exclamou
Vasconcelos, apressado pela agonia, e mal teve tempo de erguer o rosto.
— És um fracalhão! ponderou o
companheiro, amparando-o pela testa — Que diabo! quem não pode com o tempo não
inventa modas!
Amâncio não respondia: os engulhos
vinham-lhe uns sobre os outros.
— Ai! ai! gemia oprimido.
— Ora que tipo! disse Paiva,
atirando-o sobre os travesseiros. — Vê se consegues dormir! Isto não é nada!
E narrou um caso idêntico que
experimentara.
Amâncio sentia-se um pouco mais
aliviado, continuava, porém, a suar frio; tinha a cabeça completamente ensopada
e não dispunha de forças para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe com um
entorpecimento pesado de sono. Pediu mais água. E, depois de a tomar, deu a
entender que era preciso que o despissem e descalçassem.
Paiva entrou a tirar-lhe a roupa,
safou-lhe com dificuldade as botinas, porque as meias estavam suadas.
Amâncio, muito prostrado, mole, a
virar-se de uma para outra banda, aiava sempre. Afinal sossegou, parecia
adormecido; mas, ergueu-se logo, com ímpeto, e começou a vomitar de novo, sem
dizer palavra.
— Que pifão! reconsiderava o colega,
encarando-o com as mãos cruzadas atrás.
— Homem! Vê se lhe dás um pouco de
amônia! lembrou do fundo do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa.
Só então Amâncio percebeu que ali, a
seis ou sete passos distante dele, estava um rapaz magro, muito amarelo, em
ceroulas e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo preocupado, um grosso
volume que tinha sobre o estômago. Parecia deveras ferrado no seu estudo,
porque até aí não dera fé do que se lhe passava em derredor.
— Olha! disse ao Paiva. — Creio que
está acolá, sobre a mesa, por detrás do Comte. É um frasquinho quadrado, com
rolha de vidro.
Dito isto, recolheu-se de novo à
leitura, como se nada houvesse sucedido.
Amâncio serenou de todo com algumas
gotas de amoníaco em um copo d’água, e afinal pegou no sono profundamente.
Só acordou no dia seguinte, quando o
sol já entrava pela única janela do quarto.
Sentia a boca amarga e o corpo
moído. Assentou-se na cama e circunvagou em torno os olhos assombrados, com a
estranheza de um doido ao recuperar o entendimento.
O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo sítio; agora,
porém, dormia, amortalhado a custo num insuficiente pedaço de chita vermelha.
Do lado oposto, no chão, sobre um
lençol encardido e cheio de nódoas, a cabeça pousada num jogo de dicionários
latinos, jazia Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um colete de
flanela. Mais adiante, em uma cama estreita, de lona, viam-se dois moços,
ressonando de costas um para outro, com as nucas unidas, a disputarem
silenciosamente o mesmo travesseiro.
O quarto respirava todo um ar triste
de desmazelo e boêmia. Fazia má impressão estar ali: o vômito de Amâncio
secava-se no chão, azedando o ambiente; a louça, que servira ao último jantar,
ainda coberta de gordura coalhada, parecia dentro de uma lata abominável, cheia
de contusões e roída de ferrugem. Uma banquinha, encostada à parede, dizia com
o seu frio aspecto desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar durante a
noite, até que se extinguira a vela, cujas últimas gotas de estearina se
derramavam melancolicamente pelas bordas de um frasco vazio de xarope Larose,
que lhe fizera as vezes de castiçal. Num dos cantos amontoava-se roupa suja; em
outro repousava uma máquina de fazer café, ao lado de uma garrafa de espírito
de vinho. Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, sobre
jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de casimira; em
uma das ombreiras da janela umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas num
prego. Por aqui e por ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas
ressequidas. No meio do soalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
A luz franca e penetrante da manhã
dava a tudo isso um relevo ainda mais duro e repulsivo; o coração de Amâncio
ficou vexado e corrido, como se todos os ângulos daquela imundície o espetassem
a um só tempo. Ergueu-se cautelosamente, para não acordar os outros, e foi à
janela. O vasto panorama lá de fora estremulhou-lhe os sentidos com o seu
aspecto.
A república era no alto, sobre três
andares, dominando uma grande extensão. Viam-se de cima as casas acavaladas
umas pelas outras, formando ruas, contornando praças. As chaminés principiavam
a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de leite
caminhavam com o seu passo vagaroso, parando à porta dos fregueses, tilintando
o chocalho; os quiosques vendiam café a homens de jaqueta e chapéu desabado;
cruzavam-se na rua os libertinos retardios com os operários que se levantavam
para a obrigação; ouvia-se o ruído estalado dos carros d’água, o rodar monótono
dos bondes. Mais para além pressentiam-se os arrabaldes pelo verdejar das
árvores; ao fundo encadeavam-se cordilheiras, graduando planos esfumados de
neblina. O horizonte rasgava-se à luz do sol, num deslumbramento de cores
siderais. E lá muito longe, quase a perder de vista, reverberava a baía,
laminando as águas na praia.
Embaixo, na área da casa, uma ilhoa, de braços nus, a cabeça
embrulhada em um lenço de ramagens, lavava a um tanque de cimento romano; um
homem, em mangas de camisa, varrias as pedras do chão, cantarolando com os
dentes cerrados, para não deixar cair a ponta do cigarro. Numa janela, um
sujeito, de óculos azuis, areava os dentes e com a boca atirava duchas sobre um
papagaio, cuja gaiola pousava no balcão. Dentro de um cercado cacarejavam
galinhas, mariscando na terra; e o homem do lixo entrava e saía, familiarmente,
com o seu gigo às costas.
Um relógio da vizinhança bateu seis horas.
Amâncio reparou que estava com muita
sede, mas não descobria a talha d’água. Afinal encontrou-a, num sótão que havia
ao lado do quarto e onde só se entrava vergando o corpo.
Bebeu até à saciedade.
Depois lavou o rosto e a boca. E com
a idéia de sair antes que os mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro
que lhe restava, lamentando interiormente o que na véspera esbanjara; viu no
chão uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela e ponta de
pé, abriu a porta e ganhou a escada.
Entre o primeiro e o segundo andar
encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos, que subia com dois copos de
leite, um em cada mão, fazendo mil esforços para não os entornar. Ao ver
Amâncio ela emperrou, cosendo-se à parede, a fim de lhe dar passagem, e olhou-o
de esguelha, com medo de afastar a vista dos copos.
Era bonitinha, corada, os cabelos
castanhos apanhados na nuca. Parecia
portuguesa.
Amâncio, ao passar por ela, estacou
também, a fitá-la. De repente lançou-lhe as mãos.
A pequena, muito contrariada, fez
uma cara de raiva e gritou — que a soltasse! que não fosse atrevido!
E desviava o corpo, querendo
defender-se, mas sem se descuidar dos copos.
— Mau! mau! siga o seu caminho e
deixe os outros em paz!
Amâncio não fez caso e conseguiu
beijá-la a pura força. Derramaram-se algumas gotas de leite.
— Maus raios te partam! clamou a
rapariga, assim que o viu pelas costas. — Peste ruim de um estudante!
A peste ruim do estudante saiu, e só
interrompeu a caminhada para entrar num botequim, onde pediu café. Então,
defronte ao espelho, pôde admirar o belo estado em que se achava.
— Como diabo havia de apresentar-se
naquele gosto em casa do Campos?... Também que triste idéia a sua — de se
enterrar numa casa comercial! Não! com certeza estava mal hospedado... nem lhe
convinha permanecer ali! — Oh! Bastava já de ser governado, de ser vigiado a
todo instante! — Já era tempo de gozar um pouco de liberdade.
E enquanto sorvia compassadamente o
café, recapitulava na memória todo o seu passado de terror e submissão: — Antes
de entrar para a escola de primeira letras, nunca lhe deixaram transpor a porta da rua ou a porta do
quintal; os outros meninos de sua idade tinham licença para empinar papagaios,
brincar entrudo, queimar fogos pelo tempo de São Pedro; — ele não! depois caiu
nas garras no professor — aquela fera! Nunca saía de casa, sem levar atrás de
si um escravo para o vigiar, para o impedir de fazer travessuras e obrigá-lo a
caminhar com modo, direito, sério como um homem. Afinal escapou ao professor,
sim! mas continuou sob a dura vigilância do pai, do tio e das tias; todos o
rondavam; todos o traziam “num cortado”. Só na fazenda da avó conseguia
desfrutar alguma liberdade, mas essa mesma não era completa e, ai! durava tão
pouco tempo!...
Agora compreendia a razão pela qual,
no mês de férias que passava aí, se tornava tão travesso e tão maligno — é que
naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava coagido em casa do
pai. De sua infância eram aqueles meses privilegiados a coisa única que lhe
merecia verdadeira saudade; o mais estrangulavam tristes reminiscências de
castigos, de sustos, apoquentações de todo o gênero.
A própria idéia de sua mãe nunca lhe
vinha só; havia sempre ao lado da venerada imagem alguma recordação enfadonha e
constrangedora. — As poucas vezes em que estavam juntos, o pai chegava no
melhor da intimidade e Ângela se retraía, cortando em meio as carícias do
filho, como se as recebera de um amante, em plena ilegalidade do adultério.
E a memória desses beijos a furto e
medrosos, a memória desses carinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe às
vezes que ele em pequeno se metia no quarto dos engomados, de camaradagem com
as mulatas da casa que aí trabalhavam conjuntamente.
Era quase sempre pelo intervalo das
aulas, no meio do dia, quando o calor quebrava o corpo e punha nos sentidos uma
pasmaceira voluptuosa.
Em casa do velho Vasconcelos havia,
segundo o costume da província, grande número de criadas; só no “quarto da
goma” como lá se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas costuravam; outras
faziam renda, assentadas no chão, defronte da almofada de bilros; outras,
vergadas sobre a “tábua de engomar”, passavam roupa a ferro.
Amâncio, quando criança, gostava de
meter-se com elas, participar de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar
correr o tempo, deitado sobre as saias, amolentando-se ao calor penetrante das
raparigas, a ouvir, num êxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com
risadinhas estaladas à socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em tê-lo
perto de si, achavam-no vivo e atilado, provocavam-lhe ditos de graça, mexiam
com ele, faziam-lhe perguntas maliciosas, só para “ver o que o demônio do
menino respondia”. E, logo que Amâncio dava a réplica, piscando os olhos e
mostrando a ponta da língua, caíam todas num ataque de riso, a olharem umas
para as outras com intenção.
De resto, ninguém melhor do que ele
para subtrair da despensa um punhado de açúcar ou de farinha, sem que Ângela
desse por isso.
— O demoninho era levado!
E assim se foi tornando mulherengo
fraldeiro, amigo de saias.
A mãe, quando ouvia da varanda as
risadas da criadagem, gritava logo pelo filho.
— Já vou, mamãe! respondia Amâncio.
— Lá estava o diabrete do menino às
voltas com as raparigas no quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!...
Mas Amâncio não se corrigia. É que
ali ao menos não chegaria o pai.
Às vezes, quando ia passear à casa
de alguma família conhecida, arranjava-se com as moças, gostava de
acompanhá-las por toda parte, fazendo-se muito dócil e amigo de servir. Como
era ainda perfeitamente criança e bonitinho, elas lhe faziam festas e davam-lhe
doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias. Algumas lhe perguntavam
brincando se ele as queria para mulher, se queria “ser seu noivo”. Amâncio
respondia que sim com um arrepio. E daí a pouco ficavam as moças muito surpreendidas
quando ao demônio do menino lhes saltava ao colo e principiava a beijar-lhes
sofregamente o pescoço e os cabelos ou a meter-lhes a língua pelos ouvidos.
— Credo! disse uma delas em situação
idêntica. — Que menino! Vá para longe com as suas brincadeiras!
Outras, porém, lhe achavam muita
graça e eram as primeiras a puxar por ele.
De todos os brinquedos o que Amâncio
em pequeno mais estimava, era o de “fazer casa”. A casa fazia-se sempre
debaixo de uma mesa, com um lençol em volta, figurando as paredes. Uma de suas
primas, filha do protetor Campos, ou alguma menina que estivesse passando o dia
com ele, representava de mulher; Amâncio de marido. A menina ficava debaixo da
mesa enquanto ele andava por fora, “a ganhar a vida” até que se recolhia também
à casa, levando compras e preparos para o almoço. Amarravam um lenço em
duas pernas da mesa, fingindo rede, e aí metiam uma boneca, que era o filho.
Gostava infinitivamente dessa
brincadeira. Mas um belo dia veio abaixo o lençol que servia de parede, e desde
então Ângela não consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.
Muitos anos depois, aos quinze,
notou-se incomodado por um padecimento estranho. Não disse nada à família e
procurou um homem que havia na província com grande habilidade para curar
moléstias, viessem elas até do mau-olhado e do feitiço.
Santo homem! O mal do nosso
estudante desapareceu como por milagre; o que, aliás, não impediu que tivesse
daí a pouco de voltar à cama, debaixo de um novo e mais formidável carregamento
que o ia varrendo ao cemitério. Foram esses os três anos de sezões a que se
referia, quando pela primeira vez falou ao Campos.
E Amâncio, quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais remexia no cinzeiro
do passado, tanto mais impacientes lhes rosnavam os sentidos e tanto mais
desabrida lhe vinha a necessidade de gozar, de viver em liberdade, de recuperar
o tempo que levou sopeado e preso.
— Enfim! concluiu ele erguendo-se
distraído e abandonando o café — a casa do Campos não me convém! de forma
alguma!
Mas a idéia de Hortênsia, que, para
se apresentar só esperava o termo daquelas considerações, invadiu-lhe o
espírito e foi a pouco e pouco se estendendo e se esticando por todo ele, até
ocupá-lo inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como uma bela mulher
que desperta e, entre voluptuosos espreguiçamentos, alonga pela cama os seus
membros ainda entorpecidos de sono.
E ele, quando deu por si, estava a
fazer conjecturas sobre o amor de Hortênsia:
— Seria ardente ou calmo? Meigo ou
arrebatador? Que atitude tomaria a bela mulher nos momentos supremos de
ventura? Quais seriam as suas palavras, as frases do seu delírio?...
E, aguilhoado pelos sentidos,
perdia-se em cálculos infames, em degradantes suposições; tentando, embalde,
adivinhar-lhe os pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do coração e
devassar-lhe todos os segredos do
corpo.
— Oh! Como seria?...
E seu desejo vil começava a
despi-la, peça por peça, até deixá-la completamente nua.
— Mas não! não havia possibilidade!
contrapunha-lhe a razão. — Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hortênsia
não podia ser mais séria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra, o gesto,
que lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?... Sim! que fizera
a pobre senhora para autorizá-lo a tanto?... Onde estava o fundamento daqueles
sonhos, pelos quais queria trocar a liberdade, os seus prazeres, tudo, e ficar
encurralado em uma casa comercial, com obrigação de entrar às tantas, comer às
tantas, e guardar todas as conveniências ao lado de uma gente impossível!?...
Ora! que se deixasse de asneiras! Não fosse tolo!
Hortênsia Campos aparecia-lhe então
como em verdade o era: carinhosa e altiva, afável para todos igualmente, sem
dar a nenhum o direito de supor uma preferência. Amâncio já não a tinha
descomposta defronte dos olhos, mas respeitosamente restituída ao seu
vestidinho de chita, às suas botinas de duraque, quase sem salto, e às suas
tranças honestamente penteadas.
— Mudava-se! Que dúvida! Sim! Uma
vez que Hortênsia nada mais era do que uma senhora virtuosa, que diabo ficava
ele fazendo ali?... Não seria decerto pelos bonitos olhos do Campos!
*
* *
Às oito horas, quando entrou em casa tinha já resolvido não
ficar ali nem mais um dia. — Era fazer as malas e bater quanto antes a bela
plumagem!
Mas também, se por um lado não lhe
convinha ficar em companhia do Campos, por outro, a idéia de se manter na
república do Paiva não o seduzia absolutamente. Aquela miséria e aquela
desordem lhe causavam repugnância. Queria a liberdade, a boêmia, a pândega —
sim senhor! tudo isso, porém, com um certo ar, com uma certa distinção
aristocrática. Não admitia uma cama sem travesseiros, um almoço sem talheres, e
uma alcova sem espelhos. Desejava a bela crápula, — por Deus que desejava! mas
não bebendo pela garrafa e dormindo pelo chão de águas-furtadas! — Que diabo! —
não podia ser tão difícil conciliar as duas coisas!...
Pensando deste modo, subiu ao
quarto. Sobre a cômoda estava uma carta que lhe era dirigida; abriu-a logo:
“Querido Amâncio.
Desculpe tratá-lo com esta
liberdade; como porém, já sou amigo, não encontro jeito de lhe falar doutro
modo. Ontem, quando combinamos no Hotel dos Príncipes a sua visita para
domingo, não me passava pela cabeça que hoje era dia santo e que fazíamos
melhor em aproveitá-lo; por conseguinte, se o amigo não tem algum compromisso,
venha passar a tarde conosco, que nos dará com isso um grande prazer. Minha
família, depois que lhe falei a seu respeito, está impaciente para conhecê-lo e
desde já fica à sua espera.”
Assinava “João Coqueiro” e havia o
seguinte pós-escrito: “Se não puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha.”
Amâncio hesitou em se devia ir ou
não. Coqueiro, com a sua figurinha de tísico, o seu rosto chupado e quase
verde, os seus olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho de
pássaro, com a sua boca fria, deslabiada, o seu nariz agudo, o seu todo seco,
egoísta, desenganado da vida, não era das coisas que mais o atraíssem. No
entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele procurava — um cômodo limpo,
confortável, um pouquinho de luxo, e plena liberdade. Talvez aceitasse o
convite.
— Esta gente onde está? perguntou,
indicando o andar de cima a um caixeiro que lhe apareceu no corredor com a sua
calça domingueira, cor de alecrim, o charuto ao canto da boca.
— Foram passear ao Jardim Botânico,
respondeu aquele, descendo as escadas.
— Todos? ainda interrogou Amâncio.
— Sim, disso o outro entre os
dentes, sem voltar o rosto. E saiu.
— Está resolvido! pensou o
estudante. — Vou à casa do Coqueiro. Ao menos estarei entretido durante esse
tempo!
E voltando ao quarto:
— Não! É que tudo ali em casa do
Campos já lhe cheirava mal!... Olhassem para o ar impertinente com que aquele
galeguinho lhe havia falado!... E tudo mais era pelo mesmo teor. — Uma súcia de
asnos!
Começou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa,
atirando com as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de
arrojá-lo pela janela; ao tomar uma toalha do cabide, porque ela se não
desprendesse logo, deu-lhe tal empuxão que a fez em tiras.
— Um horror! resmungava, a
vestir-se, furioso sem saber do quê.
— Um horror!
E, quando passou pela porta da rua,
teve ímpetos de esbordoar o caixeiro, que nesse dia estava de plantão.
V
João Coqueiro era fluminense e
fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto em uma das casas de seus pais,
quando estes eram ricos.
Que o foram. Viera-lhes a fortuna do
avô materno, um português ambicioso e econômico, que a conquistara no tráfico
dos negros africanos; ao morrer legou à filha, ainda criança, para cima de
quinhentos contos de réis. Esta, mais tarde, foi solicitada em casamento pelo
homem a quem pertenceu para sempre — Lourenço Coqueiro, os maiores bigodes que
nesse tempo negrejavam na Corte do Império.
Lourenço, todavia, era já um destroço
quando casou. Do que fora e do que possuíra, apenas lhe restava, além do
bigode, o hábito de não fazer coisa alguma; nos melhores grupos citava-se,
entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se com boa vontade de seus
dotes pessoais e do seu belo espírito eternamente galhofeiro.
O casamento representou para ele uma
tábua de salvação. A mulher adorava-o; tinha-o na conta de um ente superior;
jamais vira homem tão lindo de rosto, tão insinuante no falar, tão delicado de
maneiras.
Mas, pouco depois de casado,
Lourenço começou a desgostá-la: era um nunca terminar de festas; a casa vivia
num rebuliço constante; os intervalos das pândegas não davam sequer para a
trazer arrumada e limpa. Quando não fossem bailes, eram passeios, piqueniques,
manhãs no campo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Botânico. Lourenço, às
vezes, voltava ébrio, a cachimbar no fundo do carro, e a fazer carícias piegas
à mulher, que ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! tinha muito medos
sempre que o via nesse gosto, porque o demônio do homem dava então para brigar,
mexia com quem passava, metia a bengala nos cocheiros e quebrava com os pés
tudo que encontrasse no caminho.
Tiveram o primeiro filho — Janjão.
Criancinha feia, dessangrada, cheia de asma. Até aos cinco anos parecia idiota:
passavam os dois a babar-se debaixo da mesa de jantar ao pé de um moleque
encarregado de vigiá-la.
A mãe desfazia-se em mil
cuidadozinhos com a criança; era esta o seu enlevo, a sua vida. Mas o pai não
estava por isso: — temia que o rapaz lhe saísse um maricas. Desejava-o forte,
decidido!
E, com enormes sobressaltados da
mulher, tomava-o pelas perninhas magras e suspendia-o no ar.
— Os homens assim é que se fazem,
minha filha! dizia ele a rolar o pequeno entre as mãos.
E não admitia igualmente que o
menino tivesse outra cama que não fosse um enxergão. Não o queria calçado, nem
vestido e, em vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria muito
melhor que fosse correr para a chácara.
— Ele pode machucar-se, Lourenço,
cair! observava a esposa timidamente.
— Pois deixa-o cair! deixa-o
machucar-se! Quanto mais trambolhões levar em pequeno, melhor, depois se
agüentará nas pernas!
— Mas ele é tão fraquito,
coitadinho!
— Por isso mesmo! por isso mesmo
precisamos torná-lo forte! E previno-te de que já é mais que tempo de acabar
com esse insuportável tratamento de “Janjão!” Aqui não há janjões! Meu filho
chama-se João! Tem o nome do avô, um herói, um fidalgo! Não desses que hoje se
fazem aí a três por dois, mas dos legítimos, dos bons! — Entendes tu? — dos
bons!
E inflamava-se, como sempre que se
referia à sua procedência. Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho
bastardo de um conde português.
À mesa exigia que o filho lhe
ficasse ao lado e obrigava-o a comer bifes sangrentos e tomar vinho sem água.
Um dia a esposa revoltou-se:
— Pois tu vais dar conhaque ao
menino, Lourenço?! exclamou ela escandalizada.
— Deixa-o cá comigo, senhora! Eu sei
o que faço!
— Olha que isso pode sufocá-lo,
homem de Deus!
— Qual sufocar o quê! Por essas e
outras é que, para os estrangeiros, não passamos de “uns macacos”!
A mulher que se desse ao trabalho de
saber como se fazia na Europa a educação física das crianças! Queria que ela
visse a criação que tiveram D. Pedro e D. Miguel! E eram príncipes! — Entendia?
— eram príncipes legítimos!
E, voltando-se para o filho, gritou,
arregalando os olhos e soprando os bigodes, que já então se faziam cinzentos:
— Tu não queres ser um homem forte,
João?! Queres ser um descendente degenerado de teus avós?!
Janjão olhou o pai com medo, e abriu
a chorar.
— Aí tens o que procuravas! disse a
mulher, correndo para junto do filho. — Assustar desse modo a pobre criança!
Janjão chorava mais.
— Isso! Isso é o que há de pôr pra
diante! berrou Lourenço encolerizando-se. Beba já esse conhaque, menino!
— Deixa a criança!... suplicava a
mãe. — Olha como treme o pobrezinho!... o coração parece que lhe quer
saltar!...
E tomou-o ao colo.
— É melhor mesmo que leves daí esse
mono! Tira-mo dos olhos! Já estou vendo a boa lesma que isso há de dar! — Mães
ignorantes!...
Quando Janjão principiou a crescer,
o pai levava-o a toda a parte, dava-lhe charutos, obrigava-o a tomar cerveja
nos cafés. Foi, porém, uma campanha conseguir uma vez que o pequeno se
assentasse por dois minutos na sela de um cavalo em que Lourenço havia chegado
do seu passeio favorito a Botafogo.
Janjão, trêmulo da cabeça aos pés, agarrava-se com ambas as
mãos nas crinas do animal e berrava pela mãe de toda a força de que era capaz.
Tiveram de desmontá-lo para não o verem rebentar ali mesmo.
— Ora, como diabo havia de sair este
mono! lamentava o pai desesperado. — Ninguém acreditaria que aquele choramingas
era seu filho!
Não foram mais felizes com as primeiras tentativas de
natação ou as primeiras experiências de atirar ao alvo: Janjão, só com a vista
do mar ou a presença de um revólver, desatava a soluçar e a berrar pela mãe.
— Não! Isso agora hás de ter
paciência! resmungava Lourenço. — Tu ao menos ficarás sabendo dar um tiro! Sou
eu quem te assegura!
E, com muita sutileza, comprou para
o filho uma bela pistolinha de brinquedo que estalava fulminantes, e depois uma
outra, mais séria, que admitia carga de pólvora.
Janjão era, porém, cada vez mais refratário a tudo isso.
Preferia ficar a um canto da sala, entretido a vestir os seus bonecos ou a
fazer de cozinheiro. A mãe por esse tempo dava-lhe uma irmãzinha, que se ficou
chamando Amélia, e desde aí o maior encanto do menino era tomar conta do caixão
em que estava a pequerrucha toda envolvida em panos, e não consentir que as
moscas lhe pousassem na moleira.
Um dia, o pai, descendo ao quintal,
encontrou-o muito empenhado com o moleque a armar um oratório. Iam fazer
procissão: o andor e o santo estavam prontos; uma sombrinha enfeitada de franjas, faria as vezes de pálio.
Lourenço ficou desesperado, e com
dois pontapés reduziu tudo aquilo a frangalhos.
— Era o que lhe faltava! — que o
basbaque do filho, além de tudo, lhe saísse carola!
E quando subiu, disse
terminantemente à mulher que não admitia que o filho corrompesse o espírito com
as patacoadas daquela ordem.
— Se me constar, bradou ele ao
pequeno — que me tornas a fazer igrejinhas, racho-te de meio a meio, pedaço de
uma lesma! Ora vamos a ver! Cai noutra, e terás uma sapeca que te deixa a
paninhos de sal! Experimenta e verás!
Ele queria lá filhos devotos! Era só
o que lhe faltava! Era só! Aquele menino parecia o seu castigo! parecia a sua
maldição!
Aos doze anos Janjão entrou para o
internato de Pedro II. A princípio custou-lhe bastante compreender as lições,
mas, como era muito estudioso e muito paciente, os professores em breve o
elogiavam. Tinham-no em boa estima pelo seu espírito católico, pela docilidade
de seu gênio e pelo irrepreensível de sua conduta. João Coqueiro, de fato, fora
sempre um menino sossegado metido consigo, respeitador dos mestres e dos
preceitos estabelecidos, devoto e extremamente cuidadoso de seus livros e de
suas obrigações. Ninguém lhe ouvia palavra mais áspera ou gesto menos
conveniente, e às vezes entrava pela hora do recreio grudado aos livros sem os
querer deixar.
O pai via-o então com orgulho.
Profetizava já que ali estivesse um sábio.
Tirou distinção nos primeiros
exames. A mãe quase morre de alegria. Lourenço quis solenizar o acontecimento
com um banquete correlativo; mas as suas condições de fortuna já não eram as
mesmas; o dinheiro ia minguando de um modo assustador. Se lhe viesse a falhar
uma especulação, em que se havia lançado ultimamente, como recurso extremo —
Adeus! estaria tudo perdido! a ruína seria inevitável!
Fez-se a festa, não obstante, e o menino voltou aos estudos.
Mas Lourenço principiava a sofrer
gravemente de uma lesão cardíaca. Tinha ataques nervosos, sufocações, e caía,
de vez em quando, em fundas melancolias, durante as quais se enterrava no quarto,
sem poder suportar a presença de ninguém, muito frenético, cheio de apreensões,
com grande medo de morrer.
A mulher assustava-se: o marido não lhe parecia o mesmo homem.
Estava acabado; crescera-lhe o ventre, o nariz tomara uma vermelhidão gordurosa,
o cabelo encanecera totalmente, a cabeça despira-se, a pele do rosto fizera-se
opaca e suja. Comprazia-se agora ir à noite pelas igrejas, embrulhado na sua
sobrecasaca russa, apoiando-se à grossa bengala de cana-da-índia, os pés à
vontade em sapatos rasos. Ajoelhava-se a um canto da nave, em cima das pedras,
e aí permanecia longamente, a ouvir os sons lamentosos do órgão, com o rosto
descansado sobre as mãos que se cruzavam no castão da bengala.
Às vezes chorava.
Seu estômago irritado já não queria
os alimentos; era preciso enganá-lo de instante a instante com um pouco de
noz-vômica ou carbonato de magnésia. Não se lhe podia suportar o hálito.
Quando recebeu a notícia de que a
sua especulação falhara, estava no quarto, não conseguiu sair do lugar em que
se achava. Uma onda vermelha subira-lhe à cabeça: os objetos principiaram a
dançar-lhe em torno dos olhos; o chão fugia-lhe debaixo dos pés. Tentou ainda
dar alguns passos, mas cambaleou e caiu afinal sobre as pernas embambecidas —
como uma trouxa.
Morreu no dia seguinte.
A família ficou pobre. Foi preciso
vender o melhor de dois prédios que restavam, para saldar as dívidas do
defunto.
A viúva principiou então a tomar
encomendas de costura e de engomagem.
Isso, porém, não bastava; era
necessário, a todo o transe, que o menino continuasse nos estudos. Em tal
aperto, lembrou-se a pobre mãe de
admitir hóspedes; a casa que ficou tinha bastante cômodos e prestava-se
admiravelmente para a coisa.
Vieram os primeiros inquilinos;
arranjaram-se fregueses para o almoço e jantar, e o órfão prosseguiu nas suas
aulas.
Dentro de pouco tempo, o sobrado da
viúva de Lourenço era a mais estimada e popular casa de pensão do Rio de
Janeiro.
Foi nela que Janjão se fez homem. Aí
o viram bacharelar-se e aí se matriculou na Escola Central. A irmã respeitava-o
como a um pai.
Amélia, por conseguinte, cresceu em
uma — casa de pensão. Cresceu no meio da egoística indiferença de vários
hóspedes, vendo e ouvindo todos os dias novas caras e novas opiniões,
absorvendo o que apanhava da conversa dos caixeiros e estudantes
irresponsáveis; afeita a comer em mesa redonda, a sentir perto de si, ao seu
lado, na intimidade doméstica — homens estranhos, que não se preocupavam com
lhe aparecer em mangas de camisa, chinelas e peito nu.
Ainda assim deram-lhe mestres.
Aprendera a ler e a escrever, tocava já o seu bocado de piano e — se Deus não
mandasse o contrário — havia de ir muito mais longe.
Um novo desastre, veio, porém,
alterar todos esses planos: a viúva de Lourenço, depois de dois meses de cama,
sucumbiu a uma pneumonia.
João Coqueiro estava então no
segundo ano da Politécnica; Amélia a fazer-se mulher por um daqueles dias;
parentes — não os tinham... capitais — ainda menos... Como, pois, sustentar a
casa de pensão?... Oh! Era preciso despedir os hóspedes, alugar o prédio,
abandonar os estudos e obter um emprego.
Arranjou-o de fato — na estrada de
ferro de Pedro II. Coqueiro dissolveu logo a casa de pensão e foi mais a irmã
residir em companhia de uma francesa, muito antiga no Brasil, e que durante
longo tempo se mostrou amiga íntima da defunta.
Chamava-se Mme. Brizard.
Era mulher de cinqüenta anos, viúva
de um afamado hoteleiro, que lhe deixara muitas saudades e dúzia e meia de
apólices da dívida pública.
*
* *
Estava ainda bem
disposta, apesar da idade. Gorda, mas elegante com uns vestígios assaz
pronunciados de antiga formosura. Tinha os olhos azuis e os cabelos pretos, no
tipo peculiar ao meio-dia da França. Carne opulenta e quadril vigoroso.
Notava-se-lhe a boca, com um desses
lábios superiores que formam como duas camadas; o que aliás não obstava a que
Mme. Brizard tivesse um sorriso gracioso, e ainda tirasse partido da brancura
privilegiada de seus dentes. Mas a sua riqueza e a sua vaidade era o pescoço,
um grande pescoço pálido, cheio de ondulações macias a fartas.
Nascera em Marselha.
Depois de certa idade tornara-se
muito caída para o romantismo: desde então apreciava uma noite de luar; dava-se
à leitura prolongada de poetas tristes; fazia-se mais infeliz do que era de
fato, e contava a todos a sua história. — Um romance!
“Aos quinze anos saíra da família
pelo braço de um diplomata russo, que a idolatrava; — ia casada. O russo tresandava a genebra e recendia sarro de
cachimbo; ela abominou-o logo, abominou-o entre uma enorme corte de adoradores
fascinados por sua beleza e sequiosos por um de seus sorrisos; era, porém,
honesta: — conservou-se pura e fiel ao marido.”
Mme. Brizard quando chegava a este
ponto de romance, abaixava os olhos, levando lentamente o leque à boca para
disfarçar um suspiro.
“Enviuvou aos vinte anos; o russo
não lhe deixara filhos; — voltou à família. Aí lhe apareceu então Mr. Brizard,
homem de talento, político e escritor, grande republicano. A subida de Luís
Felipe ao trono atirou com ele ao Brasil, onde se fez hoteleiro.
Tiveram aqui três filhos; duas
mulheres e um homem. Este era o último e muito se distanciava das irmãs em
idade; quando lhe faltou o pai tinha apenas sete anos.
A filha mais velha representava a
glória da família: unira-se a um ministro plenipotenciário; a outra, coitada,
não casou mal, porém com a morte do marido e de um filhinho que lhe ficara,
tornou-se muito nervosa, histérica, e até meio pateta; agora vivia e mais o
irmão em companhia da mãe.”
*
* *
Nessas condições, a proposta de João Coqueiro pareceu
vantajosa a Mme. Brizard — Ele que trouxesse a irmã, a bela Amelita, e tudo se
arranjaria pelo melhor.
Juntaram-se. Mme. Brizard revelou
pronto interesse pelos dois hóspedes,
principalmente pelo “Coqueirinho”, como lhe chamavam em família. Fazia-se muito
carinhosa com ele, queria ser a sua “segunda mãe”, apreciava-lhe o talento, e
andava a mostrar os versos do rapaz a todas as pessoas que apareciam à noite,
para as torradas.
Reuniam-se em volta da mesa de
jantar; iam buscar o loto e jogavam. Coqueiro lia a um canto, ou ficava no
quarto, a cachimbar soturnamente, olhando o fumo e cismando na vida.
Mme. Brizard fazia perfeitamente as
honras da casa; dava-se por mulher de muito espírito e de uma educação
peregrina. Se havia então alguém que a visitasse pela primeira vez — a coisa ia
mais longe. Desenfiava os seus melhores ditos, contava, como por incidente, as
suas anedotas de mais efeito, falava gravemente de sua filha casada com o
ministro e exibia todos os seus conhecimentos literários.
Que os tinha, inegavelmente.
Lamartine lá estava no quarto dela, sobre o velador, encadernado com esmero.
Mas não desdenhava os poetas brasileiros e lia Camões. Uma sua amiga, muito
chegada, dizia que lhe ouvira páginas inéditas de um livro sobre o Brasil —
livro para fazer “sensação”!
Mme. Brizard confirmava este boato,
sorrindo com modéstia.
João Coqueiro, esse, não sorria, ao
contrário, parecia cada vez mais triste; passava tempos sem aparecer a ninguém,
depois que largava o trabalho. Por mais de uma vez houve quem lhe visse
lágrimas nos olhos.
A francesa, que se achava então no
seu período mais agudo de sentimentalismo, respeitava muito as melancolias do
pobre moço, falava a respeito dele com a voz baixa, cheia de um acatamento religioso.
Só lhe passava pelo quarto na pontinha dos pés, e, quando o triste hóspede saía
para o emprego, ela corria a lhe arrumar a mesa, com desvelo, ordenando os
livros, reunindo os papéis esparsos, lendo, sobre a pasta, os versos começados
na véspera.
Uma tarde, acharam-se os dois um
defronte do outro, assentados sozinhos na varanda da sala de jantar, que dava
para um lugar plantado de bananeiras. O sol descia lentamente no horizonte por
uma escadaria de fogo; as cigarras estridulavam no fundo da chácara; a noite ia
emanando.
Coqueiro olhava à toa para isso,
absorto e mudo; depois, suspirou e escondeu o rosto nas mãos, Mme. Brizard
passou-lhe um braço no ombro.
— Coqueirinho! que é isso?...
Queria saber o motivo daquelas
tristezas. Começou a interrogá-lo, com a voz untuosa, cheia de amor.
Ele então falou abertamente de suas
aspirações, de seus estudos interrompidos, de sua incompatibilidade com o
emprego que exercia.
— Sou muito caipora! exclamava. —
Sou muito caipora!
E chorava.
Mme. Brizard procurou consolá-lo,
falou do futuro, lembrou a idade de Coqueiro e aconselhou-o a que não
desanimasse.
Foi daí que lhes veio a idéia do
casamento.
Mme. Brizard era muito mais velha do
que ele, mas talvez por isso mesmo, fosse a esposa que melhor lhe convinha.
— Ah! ela estava no caso de fazê-lo
feliz, porque o amava! Oh! se o amava! Seria talvez uma loucura; talvez viessem
a censurá-la; — ela mesma não sabia explicar o que aquilo era, como aquilo
acontecera! Mas dava a sua palavra de honra, jurava pela memória de seu pai —
em como nunca sentira por ninguém o que então sentia por Coqueiro! Ah! sabia
perfeitamente que bem poucos compreenderiam a sua paixão! Sabia que muitos
haveriam de ridicularizá-la, haveriam de escarnecê-la; ela própria, até ali,
nunca imaginara que se pudesse amar tanto!... Durante a sua vida nunca se
sentiu tão possuída por uma idéia, tão escrava, tão vencida, como naquele
instante! Contudo, se desejava o casamento não era decerto pelo fato de possuir
um homem. — Oh! não! — deixava isso para as almas grosseiras... e Coqueiro bem
sabia o quanto seu coração tinha de espiritual e de puro!... Desejava aquele
enlace para licitamente poder aplicar todo o seu esforço, toda a sua coragem,
todas as suas diligências, na conquista de um bom futuro para o esposo. Queria
casar-se, porque entendia que isso se tornava necessário à felicidade de
Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos, dela, seriam empregados para
o mesmo fim: — facultar ao marido os meios de estudar, os meios de crescer,
desenvolver-se, luzir. Alcançasse ele um nome, uma posição brilhante, uma
atitude gloriosa, e tudo o mais lhe seria indiferente. Que lhe importava o
resto?... Se ela, porventura, fosse esquecida fosse desprezada, se viesse mesmo
a falecer dali a pouco tempo — que valia tudo isso, se o objeto de seus
extremos era ditoso e vivia cercado de admiração e de aplauso?...
E Mme. Brizard, depois de falar na
posteridade e depois de convencer ao Coqueiro de que aquele casamento era um
dever sagrado, pois que não realizá-lo equivalia a privar o Brasil de uma de
suas glórias futuras e ao século um de seus vultos talvez mais grandiosos, Mme.
Brizard, depois disso, entrou nos pormenores de seu plano.
— Uma vez casados, ressuscitariam a
antiga casa de pensão. Ela dispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um
prédio: — era restaurá-lo e dar começo à vida! Coqueiro abandonaria o emprego e
voltava de novo aos estudos; ela encarregava-se da gerência da casa e, nesse
ponto, deixando de parte a modéstia, supunha-se mais habilitada que ninguém.
Até já tinha projetos, já tinha as
suas idéias sobre a instalação da casa!... Sentia-se disposta a trabalhar por
vinte!... Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa de pensão
modelo! Coisa para dar “uma fortuna e render à Amelinha um bom casamento. — Um
casamentão!” Ah! Ela, a francesa, sabia perfeitamente como tudo isso se
arranjava no Brasil.
E concluiu, jurando ainda uma vez,
que — para si não queria nada! que só desejava a felicidade do Coqueiro e de
sua irmã, dele.
Era assim que entendia o amor!
Três meses depois estavam casados.
Boquejou-se alegremente sobre isso
na Escola Politécnica. Os amigos de Coqueiro acharam ocasião de rir, e a tal
mulher do ministro plenipotenciário, a glória da família, escreveu à mãe uma
carta carregada de recriminações, declarando que nunca lhe perdoaria semelhante
loucura. — Loucura de que para o futuro haveria Mme. Brizard de se arrepender
muito seriamente.
Os recém-casados fecharam, porém,
ouvidos a tais palavras e cuidaram de ir pondo em prática os seus novos planos
de vida.
Meteram mãos à obra. Coqueiro deixou
o emprego, contratou um empreiteiro para restaurar o seu velho prédio da Rua do
Resende, e a casa de pensão de Mme. Brizard (como teimosamente insistiam em lhe
chamar a mulher), surgiu ameaçadora, escancarando para a população do Rio de
Janeiro a sua boca de monstro.
VI
Foi justamente três anos depois
disso que Amâncio chegou ao Rio de Janeiro.
A casa de Mme. Brizard estava então
no seu apogeu; de todos os lados choviam hóspedes, entre os quais se notavam
pessoas de importância. Pelo tempo das câmaras reuniam-se ali alguns deputados
da província, homens sérios, em geral gordos, o ar discreto, um sorriso
infantil à superfície dos lábios e um fraseado imaginoso, cheio de poesia. Fazia-se
política no salão, depois da comida, em chinelas de tapete, ao remansado soprar
do fumo da Bahia.
A dona da casa gozava para eles de
muita consideração; só um ou outro, mais atirado à pilhéria, ousava atribuir a
algum dos seus “nobres colegas” os sorriso de Mme. Brizard.
Outros entusiasmavam-se por ela.
— Não! diziam. — Aquela mulher devia
ter sido um pancadão no seu tempo! Tudo que era pescoço e ombros ainda se podia
ver! Quem dera a muitas novas um colo daqueles!...
De uma feita, um deputado de Minas,
criatura baixa, socada, rosto curto, poucas palavras e muita barba,
empalmou-lhe a cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar.
A francesa abaixou os olhos,
afastou-se dignamente e foi logo dizer ao marido que era necessário por aquele
homem na rua.
— O Moura! Por quê?
— Não te posso dizer por que... mas
afianço que o Moura não nos convém!...
— Fez-te alguma coisa?
— Faltou-me ao respeito!
— Hein?!
— Agarrou-me a cintura e ter-me-ia
beijado o pescoço, se eu lho permitisse.
Esta última parte da queixa fazia
mais uma honra ao espírito inventivo de Mme. Brizard do que ao seu espírito de
verdade; ela, porém, não resistia ao gostinho de falar no seu rico pescoço
sempre que se oferecia ocasião.
E o Moura teria posto os ossos na
rua, se a própria Mme. Brizard não intercedesse por ele no dia seguinte,
alegando que o pobre homem havia na véspera carregado um pouco mais no virgem.
Também foi só. Nunca mais, que
constasse, palpitou ali sombra de escândalo, e a famosa casa de pensão
continuava a sustentar a melhor aparência deste mundo. Até se dizia à boca
cheia que, por mais de uma vez, já se hospedaram verdadeiras celebridades, e
eram todos de acordo em que no Rio de Janeiro ninguém fazia espetada de camarão
tão saborosa como as da simpática irmãzinha do João Coqueiro, a Amelita. Uma
verdadeira especialidade. Constava até que vinha gente de longe ao cheiro
daqueles camarões.
A casa tinha dois andares e uma boa
chácara no fundo. O salão de visitas era no primeiro. — Mobília antiga, um
tanto mesclada; ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó amarelo.
Três largas janelas de sacada, guarnecidas de cortinas brancas, davam para a
rua; do lado oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta, inclinava-se
pomposamente sobre um sofá de molas; em uma das paredes laterais, um detestável
retrato a óleo de Mme. Brizard, vinte anos mais moça, olhava sorrindo para um
velho piano, que lhe ficava fronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de
louça da Índia, cheios de areia até à boca.
Imediato à sala, com uma janela
igual àquelas outras, havia um gabinete, comprido e muito estreito, onde o
Coqueiro tinha a sua biblioteca e a sua banca de estudos. Via-se aí uma pasta
cheia de papéis, um tinteiro e um depósito de fumo, representando o busto de um
barbadinho; ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada à parede, por
debaixo de um pequeno caixilho de madeira com o retrato de Vítor Hugo em
gravura.
Seguia-se o aposento de Mme. Brizard
e mais do marido, onde também dormia o menino, o César, que teria então doze
anos; logo depois estava o quarto de Amelinha e da tal viúva histérica, Léonie,
a quem a família só tratava por “Nini”.
Vinha depois a grande sala de
jantar, forrada de papel alegre; nas paredes distanciavam-se pequenos cromos amarelados,
representando marujos de chapéu de palha, tomando genebra, e assuntos de
conventos — frades muito nédios e vermelhos refestelados à mesa ou a brincarem
com mulheres suspeitas. Um guarda-louça expunha, por detrás das vidraças, os
aparelhos de porcelana e os cristais; defronte — um aparador cheio de garrafas,
ao lado de outro em que estavam os moringues.
Ainda havia um corredor, a despensa,
a cozinha, uma escada que conduzia à chácara, outra ao segundo andar e mais
três alcovas para hóspedes, todas do mesmo tamanho e numeradas.
A numeração dos quartos principiava
aí nesses três para continuar em cima. Em cima é que estava o grande recurso da
casa, porque Mme. Brizard dividira todo o segundo pavimento em oito cubículos
iguais, ficando quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da frente davam
janelas para a rua e os do fundo para a chácara. As paredes divisórias eram de
madeira e forradas de papel nacional.
João Coqueiro, quando saiu do Hotel
dos Príncipes na manhã do almoço, ia preocupado; Simões, que caminhava à
sua esquerda um pouco sacudido pelos vinhos, em vão tentou, repetidas vezes,
puxá-lo à palestra; o outro respondia apenas por monossílabos e, na primeira
esquina, despediu-se e correu logo para casa.
Ao chegar foi direto à mulher, dizendo-lhe
em voz baixa, antes de mais nada:
— Olha cá, Loló...
E encaminhou-se para o quarto. Mme.
Brizard largou o que tinha entre as mãos e seguiu-o atentamente.
— Sabes? disse ele, sem transição,
assentando-se ao rebordo da cama. — É preciso arranjarmos cômodo para um rapaz
que há de vir por aí domingo.
— Um rapaz! Mas tu sabes
perfeitamente que os quartos acham-se todos ocupados. Se tivesses prevenido...
o n.º 2 ainda ontem estava vazio... Mas quem é?
— Há de se arranjar, seja lá como
for! disse o Coqueiro.
— Mas quem é?... insistiu Mme.
Brizard.
— É um achado precioso! Ainda não há
dois meses que chegou do Norte, anda às apalpadelas! Estivemos a conversar por
muito tempo: — é filho único e tem a herdar uma fortuna! Ah! Não imaginas: só
pela morte da avó, que é muito velha, creio que a coisa vai para além de
quatrocentos contos!...
Mme. Brizard escutava, sem despregar
os olhos de um ponto, os pés cruzados e com uma das mãos apoiando-se no
espaldar da cama.
— Ora, continuou o outro gravemente.
— Nós temos de pensar no futuro de Amelinha... ela entrou já nos vinte e
três!... se não abrirmos os olhos... adeus casamento!
— Mas daí... perguntou a mulher,
fugindo a participar da confiança que o marido revelava naquele plano.
— Daí — é que tenho cá um palpite!
explicou ele. — Não conheces o Amâncio!... A gente leva-o para onde quiser!...
Um simplório, mas o que se pode chamar um simplório.
Mme. Brizard fez um gesto de dúvida.
— Afianço-te, volveu Coqueiro — que,
se o metermos em casa e se conduzirmos o negócio com um certo jeito, não lhe
dou três meses de solteiro!
A francesa torcia e destorcia em
silêncio uma de suas madeixas de cabelo preto, que lhe caíam na testa.
— E ele terá fraco pelas mulheres?
perguntou afinal.
O estudante respondeu com um gesto
de convicção, e acrescentou:
— Negócio decidido! A questão é
arranjar-lhe o cômodo, e já! Tu — fala com franqueza à Amelinha; a mim não fica
bem... Olha, até me lembrou dar-lhe o gabinete... Hein? Por pouco tempo... é só
enquanto não se desocupa algum dos quartos...
— O gabinete?... mas tão
atravancado... e tão apertadinho!...
— Dá-se-lhe um jeito! Arranja-se!
contanto que o nosso homem não deixe de vir; porque, Loló, lembra-te de que é
“um filho único, com muito dinheiro e tolo!” Hoje não se encontra disso a cada
passo!... Se perdermos a ocasião, duvido que apareça outra tão boa! Enfim,
resumiu ele — eu já fiz o que tinha a fazer; o resto é contigo! Fala à
Amelinha, mas fala-lhe com jeito, tu sabes! — pinta-lhe a coisa como ela é!...
e não te esqueça de arranjar o gabinete. Até logo, tenho ainda que ir à rua,
mas volto daqui a pouco.
Nessa mesma tarde Mme. Brizard
entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente no “futuro”, disse-lhe que “uma
menina pobre, fosse quanto fosse bonita, só com muita habilidade e alguma
esperteza poderia apanhar um marido rico”.
E tocando-lhe intencionalmente no
queixo:
— Anda lá, minha sonsa, que sabes
disso tão bem como eu!...
Amélia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que
estivesse no seu alcance, para agradar ao tal sujeitinho.
Ardia, com efeito, por achar marido,
por se tornar dona de casa. A posição subordinada de menina solteira não se
compadecia com a sua idade e com as desenvolturas do seu espírito. Graças ao
meio em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era pão e o que era
queijo; por conseguinte as precauções e as reservas, que o irmão tomava para
com ela, faziam-na sorrir.
Às vezes tinha vontade de acabar com
isso. “Que diabo significavam tais cautelas?... Se a supunham uma toleirona,
enganavam-se — ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido de uma
agulha!”
— Agora, por exemplo, neste caso do
tal Amâncio, que custava ao Coqueiro explicar-se com ela francamente?... Por
que razão, se ele precisava de seu auxílio, não a procurou e não lhe disse às
claras: “Fulana, domingo vem aqui um rapaz, nestas e nestas condições: vê se o
cativas, porque ali está o noivo que te convém!” Mas, não senhor! — meteu-se
nas encolhas e entregou tudo nas mãos da mulher!
— Ora! disse consigo a rapariga. —
Isto até nem sei que me parece! Ou bem que somos, ou bem que não somos!... Se
Janjão queria alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se de
recadinhos por detrás da cortina!
E Amélia, quanto mais refletia no
caso, tanto mais se revoltava contra a reserva do irmão.
— Ele já devia conhecê-la melhor!
pelo menos já devia saber que aquela que ali estava era incapaz de cair em
qualquer asneira; aquela que não “ dava ponto sem nó”. Outra, que fosse, quanto
mais — ela, que conhecia os homens, como quem conhece a palma das próprias
mãos! — Ela, que vira de perto, com os seus olhos de virgem, toda a sorte de
tipos! — ela, que lhes conhecia as manhas, que sabia das lábias empregadas
pelos velhacos para obter o que desejam e o modo pelo qual se portam depois de
servidos! — Ela! tinha graça!
— Ela, que até ali dera as melhores
provas de sagacidade e de esperteza; já “convencendo” tal freguês remisso que
não queria pagar, nem a mão de Deus Padre, o aluguel do quarto pelo preço
cobrado; já respondendo a tal credor, que em tal época, veio receber tal conta;
já sofismando tal compromisso; já resolvendo tal aperto, uma vez em que nem a
própria Mme. Brizard sabia que fazer! E ainda a suporiam criança?... ainda
teriam medo de qualquer asneira de sua parte?... Pois então que se lembrassem
da questão do Pereirinha!
Pereirinha foi um dos primeiros
hóspedes de Coqueiro. Rapaz bonito, perfumado, muito prosa. Amélia
representava para ele a mesma inocência em pessoa, só lhe falava de olhos
baixos, voz sumida, o ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma
paixão sem bordas, fazia-lhe versos, tocava-lhe nos pés por baixo da mesa, e,
depois do jantar, quando os mais se alheavam no egoísmo da saciedade, ele a
fitava tristemente, pedindo, com os olhos fosse lá o que fosse. Pois bem, ela a
tudo isso correspondia com muito agrado, submetia-se resignadamente a todos
esses requisitos do namoro vulgar, mas... um belo dia em que o pedaço de asno
do Pereirinha quis ir adiante, Amélia aconselhou-o sorrindo a que primeiro a
fosse pedir em casamento ao irmão.
E, quando se convenceu de que o tipo
não queria casar, disse-lhe abertamente: “Ora, meu amigo, outro ofício!”
E Coqueiro sabia de tudo isso, tão
bem como a própria Amélia — para que, pois, aqueles escrúpulos ridículo e
amoladores?...
*
* *
Só à noite, à costumada palestra em torno da mesa de jantar,
lembraram-se de que o dia seguinte era de grande gala.
— Ó diabo! considerou Coqueiro. — E
eu que podia ter dito ao Amâncio para vir amanhã! Escusávamos de esperar até
domingo. — Ora, senhores! onde diabo tinha eu a cabeça!...
— Queres saber de uma coisa? disse,
tomando a mulher de parte. — Vai tu e mais Amelinha arranjar o gabinete, que eu
escrevo uma carta ao nosso homem; pode ser que amanhã mesmo o tenhamos por cá.
Anda, vai! O segredo das grandes coisas está às vezes nestas pequenas
deliberações!
E enquanto Mme. Brizard aprontava
com Amélia o gabinete, escreveu ele a carta que Amâncio encontrou sobre a
cômoda.
Não descansaram mais um instante.
Desde pela manhã do dia seguinte andava a casa em grande alvoroço. Foi preciso
varrer, escovar, remover do gabinete os móveis que o atravancavam. Preparou-se
uma bela caminha, coberta de lençóis claros e cheirosos; estendeu-se um tapete
no chão; colocou-se a um canto o lavatório, encheu-se o jarro que ficou dentro
da bacia, ao lado da toalha. E feito isto, puseram-se todos à espera de
Amâncio.
Ele, até aquelas horas, não havia
declarado por escrito se iria ou não, logo — era provável que fosse.
E com efeito, pela volta do
meio-dia, um tílburi parou à porta, e Amâncio, muito intrigado com a numeração
das casas, entrou no corredor, a olhar para todos os lados.
Um moleque, que ficara de alcatéia à
espera dele correu logo ao primeiro andar, gritando que “o moço já estava aí”.
— Cala a boca, diabo! respondeu Mme.
Brizard em voz abafada e discreta.
Coqueiro ergueu-se prontamente do
lugar onde se achava e atirou-se com espalhafato para o corredor, alegre e
expansivo, como se recebera, depois de longa ausência, um velho amigo da
infância.
— Bravo! exclamava, sacudindo os
braços e correndo ao encontro de Amâncio. — Bravo! Assim é que entendo os
amigos! Não te perdoaria se faltasses!
E com muita festa, a apressá-lo:
— Vem entrando para a sala de
jantar! Estás em tua casa! Entra! Entra!
Amâncio deixava-se conduzir, em
silêncio. Já não tinha o mesmo tipo mal ajeitado com que se apresentara ao
Campos; agora, um terno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma manhã a um
alfaiate da Rua do Ouvidor, dava-lhe ares domingueiros de janotismo. Vinha de
barba feita, as unhas limpas, os dentes cintilantes, o cabelo dividido ao meio,
formando sobre a testa duas grandes pastas lustrosas e do feitio de uma
borboleta de asas abertas. Os olhos não denunciavam os incômodos da véspera, e
de todo ele respirava um cheiro ativo de sândalo.
— Estimei bem que me escrevesses...
disse atravessando o corredor, ao lado do Coqueiro. Não tinha para onde ir
hoje. Campos está de passeio com a família lá para o tal Jardim Botânico.
— Pois eu estimei ainda mais que
viesses. Entra!
Penetraram na sala de jantar. Estava
tudo muito bem arrumado e muito limpo; não se podia desejar melhor aspecto de
felicidade caseira; em tudo — a mesma aparência austera e calma de uma velha
paz inquebrantável e honesta. Mme. Brizard, assentada à cabeceira da mesa,
parecia ler atentamente um livro que tinha aberto defronte dos olhos; mais
adiante trabalhava Amelinha em uma máquina de costura, a cabeça vergada, os
olhos baixos, numa expressão tranqüila de inocência.
Logo que Amâncio apareceu na
varanda, Mme. Brizard desviou os olhos do livro, deixou cair as lunetas do
nariz e foi recebê-lo solicitamente; a outra limitou-se a cumprimentá-lo com um
modesto e gracioso movimento de cabeça.
— Dr. Amâncio de Vasconcelos! gritou
o Coqueiro, empurrando o colega para junto das senhoras. E acrescentou,
designando-as: — Minha mulher e minha irmã...O amigo já sabe que são duas
criadas que aqui tem às suas ordens!
Amâncio agradecia, desfazendo-se em
reverências e apertando as mãos de ambas, todo vergado para a frente, as faces
incendiadas pela comoção daquela primeira visita.
— Põe-te à vontade, filho! disse-lhe
Coqueiro, com ar quase de censura. — Olha uma cadeira. Senta-te!
E tirando-lhe a bengala e o chapéu
das mãos: — Aqui estás em tua casa! Minha gente não é de cerimônias!
Entretanto Mme. Brizard o tomava a
si com perguntas: — Há quanto tempo havia chegado; de que província era filho;
se tinha saudades da família; se gostava do Rio de Janeiro; que tal achava as
fluminenses, e se já estava embeiçado por alguma?
E vinham os risos exagerados e sem
pretexto, de quando se deseja agradar visitas.
O provinciano respondia a tudo,
inclinando a cabeça, procurando armar bem a frase e fazendo esforços para se
mostrar de boa educação. Ia-lhe já fugindo o primitivo acanhamento e as
palavras acudiam-lhe à ponta da língua, sonoras e fáceis.
— Não tenho desgostado da Corte,
dizia a brincar com a sua medalha da corrente — mas, confesso, esperava
melhor... Lá de fora, sabe V. Excia? a coisa parece outra. Fala-se tanto do
Rio!... Pintam-no tão grande, tão bonito, que o pobre provinciano, ao chegar
aqui, logo sofre uma terrível decepção!... Pelo menos comigo foi assim!
— O Sr. Vasconcelos já visitou os
arrabaldes?... perguntou Mme. Brizard muito delicadamente.
— Ainda não, minha senhora. Apenas
fui a Botafogo, de passagem, para entregar uma carta; mas, tenciono
percorrê-los, todos, na primeira ocasião.
E Amâncio olhava a espaços Amélia,
que parecia muito preocupada com o trabalho.
— Pois suspenda esse juízo a
respeito do Rio, até que conheça os arrabaldes, acrescentou a dona da casa. —
Só por eles se poderá julgar o quanto é bela e grandiosa esta cidade! Oh! A
natureza do Brasil! não há coisa nenhuma que se lhe possa comparar!...
E fitando-o, depois de um gesto de
entusiasmo:
— Para um espírito contemplativo e
apaixonado, essa esplêndida natureza vale por todas as maravilhas da velha
Europa!
— V. Excia. parece gostar muito do
Brasil...
— Habituei-me a isso com o meu
segundo marido... ele era louco por este país! Quantas vezes, depois que caiu
doente e que os médicos lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes não o
aconselhei a que liquidasse aqui os seus negócios e fôssemos viver para a
Europa... Já não havia sombra de perseguição política (porque foi uma
perseguição política que o atirou no Brasil), não havia razões, por
conseguinte, para não voltar à pátria, não havia razões para se deixar morrer
aqui, como morreu!... Pois bem: sabe o senhor o que ele me respondia sempre?
Dizia-me:“Bebê.” (Era assim que me tratava). “Bebê, compreendes um homem
apaixonado por uma mulher, a ponto de não a poder deixar um só instante?
compreendes um escravo, um cão?... assim sou eu por esta natureza. Não a posso
abandonar! — estou apaixonado, louco!” Entretanto, — veja o Dr.! — Hipólito,
aqui nunca foi devidamente apreciado e compreendido; nunca recebeu a mais
insignificante prova de gratidão do governo deste país, que ele idolatrava
daquele modo! Trabalhou muito para o Brasil, e de graça! Estão aí as empresas,
os jornais, as sociedades que fundou! Pois o governo — nem uma palavra, nem uma
consideração, nem um “muito obrigado!”. Se o pobre homem não tivesse posto de
parte algum dinheiro, ficava eu na miséria, perfeitamente na miséria!
Amâncio principiava a desconfiar que
aquela francesa era nada menos que um formidável “cacete”.
— Uma verdadeira paixão!... insistiu
ela. — Uma paixão que o prendia aqui! porque, senhores, Hipólito, se quisesse,
podia representar um invejável papel na Europa! Tinha lá o seu lugar seguro,
e...
Foi interrompida pelo César que
entrara de carreira mas estacara de repente ao dar com Amâncio. Coqueiro havia
se afastado para mandar servir alguma coisa.
— Este é o meu César, meu último
filho, elucidou Mme. Brizard, e gritou logo: — Vem cá, César! Vem falar com
este moço!
César aproximou-se, vagarosamente,
com o silêncio de quem observa um estranho.
— Lindo menino! considerou Amâncio,
puxando-o para junto de si.
— E não calcula o senhor que
talento! afirmou a mãe, em voz baixa e grave, estendendo a cabeça para o lado
da visita: — Uma coisa extraordinária!
— Já fez uma poesia! Acrescentou
João Coqueiro que, nessa ocasião, junto ao aparador, enchia copos de cerveja.
— Mas, coitado! prosseguiu Mme.
Brizard — não se pode puxar por ele; sofre muito do peito! O médico recomendou
que não o fatigassem por ora; é preciso esperar que ele se desenvolva mais um
pouco.
— É pena! disse Amâncio com
tristeza, afagando a cabeça de César.
— Nunca vi uma criatura para
aprender as coisas com tanta facilidade! Nada vê, nada ouve que não decore
logo! que não repita — tintim por tintim!
— Sim?... perguntou Amâncio, com um
gesto cerimonioso de pasmo.
— E então para a música?... Aprendeu
a escala em um dia! E já toca variações ao piano... tudo de ouvido!
— É admirável! repetia Amâncio, para
dizer alguma coisa. Deve estar muito adiantado nos estudos!...
— Ah! estaria decerto, se pudesse
estudar, mas, coitado, ainda não sabe ler!
— Ah! fez Amâncio, sem achar uma
palavra.
— Mas, também, quando principiar...
— Irá longe! concluiu Amâncio,
satisfeito por ter enfim uma frase. — Deve ir muito longe!
E afiançava que, pela fisionomia de
César, logo se lhe adivinhava a inteligência.
— Esta fronte não engana! Dizia a
suspender-lhe o cabelo da testa. — E é travesso?...
Mme. Brizard soltou uma exclamação:
— Não lhe falasse nisso! Só ela sabia o capetinha que ali estava!
César abaixou o rosto com uma
risada, e Amâncio declarou que “a travessura era própria daquela idade!”.
E, porque o moleque se aproximava
com uma bandeja na mão, cheia de copos, ergueu-se para oferecer um a Mme.
Brizard e outro a Amélia.
— Muito agradecida, disse esta,
sorrindo. — Sou um pouco nervosa; a cerveja faz-me mal.
— Ah! V. Excia. é nervosa?
— Um pouco. E quem neste mundo não
sofre mais ou menos dos nervos?...
E riu de todo, mostrando a sua
dentadura provocadora.
Amâncio considerou intimamente que a
achava deliciosa. — Um mimo!
E, de fato, Amélia nesse dia estava
encantadora. Vestia fustão branco, sarapintado de pequenas flores cor-de-rosa.
O cabelo, denso e castanho, prendia-se-lhe no toutiço por um laço de seda azul,
formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente sobre as costas.
O vestido curto, muito cosido ao corpo, eluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar
esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família.
Era muito bem feita de quadris e de
ombros. Espartilhada, como estava naquele momento, a volta enérgica da cintura
e a suave protuberância dos seios, produziam nos sentidos de quem a contemplava
de perto uma deliciosa impressão artística.
Sentia-se-lhe dentro das mangas do
vestido a trêmula carnadura dos braços; e os pulsos apareciam nus, muito
brancos, chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. Tinhas
as mãos finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor-de-rosa e
as unhas curvas como o bico de um papagaio.
Sem ser verdadeiramente bonita de
rosto, era muito simpática e graciosa. Tez macia, de uma palidez fresca de
camélia; olhos escuros, um pouco preguiçosos, bem guarnecidos e penetrantes;
nariz curto, um nadinha arrebitado, beiços polpudos e viçosos, à maneira de uma
fruta que provoca o apetite e dá vontade de morder. Usava o cabelo cofiado em
franjas sobre a testa, e, quando queria ver ao longe, tinha de costume apertar
as pálpebras e abrir ligeiramente a boca.
Amâncio, bebendo aos goles
distraídos a sua cerveja nacional, via e sentia tudo isso, e, sem perceber,
deixava-se tomar das graças de Amélia. Já lhe preava a carne o mordente calor
daquele corpo; já o invadiam o perfume sombroso daquele cabelo e a luz
embriagadora daqueles olhos; já o enleava e cingia a doce sensibilidade
elástica daquela voz, quebrada, curva, cheia de ondulações, como a cauda crespa
de uma cobra.
E, enquanto palavreava abstraído com
Mme. Brizard e com Coqueiro, percebia que alguma coisa se apoderava dele, que
alguma coisa lhe penetrava familiarmente pelos sentidos e aí se derramava e
distendia, à semelhança de um polvo que alonga sensualmente os seus langorosos
tentáculos. E, sempre dominado pelos encantos da rapariga, alheava-se de tudo
que não fosse ela; queria ouvir o que lhe diziam os outros, prestar-lhes
atenção, mas o pensamento libertava-se à força e corria a lançar-se aos pés de
Amélia, procurando enroscar-se por ela, à feição do tênue vapor do incenso,
quando vai subindo e espiralando, abraçado a uma coluna de mármore.
Coqueiro fazia não dar por isso e,
ao topar com os olhos os da mulher, entre eles corria um raio de satisfação,
mais ligeiro que um telegrama.
Amâncio, entretanto, quase nada conversou
com Amélia; apenas trocaram palavras frias de assuntos sem interesse. Mas seus
olhares também se encontravam no ar, e logo se entrelaçavam, prendiam-se e
confundiam-se no calor do mesmo desejo.
Naquela mulher havia
incontestavelmente o que quer que fosse, difícil de determinar, que não
obstante, se entranhava pela gente e, uma vez dentro, crescia e alastrava. O
seu modo de falar, as reticências de seus sorrisos, o langor púdico e ao mesmo
tempo voluptuoso de seus olhos que espiavam, inquietos, através do franjado das
pestanas; a doçura dos seus movimentos ofídicos e preguiçosos, o cheiro de seu
corpo; tudo que vinha dela zumbia em torno dos sentidos, como uma revoada de
cantáridas.
Vinham-lhe preocupações. Começava a imaginar como seria a
sua existência naquela casa, se ele, porventura, resolvesse a mudança;
calculava situações; encontros inesperados com Amélia nos corredores desertos;
manhãs frias, de chuva, em que fosse preciso gazear as aulas, e deixar-se ficar
ali, a “prosar” naquela varanda, ao
lado dela, a encher o tempo, a dizer
“tolices”.
— Que tal seria tudo isso?... Seria
tão bom que valera a pena suportar às caceteações de Mme. Brizard e sofrer a
convivência do tal Coqueiro?... Seria tão bom que merecera a renúncia de sua
liberdade, tão sacrificada ali quanto em casa do Campos? Não! não valia a
pena!... Mas... Amélia?... quem sabe lá o que daria de si aquele
ladrãozinho?...
E pensando deste modo, ergueu-se
disposto a acompanhar Coqueiro, que insistia em lhe mostrar a casa.
Principiaram pela chácara.
— Olha. Isto aqui é como vês!...
dizia o proprietário. — Boa sombra, caramanchões de maracujá, flores,
sossego!... Bom lugar para estudo! E vai até o fundo. Vem ver!
Amâncio obedecia calado.
— Parece que se está na roça!...
acrescentou o outro. — De manhã é um chilrear de passarinhos, que até aborrece!
Quando aqui não houver fresco, não o encontrarás também em parte alguma! Cá
está o terraço. — Sobe!
Subiram três degraus de pedra e cal.
— Vês?!... exclamou Coqueiro,
parando em meio do pequeno quadrado de velhos tijolos. E, depois com as pernas
abertas e um braço estendido:
— Creio que não se pode desejar
melhor!
Desceram, em seguida, para visitar o
banheiro, o tanque, o repuxo e outras comodidades que havia no quintal, e a
cada uma dessas coisas — novas exclamações e novos elogios.
Subiram outra vez ao primeiro andar,
pela cozinha. Um preto, de avental e boné de linho branco, à moda dos
cozinheiros franceses, trabalhava ao fogão. Coqueiro exigiu que o amigo olhasse
para aquele asseio; atentasse para a nitidez das caçarolas de metal areado,
para a limpeza das panelas, para a fartura de água na pia.
— A Madame, dizia ele a
rir-se, com ar interessado de quem deseja convencer — a Madame traz isto
num brinco! Pode-se comer no chão!
E continuaram a revista da casa.
Amâncio, porém, ia distraído, tinha a cabeça cheia de Amélia.
— Que dentes! pensava — e que
cintura! que olhos!...
— É excelente! segredou-lhe
Coqueiro, pondo mistério na voz. — Um serviço admirável!
— Hein?! exclamou o provinciano,
voltando-se rapidamente para o colega.
— Cozinheiros daquela ordem
encontram-se poucos no Rio! respondeu este ainda em segredo.
— Ah! o cozinheiro... disse Amâncio.
— Divino! acrescentou o outro.
E, mudando logo de tom:
— Cá está a despensa. Compramos tudo
em porção do mais caro, mas também podes ver a fazenda! Tudo de primeira! Ah!
Eu cá sou assim — mostro! Meus hóspedes não podem se queixar!
E destapava vivamente a lata das
farinhas e dos feijões, mostrava o vinho engarrafado em casa, as mantas de
carne-seca ressumbrando sal, o arroz, o café, e o resto.
— Tudo de primeira! repetia com
entonação mercantil, a passar ao colega um punhado de feijões. — Tudo de
primeira!
—É exato, resmungo Amâncio, sem ver.
Isto agora são quartos de hóspedes,
enunciou Coqueiro seguindo adiante. — Aqui embaixo só temos três. Neste, disse
mostrando o n.º 1, está Dr. Tavares, um advogado de mão-cheia; caráter muito
sério!
No segundo declarou que morava o
Fontes:
— Não era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negócios: quebrara havia
dois anos e ainda não tinha conseguido levantar a cabeça.
E abafando a voz:
— Dizem que ficou arranjado... não
sei!... Paga pontualmente as suas despesas, mas é um “unha-de-fome”, regateia
muito, chora — vintém por vintém — o dinheiro que lhe sai das mãos! Está sempre
com uma cara muito agoniada, sempre se queixando. E agora, vão ver: — furão
como ele só; especula com tudo; tem o quarto cheio de fazendas, fitas e tetéias
de armarinho; vende essas miudezas pelas casas particulares, e dizem que faz
negócio. A mulher, uma francesa coxa, é empregada na Notre Dame e só vem
a casa para dormir.
E, indicando o n.º 3.
— Aqui é o Piloto.
— Que Piloto? perguntou logo
Amâncio.
— O Piloto, homem! Aquele repórter
da Gazeta!
Amâncio não conhecia.
— Ora quem não conhece o Piloto! um
rapaz tão popular. Um que anda sempre muito ligeiro, olhando para os lados, aos
pulinhos, como um calango. Não conheces?!
Amâncio disse que saiba quem era —
para acabar com aquilo.
— Bom hóspede! acrescentou o outro.
— Também só aparece à noite: não incomoda pessoa alguma.
— Bem... disse Amâncio com um
bocejo. São horas de ir-me chegando.
— Quê?! bradou Coqueiro. — Tu jantas
conosco! Minha gente conta contigo... não te dispensamos! E demais, quero
mostrar-te o resto da casa. Vem cá ao segundo andar.
O provinciano lembrou timidamente
que isso podia ficar para outra ocasião; mas Coqueiro respondeu puxando-o pelo
braço na direção da escada:
— Venha cá! Não seja preguiçoso!
Depois de subir, acharam-se em
corredor estreito e oprimido pelo teto. Ao fundo uma janela de grades verdes
coava tristemente a luz que vinha de fora. Lia-se nas portas, em algarismos
azuis, pintados sobre um pequeno círculo branco, os números de 4 a 11.
— Aquilo tinha aspecto de casa de
saúde... pensou Amâncio, com tédio. — Não devia ser muito agradável morar ali.
Todos os quartos, entretanto, estavam tomados.
Coqueiro principiou logo, em voz
soturna, a denunciar os competentes moradores: — N.º 4 — Campelo, um
esquisitão, porém bom sujeito, de comércio; não comia em casa senão aos
domingos e isso mesmo só de manhã. N.º 5 — Paula Mendes e a mulher; casal de
artistas, davam lições e concertos de piano e rabeca; muito conhecidos na
Corte. N.º 6 — Um guarda-livros; bom moço; tinha o quarto sempre muito
asseadinho e à noite, quando voltava do trabalho, estudava clarineta. O n.º 7
era de um pobre rapaz português; doente: vivia embrulhado em uma manta de lã,
por cima do sobretudo, e saía todas as manhãs a passeio para as bandas da
Tijuca.
A porta do n.º 8 estava aberta e
Amâncio viu, de relance, a cauda de uma saia que fugia para o interior do
quarto. E logo uma voz aflautada, de mulher, gritou:
— Cora! Fecha essa porta!
— É uma tal Lúcia Pereira...
segredou Coqueiro — mora aí com o marido, um tipo!
Estavam na casa há muito pouco
tempo. Coqueiro não podia dizer ainda que tais seriam, porque só formava o seu
juízo depois de paga a primeira conta.
O n.º 9 era do Melinho — uma pérola!
Empregado na Caixa de Amortização; não comia em casa, mas, às vezes, trazia
frutas cristalizadas para Mme. Brizard e Amelinha. Belo moço!
Coqueiro não se lembrava como era ao
certo o nome do sujeito que ocupava o n.º 10: “Lamentosa ou Latembrosa,
uma coisa por aí assim!” Ele tinha o nome escrito lá embaixo. — Mas que homem
fino! delicadíssimo! um verdadeiro gentleman! E tocava violão com muito
talento.
O n.º 11, que ficava justamente
encostado à janela do corredor, pertencia a um excelente médico, Dr. Correia;
estava, porém, quase sempre fechado, visto que o doutor só se utilizava do
quarto para certos trabalhos e certos estudos, que, por causa das crianças, não
podia fazer em casa da família. Vinha às vezes com freqüência e às vezes não
aparecia durante um mês inteiro; mas pagava sempre, e bem.
Esse quarto, como o outro que ficava
na extremidade oposta do corredor, tinha saída para a chácara.
Amâncio propôs a Coqueiro que
descessem por aí.
— De sorte que, foi-lhe dizendo este
pela escada — à mesa só temos diariamente os seguintes: Dr. Tavares, Paula
Mendes e a mulher, Lúcia e o marido, e o tal sujeito de nome esquisito. Só! Aos
domingos, então, fica-se em completa liberdade, porque jantam fora quase todos.
— Vês, pois, que em parte alguma estarias melhor do que aqui!...
— Mas, filho, observou Amâncio —
teus quartos estão todos ocupados!...
O outro respondeu com um risinho. E,
depois de ligeiro silêncio, passando-lhe um braço nas costas:
— Tu, aqui, não quero que sejas um
hóspede, mas um amigo, um colega, um filho da família, uma espécie de meu
irmão, compreendes? São dessas coisas que se não explicam — questão de
simpatia! Conhecemo-nos de ontem e é como se tivéssemos sido criados juntos; em
mim podes contar com um amigo para a vida e para a morte!
E, estacando defronte de Amâncio,
olhou para ele muito sério, dizendo em tom grave:
— E acredita que isto em mim é raro!
Pergunta aí aos meus colegas se sou de muitas amizades; todos eles te dirão que
ninguém há mais concentrado e metido consigo. Mas, quando simpatizo deveras com
uma pessoa, é assim, como vês, trago-a para o seio de minha família e trato-a
como irmão!
E, descaindo no tom primitivo da
conversa:
— Se ficares aqui, como espero,
verás com o tempo a sinceridade do que te estou dizendo! É que gostei de ti,
acabou-se.
Amâncio jurava corresponder àquela
amizade, mas, no íntimo, ria-se de Coqueiro, que agora lhe parecia tolo, e cujo
casamento com a francesa velhusca o tornava, a seus olhos cada vez mais
ridículo.
Ao passarem pelo salão concordaram
que aquilo era uma excelente lugar para um “boa prosa”.
Amâncio teria tudo isso às suas
ordens; podia dispor!... acrescentou o outro. E, abrindo cuidadosamente a porta
do gabinete que ficava ao lado, disse, com a entonação de um guarda de museu
que vai mostrar uma raridade:
— Eis o ninho que te destino! É o
lugar mais catita de toda a casa; isto, porém, não quer dizer que os outros
cômodos não estejam à tua disposição!... Se, mais tarde, te apetecer trocar de
quarto...
E, logo que entraram, foi-lhe
mostrando a caminha cheirosa, o pequeno lavatório de pedra-mármore; fê-lo notar
o bom estado da cômoda, a elegância do velador, o artístico das escarradeiras.
— E ali, o grande mestre! exclamou
com ênfase, apontando para a gravura da parede.
— “Vítor Hugo”, leu Amâncio debaixo
do retrato. — Bom poeta! acrescentou.
— Creio que não ficarás mal,
hein?... disse o outro.
— Ah! não! respondeu o provinciano,
assentando-se fatigado em uma cadeira. E o preço?
— Ah! Isso depois... minha mulher é
quem sabe dessas coisas, mas não havemos de brigar!...
E riu.
— Ficas aqui muito bem! Serás
tratado como um filho; quando precisares de qualquer cuidado, numa moléstia,
numa dor de cabeça, hás de ver que te não faltará nada! Além disso — podes
entrar e sair à vontade, livremente, às horas que entenderes; se gostas de teu
chazinho à noite, com torradas, hás de encontrá-lo, abafado, à tua espera sobre
aquela mesa... De manhã, se quiseres o café na cama, também terás o teu café e,
quando estiveres aborrecido do quarto, tens o salão, tens a sala de jantar, a
chácara, o jardim; finalmente, tens tudo às tuas ordens!
— Agora, quanto a certas visitas...
concluiu João Coqueiro, fazendo-se muito sisudo e abaixando a voz — isso,
filho, tem paciência... Lá fora o que quiseres, mas daquela porta para
dentro...
— Decerto! apressou-se a declarar o
outro, com escrúpulo.
— Sim! Sabes que isto é uma casa de
família e, para a boa moral...
— Mas certamente, certamente!
repetiu Amâncio.
E acendeu um cigarro.
VII
Dos hóspedes de cama e mesa só três
compareceram ao jantar — Lúcia, o
marido e o tal gentleman de nome difícil. Paulo Mendes estava de
passeio, com a mulher, em casa de um artista.
Amâncio foi apresentado àqueles três
pelo João Coqueiro. Trocaram bonitas palavras de etiqueta; fizeram-se os
mentirosos protestos da cortesia e cada um tomou à mesa o seu lugar competente.
Mme. Brizard, como era de costume,
ocupou a cabeceira, defronte de uma pilha enorme de pratos fundos, os quais ia
enchendo de sopa, um a um, paulatinamente, depois de rodar a concha três vezes
no fundo da terrina; e, à proporção que os enchia, passava-os ao marido que
nesse dia lhe ficara à esquerda, visto que à direita, seu lugar favorito,
cedera-o ele ao novo hóspede.
Na ocasião de conferir-lhe
semelhante honra, bateu-lhe carinhosamente no ombro e disse-lhe baixinho: —
Ficas bem! Ficas junto a Loló!
Mme. Brizard, que ouvira estas
palavras, acrescentou sorrindo:
— O Sr. Vasconcelos preferia talvez
ficar entre as moças...
— Ó minha senhora!... balbuciou
Amâncio, vergando-se para o lado da francesa. — Estou muito bem aqui; não podia
desejar melhor vizinhança!...
E voltou o olhar para a sua direita,
onde Lúcia acabava de tomar assento.
Examinou-a logo, à primeira vista,
sem o dar a conhecer, e a impressão recebida não foi das melhores. Achou-a
esquisita, um tanto feia, um ar pretensioso, de doutora.
Era de estatura regular, tinha as
costas arqueadas e os ombros levemente contraídos, braços moles, cintura pouco
abaixo dos seios, desenhando muito a barriga. Quando andava, principalmente em
ocasiões de cerimônia, sacudia o corpo na cadência dos passos e bamboleava a
cabeça com um movimento de afetada languidez. Muito pálida, olhos grandes e
bonitos, repuxados para os cantos exteriores, em um feitio acentuado de folhas
de roseira; lábios descorados e cheios, mas graciosos. Nunca se despregava das
lunetas, e a forte miopia dava-lhe aos olhos uma expressão úmida de choro.
Em seguida via-se o marido. Um
homenzinho gordo, de barba por fazer e pequeno bigode castanho, em parte
lourejado pelo fumo. A fronte abria-lhe para o crânio em dois semicírculos
constituídos na ausência do cabelo. Fisionomia inalterável, de uma
tranqüilidade irracional e covarde. Fechava de vez em quando os olhos, por um
sestro antigo, e então parecia dormir profundamente.
Percebia-se que ele e a mulher
estiveram, antes de vir para a mesa, empenhados em alguma discussão
desagradável, porque, mal se furtaram às apresentações e aos cumprimentos da
chegada, Lúcia pôs-se a falar-lhe em voz baixa, com azedume disfarçado. Ele,
porém, não dava resposta, e, quando a mulher insistia, cerrava os olhos como se
fugira para dentro de si mesmo.
César, ao lado, acompanhava-lhe os
movimentos com persistência tão grosseira que a outro qualquer constrangeria.
Defronte perfilava-se o gentleman.
Teso, o pescoço imobilizado no rigor de uns grandes colarinhos; as sobrancelhas
franzidas diplomaticamente; o olhar grave, de quem medita coisa de alta
importância; a boca engolida por um farto bigode grisalho; o queixo escanhoado,
formando largas pregas, sempre que Lambertosa voltava o rosto com amabilidade
para responder o que lhe diziam da direita ou da esquerda. Bonita figura, bem
apessoado, fronte espaçosa, cabelo branco, puxando de trás sobre as orelhas.
Entre ele e Coqueiro, Amelinha,
cheia de piscos de olhos e de gestozinhos passarinheiros, recebia do irmão os
pratos de sopa e passava-os adiante.
— E Nini?... perguntou Mme. Brizard
com interesse.
E, como Amâncio a fitasse, quando lhe ouviu aquela pergunta,
ela explicou que Nini era uma filha sua, “muito doente, coitadinha!”... E
contou logo a história da pobre menina — a viuvez, a dolorosa morte do filhinho
“que lhe havia ficado como extrema consolação”, e, afinal, falou daquela
“maldita moléstia que sobreviera a tantas calamidades e que parecia disposta a
não abandonar mais a infeliz”.
— Não dá idéia do que foi! disse
após um suspiro. — Era uma beleza e tinha o gênio mais alegre deste mundo! Ah!
Está muito mudada! muito mudada! Impressiona-se com tudo, tem exigências
pueris, caprichos, coisas de uma verdadeira criança! E ninguém a contraria, que
aparecem as crises, os ataques! Uma
campanha! — Ainda outro dia porque não lhe deixaram ver um desenho que meu
marido achou na chácara...
E, voltando-se rapidamente para
Amâncio:
— O Sr. Vasconcelos não se serve de
vinho?... — Um desenho indecente; pois ficou prostrada e eu tive sérios receios
de a ver perdida para sempre! Desde então está nervosa que se lhe não pode
dizer nada! É preciso não insistir com ela em coisa alguma: se a chamam duas
vezes para a mesa, começa a chorar e não vem; se a querem constranger a pôr um
vestido melhor, um penteado mais decente, são gritos, soluços, repelões, e
agarra-se à cama, que não há meio de tirá-la! Eu já não sei o que faço!...
— Por que, Madame, não experimenta
os banhos de mar? perguntou o gentleman, limpando energicamente o seu
grosso bigode no guardanapo que atara ao pescoço.
— Qual! Não produzem efeito nenhum!
Ela já tomou quarenta seguidos. Acho até que ficou pior.
— É estranho!... volveu o gentleman,
franzindo o sobrolho e passando à Lúcia a corbelha de farinha. — É estranho,
porque, segundo Durand Fardel, não há enfermidades nervosas que resistam a um
bom regime de banhos marítimos; mas aconselha também o uso interno de água
salgada, e prova que a mineralização desta é muito mais rica em cloreto se sódio
do que a das águas minerais da fonte.
— Não sei, Sr. Lamber...
Mme. Brizard não se lembrava do nome
dele.
—
Lambertosa, Madame, Lambertosa!
— Não sei, Sr. Lambertosa, não
sei... O caso é que Nini não consegue melhorar. Temos experimentado tudo, tudo!
E, mudando de tom, bateu no braço de
Amâncio, segredando-lhe com um sorriso:
— Não se esqueça de provar daqueles
camarões. São especiais!... E descreveu uma olhadela entre ele e Amélia.
— O casamento talvez a
restabelecesse! observou o provinciano, servindo-se dos afamados camarões. —
Dizem que há muitos exemplos de...
Amélia afetou um sobressaltozinho, e
olhou para ele que procurando disfarçar o mau efeito de sua proposição, citou
Le Bon.
— O doutor acha então que o
histerismo se pode curar com o casamento?... perguntou Lúcia da direita.
— Parece, minha senhora, a dar
crédito aos fisiologistas...
A sonoridade desta palavra
consolou-o.
— E é exato!... confirmou Pereira,
marido de Lúcia.
— Tu mesmo entendes disto!...
respondeu-lhe a mulher desdenhosamente.
Pereira fechou os olhos e não deu
mais palavra.
Lambertosa havia já limpado o bigode
para emitir a sua conceituada opinião, mas teve de renunciar a essa idéia,
porque Nini acabava de assomar à porta
do quarto, arrastando-se dificilmente ao peso de suas inchações.
Vestia uma bata de lã parda,
enxovalhada e sem cinta. A gordura balofa e anêmica tirava-lhe o feitio do
corpo; as suas costas formavam-se de uma só curva e os quadris pareciam duas
grandes almofadas.
Contudo ainda se lhe reconhecia a
mocidade e ainda se alcançavam os vestígios desbotados dos encantos, que a
moléstia foi pouco a pouco devastando.
Só depois de assentada, Nini
desmanchou o ar aflito que fazia, pelo esforço de andar.
— Ah! respirou, quase sem fôlego. E
correu os olhos em torno de si, abstratamente, como se despertasse de um
desmaio. Ao dar com Amâncio, ficou a encará-lo com insistência de criança;
depois, contraiu os músculos do rosto e espalhou a vista, vagarosamente, a
tomar longos sorvos de ar.
Um silêncio formou-se em torno de
sua chegada; percebia-se que pensavam nela.
— Queres sopa , Nini? perguntou
afinal Mme. Brizard, com ternura. E, como a filha fizesse um movimento
afirmativo de cabeça, passou-lhe um prato cheio.
Nini sorveu-o todo, a colheradas
seguidas e pediu mais.
A mãe aconselhou-a que comesse antes
outra qualquer coisa.
Nini largou a colher no prato, sem
dizer palavra, e pôs-se de novo a encarar para Amâncio, com um olhar tão
dolorido e tão persistente, que o rapaz ficou impressionado.
E não lhe tirou mais a vista de
cima. O estudante remexia-se na cadeira, importunado por aqueles dois olhos
grandes, rasos, de um azul duvidoso, que se fixavam sobre ele, imóveis e
esquecidos.
Disfarçava, procurava não dar por
isso, nada, porém, conseguia. Os dois importunos lá estavam, sempre, assentados
sobre ele a lhe queimar a paciência, como se fossem dois vidros de aumento
colocados contra o sol.
— Que embirrância! dizia consigo o
provinciano.
Entretanto o jantar esquentava. A
conversa explodia já de vários pontos da mesa com mais freqüência; ouviam-se
tinir os garfos de encontro a louça, e os copos esvaziavam-se e de novo se
enchiam, sem ninguém dar por isso.
Mme. Brizard não se descuidava um
minuto de Amâncio. Apontava-lhe os pratos preferíveis, puxava as garrafas para
junto dele, sempre a falar da salubridade da casa, do bem que se ficava ali, da simpatia que toda a família parecia
lhe dedicar, desde o primeiro momento em que o viu.
— Pois se até a pobre Nini não se
fartava de olhar para o Sr. Vasconcelos!...
Amâncio sorriu.
O Lambertosa atirou-lhe diretamente
a palavra sobre o Maranhão. Tratou com respeito dessa “judiciosa província, a
qual merecia de justiça o honroso título que lhe fora conferido de — Atenas
Brasileira!. E, depois de citar nomes ilustres, dispôs-se a contar as
façanhas de um tal Maranhense, célebre pelas suas espertezas.
— Perdão! acudiu Amâncio. — Esse
cavalheiro de indústria, além do nome, nada tem de comum com a minha província!
— Ah! fez o gentleman. — Pois
eu o julgava filho de lá...
— Felizmente não é, respondeu o
outro, ferido no seu bairrismo.
— E ainda que fosse!... observou
Lúcia — que mal havia nisso?
— Certamente! confirmou Coqueiro, a
encher o prato.
— Pois meu amigo, volveu Lambertosa,
dirigindo-se a Amâncio — eu o felicito! E levou o copo à boca. Eu o felicito,
porque, francamente, considero um padrão de glória ver a luz do dia em uma
província tão...
Faltou-lhe o termo.
— Tão, tão gigantesca! Estude,
caminhe, caminhe, que tem uma grande estrada aberta defronte de si!
E engrossando a voz:
— Assiste-lhe uma responsabilidade
enorme! É caminhar e caminhar firme! Ah! terminou ele com um gesto lamentoso. —
Quem me dera a sua idade, meu amigo! Quem me dera a sua idade!
Continuou-se a falar sobre o
Maranhão. Lúcia quis informações; Amâncio voltou-se logo para ela,
solicitamente, e na febre de falar de sua terra, começou, sem reparar que
mentia, a pintar coisas extraordinárias. O Maranhão segundo o que ele dizia,
era um viveiro de talentos; os grêmios e os jornais literários brotavam ali de
toda a parte; cada indivíduo representava um gramático de pulso; as senhoras —
ilustradíssimas; os homens_ poços de instrução; as crianças saíam da escola
bons poetas e prosadores.
Coqueiro afetava acompanhá-lo
naquele entusiasmo, mais ria-se por dentro. O outro lhe parecia cada vez mais
tolo.
Lúcia perguntou se Amâncio tinha
algumas produções dos seus comprovincianos, que lhe pudesse emprestar. Ele
prometeu que traria as que tivesse em casa. E recomendou Entre o Céu e a
Terra, de Flávio Reymar.
— Há em sua província um poeta que
eu adoro, disse ela, cortando em pedacinhos uma fatia de carne assada que tinha
no prato.
— O Franco de Sá? perguntou o
maranhense.
— Não, refiro-me ao Dias Carneiro.
Amâncio sentiu um calafrio percorrer-lhe
a espinha. Nunca em sua vida ouvira falar de semelhante nome.
— É, disse, entretanto. — É um
grande poeta!
— Enorme! corrigiu Lúcia, levando à
boca uma garfada. — Enorme! Conhece aquela poesia dele, o...
Novo calafrio, desta vez, porém,
acompanhado de suores. E não lhe acudia um título para apresentar, um título
qualquer, ainda que não fosse verdadeiro.
— Ora, como é mesmo? insistia a
senhora. — Tenho o nome debaixo da língua!
E, voltando com superioridade para o
marido:
— Como se chama aquela poesia, que
está no álbum de capa escura, escrita a tinta azul?
Pereira abriu os olhos e disse
lentamente:
— O Cântico do Calvário!
— És um idiota! respondeu a mulher.
A resposta de Pereira provocou
hilaridade. Amâncio consultou logo a opinião de Lúcia sobre o Varela. Mme.
Brizard falou então dos versos do marido, prometeu que os mostraria depois do
jantar.
Amâncio soltou uma exclamação de
espanto:
— Ignorava que Coqueiro também
fizesse versos!
— Faço-os, confirmou este — mas só
para mim, publiquei já alguns com pseudônimo. Receio a convivência dos
literatos que formigam por aí, esfarrapados e bêbedos. Não me quero misturar
com eles. Faço versos, é verdade, mas tenho a presunção de escrevê-los como
devem ser e não acumulando extravagâncias e disparates para armar ao efeito!
Faço versos, mas não tomo parte nessas panelinhas de elogio mútuo e nesses
grupos de imbecis escrevinhadores!
E, com muito azedume, com durezas de
inveja, principiou a dizer mal dos rapazes que no Rio de Janeiro se tornavam
mais conhecidos pelas letras.
— Pedantes! resmungava. — Súcia de
idiotas! Hoje todos querem ser escritores; sujeitinhos que não sabem ligar duas
idéias, arrogam-se, da noite para o dia, os foros literatos! Uma cambada!
E ria-se com um gesto amargo de
desgosto.
Lúcia e Lambertosa defendiam
timidamente alguns nomes.
— Ora o que, senhores! replicava
Coqueiro furioso e pálido. — Qual é aí o tipo da tal “geração moderna” que se
possa aproveitar?... Não me apontam nenhum! São todos umas bestas!
— Coqueiro!... repreendeu Mme.
Brizard em voz baixa.
— São todos umas nulidades, uns
zeros!...
Era a primeira vez que Amâncio via o
colega sair de si. Não o supunha capaz daquelas explosões.
Mme. Brizard compreendeu o
pensamento do provinciano e apressou-se a dizer-lhe ao ouvido:
— Também é só o que o faz sair do
sério... a literatura!
Amélia indagou se Amâncio também
escrevia. Ele disse que sim, a desculpar-se com os outros.
— Quem neste mundo não rabiscava
mais ou menos?...
Ela mostrou logo empenho em lhe
conhecer as produções.
— Não vale a pena! disse o moço. —
Não vale a pena!
— Ai, ai! suspirou Nini, que parecia
adormecida com os olhos abertos.
Mme. Brizard que já conhecia o
alcance daquele suspiro, perguntou à filha o que desejava. Nini apontou
melancolicamente para um prato, onde fatias transparentes de abacaxi nadavam em
calda de vinho.
— Não senhora, volveu a mãe — isso
não pode ser; faz-te mal.
Nini suspirou de novo e ficou e a
olhar para Amâncio, resignadamente, o semblante muito pesaroso, a cabeça vergada
para o lado.
— Serve-te antes de doce, aconselhou
Mme. Brizard.
O Lambertosa apressou-se a passar a
Nini a compoteira.
— Pouco, Sr. Lambertosa, dê-lhe
pouco!
Veio o café. César levantou-se da
mesa e foi brincar a um canto da sala. Mme. Brizard queria saber se estavam
todos satisfeitos; ela, quanto a si,
jantara perfeitamente, confessava.
E, com um aspecto regalado,
deixava-se ficar prostrada na cadeira, entorpecida no bem-estar do seu
estômago.
O copeiro, um preto alto de pernas
compridas, levantou a toalha, acendeu o gás e trouxe curaçau e conhaque. Amélia
bebericou o seu cálice de licor e levantou-se logo para ir à janela.
Afastaram-se as cadeiras da mesa, e a conversa reapareceu com mais força.
O Lambertosa, Mme. Brizard e
Coqueiro formaram grupo, a discutir o preço excessivo e a falsificação dos
gêneros alimentícios. O gentleman reclamava uma junta de higiene,
rigorosa, que mandasse lançar à praia todos os gêneros deteriorados que
encontrasse. “Era assim que se fazia na Europa!”
Lúcia, do outro lado da mesa,
continuava a falar com Amâncio sobre literatura. Já estavam em Théophile
Gautier, Théodore de Banville e Baudelaire, depois de haverem tocado de
passagem em alguns escritores de Portugal. Agora sentia-se mais eloqüente o
provinciano; acudiam-lhe opiniões e juízos perfeitamente armados; percebia que
as suas palavras causavam bom efeito; ia bem.
Pereira e Nini conservavam-se um
defronte do outro, igualmente concentrados e mudos; ela, porém, com os olhos
muito abertos sobre Amâncio. O outro afinal ergueu-se, atravessou, lentamente,
como um sonâmbulo, a sala de jantar, e foi estender-se em uma preguiçosa que
ficava junto à janela.
Vibrou então o piano no salão de
visitas.
— É melhor irmos todos para lá,
alvitrou a dona da casa.
O marido e o Lambertosa aceitaram
logo a idéia, e Amâncio, sem interromper a sua conversa com a mulher do
Pereira, a esta deu o braço e seguiu o exemplo daqueles.
Lúcia caminhava toda reclinada sobre
ele, falando-lhe em tom mui vagaroso, com acentuações finas de boa educação.
A sala iluminada tinha um caráter
imponente. O gentleman encaminhou a conversa geral para a música,
aconselhou a Amâncio a que solicitasse da Sr.ª D. Lúcia um pouco do Guarani,
que ela tocava admiravelmente.
Lúcia queixou-se de que ultimamente
sofria de certa fraqueza nos dedos e não tocava com a mesma expressão, mas
sempre foi, pelo braço de Lambertosa tomar ao piano o lugar que Amélia deixara
nesse instante. E logo as primeiras notas da introdução do Guarani
encheram a sala com a sua corajosa e dominadora solenidade.
Fizeram silêncio.
Ela tocava bem, com muita energia e
destreza. Amâncio encostara-se sozinho ao canto de uma janela e sentia-se ir
pouco a pouco arrastando pela irresistível corrente daquelas frases musicais.
Seu estômago, perfeitamente confortado, dava-lhe ao corpo um bem-estar
beatífico e predispunha-lhe o espírito para as vagas concentrações e para os
místicos arrebatamentos da fantasia. Um profundo langor, muito voluptuoso,
apoderava-se de todo ele, e os vapores duvidosos de um princípio de embriaguez
acamavam-se em torno de sua cabeça, anuviando-lhe os objetos exteriores.
E ali, da janela, suspenso ainda
pelas novas impressões que lhe deparavam os novos aspectos de sua existência,
abstrato e perdido em cismas indefinidas, enxergava, por entre as névoas de seu
enlevo, o vulto melancólico de Lúcia, assentado defronte do piano, a tocar o
teclado com os dedos, num frenesi delicioso.
Depois da música, principiou a
simpatizar com ela; já gostava de a ver, misteriosa e pálida, arrastando a vida
com a languidez de uma convalescente.
Estava todo embevecido a pensar
nesta simpatia, quando voltou por acaso o rosto e deu com os olhos de Nini, que
o fitavam sem pestanejar.
— É birra, não tem que ver! pensou
ele aborrecido.
Duas horas depois tornavam à sala de
jantar. Serviam-se as torradas. Parecia, com o César adormecido sobre as
pernas, ressonava profundamente na mesma preguiçosa em que o tinham deixado.
Mme. Brizard chamou o copeiro e
ordenou-lhe que recolhesse o menino. Pereira espreguiçou-se, abriu
vagarosamente os olhos, mas tornou a fechá-los, bocejando.
Já estavam à mesa, quando os
hóspedes principiaram a chegar.
Veio o Paula Mendes e mais a mulher.
Ele de pequena estatura, grosso, os movimentos acanhados, a voz branda e a
fisionomia triste; ela muito alta, cheia de corpo, despejada de maneiras e com
feições de homem.
Chamava-se Catarina, estava sempre a
implicar com as coisas e tinha muita força de gênio. Entrou na sala como uma
fúria; o marido atrás. Cumprimentou a todos com um — “boas noites” terrível, e,
atirando-se a uma cadeira, declarou, a bater com a mão na mesa, que vinha
desesperada! — Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado um tacho, um
verdadeiro tacho, para executar um noturno de Chopin, dificílimo!
— Pouca-vergonha! exclamava ela,
rangendo os dentes. — Canalhas!
— Mas o culpado foste tu, lesma de
uma figa! — já devias conhecer melhor aquela súcia!
— Mas... ia responder o marido.
— Cale-se, berrou ela. — Não me dê
uma palavra, que não estou disposta a lhe ouvir a voz! Diabo do basbaque!
Fez uma pausa, estava arquejante,
mas continuou logo:
— Também ali, acabou-se! cruz na
porta! Nunca mais! nunca mais! Nem admito que me falem na rua! Corja!
E, levantando-se com ímpeto,
cumprimentou a todos com um arremesso, e subi para o segundo andar, levando o
marido na frente, aos empurrões.
— Safa, disse Amâncio consigo.
O Dr. Tavares é que vinha
satisfeito. Estivera em casa de um amigo, pessoa de muita consideração, onde se
reunia a mais fina sociedade.
E, necessitando de expandir o seu
bom humor, entabulou conversa com Amâncio. Falou-lhe a um só tempo de mil
coisas diferentes; tratou muito de si; das suas pretensões na Corte que apenas
conhecia de alguns meses; das suas esperanças de obter o que desejava: do que lhe
dissera tal ministro; do que lhe prometera tal conselheiro, e, afinal, da sua
profissão de advogado, profissão que ele exercia com entusiasmo, com delírio,
porque, desde pequeno, toda a sua queda fora sempre para falar em público, para
dominar as massas.
E, esquentando-se ao calor de suas
próprias palavras, discursava, como se
já estivesse no tribunal. Armava posições; recorria aos efeitos da
tribuna, vergava para trás a cabeça, ameaçando espetar o auditório com a ponta
de sua barba triangular.
Sentia-se radiante por ver que todos
os mais não abriam a boca, enquanto ele estivesse com a palavra.
Seu tipo indeciso, de cearense do
interior, uma dessas fisionomias confusas e duvidosas, nas quais o fulvo
castanho dos cabelos quase que não se distingue do moreno da pele e do pardo
verdoengo dos olhos, seu tipo transformava-se na febre da eloqüência e parecia
acentuar-se por instantes.
E, já de pé, com uma das mãos
apoiada nas costas da cadeira, jogava freneticamente com a outra, ora
espalmando-a em cheio sobre o peito, ora apontando terrível para o teto, ora
indicando o chão, horrorizado, como se aí estivesse um abismo, ora dando com o
indicador ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo que a voz, pelo
contrário, se lhe arrastava em trêmulos
prolongados, como as notas graves de um harmonium.
Enquanto ele parolava, outros
hóspedes se recolhiam aos competentes quartos, atravessando a varanda pelo
fundo na ponta dos pés, com medo da “caceteação”.
Aquele homem era o terror da casa.
Às vezes, depois do jantar, quando ele abria as torneiras da loquacidade, iam
todos, um por um, fugindo sorrateiramente, até deixá-lo a sós com o Pereira
que, afinal, adormecia.
Amâncio principiava a sentir
cansaço. Quis retirar-se; não lho consentiram.
— Passava já da meia-noite, a casa
de Campos devia estar fechada àquela hora. — O melhor seria ficar, observou a
francesa.
— Que diabo, acudiu Coqueiro. —
Fica! não incomodarás ninguém... Está tudo providenciado; a cama feita... Além
disso, olha! E mostrando o céu pela janela: — Vamos ter chuva!
Com efeito sopravam os ventos do
sul. Amâncio ainda opôs algumas razões, mas finalmente cedeu.
*
* *
Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um,
depois de novos protestos e oferecimentos se recolheu à competente alcova.
Mme. Brizard recomendou muito a
Amâncio que ficasse à vontade; que não tivesse escrúpulos em reclamar qualquer
coisa de que sentisse falta. Supunha, porém, não haver ocasião disso, porque
fora ela própria e mais a Amelinha quem
lhe arranjara o quarto.
Coqueiro acompanhou-o até à cama,
examinou rapidamente se estava tudo no seu lugar e depois, dando mais luz ao
bico do gás, e tirando um folheto da algibeira, disse-lhe com um sorriso:
— Sempre te vou mostrar os versos...
Amâncio, já meio despido, estremeceu,
mas não opôs a menor consideração, e meteu-se debaixo dos lençóis.
O outro, em pé, ao lado da cama,
folheava amorosamente o seu caderno de versos, à procura do que deveria ler em
primeiro lugar.
Descobriu afinal e, com a voz clara
e sonora, principiou:
“Estamos em plena Roma. Os
Césares devassos...”
VIII
Amâncio sentiu um grande alívio,
quando se achou afinal inteiramente só; a porta do quarto bem fechada e a luz
do bico de gás quase extinta.
Estava morto de fadiga. As
enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo inquisitorial das
cerimônias, a pândega da véspera, tudo isso dava àquela caminha fresca, de
lençóis limpos, um encanto superior ao que houvesse de melhor no mundo. Seu
corpo, quebrado de impressões diversas e na maior parte consumidoras e
lascivas, bebia aquele repouso por todos os poros, voluptuosamente, como um
sequioso que se metesse dentro da água.
Aninhou-se, encolheu-se, abraçado
aos travesseiros, ouvindo com uma certa delícia esfuziar o vento nas portas e,
lá fora, desencadear-se o temporal, arremessando água aos punhados contra
telhas e paredes.
E deixava-se arrebatar pelo sono,
como se deslizasse por uma ladeira interminável de algodão em rama.
Os acontecimentos do dia começaram a
desfilar em torno de sua cabeça, em procissões fantásticas de sombras duvidosas
e fugitivas. Dentre estas, era o vulto de Lúcia o que melhor se destacava, com
o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os quadris, atirando a barriga
para a frente. Chegava a distinguir-lhe perfeitamente os grandes olhos
amortecidos e a sentir-lhe o perfume que ela trazia essa tarde no lenço e nos
cabelos. Em seguida vinha a outra, a Amelinha, mas não com a lucidez da
primeira. E logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso; Nini, a
fitá-lo muito aflita, as mãos inchadas e sem tato, o cabelo escorrido sobre a
cabeça, cheirando a pomada alvíssima, bata de lã escura e sinistra como um
burel. E depois, numa confusão vertiginosa — Coqueiro, a berrar versos,
dançando no ar e a sacudir em uma das mãos um punhado de feijões pretos; e
Paula Mendes a jogar os murros com a mulher; e Dr. Tavares a discursar com os
braços erguidos para o ar; e César, o menino prodígio, a escarafunchar o nariz
freneticamente; e Pereira, de olhos fechados, a andar como um sonâmbulo; e o...
Mas os vultos de todos se confundiam
e desfibravam, como nuvens que o vento enxota. Amâncio já os não distinguia.
Acordou às oito horas do dia
seguinte, meio inconsciente do lugar onde se achava. Logo, porém, que caiu em
si, levantou-se de um pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de luz
dourada invadiu-lhe a alcova.
Olhou a manhã, que estava de uma
transparência admirável. A chuva de véspera limpara a atmosfera; corria fresco.
Os bondes passavam cheios de empregados públicos; viam-se amas-de-leite
acompanhando os bebês; senhoras que voltavam do banho de mar, o cabelo solto,
uma toalha ao ombro.
Aquele movimento era comunicativo.
Amâncio sentiu vontade de sair e andar à toa pelas ruas. Todo ele reclamava
longos passeios ao campo, por debaixo de árvores, em companhia de amigos.
Foi para o lavatório cantarolando; o
sono completo da noite fazia-o bem disposto e animado.
Mal acabava de preparar-se quando
bateram de leve na porta. Era uma mucamazinha, que já na véspera lhe chamara
por várias vezes a atenção durante o jantar.
Teria quinze anos, forte, cheia de
corpo, um sorriso alvar mostrando dentes largos e curtos, de uma brancura sem
brilho.
Vinha saber se o Dr. Amâncio queria
o café antes ou depois do banho.
Amâncio, em vez de responder,
agarrou-lhe o braço com um agrado violento e grosseiro.
Ela pôs-se a rir aparvalhadamente.
*
* *
Às dez horas, ao terminar o almoço, estava já resolvido que
o rapaz, naquele mesmo dia, se mudaria definitivamente para a casa de pensão.
Com efeito, pouco de pois, no
escritório de Campos, dizia a este, cheio de maneiras de pessoa ajuizada, “que
afinal descobrira em casa da família de um amigo o cômodo que procurava”.
Agradeceu muito os obséquios recebidos das mãos do negociante, desculpou-se
pelas maçadas que causara naturalmente e pediu licença para despedir-se de D.
Maria Hortênsia.
Campos, logo que soube qual era a
casa de pensão de que se tratava, aprovou a escolha, citou pessoas distintas
que lá estiveram morando por muito tempo, e recomendou ao estudante — que lhe
aparecesse de vez em quando; que não se acanhasse de bater àquela porta nas
ocasiões de apuro, porque seria atendido, e, afinal, perguntou se Amâncio
queria receber a mesada, já ou mais tarde.
— Como quiser... respondeu o
provinciano, sem ter, aliás, a menor necessidade de dinheiro. E foi embolsando
a quantia.
D. Maria Hortênsia recebeu-o com
muito agrado. A irmã não estava em casa.
Conversaram.
Ela sentia que Amâncio se retirasse
assim tão depressa; — mas, quem sabe? talvez não se desse bem ali; não fosse
tratado como merecia...
O estudante protestava, jurando que
não podia ambicionar melhor tratamento do que lhe dispensaram; reconhecia,
porém, que já causava muito incômodo, e por conseguinte devia retirar-se. Não
queria abusar.
Hortênsia afiançava e repetia que
ele não dera incômodo de espécie alguma. — Tudo aquilo era feito com muito
gosto!
Agora parecia mais familiarizada com
o provinciano. Chegou a dirigir-lhe gracejos; disse, com um sorriso de
intenção, que “sabia perfeitamente o que aquilo era! O que eram rapazes! — Não
se queriam sujeitar a certo regime; só lhes servia pagodear à solta! Enfim!...
tinham lá a sua razão... Se ela fosse rapaz faria o mesmo, naturalmente!”.
Amâncio estranhou que tais palavras
viessem de que vinham, e, não querendo perder a vaza, retorquiu com febre: “Que
Hortênsia estava enganada a respeito dele, que não o conhecia! Se, à primeira
vista ele parecia um pândego ou um sujeito mau, não o era todavia no fundo!
Ninguém amava tanto a família; ninguém! desejava o lar com tanto ardor e com
tanto desespero! Oh! que inveja não tinha de Campos!... que inveja não tinha de
todo o homem, a cujo lado enxergava uma esposa bonita e carinhosa!...”
Hortênsia agradeceu com um sorriso.
— Oh! Quanto fora injusta!... prosseguiu
Amâncio, com o rosto esfogueado de comoção. — Quanto fora injusta! O seu ideal,
dele, era justamente o casamento; era possuir uma mulherzinha, cheirosa e
meiga, com quem passasse a existência, ditosos e obscuros no seu canto, vivendo
um para o outro, ignorados, egoístas, não cedendo nenhum dos dois, a mais
ninguém, a menos particulazinha de si — um sorriso que fosse, um olhar amigo,
um aperto de mão!
— Que rigor! exclamou Hortênsia,
tomando certo interesse pelo que dizia o estudante. — Que rigor! Não o supunha
assim, seu Amâncio!...
— Oh! Era assim que ele entendia o
verdadeiro amor!...
E, cada vez mais quente:
— Era assim que ele amaria! Era
assim que ele cercaria de beijos o anjo estremecido que o quisesse recolher à
tepidez consoladora de suas asas! Era assim que ele sonhava a existência de
duas almas gêmeas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade do mesmo vôo.
— Pois é casar-se, meu amigo...
aconselhou a mulher de Campos, pasmada de ouvir Amâncio falar daquele modo. —
Não o fazia tão prosa!...
E, como era preciso dizer qualquer
coisa, acrescentou muito amável:
— Quem sabe se alguma fluminense já
não lhe voltou o miolo!...
Ele confessou que sim, sacudindo
tristemente a cabeça. E, de tal modo exprimiu o seu amor por “essa fluminense”,
tão ardente e tão apaixonado se mostrou, que Hortênsia instintivamente se
ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse cometido uma
falta.
Não quis saber de quem se tratava.
Deu uma volta pela sala, foi ao aparador, tomou alguns goles
d’água e, procurando mudar de conversa, falou do baile que havia essa noite em
casa do Melo. — Devia ser muito bom, constava que havia quinze dias se
preparavam para a festa. Era em Botafogo. Campos, logo que recebeu o convite,
lembrou-se de levar Amâncio consigo, este, porém, tão raramente aparecia em
casa, e agora, com esta mudança...
— Não. Campos falou-me, disse o
estudante.
— Ah! sempre chegou a lhe falar?
— Há três ou quatro dias; mas eu não
tencionava ir...
— Por quê? O senhor é moço, deve divertir-se.
— A senhora vai?
— Sim, vou.
— Nesse caso irei também.
E Amâncio ligou tão expressiva
entonação àquelas palavras, que Hortênsia abaixou os olhos, já impaciente, sem
mais vontade de conversar.
— Seria possível, pensava ela — que
aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?... Não! não seria capaz disso, e,
se fosse, ela saberia desenganá-lo! Ah! com certeza que o desenganava!
Campos subiu daí a um instante, e
Amâncio, depois de combinar com ele que voltaria à noite para irem juntos à
casa de Melo, entregou as suas malas a um carregador e saiu.
Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortênsia dava-lhe um
vago antegosto de prazeres; previa com delícia os bons momentos que o
esperavam.
— E agora é que vou deixar a casa!... pensava ele já na rua.
— Que tolo fui! Abandonar a empresa, justamente quando me sorri a primeira
esperança! “Mas pedaço de asno, argumentava com seus botões — não calculaste
logo que aquela mulher mais dia menos
dia havia de escorregar? Por que diabo então não esperaste um pouco?...” Ora!
mais que caiporismo, o meu! Sair nesta ocasião! Perder uma conquista tão boa!
Agora também que remédio lhe hei de dar? O que está feito, está feito! A este
momento minhas malas talvez já tenham chegado à casa de Coqueiro! E com este
nome assaltaram-lhe logo o espírito as imagens de Lúcia e de Amelinha.
— Bem me dizia Simões, pensou ele. — Bem me dizia Simões:
“Quando te começarem as aventuras, hás de ver o que vai por esta sociedade!”
E Amâncio, que não conseguia reter na cabeça as palavras dos
seus professores, Amâncio, que era incapaz de guardar na memória um fato, um
algarismo, uma fórmula científica, conservava, entretanto, com toda a inteireza
aquela frase banal, pronunciada por um pândego em um almoço de hotel, depois de
dúzia de garrafas de vinho.
O Simões tinha toda a razão... principiavam as aventuras!
Diabo era aquela asneira de abandonar tão intempestivamente a casa de Campos!
Fora uma triste idéia, que dúvida! Mas, ele também não podia adivinhar quais
seriam as intenções de Hortênsia!... O melhor por conseguinte era não se
apoquentar — o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe às mãos!...
E já nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de
pensão. Sorrisos amáveis de Amelinha e Mme. Brizard o receberam desde a
entrada. Coqueiro estava na rua.
Veio à conversa o baile dessa noite. Amâncio, pela primeira
vez, ia conhecer uma sala da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele
voltaria cativo por alguma carioca.
— Duvido! — respondeu o estudante, a
rir.
— É! disse a francesa — vocês do
Norte são todos uns santinhos! Eu já os conheço! Nunca vi gente tão assanhada.
Amelinha abaixou os olhos, depois de
lançar à outra um gesto repreensivo.
Mme. Brizard não fez caso e
acrescentou:
— Os demônios não podem ver um rabo-de-saia!
— Loló! censurou Amelinha em voz
baixa.
— Também não é tanto assim!...
contradisse o provinciano.
Mme. Brizard citou logo os exemplos
de casa, até ali entre todos os seus hóspedes, só os nortistas devam sorte em
questão de amor. — Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com
escândalo uma crioula, e crioula feia!
Amelinha, bem contra a vontade,
soltou uma risada, que lhe desfez por instantes o ar inocente da fisionomia;
mas recuperou-o logo, e lembrou à cunhada “que não deviam estar ali e roubar o
tempo a seu Amâncio. Ele tinha que cuidar das malas que já o esperavam
no quarto”.
— Nós podemos ajudá-lo nesse
trabalho, acudiu a velha. — Certas coisas só ficam bem feitas por mão de
mulher!
O estudante aceitou o oferecimento,
e os três seguiram para o gabinete, sempre a rir e a conversar.
Amelinha, enquanto Amâncio entrava
no quarto, observou, em voz baixa a Mme. Brizard, que não achava conveniente
que esta arriscasse em sua presença pilhérias como as de ainda há pouco. — O
rapaz, por muito ingênuo que fosse, podia desconfiar com aquilo e persuadir-se
de que ela, Amelinha, não daria uma noiva bastante séria e digna dele! Que, às
vezes, por estas e outras indiscrições, desmanchavam-se casamentos!
— Como te enganas! respondeu a velha
— já compreendi bem esse sujeito: a sua corda sensível são as mulheres! Gosta
que lhe falem nisso! Tu, do que precisas, é opor-lhe dificuldades, sem que o
desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obterás a vitória. Quando ele te
pedir um beijo, dá-lhe um sorriso; e, quando quiser muito mais, dá-lhe então o
beijo, contanto que te mostres logo arrependida, envergonhada, chorosa,
inconsolável, e disposta a não lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe
pertenceres, a nunca lhe perdoares aquele atrevimento. E, se ele insistir,
repele-o, insulta-o, jura que o desprezas e fá-lo acreditar que amas a outro. —
É dessa forma que o hás de agarrar, percebes? Lá quanto às minhas chalaças de
ainda há pouco, descansa que por aí não irá o gato às filhoses.
Nesse momento, o rapaz acabava de
abrir as malas. As duas senhoras apareceram no quarto.
Ele tinha muita roupa branca, e tudo
bom. Camisas finas de linho, ricas toalhas de renda marcadas cuidadosamente por
sua mãe, fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre labirintos e desenhos
caprichosos.
Sentia-se o amor, o desvelo, com que
tudo aquilo fora arrumado; cada objeto parecia conservar ainda a marca da mão
carinhosa que o acondicionara a um canto da arca. Alguns denunciavam o trabalho
paciente de longos tempos, traziam à idéia calmos serões à luz do candeeiro.
Adivinhava-se, pelo completo daquele enxoval, a previdência de um coração
materno; nada faltava.
À proporção que se iam tirando as
peças de roupas, uma tepidez embalsamada respirava dentre elas; parecia que um
perfume ideal de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos lençóis de linho;
percebia-se que muita lágrima e muito soluço ficaram abafados no fundo daquelas
arcas.
Vieram ao provinciano novas e mais
vivas saudades de Ângela. Uma vaga tristeza apoderou-se dele; ficou distraído,
a olhar silenciosamente para as roupas que as duas mulheres empilhavam no chão
e sobre a cama. Sentiu, compreendeu, que ele próprio, à semelhança daquelas
arcas, havia também de ir perdendo, pouco a pouco, todas as ilusões, todos os
perfumes, com que saíra impregnado dos braços de sua mãe.
E afastou-se do quarto para limpar
as lágrimas. As lágrimas, sim, que o fato de sua primeira viagem, as impressões
da Corte, a saudade, as aventuras amorosas, as ceatas pelos hotéis, davam-lhe
ultimamente uma sensibilidade muito nervosa e feminil. Elas acudiam-lhe agora
com extrema facilidade, chorava sempre que se comovia. Às vezes, no teatro,
assistindo à representação de qualquer drama de efeitos, ficava envergonhado
por não poder impedir que os olhos se lhe enchessem d’água; a simples descrição
de um desgraça perturbava-o todo; a música italiana o entristecia; a idéia de
um feito heróico ou de um rasgo de perversidade era o bastante para lhe agitar
a circulação do sangue e formar-lhe godilhões na garganta.
Quando voltou ao quarto, já os baús
estavam despejados.
Mme. Brizard não se fartava de
elogiar a boa qualidade das fazendas, o bem cosido das roupas, a pachorra e
asseio com que tudo fora feito. Apreciava o trabalho das marcas; chamava a
atenção de Amélia para os bordados, para os labirintos e para as rendas.
— Olha! disse-lhe, mostrando um pano
de crochê — o desenho é justamente como aquele da toalha do oratório. Só faltam
aqui as duas borboletas do canto.
E arrumava tudo, com muito cuidado,
nas gavetas da cômoda. Tomava religiosamente sobre os braços os pesados
lençóis, os maços de ceroulas em folha, os pacotes intactos de meias listradas,
os de lenço barrados de seda, os colarinhos de todos os feitios, as gravatas de
todas as cores. E não acondicionava uma peça sem afagá-la, sem lhe passar por
cima as mãos abertas.
— O rapaz estava provido de tudo!
disse em voz baixa. E, depois, acrescentou alto, rindo: — Podia até casar se
quisesse!
— Falta o principal... respondeu
ele.
— Que é? acudiu logo Amélia.
— A noiva! explicou o moço, olhando
intencionalmente para a rapariga.
— Deve estar à sua espera no
Maranhão... volveu ela.
E abaixou os olhos com um movimento
de inocência, muito bem feito.
— Não vê! exclamou a velha. — Então
um rapaz desta ordem deixava as meninas da Corte para amarrar-se a uma
provinciana?... Seria de mau gosto!
— Não sei por que, retorquiu
Amâncio, ligeiramente escandalizado. — Na província há senhoras bem educadas,
muito chiques!
— Sei, sei, perfeitamente, disse
Mme. Brizard, evitando contrariá-lo. Sei que as há... mas é que o Sr.
Vasconcelos tem elementos para desejar muito melhor! Seria pena que um rapaz
tão perfeito não escolhesse uma noivazinha comme il faut. — Bonita,
instruída, que soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer música,
recitar, servir um almoço, dirigir uma soirée. Além de que, meu caro
senhor, as provincianas, em geral, saem muito mais exigentes do que as filhas
da Corte.
E, como Amâncio fizesse um ar de
espanto:
— Sim, porque a fluminense, habituada
como está na capital e familiarizada com os bailes, com os espetáculos do
lírico, com os passeios, já se não preocupa com essas coisas e, uma vez casada,
dedica-se exclusivamente ao lar, ao marido e aos filhinhos; ao passo que com as
outras, as provincianas, sucede justamente o contrário, visto que ainda não
conhecem aqueles gozos e só desejam o casamento para conhecê-los. Daí as suas
exigências; nada cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração
as satisfaz, porque tudo fica muito aquém dos seus sonhos da província; o que
para as outras é tudo, para elas não é nada. Bailes e teatros toda a noite,
carruagens, lacaios, vestidos de seda, dez ou vinte criados, nada as contenta,
nada corresponde ao que elas ambicionam. E o marido, o pobre marido de
semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma existência sem
amor e sem conchegos de família, ainda terá de suportar as queixas e os
ressentimentos de uma mulher desiludida e blasé.
— Perdão! replicou o estudante. —
Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da província ou da Corte,
apresenta sempre certa dose de ambições. Com a diferença, porém, de que a
provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro é o seu ideal, é o seu sonho
dourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra, visto que o supradito Rio
de Janeiro para ela nada mais é que o comum, estende naturalmente a sua ambição
— e quer Paris. O Passeio Público já não a satisfaz, é preciso dar-lhe Bois
de Boulogne; já não lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer tudo
isso e mais um título de baronesa pelo menos!
E, encantado com a clareza do seu
argumento, continuou a discutir, chegando à conclusão de que seria loucura
desejar uma mulher isenta de ambições e caprichos, e que ele já se daria por
muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal não fosse além do Rio de
Janeiro.
Amélia era precisamente dessa
opinião, mas entendia que, mesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas
e, aliás, muito modestas.
Amâncio declarou que não argumentava
com exceções. — Sabia perfeitamente que nem todas as fluminenses calçavam pela
mesma forma, e não tinha a pretensão de dizer “desta água não beberei, deste
pão não comerei!” apenas não admitia aquela razão, que apresentava Mme.
Brizard, para provar que as provincianas eram mais dispendiosas do que as
filhas da Corte. Isso não! que o desculpassem, mas não podia admitir!
Sempre queria vê-lo casado com uma
provinciana!... observou a francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. —
Então sim! Aposto que não teria a mesma opinião!
Amâncio não respondeu logo, porque
estava muito ocupado a apanhar do chão uma grande pilha de camisas engomadas,
que Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu também a ajudá-los, e, na
precipitação com que todos três, agachados um defronte dos outros, queriam ao
mesmo tempo recolher a roupa espalhada no soalho, as mãos do estudante
encontravam-se com umas mãozinhas finas que não eram certamente as de Mme.
Brizard.
Mas todas as vezes que ele tentou
retê-las entre as suas, as tais mãozinhas fugiam tão ligeiras, como se lhes
houvessem chegado uma brasa.
IX
O baile em casa de Melo esteve bom.
Este, muito magro, de suíças negras, olhos fundos e movimentos rápidos, não
descansava um instante; tão depressa o viam conduzindo senhoras pela escada, como
a receber apresentações na sala de jantar, como a formar quadrilhas;
voltando-se para todos os lados e atendendo a todas as pessoas.
O Melo tinha boas relações e alguns
bens adquiridos no comércio; nunca se envolveu diretamente com a política; mas
prezava o monarca e esperava, com resignação, um habito que há dez anos lhe
haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que já não era
criança, ainda metia muita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram
com ela, citavam-na como um tipo de formosura.
Amâncio foi recebido com especial agrado, graças ao Luís
Campos que era íntimo do dono da casa.
A circunstância de que ali se achava
só, no meio de tanta gente estranha, como que apertava o círculo de suas
relações com a família do correspondente. Fazia-se muito deles, muito
aparentado; não dispunha de mais ninguém para desabafar as suas impressões e
para conversar um pouco mais à vontade.
Assim, quando saltamos em um porto
pela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente nossas relações com os
companheiros de bordo, ainda mesmo que os conheçamos de poucos dias.
Até Carlotinha parecia mais
expansiva, principalmente depois que Amâncio se revelou insigne dançador de
valsa. Ela era louca pela dança. Maria Hortênsia notara igualmente que o
provinciano tinha um certo talento coreográfico muito peculiar, e não ficou
isolada nesse juízo, porque várias senhoras se declararam da mesma
opinião.
Não tardou muito a que semelhante
julgamento se estendesse pelas outras salas, e em breve estavam todas as damas
de acordo que Amâncio era o melhor par daquela noite.
Com efeito, se ele em qualquer outra
coisa não conseguiu a perfeição, na dança ao menos nada se lhe tinha a desejar,
dançava admiravelmente, por vocação, por índole, por um jeito especial do
corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos braços, à cabeça, e às
pernas,. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo próprio, original.
Quando, sacudido pela música, os
olhos meios cerrados, a boca meia aberta, arremessava-se com a dama no
turbilhão da sala, tinha alguma coisa de pássaro que desprende o vôo. Ficava
até mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente sobre a testa; o
cansaço dava ao moreno de suas faces uma palidez misteriosa e doce. E, com o
braço direito engranzado à cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a
mão que a dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se todo com delícia, a
fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido, como se fora arrebatado por
entre nuvens de arminho.
No seu temperamento, excessivamente
lascivo, gozava com sentir ligado ao corpo o corpo precioso de uma mulher de
estimação; comprazia-lhe em beber-lhe o hálito acelerado pela dança,
embebedava-se com respirar-lhes os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante
cheiro animal da carne.
Afinal, depois de uma valsa,
estonteado e ofegante atirou-se ao canto do divã em que estava Hortênsia.
Confessava-se prostrado, a limpar o
suor do pescoço e da fronte. Fora imensa a valsa e ele cansara três pares que
se abateram inúteis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo.
— Apre! disse.
As senhoras olhavam-no já com
respeito, acompanhavam-lhe os menores movimentos com enorme interesse.
— Muito bem! muito bem!
cochichou-lhe a mulher de Campos. — Ignorava que o senhor fosse tão forte na
valsa!
E começaram a conversar sobre o mal
que se dançava ultimamente. Ela declarou que uma das coisas que mais apreciava,
era a boa valsa. Isso desde criança; no colégio, às vezes, as meninas passavam
a hora do recreio dançando uma com as outras.
— Ninguém o diria... considerou
Amâncio, fazendo-se muito seu camarada. — A senhora hoje só tem querido dançar
quadrilhas.
Ela respondeu com um risinho
significativo.
— Quer uma valsa comigo?...
perguntou o rapaz, em segredo, requebrando os olhos.
— Não posso! disse ela, quase com um
suspiro. — Aceitaria de bom grado, mas não posso...
— Valha-me Deus! Por quê?
— Porque...
Hortênsia sorriu de novo, sem ânimo
de confessar a verdade — o marido não gostava de a ver valsar. Também não se
podia desculpar, dizendo que não sabia, porque ainda há pouco dissera
justamente o contrário; afinal, sem fazer empenho de ser acreditada acrescentou
gracejando.
— Porque... porque me faz mal...
Amâncio prometeu que a conduziria
devagar e que não dançaria longo tempo seguido; aceitava todas as condições,
contanto que desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma valsa.
Hortênsia não respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um
grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E abanava-se,
lentamente, como seguindo o vôo de um vago pensamento voluptuoso.
O quadro representava uma cena de Fausto
e Margarida, no jardim (um longo beijo apaixonado que parecia soluçar entre
a folhagem misteriosa do painel. O encantado filósofo tomava nas mãos brancas a
loura cabeça de sua amante, e sorvia-lhe a alma pelos lábios. O sol morria ao
longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava à sombra azulada de
uma planta).
Hortênsia olhava para isso,
enquanto, ao gemer das rebecas, cruzavam-se na sala os pares, marcando
contradanças. O aroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses,
misturava-se ao cheiro das mulheres e penetrava a carne com a sutilidade de um
veneno lento e delicioso como o fumo do charuto. Os membros lácteos das
senhoras, expunham-se nus à grande claridade artificial do gás; as jóias
faiscavam; os olhos desfaleciam e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e
entontecendo a alma.
— Então?... pediu Amâncio, pondo
muita doçura na voz — dance comigo, sim?... Faça-me a vontade. Eu sentiria
nisso tanto gosto...
E todo ele suplicava aquele
obséquio, com o empenho apaixonado de quem pede uma concessão de amor.
Ela dizia que não, meneando a
cabeça; mas, um sorriso, que se lhe escapava dos lábios, dizia o contrário.
— Então!... sim?... sim?... um
bocadinho só! insistia o estudante, a devorá-la com os olhos.
Estava ainda cansado; a voz não lhe
vinha inteira, mas quebrada, como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se
luxuriosamente; as pernas principiavam-lhe a tremer.
— O que lhe custa, à senhora, dançar
um pouquinho comigo?...
E, vendo que ela não respondia,
balbuciou em tom magoado, de criança ressentida:
— Bem, bem, não lhe peço mais nada,
não a importunarei de hoje em diante. Desculpe!
Hortênsia voltou-se para ele, ia
talvez desenganá-lo; mas a orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha,
deu sinal para a “valsa”. Era o Danúbio, de Strauss.
O rapaz ergueu-se como um soldado
que ouvisse tocar o rebate.
Ela não resistiu, levantou-se de um
salto e entregou-lhe a cintura.
Dançaram. A princípio vagarosamente:
depois, como a música se acelerasse, Amâncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar,
a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração doida.
A música redobrou de carreira.
Foi então um rodar convulso, frenético:
a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em torno deles.
Hortênsia dançava tão bem como o
rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos casavam-se como por
encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão mecânica.
Encheu-se a sala de pares. Amâncio
fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados numa
conjuntura amorosa. Ela arfava, sacudindo o colo com a respiração; os seus
braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele;
não podia fechar a boca, o seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do
estudante.
De repente, Amâncio parou, exausto.
Ouvia-se-lhe de longe a respiração.
— Não! não! balbuciava ela, quase
sem poder falar. — Ainda! mais um pouco!...
E abraçaram-se de novo,
freneticamente.
Quando parou a música, Hortênsia
caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.
Não podia dar uma palavra; não podia
abrir os olhos. Sua respiração parecia longos suspiros contínuos e estalados.
Vários cavalheiros se aproximaram.
— Ficou muito fatigada?... perguntou
Amâncio, inclinado-se sobre ela, a mão apoiada nas costas do divã.
Hortênsia não respondeu. Cobriu o
rosto com o lenço de rendas e continuou recostada. Foi a voz do marido que a
despertou.
— Que loucura é esta Neném?... perguntou
ele, sorrindo com o seu bom ar de homem honesto.
Ela sorriu também, e pediu desculpas
com o olhar.
— Sabes que te faz mal, para que
valsas?...
Hortênsia soltou uma risadinha de
intenção e disse baixinho: Não é o mal que me faz que te dá cuidado...
— Como assim?
— Ora, é que tu não gostas muito de
me ver valsar...
— Porque te faz mal, filha!...
— É só por isso? afianças que não
tens outro motivo?
Campos respondeu com um movimento de
ombros.
— Olha lá!... ameaçou a bonita
senhora, sacudindo um dedinho da mão direita. — Olha! que sou muito capaz de,
hoje em diante, não perder mais uma só valsa!...
Ele repetiu o movimento dos ombros,
e acrescentou:
— Isso é lá contigo, filha; a saúde
é tua, faze o que entenderes, ora essa!
Algumas pessoas perceberam o seu mal
humor e riram com disfarce.
Nessa ocasião, Amâncio encostado ao
bufê, pedia que lhe servissem um grogue à americana.
— Está retemperando a fibra?
perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante, meio calvo, a bater-lhe
amigavelmente no ombro.
O estudante voltou-se apressado e,
logo que viu o outro, exclamou:
— Oh! o Dr. Freitas! Como passou?
Não sabia que estava também por cá!
Freitas respondeu com a sua vozinha
gasta — que chegara havia pouco; não lhe fora possível vir antes; tivera que acompanhar
o enterro de um parente! — Coitado! cacete até depois de morto, três
necrológicos de hora e meia cada um!... Ah! os parentes! os parentes eram uma
desgraçada invenção, principalmente se não deixavam alguma coisa!
E, depois de retesar o peito da
camisa e puxar a gola da casaca:
— Mas então como ia o Sr. Amâncio de
Vasconcelos?... Pela fisionomia jurava-se que tinha saúde para dar e vender, e,
pelos atos, não parecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa
do amigo com Hortênsia.
E rindo:
— Homem, faz você muito bem!
Aproveite enquanto está no tempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experiência
de que disponho hoje, não havia de proceder como procedi! Oh! aquele aforismo
tem muito fundo! “ Si jeunesse savait...”
E a olhar para os pés, com o gesto
cheio de tédio: — Gostei de o ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu é que já
não sou homem para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue à fadiga!
Amâncio fez-se modesto; negava que
dançasse bem; mas o outro, em vez de insistir nos elogios, como esperava ele,
perguntou-lhe muito descansadamente por que razão não lhe apareceu depois da
primeira visita.
O estudante desculpou-se com a falta
de tempo e excesso de estudo. Havia, porém, de aparecer, mais tarde.
As relações com o Dr. Freitas
procediam de uma carta de recomendação, que um amigo do velho Vasconcelos lhe
arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer estudante pouco
escrupuloso; dispunha de ótimas relações, que podiam servir de empenho nas
épocas apertadas de exame.
Tinha alguma coisa, gostava de ir à
Europa de vez em quando, e os seus quarenta e tantos anos não espantavam a
ninguém; ao contrário, ainda havia muito olho esperto de mulher que se
arregalava para o ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando,
enquanto ele parecia eternamente empalhado nos seus fraques irrepreensíveis,
nos seus chapéus à moda e nos seus enormes sapatos à inglesa de um elegantismo
feroz. Em consciência, ninguém o poderia qualificar senão de rapaz. As mulheres
eram o seu fraco, o seu vício mais acentuado; várias anedotas suas, inspiradas
neste assunto, corriam de boca em boca há vinte anos.
Amâncio ficou muito seu camarada,
desde a primeira visita. Em menos de uma hora de conversação, falavam já sobre
as cocotes mais conhecidas na Corte; e, alguns dias depois, quando se
encontraram na Fênix, Freitas apresentou-lhe uma espanholona de buço louro, a
qual nessa ocasião passava pelo corpo mais bonito do mundo equívoco.
— Pois você já está um fluminense
acabado! disse o elegante, a medir Amâncio de alto a baixo. — Não imaginei que
andasse tão depressa...
E, porque voltasse à conversa sobre
mulheres, continuou o que dizia há pouco:
Infelizmente só chegamos a
conhecê-las quando vamos caindo na idade; de sorte que é preciso aproveitar o
espaço que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso — não sabemos,
depois — não podemos. Ah! se aos vinte já se conhecesse a mulher... se então já
se soubesse quais são os seus gostos e suas preferências.. se tal acontecesse,
nem uma só se conservaria virtuosa!... Mas, nesse período dos sonhos e das
ilusões, no período em que está o senhor, meu amigo, ninguém é capaz de uma
audácia! Para chegar a fazer qualquer coisa é preciso ser provocado, mas muito
provocado!
Amâncio protestava com um sorriso
pretensioso.
— Oh! oh! exclamou o outro, cheio de
experiência, a calcar o monóculo sobre o olho. — Já tive a sua idade, meu
amigo, já tive a sua idade! Pensava então que, para agradar mulheres, era
indispensável fazer-me bonito, meigo, romântico, atencioso, que sei eu!...
Engano! puro engano! Elas aborrecem tudo isso, e só exigem coisas num homem: a
primeira: — muita audácia; a segunda — um pouco de inteligência; a terceira —
algumas relações na boa sociedade! e... ainda temos uma de que me esquecia e
que, entretanto, é a base de todas as outras: — Não ser seu marido! Com estas
quatro qualidades, desde que se tenha mocidade e boa disposição, não há mulher
que resista! Quanto à beleza, boas maneiras e bom caráter — histórias, homem!
histórias! Elas, ao contrário, detestam os tipos afeminados e não morrem de
amores pelos sujeitos rigorosamente honestos e bem comportados. Qual! Querem o
seu bocado de vício; o belo deboche de vez em quando, para variar!...
E metendo as mãos nos bolsos da
calça, e jogando o corpo com um ar canalha:
— Lá para a seriedade basta-lhe o
marido! É boa!
Amâncio ria-se, abarrotado de
intenções. Freitinhas foi nesse momento apreendido pelo dono da casa: “As damas
reclamavam a sua presença, dele, nas salas! Era preciso não se meter pelos
cantos!”
Dr. Freitas deixou-se levar, sempre
muito enfastiado; mas, antes de ir, bateu no ombro de Amâncio e segredou-lhe
com a sua voz de tuberculoso:
— Aproveita, menino, aproveita! Não
mandes nada ao bispo!
*
* *
Iam já desaparecendo os convidados.
Os pais de família toscanejavam encostados às ombreiras das portas, esperando,
com os braços carregados de capas e mantas, que as mulheres e as filhas se
resolvessem a seguir para a casa. Havia um vago tom de cansaço nas fisionomias;
entretanto, alguns cavalheiros jogavam ainda, em um quarto próximo à luz
trêmula das velas da estearina. Melo conduzia senhoras pelo braço à porta da
rua, agradecendo-lhes muito o obséquio de aceitarem o seu convite.
Foi Amâncio quem ajudou Hortênsia a
entrar na carruagem. Campos parecia contrariado com a demora — há duas horas
que desejava retirar-se.
Encurtaram-se despedidas. O
horizonte principiava a franjar-se com os galões prateados da aurora, e, do
lado das montanhas desciam tons mutatinos de natureza que desperta.
Hortênsia, muito embrulhada na sua
capa de casimira branca e guarnecida de arminhos, atirou-se com impaciência
sobre as almofadas do carro, levantando um luxuoso farfalhar de sedas que se
amarrotam. Logo, porém, que o cocheiro sacudiu as rédeas ela chegou o rosto à
portinhola, e gritou para fora:
— Aparece domingo! Vá jantar
conosco. Adeus!
Amâncio, perfilado na calçada, o
chapéu suspenso na mão direita, em atitude de quem faz um cumprimento
respeitoso, disse agitando o braço:
— Adeus, minha senhora. Hei de ir.
O carro de Campos tomou a direção da
praia de Botafogo, o rapaz ainda o acompanhou com a vista; depois, levantando
os ombros e abotoando melhor o
sobretudo, meteu-se num tílburi que se aproximava lentamente e mandou
tocar para a casa de pensão.
O animal disparou, sacudindo as
crinas ao vento fresco da manhã.
Amâncio acendeu um charuto e, com os
olhos meio cerrados, derreou-se para o fundo do tílburi.
Naquele momento sentia gosto em se
fazer muito farto, muito cansado de amores. Suas últimas impressões enchiam-lhe
o cérebro de uma espécie de vapor azotado, que asfixiava todos os outros
pensamentos.
— A continuarem as coisas daquele
modo, dizia ele consigo, chupando o charuto aos solavancos do carro — em breve
o tempo será pouco para tratar só de namoros!...
A cada passo que dera na sua inútil
existência, rasgara com o pé uma página do livro das ilusões. Mas a presença
deste raciocínio, longe de afligi-lo, dava-lhe à vaidade um certo prazer
doentio e picante.
— Como poderia acreditar agora nas
tais virtudes femininas?... Pois se até falhara a própria mulher de Campos!...
Quando poderia ele imaginar que
Hortênsia tão severa e tão grave ainda há pouco, uma criatura por quem todos
“metiam a mão no fogo”, fosse assim leviana e fácil, como as outras?...
E Amâncio saboreava esta convicção,
porque, a despeito do que dissera aos amigos no Hotel dos Príncipes, sua
consciência, por conta própria, tomara sempre a defesa de Hortênsia e insistia
em mostrá-la cercada de um grande prestígio venerando e respeitável.
— A consciência agora que falasse!
E refocilava-se todo com o seu
triunfo. — Agora é que ele queria saber quem tinha razão; sim, porque, enquanto
procurava convencer-se de que devia esperar de Hortênsia aquilo mesmo, a
rezingueira da consciência saltava-lhe em cima com um nunca terminar de razões
e apresentava-lhe a “excelente senhora” cada vez mais pura e menos acessível! E
eis que, de supetão, quando menos se esperava, erguiam-se os fatos brutalmente
para desmentir uma impostura.
E ele sorria, vendo as asas do anjo
baquearem a seus pés, murchas e retraídas, como os galhos de uma árvore
arrancados pelo nordeste.
— Bem dizia Simões: “Quando te
começarem as aventuras...” E melhor ainda Dr. Freitas: “Para conquistar as
mulheres são apenas quatro coisas necessárias: audácia, boas relações, um pouco
de inteligência e não ser seu marido!”
E os fatos, como disciplinados por
estas palavras, formavam ala e começavam a cantar as vitórias do estudante. Na
sua lógica indiscutível afirmavam eles que Hortênsia, o tal modelo de
severidade e pureza, morria de amores por Amâncio, que o desejava ardentemente,
que se entregaria na primeira ocasião, fazendo loucuras, dando escândalos, que
nem uma heroína de romance!
— Está segura! exclamou o rapaz,
sacudido por estas idéias. O sangue saltava-lhe no corpo; aquela aventura se
lhe afigurava a melhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador vulgar,
espinoteava qual potro que se pilha às soltas no prado verdejante e proibido.
As outras conquistas vinham logo chamadas por aquelas, e todas as vítimas de
sua sensibilidade, ou as cúmplices do seu temperamento e da sua má educação,
enfileiravam-se defronte dele, como um submisso batalhão de prisioneiros.
Chegou a casa ao amanhecer e não
dormiu logo. Os pensamentos revoavam-lhe no cérebro com o frenesi de folhas
secas, redemoinhadas pelo vento.
X
Dormiu mal; os sonhos não o deixaram
em paz.
A princípio, todavia, foram
agradáveis: ternos episódios de amores fáceis que se encadeavam confusamente, e
nos quais as sensações vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois
os sonhos maus, os pesadelos.
Nestes, as mulheres entravam por
incidente, sempre duvidosas; vultos sinistros, de cabelos desgrenhados, rosto
lívidos, surgiam em torno dele e iam-se aproximando, até lhe ficarem cara à
cara, num contato frio e incômodo de carne morta. Depois sonhava-se em casa da
família, voltando, porém, justamente do baile de Melo: tinha muita necessidade
de repouso, queria continuar a dormir, mas a voz ríspida do pai berrava por ele
da porta do quarto: “Anda daí, mandrião! Basta de cama! Vê se queres que eu te
vá buscar!” E aquela voz terrível dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e, ao
estrondo que ela fazia, vultos cor-de-rosa, e cabelos louros, fugiam
espavoridos, como as rãs que se atiram na água, assustadas pelas presença de um
boi.
Amâncio queria também fugir, mas
suas pernas pareciam troncos de árvores seguros ao chão; queria gritar, mas a
língua inchava-lhe na boca.
Acordou muito fatigado e aborrecido
às duas horas da tarde.
Logo que apareceu na sala de jantar,
Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, que lhe haviam remetido, a
ele, com um cartão. Amâncio apressou-se a ler. O escrito dizia simplesmente:
“Ao Dr. Amâncio de Vasconcelos — uma sua amiga.”
Cruzaram-se os penetrantes risos
adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, fingiu não se impressionar
com aquela manifestação; leu, porém, o bilhete mais duas, três, quatro vezes.
Era letra de mulher, de Hortênsia
sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno
pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na véspera, durante a
valsa, o tinha penetrado até à medula.
Achavam-se presentes Dr. Tavares,
Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas
flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro de
capa roxa. O gentleman falou de botânica a propósito de uma dália
vermelha que havia no ramo. Afiançou
que esta flor possuía em si tantas flores quantas eram as pétalas de que
constava.
— Flores perfeitas, com todos os
órgãos, Sr. Amâncio — estames, cálice, tudo!
Amâncio, enquanto Lambertosa
discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, ao levantar a vista,
reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.
Amélia dera-se por incomodada e não
veio à mesa.
O jantar correu, pois, muito frio e
constrangido a princípio; pouco se conversava e quase ninguém tinha vontade de
rir. Dir-se-ia que Amâncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansaço.
Só pela sobremesa Dr. Tavares
narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas que presenciara na
província. Uma delas tinha referência a uma certa velha que fora aos tribunais
por haver desancado as costelas do genro.
Mme. Brizard tomou a defesa das
sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de sua filha mais
velha.
— Vai muito da educação e também um
pouco do costume em que a gente os põe!... acrescentou ela autoritariamente. —
Mas, genro, não queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini. — Era
um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada, nem lhe
surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de “mãezinha”;
sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um
beijo na testa, impreterivelmente! — Ah! Era uma santa criatura!
Nini suspirou e pôs-se a chorar em
silêncio.
— Agora temos choro!... pensou
Amâncio com tédio.
Nini, como se adivinhara tal
pensamento, olhou para ele e pediu perdão com um sorriso, ainda mais triste que
o choro.
— Eu sou aqui da opinião do Sr.
Amâncio de Vasconcelos... disse o gentleman a Mme. Brizard, em tom
discreto.
Mme. Brizard não sabia, porém, do
que tratava Lambertosa.
— Ah! volveu este. — Refiro-me ao
que avançou anteontem o nosso ilustre companheiro, e indicou Amâncio com um
gesto — que avançou a respeito da vantagem que um novo casamento traria, sem
dúvida, à senhora sua filha.
— Ah! fez Mme. Brizard — já não me
lembrava disso. O Sr...
— Lambertosa, minha senhora.
Lambertosa...
— Sr. Lambertosa é então de opinião
que o casamento convém às enfermidades nervosas?...
O gentleman concentrou a
fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a
emitir o seu judicioso e meditado parecer.
Surgiram logo as contendas. Lúcia marcou
a página do livro de capa roxa e olhou muito séria para os outros, pronta a dar
a sua réplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava com os
dedos sobre a mesa, a fitar um queijo de Minas, com um gesto profundo e
repassado de filosofismo. Pereira comia consecutivos pedaços de pão, sem abrir
os olhos, e Amâncio procurava uma evasiva para se escafeder.
Afinal, Coqueiro, que havia já
formado um grupo à parte com Dr. Tavares, quis fechar a discussão; mas o
advogado ergueu-se de súbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos,
e desencadeou a sua eloqüência.
Em pouco, só ele falava, esquecido,
como de costume, do lugar e da situação. Imaginava-se já num tribunal, em pleno
exercício de suas funções.
Pintou floreadamente o lamentável
estado de Nini. Qualificou-a de “vítima inocente dos impenetráveis caprichos de
Deus”; descreveu a dolorosa expressão do semblante da “infeliz moça”; disse que
os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a
dar afinal a sua esperada opinião sobre o casamento, a pobre enferma, muito
vendida com o que vociferava o tagarela a seu respeito, abriu a soluçar
estrepitosamente.
A francesa ergueu-se, de mau humor,
para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo “por amor de Deus!”. Doutro
lado Coqueiro também lhe suplicava que se calasse.
Mas o demônio do homem já não se
podia conter. As palavras borbotavam-lhe da língua, como o sangue de uma
facada. Fez imagens poéticas sobre o casamento, citou nomes históricos, e
jurou, à fé de suas convicções “que aquela desventurada criatura precisava de
um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho; mais do que as aves
carecem do ar; mas do que os cérebros carecem de luz!”
E, erguendo as mãos trêmulas, recuou
dois passos e foi dar de encontro ao copeiro que, por detrás dele, embasbacado,
o escutava atentamente, com a bandeja do café nos braços, à espera de uma
ocasião para apresentar as xícaras.
Mme. Brizard assustou-se, o gentleman
deu um salto para não sujar as calças; rolou ao chão uma garrafa, e César, o
menino sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, também se pôs a
berrar.
Coqueiro gritava que se acomodassem
por piedade.
— Aquilo não tinha jeito! Parecia
haver ali uma súcia de doidos! Oh!
A mucama acudiu da cozinha, e
Amélia, com um lenço amarrado na cabeça, apareceu na porta de seu quarto, muito
intrigada com o motim. Só Pereira continuava, inalteravelmente, a comer pedaços
de pão; é verdade que abriu os olhos duas vezes, mas tornou logo a fechá-los e,
segundo todas as probabilidades, adormeceu.
Amâncio tratou de aproveitar a
confusão para fugir da varanda.
— Que espécie de gente esquisita!...
dizia ele a caminho do quarto. — Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do
Campos!
Antes de chegar ao gabinete, percebeu
que alguém o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava já totalmente às
escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele um
corpo gordo e mole.
Era Nini.
Amâncio, surpreso e contrariado,
quis arredá-la, mas a histérica passou-lhe os braços em volta do pescoço e
desatou a chorar, com o rosto escondido no seu colo.
— Hein?! disse Amâncio. — Que
história é esta?!
Mas lembrou-se logo das
recomendações de Mme. Brizard: “Qualquer contrariedade poderia provocar à
infeliz rapariga uma crise perigosa!”
— Ora esta!... pensou ele
aborrecido. — Ora esta!...
E procurou afastar Nini,
brandamente. E, como a teimosa não quisesse obedecer e continuasse a chorar,
ele disse-lhe palavras amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse à
varanda; lembrou que não era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. — Podiam ser surpreendidos! Esta idéia o
aterrava mais pelo ridículo do que pela responsabilidade daquela situação.
Nini entretanto, parecia não ouvir
coisa alguma e continuava a abraçá-lo freneticamente, com ímpetos nervosos.
Amâncio perdeu de todo a paciência e
arrancou-se violentamente dos braços dela.
— Deixe-me! gritou, e correu para o
quarto.
Nini acompanhou-o chorando, e
conseguiu agarrá-lo de novo, pelo paletó.
Estava muito nervosa e dispunha
agora de uma força extraordinária.
— Isto não será um inferno?!
exclamou o rapaz, puxando a roupa das mãos de Nini. E, vendo que ela não o
largava: — Solte-me, com a breca! Ora essa! Que diabo quer a senhora de mim?!
Solte-me! Arre!
A enferma não fez caso e apertou-lhe
os pulsos; seus dedos pareciam tenazes. Amâncio debatia-se brutalmente,
ouvindo-a bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor frio do
pescoço e do rosto.
Na sala de jantar serenara a
discussão; só a voz de Tavares ainda se destacava. De repente puseram-se todos
a chamar por Nini.
— Olhe disse-lhe Amâncio. — Lá
dentro a estão chamando! Vá! Vá!
Ela, nem assim.
— Ora pílulas! resmungou o
estudante, desprendendo-se com um empurrão. E ganhou o quarto, puxando a porta
sobre si.
Ouviu-se então o baque surdo do
corpo pesado de Nini, que foi por terra; em seguida gritos muito agudos.
Correram todos para a sala de
visitas; acenderam-se os candeeiros. Nini escabujava no chão, a gritar,
esfrangalhando as roupas e mordendo os punhos.
Coqueiro e Mme. Brizard
apoderaram-se logo da infeliz. Amâncio apareceu com um frasquinho de vinagre;
Lambertosa receitou uma dose homeopática e correu ao quarto em busca da botica
(a homeopatia era uma de suas paixões); Lúcia voltou para a varanda. “Que a
desculpassem, mas não podia assistir, a sangue frio, a cenas daquela ordem...
Não estava mais em suas mãos!”
*
* *
Pereira já se havia levantado da
mesa e ressonava na costumada preguiçosa.
Lúcia, ao passar por ele, atirou-lhe
um olhar de tédio e disse consigo:
— Olha que estafermo!...
Ela às vezes tomava-lhe grande nojo,
não o podia ver com aquele ar mole, de mulher grávida, com aquelas pálpebras
descaídas, a comerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela voz
derramada pelos cantos da boca, que nem um caldo frio e seboso.
De quando em quando sofria de
insônias, e, justamente nessas ocasiões, nas horas compridas da noite em claro,
é que mais detestava Pereira. Punha-se a contemplá-lo longamente, com asco,
fartando-se de olhar para aquele “pamonha”, aquele “coisa inútil”, que ali ao
seu lado, dormia todo encolhido, com as mãos entre as coxas. Vinham-lhe
frenesis de enchê-lo de pescoções. Já lhe não podia suportar o cheiro doentio
do corpo; não lhe podia sentir a umidade pegajosa do suor e a morna fedentina
do hálito.
A sua ligação àquele mono era uma
história muito triste e muito sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam, porque
Lúcia se esforçava quanto lhe era possível por escondê-la, como quem esconde uma
chaga vergonhosa.
Ela, “a mísera senhora”, vinha,
entretanto, de gente honesta e bem conceituada, se bem que muito pouco
escrupulosa em pontos de educação. Deram-lhe professores de francês, de música,
de desenho; entregaram-lhe enfiadas de romances banais e livros de maus versos;
e, todavia, não lhe deram moral, nem trataram de lhe formar o caráter. A
desgraçada percorreu bailes desde pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez
anos de idade; teve a primeira paixão aos doze; aos quinze julgava-se desiludida
e sonhava com o túmulo; aos vinte, como é natural, sucumbiu ao palavreado de um
primo em segundo grau e bacharel pelo Pedro II.
O primo, assim que a viu pejada,
azulou para o Rio Grande do Sul, onde tinha a família, e nunca mais lhe deu
sinal de si.
Foi então que surgiu em Lúcia a
idéia de utilizar-se de Pereira. Entre as pessoas que freqüentavam a casa de
seus pais, era ele o único aproveitável para casamento. Nesse tempo vivia o
dorminhoco às sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada, e de quem mais
tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. Lúcia meteu as mãos à obra, mas, por
pouco que não desanimou; Pereira não dava de si coisa alguma, parecia não
compreender as provocações. Era quase impossível tirar algum partido daquele
animalejo! Ela, porém , não se quis dar como vencida, e lutou.
Lutou, empregando os meios mais
ardilosos para injetar nos nervos daquele sonâmbulo uma faísca magnética de
amor. Trabalho inútil! Afinal, vendo que o pedaço de asno era incapaz de
qualquer ação ou reação, tomou ela a parte agressiva; e a coisa resolveu-se no
mesmo instante.
Depois, como não havia tempo a
perder e porque já conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao
encontro dele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escândalo dos
diabos, se o “sedutor” não tratasse, quanto antes, de tomar uma resolução muito
séria a respeito de casamento.
Pereira não tratou de tomar coisa
alguma desta vida e nem se abalou com a presença de Lúcia. Aceitou-a, como
aceitaria outra qualquer imposição, porque ele era dos tais que, às maçadas da
cura, preferem os incômodos da moléstia. Só no fim de quatro dias de
lua-de-mel, como Lúcia insistisse nas suas idéias matrimoniais, o pachorrento
declarou, com toda a calma, que não lhe podia fazer a vontade nesse ponto, em
virtude de que, desde aos dezoito anos, o haviam casado com uma velha, uma
fúria, que Pereira não sabia, nem queria saber, por onde andava.
Lúcia perdeu os sentidos; esteve à
morte. Os pais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se
ido refugiar na cidade de Campos. Foi o tio de Pereira, o tal das riquezas
aferrolhadas, quem a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto
que o sobrinho. Deu-lhe casa, comida, roupa e dinheiro.
Uma irmã dele, senhora de inveterado
amor a crianças, solteirona, de quarenta a cinqüenta anos e que, com o olho no
testamento, desejava a todo o transe ser agradável ao mano, encarregou-se do
filho do bacharel.
Correram quatro anos. Lúcia não viu
mais a família; apenas visitava o filho, de quando em quando.
Pereira continuava às sopas do tio,
indiferentemente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Acordava, quer
dizer, levantava-se às dez horas, tomava no quarto o seu banho morno, depois um
copo de leite fervido, almoçava às onze, fazia a digestão estendido no sofá da
sala; às duas horas dormia, depois passeava pela chácara à espera do jantar,
cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no
quarto.
À noite, quando conseguia
levantar-se jogava o gamão com o tio. Cochilavam ambos, até que se servia o
chá, e cada um se retirava para a cama.
— A noite fez-se para dormir!
Sentenciava um deles.
— E o dia para se descansar,
resmungava o outro espreguiçando-se.
E recolhiam-se.
O velho morreu de repente; uma congestão
que lhe sobreveio ao encontrar Lúcia no fundo do jardim às voltas com um
estudante da vizinhança.
— Bom! dissera Lúcia, alijada afinal
daquela obrigação que já lhe ia pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o
velhaco apenas deixava algumas dívidas à praça e dois terrenos hipotecados ao
Banco Predial. A coisa única que ela aproveitou foi Cora, mulatinha de criação,
cuja matrícula e cuja escritura de compra estavam em seu nome.
Era preciso, pois, deixar a casa; os
credores reclamavam tudo que pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros;
dir-se-ia que não houvera a menor alteração na sua vida. Continuava a dormir
tranqüilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar às horas da
refeição.
Lúcia compreendeu que não devia
contar com ele, e tratou em pessoa um cômodo para os dois, num hotel de
arrabalde. Sentia-se resoluta e forte: era ela agora o cabeça do casal; tinha
belos projetos de trabalho: daria lições de piano, de desenho e de francês, até
que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira.
O homem, porém, não aparecia, como
não apareciam os discípulos.
Principiou então para eles um viver
perfeitamente de boêmios. Sem trastes, nem dinheiro, nem futuro, nem relações
constituídas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que adorava a
senhora, a percorrer as casas de pensão: sempre sobressaltados, sempre
perseguidos pelos credores que iam deixando atrás de si.
Em cada lugar se demoravam o maior
tempo que podiam, dois, três, quanto muito quatro meses; até que lhe suspendiam
o crédito e os dois levantavam, novamente o vôo, deixando a dívida em aberto e
o dono da casa lívido, colérico, sem saber ao menos que direção tomavam os
vagabundos.
Nesse peregrinar, Lúcia teve uma
contrariedade mais profunda — achou-se grávida de novo. Cora deu-lhe conselho,
trouxe-lhe remédios para fazer abortar; nada entretanto, produziu efeito. O
demônio da criança parecia disputar o seu quinhão de vida com uma persistência
desesperadora.
Nasceu afinal, no quarto de um
português na Fábrica das Chitas, entre os cuidados mercenários do
locandeiro e o obséquio de alguns amigos, que Lúcia fora conquistando com as
simpatias de seu talento musical.
O diabinho pouco durou, felizmente.
Desapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua,
quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fábrica das
Chitas para uma casa de pensão na Rua do Catete.
Cora encarregou-se de atirá-lo ao
mar. Ninguém viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam
no ar um chuvisco miúdo, de fevereiro.
O menino fora muito franzino e muito
mole; saíra o pai, Pereira. Durante o seu pobre mês de vida só abriu os olhos
uma vez, ao expirar.
A casa de pensão do Coqueiro era a
sexta que Lúcia percorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como
casados; ele muito tranqüilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sôfrega pelo tal
sujeito, que com tanto empenho procurava.
Quando constou a Lúcia que Amâncio
era rico e atoleimado, uma nova esperança radiou-lhe no coração.
— É agora!... disse.
*
* *
E preparou-se para o combate.
Foi por isso que o estudante
recebeu, no dia seguinte ao baile do Melo, aquele ramilhete, tão falsamente
atribuído a Hortênsia, e porque, uma semana depois outro ramo, bastante parecido
com o primeiro, se achava às onze horas da noite no quarto do rapaz, sobre a
cômoda.
— Olé! disse ele.
E, satisfeito com a intriga,
principiou a fazer conjeturas.
— De quem viriam aquelas flores!...
Ah! exclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas.
E leu:
“Não saibam nunca espíritos
indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem te envia estas pobres
flores. Não o procures descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresça na
tepidez do mistério, à semelhança das plantas melancólicas que reverdecem nas
sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!”
— Seria de Amélia, seria de Lúcia,
ou seria de Hortênsia?... De Nini é que não podia ser, porque a desgraçada, com
certeza, não sabia escrever coisas daquela ordem!
Não dormiu essa noite; as palavras
de ramilhete voejavam-lhe dentro da cabeça, como um bando de mariposas.
— De quem seria?... De Amélia não,
não era de se supor; pois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia
sempre que ele por qualquer modo tentava abrir-se com ela em questões de amor;
de Hortênsia também não, não era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme.
Brizard, ou qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Além disso,
mulher de Campos não seria capaz daquilo; estava caidinha — é certo! mas não
levaria a leviandade ao ponto de escrever e enviar-lhe semelhante declaração. O
que, porém, não sofria dúvida é que os ramos tinham a mesma procedência.
E Lúcia?... É verdade! E Lúcia? Com
certeza não era de outra! Sim tudo estava a dizer que o tal bilhetinho saíra de
suas mãos!... aquelas frases poéticas, aquele mistério, aquela franqueza de
confessar o seu amor em duas palavras... Não tinha que ver! era da mulher de
Pereira!
E um apetite brutal, inadiável,
substituiu logo a calma simpatia que lhe inspirara Lúcia.
Desde que se capacitou de que eram
dela os ramilhetes, desejou-a com urgência; queria que ela surgisse ali,
naquele mesmo instante, na silenciosa escuridão daquele quarto.
E voltava-se de um para outro lado
da cama, sem conseguir pegar no sono.
Esperar até o dia seguinte o momento
de estar com ela afigurava-se-lhe um sacrifício enorme, quase invencível. Como
podia lá descansar, dormir, com semelhante preocupação a remexer-se-lhe por
dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas?
Definitivamente não conseguia
adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela, e pôs-se a olhar
para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o
como seria a situação, no caso que Lúcia aparecesse ali, naquele instante. “Que
sucederia?... Que fariam eles?...”
Duas horas bateram na sala de
jantar.
— Diabo! resmungou Amâncio, sentindo
arrepios por todo o corpo. — Desta forma perco a noite inteira, e amanhã estou
impossibilitado de ir à academia!...
A idéia do estudo apresentava-se-lhe
sempre com um sabor muito amargo de sacrifício. Lembrou-se, todavia, de
aproveitar a insônia para correr uma vista de olhos pela lição; acendeu a vela,
corajosamente, assentou-se à mesinha que havia no quarto e abriu um compêndio.
Mas não conseguia prestar atenção à leitura; percorreu distraído duas ou três
páginas e ficou a olhar a chama trêmula da vela, cada vez mais abstrato e mais
febril.
Sentiu vontade de beber. — Se não
estava enganado — a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.
Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu
da alcova.
O sangue não lhe queria ficar
quieto. A continuar daquele modo, o remédio que tinha era pôr-se ao fresco e
vagar pelas ruas, até encontrar sossego.
O conhaque não estava no aparador,
Amâncio, contrariado, desceu à chácara, e foi assentar-se a um banco de pedra.
— Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou ele, resolvido a
organizar no dia seguinte um bufê no seu próprio quarto.
A lua escondia-se agora entre
nuvens; as árvores rumorejavam; tudo parecia concentrado e adormecido.
Debaixo viam-se as janelas dos
quatro cômodos do segundo andar, que davam para a chácara. Lá estava o n.os
8, 9, 10 e 11. Começou a pensar nos hóspedes daqueles quartos: o 11 era do tal
Correa, o médico que só aparecia ali de quando em quando, “para fazer uns
trabalhos que os filhos não lhe permitiam em casa da família”; o 10 era do gentleman
— Bom maçante! Amâncio lembrou-se de que lhe prometera acompanhá-lo uma noite
qualquer ao Passeio Público. — Havia de ir, disseram-lhe que às vezes se
encontravam aí boas coisas!...
O 9 é que ele não se lembrava a quem
pertencia... Ah! era do tal Melinho, “a pérola”, como o qualificava João
Coqueiro constantemente.
E o 8 de Lúcia! da misteriosa Lúcia!
Ela estava ali!... fazendo o quê...
pensando nele talvez... talvez dormindo... talvez até nem dela fosse o
bilhetinho amoroso e os dois ramilhetes!... Quem, sabia lá!...
E esta dúvida o apoquentava.
— Ora adeus! disse. — A ocasião
havia de chegar!...
Veio-lhe, porém, uma tentação aguda
de subir ao n.º 8.
— Que mal podia vir daí?... O marido
com certeza estava dormindo!... Que poderia acontecer?...
Levantou-se resolvido; mas as
vidraças do quarto do tal médico, que só aparecia de quando em quando, acabavam
de iluminar-se.
— Olá!... considerou Amâncio,
detendo-se. É o n.º 11?
Por detrás dos vidros havia cortinas
de cassa; nada se podia ver para dentro, apenas duas sombras difusas
projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amâncio deixou-se
ficar onde estava, mordido já de curiosidade.
Daí a uns dez minutos, pela
escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro e
mais uma mulher gorda, de enorme chapéu, cujas abas lhe caíam sobre os olhos,
ensombrando-lhe o rosto.
Vinha um atrás do outro, porque a
escada era estreita. Atravessaram a chácara, falando em voz baixa, e entraram
no corredor.
Amâncio acompanhou-os, de longe, e
tripetrepe.
A porta da rua estava aberta, como
de costume; um carro esperava pelos dois lá fora; o cocheiro dormia na boléia.
O sujeito do n.º 11 deu a mão à mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar na
carruagem e, em seguida entrou também. O cocheiro fechou sobre eles a
portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o seu posto e tocou os
animais.
— E que tal?... interrogou Amâncio
de si para si, quando os viu partir.
Lembrou-se então do que lhe dissera
o velhaco de Coqueiro por ocasião de mostrar-lhe a casa: “Quanto a certas
visitas... isso tem paciência... lá fora o que quiseres, mas, daquela porta
para dentro...”
— Hipócritas! pluralizou o
estudante.
*
* *
E encaminhou-se para o segundo
andar.
Subiu pela escadinha do fundo, não a do médico, mas pela
outra do lado oposto; porque havia duas.
O primeiro andar continuava em
completo silêncio; no segundo apenas se ouvia, de espaço a espaço, um tossir
seco e agoniado, que vinha naturalmente do n.º 7, onde morava o tal moço
doente. O pobre diabo piorava à falta absoluta de meios.
Amâncio entrou às apalpadelas no
corredor que dividia os oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas
venezianas e pelas vidraças da janela e sarapintava o chão de pequeninos pontos
brancos.
O n.º 5, onde residia Paula Mendes
com a mulher, era o único que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima
da porta fechada e ia projetar-se na parede do n.º 10 que lhe ficava fronteiro.
Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.
Amâncio parou defronte do n.º 8. — Era ali!
Encostou o ouvido à fechadura; nem
sinal de vida. — Lúcia com certeza dormia profundamente.
— Dormia! pensou o estudante. —
Dormia, sem preocupações nem cuidados; ao passo que ele, por não encontrar
descanso, errava pelos corredores desertos, como uma alma penada! — Para que
então se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua intenção era
dormir, para que o foi provocar? para que lhe foi bulir com o sangue? Oh!
aquele silêncio do n.º 8 o irritava! Aquela indiferença afigurava-se-lhe uma
afronta ao seu amor próprio, um atentado contra o seu orgulho!
E, quando mais se convencia da
impossibilidade de falar essa noite a Lúcia, mais e mais os seus sentidos se
assanhavam! Afinal, já não fazia grande questão de ser com ela própria;
aceitaria qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via
entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.
— Que inferno! dizia ele consigo,
rangendo os dentes. — Que inferno!
E, sem ânimo de ir embora,
permanecia encostado à porta do n.º 8, deixando-se comer aos bocadinhos pela
febre do seu desejo; ao passo que o corpo inteiro lhe arfava com o resfolegar
aflitivo dos pulmões.
— Todavia, pensou ele — quantas
mulheres não o desejariam ter junto de si naquele momento?... Donzelas até,
quantas, naquele instante, não se estorceriam no leito e não morderiam os
travesseiros, desvairadas pelo isolamento?
E saborosas lembranças de amores
extintos, que o tempo e a ausência tornavam mais perfeitos e mais desejáveis,
acudiam-lhe simultaneamente ao espírito, para lhe aumentar as torturas da
carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes e formosas;
em todas elas não havia um lábio sem sorriso, um olhar sem fogo, era tudo
opulento de graça e de meiguice, era tudo encantador e completo.
Pôs-se a arranhar devagarinho a
porta, dizendo quase em segredo o nome de Lúcia. Nada, porém, respondia; o
mesmo silêncio compacto enchia as trevas do corredor.
Seu desejo, estimulado e tonto,
evocava então todos os meios de saciar-se; descobria hipóteses absurdas,
inventava possibilidades que não existiam. Amâncio chegou a pensar em Amélia,
em Mme. Brizard, na macuma, e até, que horror! em Nini!
— Ai, meu Deus! gemeu nesse instante
o doente do n.º 7.
O estudante deixou a porta de Lúcia
e seguiu em ponta de pé pelo corredor. Ao passar defronte do quarto de Paula
Mendes, suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o curioso
não resistiu a uma tentação e espiou pela fechadura.
O pobre homem trabalhava, vergado
sobre uma mesinha estreita e toda coberta de papéis de música. Ao lado, pelas
cadeiras e sobre um sofá de couro negro encostado a um biombo, havia folhas
esparsas e cadernetas empilhadas.
Recebera nessa tarde a encomenda de
organizar uma sinfonia, que tinha de ser executada daí a quatro dias em uma
festa fora da cidade. O Imperador prometeu que iria.
Mendes estava ainda organizando as
partes cavadas. Ouvia-se o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o
tique-taque de um despertador de metal branco, pousado sobre a cômoda, e o
grosso ressonar da mulher, que dormia por detrás do biombo. O rabequista
parecia menos triste aquela ocasião do que nas outras em que o vira Amâncio.
— É porque a mulher está dormindo,
calculou este, lembrando-se do mau gênio de Catarina. E considerou sobre a
existência ordinária que levariam ali, encurraladas no mesmo cubículo, aquelas
criaturas tão opostas.
Mendes, sem desprender a pena do
papel, começou a solfejar em voz baixa o que escrevia; mas, como lá dentro
cessassem os roncos da mulher e esta se remexesse na cama, resmungando, ele
incontinente, calou a boca e prosseguiu em silêncio no seu trabalho.
— Ainda estás com isso?! perguntou
ela, afinal, depois de uma pausa.
O marido respondeu afirmativamente.
— Pois, homem, vê se acabas com essa
porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto, não posso pregar o
olho!
E, fazendo ranger as tábuas da cama,
virou-se de um lado para outro, acrescentando com a sua voz de homem:
— Deixa isso! Anda! E apaga o diabo
dessa luz!
— Não, filha, respondeu o artista
brandamente. — É preciso que este serviço fique pronto amanhã...
E depois de um muxoxo da mulher:
— Sabes o quanto precisamos deste
dinheiro... A diretora do colégio ainda ontem protestou que despediria a
pequena, se eu não lhe arranjasse alguma coisa por conta do que devemos;
Joãozinho, coitado, há quase dois meses pediu-me que lhe levasse um sobretudo,
porque lá no trapiche onde ele agora está trabalhando, faz pela manhã um frio
de rachar; Mme. Brizard, você não ignora, tem-nos apoquentado e...
— É isto! interrompeu a mulher. — É
sempre a mesma cantiga! — De tudo você se lembra, menos do que eu preciso!
— Ah! se me lembro, filha! mas é que
nem sempre a gente pode fazer o que deseja... Descansa, porém, que as coisas
hão de endireitar e tu possuirás de novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de
paciência...
— Já me tardava essa música! Já me
tardava a “paciência”! A paciência inventou-se para consolar os tolos! Farte-se
você com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e não palavras!
Mendes não respondeu e continuou a
trabalhar, meneando a cabeça resignadamente. Catarina remexeu-se com mais
agitação e rangidos de cama, e, daí a pouco levantou-se de um salto, gritando:
— Arre, com os diabos! que nem se
pode dormir!
— Olha os vizinhos, filha!...
arriscou o marido. — Lembra-te de que são três horas da madrugada...
— Os vizinhos que se fomentem!
Berrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos
de granadeiro. — Não como em casa deles, não preciso deles para nada!
E, depois de ir beber um copo d’água
ao fundo do quarto:
— Tinha graça! que eu, além de tudo,
não pudesse falar à minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem
uma bala aos pés e mandassem atirar comigo ao mar!
— Estás de mau humor, filha! Vê se
descansas.
— Não é de espantar, levando a vida
que eu levo! sempre numas porcarias de quartos! Se precisa de qualquer coisa, é
um “ai Jesus!”. Nunca há dinheiro! O almoço é aquilo que se sabe; o jantar pior
um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, não há quem me traga um
caldo! não há quem me dê um remédio! Arrenego de tal vida, diabo!
— Ó Catarina!... disse Mendes
ressentindo-se. — Pois eu não estou aqui?... Algum dia já me afastei de teu
lado, ao te sentires incomodada?
— E antes que se afastasse, creia!
porque já me custa suportá-lo quando
estou de saúde, quanto mais doente. Casca! — atirar-me em rosto uns miseráveis
serviços que qualquer uma faria!... Pois não os faça, que até é favor! Passo
muito melhor sem eles!
— Está bom, senhora, está bom! Não
precisa arreliar-se! Veja se descansa, que eu agora tenho que fazer!
— Descansada queria você me ver, mas
era no Caju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o demônio de
alguma tola que caísse na asneira em que eu caí de amarrar-se a um homem de sua
laia? Um pingas! que anda sempre com sela na barriga!
E avançando para o marido de olhos
arregalados e um punho no ar:
— Mas, podes perder as esperanças,
que eu não morro, antes de ti, Mané Bocó! Primeiro hás de ir tu, entendes? —
Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava por
aí, enquanto ficavas por cá a te lamberes de contente! — Um sebo! Hei de ir,
sim, as depois de te haver feito amargar também um bocado, meu burro velho!
— Ó mulher! cala essa boca do diabo!
gritou, afinal, Mendes, arrojando a pena e empurrando os papéis que tinha defronte
de si. — Arre! É muito! Arre!
O moço doente do n.º 7 expectorou
com mais força e pôs-se a gemer.
— Ora, com um milhão de demônios!
gritou o guarda-livros, que morava no n.º 6. — Não é possível sossegar neste
inferno! Quando não é a tosse e o gemido da direita, é a resinga e a briga da
esquerda! Apre! Antes morar num
hospital de doidos.
Mendes levantou-se, segurando a
cabeça com ambas as mãos, e começou a passear agitado pelo quarto.
Catarina continuava a sarrazinar,
atirando com os pés o que topava no meio da casa. O marido parou de súbito,
sacudiu a cabeça, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mão pela
espádua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse a anca de uma égua
bravia.
— Então, filha?... disse com
ternura. — Vai deitar, vai!... Estamos aqui a incomodar os outros... Anda vai!
— Os incomodados são os que se mudam! gritou ela.
— E é o que vou tratar de fazer
amanhã mesmo! berrou o guarda-livros. — Estou farto! Quem trabalha durante o
dia, precisa da noite para descansar! Arre!
— Não faça caso, senhor!... disse
Mendes, e encaminhou-se para a porta.
Amâncio, assim que o sentiu
aproximar-se, fugiu pé ante pé, com ligeireza.
Nesse momento, Campelo, o tal
esquisitão do n.º 4, que até aí não dera sinal de si, levantou-se tranqüilamente,
tomou o seu clarinete, e começou por acinte, a tirar do instrumento as notas
mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O guarda-livros
respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um
doido, o Zé Pereira.
— Ai, meu Deus! ai, meu Deus!
continuava a gemer arrastadamente o pobre sujeito do n.º 7.
Já pelas escadas, Amâncio ouviu as
vozes do gentleman, do Melinho e de Lúcia, que acordaram espantados, e
aos gritos reclamavam contra semelhante abuso.
No andar de baixo, Piloto, Dr.
Tavares, Fontes e a mulher, abriam as portas dos competentes quartos para
indagar que diabo queria aquilo dizer. Só o dorminhoco do Pereira não se deu
por achado.
Amâncio já estava entre os lençóis,
quando Coqueiro percorreu toda a casa, de robe de chambre e um castiçal
na mão.
XI
O guarda-livros, no dia seguinte
pela manhã declarou a Mme. Brizard que se retirava da casa de pensão.
— Oh! disse. — Não estava disposto a
suportar por mais tempo aquele zungú! os seus vizinhos eram uma gente
impossível! — Não se passava uma noite em que não houvesse chinfrinada!... Não!
definitivamente não podia ficar! De mais — o tísico do n.º 7 não lhe dava um
momento de descanso com o diabo de uma tosse, que parecia aumentar todos os
dias! Nada! antes tomar um quarto no
inferno!
Mme. Brizard e o marido procuravam
dissuadi-lo de tal resolução. Não lhes convinha perder um hóspede tão bom.
O guarda-livros, com efeito, era
muito pontual nos pagamentos e não incomodava pessoa alguma, porque só queria o
quarto para dormir; verdade é que não fazia o gasto de comida, mas em
compensação estava sempre a encomendar ceatas e jantares que deixavam bem bom
lucro.
A ter por conseguinte, de sair
alguém, antes fosse o tal rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir
uma mulher insuportável, achava-se já atrasado nas suas contas, e os donos da
casa não viam muito certo o recebimento.
Catarina, assim que soube de
semelhantes considerações, desceu em três pulos ao primeiro andar e,
atravessando-se defronte de Coqueiro, com as mãos nas ilhargas, gritou-lhe,
refilando as presas:
— Repita você o que teve o
atrevimento de dizer a meu respeito e a respeito de meu marido! Repita aí, se
for capaz, que lhe mostro já para o quanto presto, seu cara de fome!
João Coqueiro, muito pálido e com o
lábio superior a tremer, exclamou que “sua casa não era Praia do Peixe”; que
ele não estava habituado “àqueles banzés”! Quem quisesse dar escândalos que
fosse lá para o meio da rua, que se fosse entender com as regateiras!
— Regateiras e regateiros são vocês,
corja de gatunos! replicou a outra.
Mme. Brizard, que por essa ocasião,
ainda no quarto, enfiava as botinas, acudiu logo, um pé calçado e outro não, e,
com tal fúria avançou contra a mulher de Paula Mendes, que Amélia, Coqueiro e
Nini não a puderam conter.
As duas atracaram-se.
Os hóspedes, que estavam em casa,
acudiram todos igualmente. Houve bordoada, gritos, palavrões. Nini teve um
ataque de nervos.
O ilustre Lambertosa levou vários
empurrões e caiu contra uma cesta de ovos, que o copeiro acabava de pousar no
chão, para socorrer às senhoras.
E, no meio de toda esta desordem,
destacava-se a voz sibilante do advogado Tavares.
— Calma, senhores! calma! bradava
ele. — Calma por quem sois! Esquecei-vos de que a única arma do homem
civilizado deve ser a palavra, escrita ou falada, mas a palavra, a idéia
enfim?!... Esquecei-vos de que cada um de vós possui um cérebro, onde reside
uma partícula da sabedoria divina, e que só com esse cabedal podeis cruzar as
vossas opiniões, sem que seja necessário vos agatanhardes como animais
ferozes?!... Virgílio, meus senhores, o imortal Virgílio o verdadeiro fundador
da eloqüência, diz muito acertadamente na sua Eneida, livro IV, com
referência à desditosa Dido — Rendet que iteram narrantis ab ore! Se
podemos, pois, convencer com palavra, para que havemos de recorrer aos
murros?!...
E, louco do costumado entusiasmo,
dava punhadas frenéticas na mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados
e as cordoveias intumescidas:
— E o que dizia Salomão?! E o que
dizia Salomão, na sua inquebrantável sabedoria?! Salomão, meus senhores...
Mas o orador foi interrompido
violentamente por Coqueiro, que desejava saber se ele podia dispensar o seu
quarto ao guarda-livros e mudar-se para o n.º 6 do segundo andar.
Haviam combinado essa mudança
enquanto o tagarela discursava.
— Salomão! Sr. Dr. Coqueiro, Salomão
foi um prodígio!
— Pois bem, já sabemos disso, e
agora o que nos convém saber é se V. S. cede ou não cede o seu quarto...
Mas não foi necessário tal
assentimento, porque Amâncio, depois de um sinal de Lúcia, declarou que cederia
o seu gabinete por qualquer um dos quartos do segundo andar.
Coqueiro espantou-se. — Querer
trocar o gabinete por um quarto do segundo andar!... Ora, seu Amâncio!
— Faz-me conta, respondeu secamente
o provinciano. E, chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido: —
Logo mais te direi a razão por quê...
Ficou resolvido que o guarda-livros
passaria a ocupar o gabinete de Amâncio; este iria para o n.º 6, e Paula Mendes
e mais a mulher deixariam de comer à mesa de Mme. Brizard, continuando, porém
no n.º 5, até que liquidassem as suas contas.
*
* *
Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as
senhoras combinaram tomar o café na
chácara. Mme. Brizard, Amelinha, Lúcia e Nini, mal acabaram de jantar, desceram
ao terraço. Coqueiro e Amâncio já iriam também para o cavaco. — Tinham primeiro
que dar dois dedos de conversa.
Os dois rapazes meteram-se no vão de uma janela da sala de
visitas, e Amâncio, com acentuações de quem detesta imoralidades, disse ao
outro, sem transição:
— Coqueiro, estou aqui há pouco
tempo, mas estimo tua família, como se fosse a minha própria, e, pôr
conseguinte, entendo que é do meu dever abrir-me contigo sempre que nesta casa
descobrir qualquer coisa que possa ter conseqüências graves...
— Mas que há? perguntou o outro a
fitá-lo, com muito empenho.
— Trata-se de Nini, disse o
provinciano em voz soturna.
Coqueiro remexeu-se no canto da
janela.
— Sabes, continuou aquele — que a
pobre menina sofre horrivelmente dos nervos, e creio que até que tem qualquer
desarranjo na cabeça...
— Sim, por quê?
— É uma enferma, que, se não
tivermos muito cuidado com ela, pode vir a dar sérios desgostos a ti e a tua
família....
— Mas desembucha, o que é que
houve?...
— É que ela, naturalmente em
conseqüência da moléstia, coitada, às vezes faz certas coisas que... para mim
ou qualquer outro rapaz de bons princípios não valem nada, mas que, se caírem
nas mãos de um desalmado... sim! Tu bem sabes que há homens para tudo neste
mundo!...
E Amâncio, inflamado pelos
princípios morais que ele só cultivava teoricamente, parecia mais que ninguém
preocupado com a pureza dos costumes.
— Mas afinal, que fez ela?
Perguntou Coqueiro, impacientando-se.
— Ora, disse o colega,
desgostosamente — tem feito o diabo... Ainda ontem, quando me levantei da mesa,
seguiu-me até à sala e...
— E...
— Principiou a fazer tolices. A
pobrezinha estava como não calculas!... Tive que recorrer à violência para
contê-la; o resultado foi aquele ataque!...
E vendo o ar de espanto que fazia
Coqueiro:
— Digo-te isto, porque me parece que
tenho obrigação de te dizer; se, porém, faço mal, desculpa!...
— Mal? ao contrário! decerto que ao
contrário! Fico-lhe muito grato!
E abraçando-o:
— Acabas de provar que és homem de
bem! A tua ação é de um verdadeiro amigo: não imaginas o quanto eu a aprecio.
— Cumpri com o meu dever... observou
o provinciano modestamente.
— Obrigado! muito obrigado! Fico
prevenido. De hoje em diante não acontecerá outra!
— E agora, compreendes a razão por
que não me convinha ficar embaixo, no gabinete?... concluiu Amâncio.
— Oh!... Isso, porém, não era motivo
para que deixasse o seu gabinetezinho... Eu daria as providências
necessárias!...
— Não, filho, nestas questões de
família sou muito rigoroso. E agora, o que está feito, está feito! Vou para o
segundo andar; é até mais fresco!...
E, depois de ainda algumas ligeiras
considerações sobre o mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um enérgico
aperto de mão e desceram juntos à chácara, onde, debaixo das latadas de
maracujá, os esperavam as senhoras, palestrando em familiar camaradagem.
*
* *
Dias depois, quando Amâncio já estava transferido para o n.º
6, do segundo andar, chegaram às mãos duas cartas; uma de sua mãe, outra de seu
pai.
Era a primeira vez que o velho
Vasconcelos se dirigia ao filho em carta especial.
Abriu logo a de Ângela,
sofregadamente, e a imagem da santa, que as últimas agitações da vida do rapaz
haviam nublado por instantes, como nuvens que escondem uma estrela guiadora,
mal começou a leitura, ressurgiu inteira e lúcida à memória dele.
A boa mãe queixava-se de que o
filho, ultimamente, já lhe não escrevia com a mesma assiduidade e com a mesma
expansão: “Que significava semelhante mudança? Donde vinha aquela reserva? por
que aqueles bilhetes tão apressados, quase telegráficos?”... perguntava ela com
a sua letra redonda e um pouco trêmula. “Por que não me escreves mais amiúde e
mais extensamente?” insistia a carta, “porque, meu querido filho, não me contas
toda a tua vida; não me dizes como passas, e em que te ocupas? Desejo saber se
Campos continua a ser teu amigo, se na casa dele continuas tratado como dantes.
Quero que me relates tudo, tudo que te diga respeito, meu Amâncio. Se soubesses
a falta que tu me fazes, os cuidados que me dá a tua ausência, com certeza
serias melhor para tua mãe.”
E, sempre a mesma, sempre extremosa,
sempre com o filho na idéia, envia-lhe conselhos, recomendava-lhe certas
precauçõeszinhas; as medidas que devia tomar contra tais e tais perigos; o modo
pelo qual devia proceder em tais e tais situações.
Amâncio releu várias vezes o que lhe
dizia Ângela e respirou largamente como quem sai de um quarto apertado para um
grande ar livre. Mas se a carta materna o impressionou a outra surpreendeu
porque de tão afável e condescendente não parecia derivar daquele terrível
Vasconcelos que até em sonhos o aterrava e sim das mãos amigas de um velho
camarada dos bons tempos da infância.
Estranhou-o logo, desde as primeiras
palavras.
“Meu filho.”
Até então, nunca recebera de seu pai
esse carinhoso tratamento. Vasconcelos nem ao menos o tratara por tu; nunca lhe
dera a beijar a mão ou a face, nunca lhe abrira, enfim, o coração, quando este
se achava ainda brando e maleável, para depor aí as sementes de ternura, que
desabrochariam mais tarde produzindo os bons sentimentos do homem.
Como exigir de Amâncio, que tivesse
agora as virtudes que, em estação propícia, lhe não plantaram na alma? Como
exigir-lhe dedicação, heroísmo, coragem, energia, entusiasmo e honra, se de
nenhuma dessas coisas lhe inocularam em tempo o germe necessário?
Ele, coitado, havia fatalmente de
ser mau, covarde e traiçoeiro. Na ramificação de seu caráter a sensualidade era
o gamo único desenvolvido e enfolhado,
porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores.
Vasconcelos, por conseguinte, chegou
tarde; encontrou já enrijado e duro o coração do filho.
E, no entanto, toda a sua carta
vinha finada por aquelas primeiras palavras. Agora, de longe, fazia o que, por
inépcia, nunca fizera de perto — dirigia-se amorosamente ao rapaz. Contava-lhe
novidades da província, comentava certos fatos escandalosos, falava sem
reservas de umas tantas coisas, das quais até aí nunca se permitira tratar na
presença de Amâncio.
O tópico seguinte levou o
provinciano ao cúmulo da admiração:
Não digo que te faças um santo, mas
também não te afogues no torvelinho dos prazeres. Goza, meu filho, por isso que
és moço, goza, porém, com prudência e com juízo; diverte-te mas evitando sempre
tudo aquilo que te possa prejudicar. Lembra-te de que saúde só tens uma,
e moléstia há muitas. O mundo não se acaba! Adeus. Nunca deixes de me escrever
e, quando te vires aí em qualquer apuro, fala-me com franqueza.”
Tudo isso vinha tarde. Muita coisa,
à semelhança do leite materno, só nos aproveitam até certa época. Depois, em
vez de fazerem bem, fazem mal.
As palavras de Vasconcelos que,
aplicadas no tempo competente, dariam ótimos resultados em benefício do filho,
eram agora para este um simples pretexto de galhofa. Amâncio sorriu da aparente
transformação de seu pai.
— Ora para que havia de dar o
velho!...
Não obstante, um vago sentimento, ao
mesmo tempo amargo e agradável, apoderou-se dele. Desfrutava certo gosto em
merecer aquela intimidade paterna; mas, por outro lado, doía-lhe a consciência
por não ter sido melhor filho; como se o pobre rapaz de qualquer forma
contribuíra para semelhante falta.
E, então, acudiu-lhe à memória uma
circunstância de que jamais se havia lembrado — a despedida do pai. Vasconcelos
estava bastante comovido nesse momento e abraçava-o chorando. Amâncio nunca lhe
tinha visto o rosto com aquela simpática expressão de sofrimento; mas, bem
pouco se impressionou na ocasião; os olhos conservaram-se-lhe enxutos e o
coração quase alegre com a idéia da liberdade que ia principiar.
Só agora, depois da carta, depois
que soube que era amado pelo velho, uma grande tristeza invadiu-o todo, e as
lágrimas rebentaram-lhe com explosão.
Assim sucede sempre aos filhos
educados à portuguesa, cujos pais como que
sentem vexame de lhes patentear o seu amor.
Pobres pais! Quantas vezes não
estarão morrendo por afagar o filho, e todavia, em vez de lhe darem um sorriso
carinhoso, um beijo, uma palavra de doçura, fingem-se indiferentes e afastam-se
para que o pequeno não lhes perceba a comoção.
Néscios! Julgam que com isso
estabelecem uma corrente de respeito entre eles e os filhos; julgam que isso é
indispensável para o bom êxito da educação; quando todas essa anomalia só pode
servir para lhes roubar a confiança e a estima dos entes predestinados e
dedicar-lhe todas as primícias de sua ternura.
Os pais dessa espécie levam a tal
exagero a sua convencional rispidez, que, se acham a graça em alguma coisa
feita pelo filho, sufocam o riso, medrosos de que qualquer expansão acarrete
uma quebra ao respeito filial.
Foi tudo isso, ao justo, que se deu
com Vasconcelos a respeito de Amâncio. Amou-o, mas com disfarce; fingiu-se
diretor inflexível, quando era simplesmente um pai como qualquer outro. Muita
vez chorou de ternura, mas sempre às escondidas; muita vez sentiu o coração
saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de cair no ridículo.
E não se lembrava, o imprudente, de
que o amor de pai é bem contrário ao
amor de filho; não se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e que este
precisa ser criado; que aquele é um princípio e que este é uma conseqüência;
que um vem de dentro para fora e que o outro vem de fora para dentro. Não se
lembrava, o infeliz, de que o primeiro existirá fatalmente por uma lei
indefectível da natureza: ao passo que o segundo só aparecerá se lhe derem
elementos de vida.
Foi desses elementos que Amâncio
nunca dispôs para poder amar o pai.
*
* *
O fato é que, depois da leitura da
carta, o estudante sentiu, pela primeira vez, algum desejo de dar notícias suas
a Vasconcelos; até aí só o fazia por honra da firma.
Campos, que lhe apareceu em seguida,
veio transformar esse desejo em vontade, falando-lhe da correspondência
extraordinária que, pelo mesmo paquete, recebera do Maranhão. O velho
Vasconcelos também lhe havia escrito e, com tanto interesse lhe falara de
Amâncio, tão inconsolável se mostrara e tão saudoso pelo filho, e com tal
insistência pedira ao negociante para olhar pelo rapaz, que o bom homem não
hesitou em correr logo à casa de pensão de Mme. Brizard.
O estudante carregou com ele para o
quarto. — Aí conversariam mais à vontade.
— Pois, meu nobre amigo, disse o
marido de Hortênsia, assentando-se defronte de Amâncio e batendo-lhe uma
palmada na coxa — seu pai não se cansa de falar a seu respeito. São as
saudades, coitado!
E tirando uma carta do bolso para a
entregar ao outro:
— Leia, leia e veja como está triste
o pobre velho! Ah, meu amigo, acredite que — possuir um pai é a maior fortuna
que se pode ambicionar neste mundo!
Amâncio, entre outras coisas, leu o
seguinte:
“Não imagina Sr. Campos os cuidados
em que eu e a minha boa Ângela nos temos visto por cá com a ausência do rapaz.
Nunca pensei que nos fizesse tanta falta. Ela coitada, leva a chorar desde que
amanhece, e à noite é aquela certeza dos sonhos ruins e mais não ser! Acho-a
muito magra e abatida de tempos a esta parte. Então quando não recebe cartas do
filho, o que já se observa há três vapores consecutivos, fica prostrada de tal
modo que se não pode levantar da cama.
“Veja, por conseguinte, se alcança
que o nosso estudante nunca nos deixe de escrever; duas palavras que sejam,
dizendo como está de saúde e que vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele não
custará muito, poupa todavia cá por casa muitas horas de sofrimento e de
desgosto.
“Até já me lembrou providenciar no
sentido de faze-lo vir no fim do ano passar as férias conosco, não sei porém,
se tal coisa será conveniente ainda tão no princípio da carreira. O amigo
dispensar-me-á o obséquio de escrever a esse respeito.
“Em todo o caso, a idéia de que o
senhor está aí, perto dele, e que, pelo que tem mostrado, é deveras nosso
amigo, tranqüiliza-nos em grande parte. Conto, pois, que olhará sempre por
Amâncio. Tenha paciência, sei que o importuno com estas coisas, mas que hei de
fazer? dizem tanto dessa Corte; falam de tal forma do clima e dos mil perigos a
que aí está sujeita a mocidade, que, só a lembrança de uma tísica galopante ou
de um desses desvios, uma dessas loucuras que às vezes acometem os rapazes e
inutiliza-os para o resto da vida; uma dessas desgraças, Sr. Campos, que lhes
sucedem facilmente quando eles não dispõem de um bom amigo que os encaminhe e
aconselhe; só a lembrança de tudo isso, meu caro senhor, é o bastante para me
tirar o sossego do espírito.
“Tenha a bondade, sempre que falar
ao meu rapaz, de lembrar-lhe as obrigações e dizer-lhe com franqueza a
responsabilidade que agora lhe assiste. Ele está se fazendo homem e precisa
preparar futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e proteja-o com o mesmo desvelo
de que usou meu irmão para guiar a sua mocidade.”
— Vê? disse Campos, abalado com as palavras do irmão de seu protetor. — São estes os desejos de seu pai; ao senhor compete agora, como bom filho, fazer-lhe o gosto, e dar-lhe a felicidade de que ele precisa para o resto da