MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento nacional do Livro
DOM CASMURRO
Machado de Assis
Capítulo I
Uma noite destas, vindo da cidade para o
Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu
conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da
lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os
versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu
estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele
interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
— Continue, disse eu acordando.
— Já acabei, murmurou ele.
— São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra
vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a
dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os
vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à
alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos
da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom
Casmurro, domingo vou jantar com você.” — “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a
casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá
passar uns quinze dias comigo.” — “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o
dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote,
dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”
Não consultes dicionários. Casmurro
não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem
calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de
fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha
narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu
poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço,
sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão
isso dos seus autores; alguns nem tanto.
CAPÍTULO II
Do Livro
Agora que expliquei o título, passo a
escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na
mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que
moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular
que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me
reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos,
dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu.
Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo
prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas
e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos
igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos,
de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao
centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes
por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a
casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior.
Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em
pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha,
flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília
velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior,
que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas
pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não
consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a
fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se
mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e
nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias;
o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade
poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.
Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a
geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos,
outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela
aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários,
e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer
vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida
de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho
que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira.
Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é
gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia
acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro.
Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças
necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios,
menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à
cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares,
tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a
falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os
tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a
ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem,
mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta idéia, que
ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu,
grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o
conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste
modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo.
Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me
esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou
do espírito. É o que vais entender, lendo.
CAPÍTULO III
A Denúncia
Ia a entrar na sala de visitas, quando
ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de
Matacavalos, o mês de novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei
de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam
histórias velhas; o ano era de 1857.
— D. Glória, a senhora persiste na
idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode
haver uma dificuldade.
— Que dificuldade?
— Uma grande dificuldade.
Minha mãe quis saber o que era. José
Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no
corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade
estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
— A gente do Pádua?
— Há algum tempo estou para lhe
dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande
metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque
se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
— Não acho. Metidos nos cantos?
— É um modo de falar. Em
segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma
desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira
que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe
que todos têm a alma cândida...
— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os
pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho
mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas.
Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez
anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações.
Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme repondeu com um “Ora!” que,
traduzido em vulgar, queria dizer: “São imaginações do José Dias; os pequenos
divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?”
— Sim, creio que o senhor está
enganado.
— Pode ser, minha senhora. Oxalá
tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...
— Em todo caso, vai sendo tempo,
interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.
— Bem, uma vez que não perdeu a
idéia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os
desejos de sua mãe. E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não
esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o
império...
— Governou como a cara dele! atalhou
tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.
— Perdão, doutor, não estou
defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem
grande papel no Brasil.
— Você o que quer é um capote; ande,
vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor
que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas olhe cá, mana Glória, há
mesmo necessidade de fazê-lo padre?
— É promessa, há de cumprir-se.
— Sei que você fez promessa.. mas,
uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima
Justina?
— Eu?
— Verdade é que cada um sabe melhor
de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de
tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto
é coisa de lágrimas?
Minha mãe assoou-se sem responder. Prima
Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio,
durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra
emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima
Justina exortava: “Prima Glória! prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se
soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto,
para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...”
CAPÍTULO IV
Um Dever Amaríssimo!
José Dias amava os superlativos. Era um
modo de dar feição monumental às idéias; não as havendo, servia a prolongar as
frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa.
Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas,
presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no
Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe
ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por dentro,
imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e
leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um
princípio de calva; teria os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o
passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um
vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da
conseqüência, a conseqüência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!
CAPÍTULO V
O Agregado
Nem sempre ia naquele passo vagaroso e
rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e lépido nos
movimentos, tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se
era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as
bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo
pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.
Era nosso agregado desde muitos anos; meu
pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia
apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma
botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma
escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar
ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo
levar a saúde à casa de sapé do pobre.
— Quem lhe impede que vá a outras
partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.
— Voltarei daqui a três meses.
Voltou dali a duas semanas, aceitou casa
e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu
pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família, ele veio
também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outra vez
febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José
Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era médico.
Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem
estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.
— Mas, você curou das outras vezes.
— Creio que sim; mais acertado,
porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles
abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu
procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir
à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
Não foi despedido, como pedia então; meu
pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário;
dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor
que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito
grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia,
depois da missa, ele foi despedir-se dela.
— Fique, José Dias.
— Obedeço, minha senhora.
Teve um pequeno legado no testamento, uma
apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e
pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia ele
muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência,
ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi
ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as
cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe
muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele
trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e
modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à
sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio,
dos pólos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e
confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em
Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.
— Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio
Cosme um dia.
— Abaixo, repetiu José Dias cheio de
veneração.
E minha mãe, que era religiosa, gostou de
ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias agradeceu
de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que
era advogado, confiava-lhe a cópia de papéis de autos.
CAPÍTULO VI
Tio Cosme
Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que
ela enviuvou. Já então era viúvo, como prima Justina; era a casa dos três viúvos.
A fortuna troca muita vez as mãos à
natureza. Formado para as serenas funções do capitalismo, tio Cosme não
enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas,
perto do júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no Crime. José Dias não
perdia as defesas orais de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com
muitos cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais
modesto que quisesse ser, sorria de persuasão.
Era gordo e pesado, tinha a respiração curta
e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo
montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao
escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira, segurava o freio,
enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de
descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava
subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após alguns
instantes largos, Tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais, dava o
último surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta
deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme
acomodava as carnes, e a besta partia a trote.
Também não me esqueceu o que ele me fez
uma tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos
costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou
em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove
anos), sozinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar
desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula, cuidou que me
estivessem matando, apeou-me, afagou-me, enquanto o irmão perguntava:
— Mana Glória, pois um tamanhão
destes tem medo de besta mansa?
— Não está acostumado.
— Deve acostumar-se. Padre que seja,
se for vigário na roça, é preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, ainda não
sendo padre, se quiser florear como os outros rapazes, e não souber, há de
queixar-se de você, mana Glória.
— Pois que se queixe; tenho medo.
— Medo! Ora, medo!
A verdade é que eu só vim a aprender
equitação mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia
montar. “Agora é que ele vai namorar deveras”, disseram quando eu comecei as
lições. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho costume e
necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de
muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do
ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e
específicas. Agora só cumpria as obrigações do ofício e um amor. Nas horas de
lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias.
CAPÍTULO VII
D. Glória
Minha mãe era boa criatura. Quando lhe
morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de
idade, e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar perto da igreja em
que meu pai fora sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns
que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices, e
deixou-se estar na casa de Matacavalos, onde vivera os dois últimos anos de
casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a
família Fernandes.
Ora, pois, naquele ano da graça de 1857,
D. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade.
Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por
mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em um
eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em triângulo e
abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram apanhados sobre
a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia touca branca de
folhos. Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos, a um lado
e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até a
noite.
Tenho ali na parede o retrato dela, ao
lado do do marido, tais quais na outra casa. A pintura escureceu muito, mas
ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a não ser vagamente que era
alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me
acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno.
O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo
um trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contava
então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a
flor ao marido. O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal
pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de
sociedade.
Concluo que não se devem abolir as
loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má
a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte
há de ela ficar. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora, os bem-amados,
os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um sonho
provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para
eles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. São retratos que valem
por originais. O de minha mãe, estendendo a flor ao marido, parece dizer: “Sou
toda sua, meu guapo cavalheiro!” O de meu pai, olhando para a gente, faz este
comentário: “Vejam como esta moça me quer...” Se padeceram moléstias, não sei,
como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido.
Depois da morte dele, lembra-me que ela chorou muito; mas aqui estão os
retratos de ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira
expressão. São como fotografias instantâneas da felicidade.
CAPÍTULO VIII
É Tempo
Mas é tempo de tornar àquela tarde de
novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da
rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que
sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em
cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que eu
ia começar a minha ópera. “A vida é uma ópera”, dizia-me um velho tenor
italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal
maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.
CAPÍTULO IX
A Ópera
Já não tinha voz, mas teimava em dizer
que a tinha. “O desuso é que me faz mal”, acrescentava. Sempre que uma
companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe toda as
injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a
bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando
andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Às vezes,
cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto;
vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas
vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e
como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de
mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
— A vida é uma ópera e uma grande
ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos
comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em
presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos
bailados, e a orquestração é excelente...
— Mas, meu caro Marcolini...
— Quê?...
E, depois de beber um gole de licor,
pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás,
jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de
Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na
distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e
mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio
essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele
expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não
houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal
gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito
consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros — e
acaso para reconciliar-se com o céu —, compôs a partitura, e logo que a acabou
foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições
recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a
executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não quero
ouvir nada.
— Mas, senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor
fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a
ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta,
e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e
comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios.
Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos
de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela
resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga
teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a
música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da
composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de
Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances
se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição.
Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez
o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com
grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que
dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas
rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas
sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se
negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao
pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o
libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto
seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente
diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do
poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor.
Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem
eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa
nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve
outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que
parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
— Esta peça, concluiu o velho tenor,
durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele
demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem
pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra
da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados, poucos os
escolhidos”. Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
— Tem graça...
— Graça? bradou ele com fúria; mas
aquietou-se logo, e replicou: — Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho
horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos
os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor,
e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu
amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré etc. Este
cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve?
Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
CAPÍTULO X
Aceito a Teoria
Que é demasiada metafísica para um só
tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são,
em resumo, tenores desempregados.
Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu
velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade,
mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo
terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não adiantemos; vamos à
primeira parte, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José
Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me
denunciou.
CAPÍTULO XI
A Promessa
Tão depressa vi desaparecer o agregado no
corredor, deixei o esconderijo, e corri à varanda do fundo. Não quis saber de
lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram
provavelmente os seus projetos eclesiásticos, e a ocasião destes é a que vou
dizer, por ser já então história velha; datava de dezesseis anos.
Os projetos vinham do tempo em que fui
concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com
Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na
Igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem antes, nem
depois de me dar à luz; contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola, mas
enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era tão
devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a
promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separássemos o mais
tarde possível, fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por
aquele Padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar às noites.
Prazos largos são fáceis de subscrever; a
imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo.
Entretanto, ia-me afeiçoando à idéia da Igreja; brincos de criança, livros
devotos, imagens de santo, conversações de casa, tudo convergia para o altar.
Quando íamos à missa, dizia-me sempre que era para aprender a ser padre, e que
reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa,
— um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de
brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e
alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era
sempre um doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à
minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia
afirmativamente, e ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela,
arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus,
non sum dignus... Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia
uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água;
não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício.
Ultimamente não me falavam já do
seminário, a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. Quinze anos, não
havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de S. José. Minha mãe
ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a
pretexto de nada, para apertá-la muito.
CAPÍTULO XII
Na Varanda
Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as
pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Não me
atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um
lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava.
Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias:
“Sempre juntos...”
“Em segredinhos...”
“Se eles pegam de namoro...”
Tijolos que pisei e repisei naquela
tarde, colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda, segundo eu
ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um gozo
novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios,
e me derramava não sei que bálsamo interior. Às vezes dava por mim, sorrindo,
um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu pecado. E as
vozes repetiam-se confusas:
“Em segredinhos...”
“Sempre juntos...”
“Se eles pegam de namoro...”
Um coqueiro, vendo-me inquieto e
adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de
quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrário, os
adolescentes daquela idade não tinham outro ofício, nem os cantos outra
utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda
que nos velhos livros. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio,
toda a gente viva do ar era da mesma opinião.
Com que então eu amava Capitu, e Capitu a
mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós
que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras
de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não restabelecemos logo a
antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa.
Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me
às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me
os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que
sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava
lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais
lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de
desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos
realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me
perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar
que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado
pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos
pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos
esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim,
apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples
repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um
dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu,
depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava...
Fez-se cor de pitanga.
Pois, francamente, só agora entendia a
emoção que me davam essas e outras confidências. A emoção era doce e nova, mas
a causa dela fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silêncios dos
últimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como sinais de alguma
coisa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas,
os cuidados, o gosto de recordar a infância. Também adverti que era fenômeno
recente acordar com o pensamento em Capitu, e escutá-la de memória, e
estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha casa,
prestava mais atenção que dantes, e, segundo era louvor ou crítica, assim me
trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando éramos somente
companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele
mês, com intervalos, é verdade, mas com exclusivismo também.
Tudo isto me era agora apresentado pela
boca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o
mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de outro.
Naquele instante, a eterna Verdade não valeria mais que ele, nem a eterna
Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as
minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o
mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si
própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer
outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente
também por ser a primeira.
CAPÍTULO XIII
Capitu
De repente, ouvi bradar uma voz de dentro
da casa ao pé:
— Capitu!
E no quintal:
— Mamãe!
E outra vez na casa:
— Vem cá!
Não me pude ter. As pernas desceram-me os
três degraus que davam para a chácara, e caminharam para o quintal vizinho.
Era costume delas, às tardes, e às manhãs também. Que as pernas também são
pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça
não as rege por meio de idéias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia ali uma
porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitu e eu éramos
pequenos. A porta não tinha chave nem taramela; abria-se empurrando de um lado
ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda.
Era quase que exclusivamente nossa. Em crianças, fazíamos visita batendo de um
lado e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitu
adoeciam, o médico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço,
para imitar o bengalão do Dr. João da Costa; tomava o pulso à doente, e pedia-lhe
que mostrasse a língua. “É surda, coitada!”, exclamava Capitu. Então eu coçava
o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou
dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico.
— Capitu.
— Mamãe!
— Deixa de estar esburacando o muro;
vem cá.
A voz da mãe era agora mais perto, como
se viesse já da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas, há
pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço,
empurrei a porta, entrei. Capitu estava ao pé do muro fronteiro, voltada para
ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar
comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma coisa. Caminhei
para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e
perguntou-me inquieta:
— Que é que você tem?
— Eu? Nada.
— Nada, não; você tem alguma coisa.
Quis insistir que nada, mas não achei
língua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com
certeza, pela boca fora. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze
anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os
cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à
moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz
reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de
alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem
águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava
sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.
— Que é que você tem? repetiu.
— Não é nada, balbuciei finalmente.
E emendei logo:
— É uma notícia.
— Notícia de quê?
Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o
seminário e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que
realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse cálculo foi
obscuro e rápido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista
não sei como...
— Então?
— Você sabe...
Nisto olhei para o muro, o lugar em que
ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns
riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Então quis
vê-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu
acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o
escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.
CAPÍTULO XIV
A Inscrição
Tudo o que contei no fim do outro
capítulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido.
Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dois nomes, abertos ao
prego, e assim dispostos:
BENTO
CAPITOLINA
Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos
no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro...
Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser
poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos,
as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se,
apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la
marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria
aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a
diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever,
sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se
deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se,
e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre
futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a
Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a pátena.
Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua
católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a
limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos
ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma
só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas
infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração
caladas como vinham...
CAPÍTULO XV
Outra Voz Repentina
Outra voz repentina, mas desta vez uma
voz de homem:
— Vocês estão jogando o siso?
Era o pai de Capitu, que estava à porta
dos fundos, ao pé da mulher. Soltamos as mãos depressa, e ficamos atrapalhados.
Capitu foi ao muro, e, com o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes
escritos.
— Capitu!
— Papai!
— Não me estragues o reboco do muro.
Capitu riscava sobre o riscado, para
apagar bem o escrito. Pádua saiu ao quintal, a ver o que era, mas já a filha
tinha começado outra coisa, um perfil, que disse ser o retrato dele, e tanto
podia ser dele como da mãe; fê-lo rir, era o essencial. De resto, ele chegou
sem cólera, todo meigo, apesar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que
nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas
abauladas, donde lhe veio a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe pôs.
Ninguém lhe chamava assim lá em casa; era só o agregado.
— Vocês estavam jogando o siso?
perguntou.
Olhei para um pé de sabugueiro que ficava
perto; Capitu respondeu por ambos.
— Estávamos, sim, senhor; mas
Bentinho ri logo, não agüenta.
— Quando eu cheguei à porta, não
ria.
— Já tinha rido das outras vezes;
não pode. Papai quer ver?
E séria, fitou em mim os olhos,
convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente sério; eu estava ainda sob a ação
do que trouxe a entrada de Pádua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse
fazê-lo, para legitimar a resposta de Capitu. Esta, cansada de esperar, desviou
o rosto, dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. E nem assim
ri. Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las
cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitu, após duas
voltas, foi ter com a mãe, que continuava à porta da casa, deixando-nos a mim e
ao pai encantados dela; o pai, olhando para ela e para mim, dizia-me, cheio de
ternura:
— Quem dirá que esta pequena tem
quatorze anos? Parece dezessete. Mamãe está boa? continuou voltando-se
inteiramente para mim.
— Está.
— Há muitos dias que não a vejo.
Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando com
trabalhos da repartição em casa; escrevo todas as noites que é um desespero;
negócio de relatório. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. Ia agora
mesmo buscar a gaiola; ande ver.
Que o meu desejo era nenhum, crê-se
facilmente, sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. Meu desejo era ir
atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava; mas o pai era o pai,
e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de vária espécie, cor e
tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários,
que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava pássaros com outros
amadores, comprava-os, apanhava alguns, no próprio quintal, armando alçapões.
Também, se adoeciam, tratava deles como se fossem gente.
CAPÍTULO XVI
O Administrador Interino
Pádua era empregado em repartição
dependente do Ministério da Guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava
pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a
nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que
lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de réis. A primeira idéia do
Pádua, quando lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adereço de
brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua de família, mandar vir da Europa
alguns pássaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali está à porta dos
fundos da casa, em pé, falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a
mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era
comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes.
Pádua hesitou muito; afinal teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D.
Fortunata pediu auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um
dia chegou a salvar a vida ao Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que
Pádua trabalhava teve de ir ao Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem
regulamentar, ou por especial designação, ficou substituindo o administrador
com os respectivos honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa
vertigem; era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a
copa, atirou-se às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa
matava um leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu
assim vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde
entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque chegara o
efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas infelizes que
deixava; não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com
bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.
— Não, minha senhora, não
consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família, tornar atrás... Já disse,
mato-me! Não hei de confessar à minha gente esta miséria. E os outros? Que
dirão os vizinhos? E os amigos? E o público?
— Que público, Sr. Pádua? Deixe-se
disso; seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa... e que há de
fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para casa,
onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova, — ou então no
quintal, ao pé do poço, como se a idéia da morte teimasse nele. D. Fortunata
ralhava:
— Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que
teve medo, e um dia correu a pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver
se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do
poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia
ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego
interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a
filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a vontade de
minha mãe.
— Vontade minha, não; é obrigação
sua.
— Pois seja obrigação; não
desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a entrar e
sair de casa, cosido à parede, cara no chão. Não era o mesmo homem que
estragava o chapéu em cortejar a vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo
da administração interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Pádua
começou a interessar-se pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a
dormir tranqüilo as noites e as tardes, a conversar e dar notícias da rua. A
serenidade regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o ar do
costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno
interessante. Pádua começou a falar da administração interina, não somente sem
as saudades dos honorários, nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e
orgulho. A administração ficou sendo a héjira, donde ele contava para diante e
para trás.
— No tempo em que eu era
administrador...
Ou então:
— Ah! Sim, lembra-me, foi antes da
minha administração, um ou dois meses antes... Ora, espere; a minha
administração começou... É isto, mês e meio antes; foi mês e meio antes, não
foi mais.
Ou ainda:
— Justamente; havia já seis meses
que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias
interinas. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o Padre
Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava
a lição de Elifás a Jó: “Não desprezes a correção do Senhor: Ele fere e cura.”
CAPÍTULO XVII
Os Vermes
“Ele fere e cura!” Quando, mais tarde,
vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais
ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a
pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los,
catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do
pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
— Meu senhor, respondeu-me um longo
verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem
escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros
todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez
esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o
roído.
CAPÍTULO XVIII
Um Plano
Pai nem mãe foram ter conosco, quando
Capitu e eu, na sala de visitas, falávamos do seminário. Com os olhos em mim,
Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o
que era, fez-se cor de cera.
— Mas eu não quero, acudi logo, não
quero entrar em seminários; não entro, é escusado teimarem comigo; não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada.
Recolheu os olhos, meteu-os em si e deixou-se estar com as pupilas vagas e
surdas, a boca entreaberta, toda parada. Então eu, para dar força às
afirmações, comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo jurava muito e
rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse
na hora da morte se fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem
descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la,
sacudi-la, mas faltou-me ânimo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara,
dançara, creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e
medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas palavras
furiosas:
— Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de
minha mãe, e minha mãe dela, que eu não podia entender tamanha explosão. É
verdade que também gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra
maneira, coisa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da
separação; mas os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios,
e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que ela
também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou, na nossa
velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um livro de Horas...
Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a chamar-lhe beata e
carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais. Nunca a vi tão
irritada como então; parecia disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes,
abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que fizesse; repetia os
juramentos, prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que, por nada
neste mundo, entraria no seminário.
— Você? Você entra.
— Não entro.
— Você verá se entra ou não.
Calou-se outra vez. Quando tornou a
falar, tinha mudado; não era ainda a Capitu do costume, mas quase. Estava
séria, sem aflição, falava baixo. Quis saber a conversação da minha casa; eu
contei-lhe toda, menos a parte que lhe dizia respeito.
— E que interesse tem José Dias em
lembrar isto? perguntou-me no fim.
— Acho que nenhum; foi só para fazer
mal. É um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me há de pagar. Quando eu
for dono da casa, quem vai para a rua é ele, você verá; não me fica um
instante. Mamãe é boa demais; dá-lhe atenção demais. Parece até que chorou.
— José Dias?
— Não, mamãe.
— Chorou por quê?
— Não sei; ouvi só dizer que ela não
chorasse, que não era coisa de choro... Ele chegou a mostrar-se arrependido, e
saiu; eu então, para não ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda.
Mas, deixe estar, que ele me paga!
Disse isto fechando o punho, e proferi
outras ameaças. Ao relembrá-las, não me acho ridículo; a adolescência e a
infância não são, neste ponto, ridículas; é um dos seus privilégios. Este mal
ou este perigo começa na mocidade, cresce na madureza e atinge o maior grau na
velhice. Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar
nada.
Capitu refletia. A reflexão não era coisa
rara nela, e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas
circunstâncias mais, as próprias palavras de uns e de outros, e o tom delas.
Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ela mesma, não
lhe pude dar toda a significação. A atenção de Capitu estava agora
particularmente nas lágrimas de minha mãe; não acabava de entendê-las. Em meio
disto, confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer
padre; era a promessa antiga, que ela, temente a Deus, não podia deixar de
cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as
injúrias que lhe saíram do peito, pouco antes, que peguei da mão dela e
apertei-a muito. Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a
cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo,
vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
— Sinhazinha, qué cocada hoje?
— Não, respondeu Capitu.
— Cocadinha tá boa.
— Vá-se embora, replicou ela sem
rispidez.
— Dê cá! disse eu descendo o braço
para receber duas.
Comprei-as, mas tive de as comer sozinho;
Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as
cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é
para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e
lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão
que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da
nossa infância:
Chora, menina, chora,
Chora, porque não tem
Vintém,
a modo que lhe deixara uma impressão
aborrecida. Da toada não era; ela a sabia de cor e de longe, usava repeti-la
nos nossos jogos da puerícia, rindo, saltando, trocando os papéis comigo, ora
vendendo, ora comprando um doce ausente. Creio que a letra, destinada a picar a
vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:
— Se eu fosse rica, você fugia,
metia-se no paquete e ia para a Europa.
Dito isto, espreitou-me os olhos, mas
creio que eles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a boa intenção. Com
efeito, o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da
aventura.
Como vês, Capitu, aos quatorze anos,
tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas
eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e
alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. Não sei se me
explico bem. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. Assim,
para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. Capitu,
se pudesse cumpri-lo, não me faria embarcar no paquete e fugir; estenderia uma
fila de canoas daqui até lá, por onde eu, parecendo ir à fortaleza da Laje em
ponte movediça, iria realmente até Bordéus, deixando minha mãe na praia, à
espera. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga; pelo que, não
admira que, combatendo os meus projetos de resistência franca, fosse antes
pelos meios brandos, pela ação do empenho, da palavra, da persuasão lenta e diuturna,
e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. Rejeitou tio Cosme; era
um “boa-vida”; se não aprovava a minha ordenação, não era capaz de dar um passo
para suspendê-la. Prima Justina era melhor que ele, e melhor que os dois seria
o Padre Cabral, pela autoridade, mas o padre não havia de trabalhar contra a
Igreja; só se eu lhe confessasse que não tinha vocação...
— Posso confessar?
— Pois, sim, mas seria aparecer
francamente, e o melhor é outra coisa. José Dias...
— Que tem José Dias?
— Pode ser um bom empenho.
— Mas se foi ele mesmo que falou...
— Não importa, continuou Capitu; dirá
agora outra coisa. Ele gosta muito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é que
você não tenha medo, mostre que há de vir a ser dono da casa, mostre que quer e
que pode. Dê-lhe bem a entender que não é favor. Faça-lhe também elogios; ele
gosta muito de ser elogiado. D. Glória presta-lhe atenção; mas o principal não
é isso; é que ele, tendo de servir a você, falará com muito mais calor que
outra pessoa.
— Não acho, não, Capitu.
— Então vá para o seminário.
— Isso não.
— Mas que se perde em experimentar?
Experimentemos; faça o que lhe digo. D. Glória pode ser que mude de resolução;
se não mudar, faz-se outra coisa, mete-se então o Padre Cabral. Você não se
lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez, há dois meses? D. Glória não
queria, e bastava isso para que José Dias não teimasse; mas ele queria ir, e
fez um discurso, lembra-se?
— Lembra-me; disse que o teatro era
uma escola de costumes.
— Justo; tanto falou que sua mãe
acabou consentindo, e pagou a entrada aos dois... Ande, peça, mande. Olhe;
diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.
Estremeci de prazer, São Paulo era um
frágil biombo, destinado a ser arredado um dia, em vez da grossa parede
espiritual e eterna. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. Capitu
repetiu-os, acentuando alguns, como principais; e inquiria-me depois sobre
eles, a ver se entendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que
pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem
obrigação de o trazer. Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela
manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o
primeiro dia, como no Gênesis, onde se fizeram sucessivamente sete.
CAPÍTULO XIX
Sem Falta
Quando voltei a casa era noite. Vim
depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao
agregado. Formulei o pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom
delas, entre seco e benévolo. Na chácara, antes de entrar em casa, repeti-as
comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam às
recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe, sem falta, amanhã; escolha
o lugar e diga-me.” Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem
falta, como para sublinhá-las. Repeti-as ainda, e então achei-as secas demais,
quase ríspidas, e, francamente, impróprias de um criançola para um homem
maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.
Afinal disse comigo que as palavras
podiam servir, tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. E a prova é que,
repetindo-as novamente, saíram-me quase súplices. Bastava não carregar tanto,
nem adoçar muito, um meio-termo. “E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha,
ele é um simples agregado. Jeitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e
desfazer o plano de mamãe.”
CAPÍTULO XX
Mil Padre-Nossos e Mil
Ave-Marias
Levantei os olhos ao céu, que começava a
embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu
que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de
mim para mim:
— Prometo rezar mil padre-nossos e
mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário.
A soma era enorme. A razão é que eu
andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos
padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a
Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino
acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se
eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se
amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta,
cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a
vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era
feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça
de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu
fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.
— Mil, mil, repeti comigo.
Realmente, a matéria do benefício era
agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência
inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos.
Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem
muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino te
enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no
modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante
a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência
moral sem déficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a
Ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas
escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez
no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por
força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam
empenhar-me outra vez a alma...
CAPÍTULO XXI
Prima Justina
Na varanda achei prima Justina, passeando
de um lado para outro. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera.
— Estive aqui ao pé, conversando com
D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?
— Perguntou, mas eu disse que você
já tinha vindo.
A mentira espantou-me, não menos que a
franqueza da notícia. Não é que prima Justina fosse de biocos, dizia
francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de
Pedro; mas confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenária,
magra e pálida, boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor de minha
mãe, e também por interesse; minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de
si, e antes parenta que estranha.
Passeamos alguns minutos na varanda,
alumiada por um lampião. Quis saber se eu não esquecera os projetos
eclesiásticos de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto
que eu tinha à vida de padre. Respondi esquivo:
— Vida de padre é muito bonita.
— Sim, é bonita; mas o que pergunto
é se você gostaria de ser padre, explicou rindo.
— Eu gosto do que mamãe quiser.
— Prima Glória deseja muito que você
se ordene, mas ainda que não desejasse, há cá em casa quem lhe meta isso na
cabeça.
— Quem é?
— Ora, quem! Quem é que há de ser?
Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu também não.
— José Dias? concluí.
— Naturalmente.
Enruguei a testa interrogativamente, como
se não soubesse nada. Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda
naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga.
— Prima Glória pode ser que, em
passando os dias, vá esquecendo a promessa; mas como há de esquecer se uma
pessoa estiver sempre, nos ouvidos, zás que darás, falando do seminário? E os
discursos que ele faz, os elogios da Igreja, e a vida de padre é isto e
aquilo, tudo com aquelas palavras que só ele conhece, e aquela afetação...
Note que é só para fazer mal, porque ele é tão religioso como este lampião.
Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dê por achado... Hoje de tarde falou
como você não imagina...
— Mas falou à toa? perguntei, a ver
se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha.
Não contou; fez apenas um gesto como
indicando que havia outra coisa que não podia dizer. Novamente me recomendou
que não me desse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias,
e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apesar da
casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:
— Prima Justina, a senhora era capaz
de uma coisa?
— De quê?
— Era capaz de... Suponha que eu não
gostasse de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...
— Isso não, atalhou prontamente;
prima Glória tem este negócio firme na cabeça, e não há nada no mundo que a
faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era pequenino, já ela contava
isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a
memória, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas também,
pedir outra coisa, não peço. Se ela me consultasse, bem; se ela me dissesse:
“Prima Justina, você que acha?”, a minha resposta era: “Prima Glória, eu penso
que, se ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar.”
É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe
sem ser chamada, não faço.
CAPÍTULO XXII
Sensações Alheias
Não alcancei mais nada, e para o fim
arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Então, como eu
quisesse ir para dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do
calor e da próxima festa da Conceição, dos meus velhos oratórios, e finalmente
de Capitu. Não disse mal dela; ao contrário, insinuou-me que podia vir a ser
uma moça bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria que era a mais bela
criatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, como prima
Justina se metesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os costumes, o trabalho
para os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto me acendeu a ponto de
elogiá-la também. Quando não era com palavra, era com gesto de aprovação que
dava a cada uma das asserções da outra, e certamente com a felicidade que devia
iluminar-me a cara. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias,
ouvida por ela, à tarde, na sala de visitas, se é que também ela não desconfiava
já. Só pensei nisso na cama. Só então senti que os olhos de prima Justina,
quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o
ofício de todos os sentidos. Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha
idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. É certo que, após
algum tempo, modificou os elogios a Capitu, e até lhe fez algumas críticas,
disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo; mas ainda assim, não
creio que fossem ciúmes. Creio antes... sim... sim, creio isto. Creio que prima
Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das
próprias. Também se goza por influição dos lábios que narram.
CAPÍTULO XXIII
Prazo Dado
— Preciso falar-lhe amanhã, sem
falta; escolha o lugar e diga-me.
Creio que José Dias achou desusado este
meu falar. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava, mas as palavras o
eram, e o não interrogar, não pedir, não hesitar, como era próprio da criança e
do meu estilo habitual, certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma
nova situação. Foi no corredor, quando íamos para o chá; José Dias vinha
andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima
Justina. Lia cantado e compassado. Os castelos e os parques saíam maiores da
boca dele, os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns
milhares mais de estrelas centelhantes. Nos diálogos, alternava o som das
vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores,
e reproduziam com moderação a ternura e a cólera.
Ao despedir-se de mim, na varanda,
disse-me ele:
— Amanhã, na rua. Tenho umas compras
que fazer, você pode ir comigo, pedirei a mamãe. É dia de lição?
— A lição foi hoje.
— Perfeitamente. Não lhe pergunto o
que é; afirmo desde já que é matéria grave e pura.
— Sim, senhor.
— Até amanhã.
Fez-se tudo o melhor possível. Houve só
uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé;
entramos no ônibus, à porta de casa.
— Não importa, disse-me José Dias;
podemos apear-nos à porta do Passeio Público.
CAPÍTULO XXIV
De Mãe e de Servo
José Dias tratava-me com extremos de mãe
e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar
fora foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos meus
arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da
minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da
desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio
risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras
letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e
história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no
fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha
depressa?” Chamava-me “um prodígio”; dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos
muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a
minha idade, possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto
não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um
elogio.
CAPÍTULO XXV
No Passeio Público
Entramos no Passeio Público. Algumas
caras velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no
caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me
dar ânimo, falei do jardim:
— Há muito tempo que não venho aqui,
talvez um ano.
— Perdoe-me, atalhou ele, não há
três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua; não se lembra?
— É verdade, mas foi tão de
passagem...
— Ele pediu a sua mãe que o deixasse
trazer consigo, e ela, que é boa como a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já
que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua.
— Mas eu andei algumas vezes...
— Quando era mais jovem; era
criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço,
e ele tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disto. A gente
Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu...
Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.
Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a
adulação! D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um
bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e
as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele
anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo
é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria,
como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados...
— Perdão, interrompi suspendendo o passo,
nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contrário, um dia, não há muito
tempo, disse ele a um sujeito, em minha presença, que o senhor era “um homem de
capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras”.
José Dias sorriu deliciosamente, mas fez
um esforço grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:
— Não lhe agradeço nada. Outros, de
melhor sangue, me têm feito o favor de juízos altos. E nada disso impede que
ele seja o que lhe digo.
Tínhamos outra vez andado, subimos ao
terraço, e olhamos para o mar.
— Vejo que o senhor não quer senão o
meu benefício, disse eu depois de alguns instantes.
— Pois que outra coisa, Bentinho?
— Neste caso, peço-lhe um favor.
— Um favor? Mande, ordene, que é?
— Mamãe...
Durante algum tempo não pude dizer o resto,
que era pouco, e vinha de cor. José Dias tornou a perguntar o que era,
sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim,
ansioso também, como a prima Justina na véspera.
— Mamãe quê? Que é que tem mamãe?
— Mamãe quer que eu seja padre, mas
eu não posso ser padre, disse finalmente.
José Dias endireitou-se pasmado.
— Não posso, continuei eu, não menos
pasmado que ele, não tenho jeito, não gosto da vida de padre. Estou por tudo o
que ela quiser; mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda; estou pronto a ser
o que for do seu agrado, até cocheiro de ônibus. Padre, não; não posso ser
padre. A carreira é bonita mas não é para mim.
Todo esse discurso não me saiu assim, de
vez, enfiado naturalmente, peremptório, como pode parecer do texto, mas aos
pedaços, mastigado, em voz um pouco surda e tímida. Não obstante, José Dias
ouvira-o espantado. Não contava certamente com a resistência, por mais acanhada
que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão:
— Conto com o senhor para salvar-me.
Os olhos do agregado escancararam-se, as
sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da
proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. Toda a cara dele era pouca para
a estupefação. Realmente, a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova;
eu próprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único.
José Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias:
— Mas que posso eu fazer? perguntou.
— Pode muito. O senhor sabe que, em
nossa casa, todos o apreciam. Mamãe pede muita vez os seus conselhos, não é?
Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento...
— São bondades, retorquiu
lisonjeado. São favores de pessoas dignas, que merecem tudo... Aí está! nunca
ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais; por quê? porque são ilustres
e virtuosas. Sua mãe é uma santa, seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo. Tenho
conhecido famílias distintas; nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de
sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas é só
um, — é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.
— Há de ter também o de proteger os
amigos, como eu.
— Em que lhe posso valer, anjo do
céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é, além de promessa, a
ambição e o sonho de longos anos. Quando pudesse, é tarde. Ainda ontem fez-me o
favor de dizer: “José Dias, preciso meter Bentinho no seminário.”
Timidez não é tão ruim moeda, como
parece. Se eu fosse destemido, é provável que, com a indignação que
experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas então seria preciso
confessar-lhe que estivera à escuta, atrás da porta, e uma ação valia outra.
Contentei-me de responder que não era tarde.
— Não é tarde, ainda é tempo, se o
senhor quiser.
— Se eu quiser? Mas que outra coisa
quero eu, se não servi-lo? Que desejo, se não que seja feliz, como merece?
— Pois ainda é tempo. Olhe, não é
por vadiação. Estou pronto para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou
para São Paulo...
CAPÍTULO XXVI
As Leis São Belas
Pela cara de José Dias passou algo
parecido com o reflexo de uma idéia, — uma idéia que o alegrou
extraordinariamente. Calou-se alguns instantes; eu tinha os olhos nele, ele
voltara os seus para o lado da barra. Como insistisse:
— É tarde, disse ele; mas, para lhe
provar que não há falta de vontade, irei falar a sua mãe. Não prometo vencer,
mas lutar; trabalharei com alma. Deveras, não quer ser padre? As leis são
belas, meu querido... Pode ir a São Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe.
Há boas universidades por esse mundo fora. Vá para as leis, se tal é a sua
vocação. Vou falar a D. Glória, mas não conte só comigo; fale também a seu tio.
— Hei de falar.
— Pegue-se também com Deus, — com
Deus e a Virgem Santíssima, concluiu apontando para o céu.
O
céu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes pássaros negros
faziam giros, avoaçando ou pairando, e desciam a roçar os pés na água, e
tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem as sombras do céu, nem as
danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor.
Depois de lhe responder que sim, emendei-me:
— Deus fará o que o senhor quiser.
— Não blasfeme. Deus é dono de tudo;
ele é, só por si, a terra e o céu, o passado, o presente e o futuro. Peça-lhe a
sua felicidade, que eu não faço outra coisa... Uma vez que você não pode ser
padre, e prefere as leis... As leis são belas, sem desfazer da teologia, que é
melhor que tudo, como a vida eclesiástica é a mais santa... Por que não há de
ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade, e ao
mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos; veremos as terras
estrangeiras, ouviremos inglês, francês, italiano, espanhol, russo e até sueco.
D. Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo; ainda que possa e vá, não
quererá guiar os negócios, papéis, matrículas, e cuidar de hospedarias, e andar
com você de um lado para outro... Oh! as leis são belíssimas!
— Está dito, pede a mamãe que me não
meta no seminário?
— Pedir, peço, mas pedir não é
alcançar. Anjo do meu coração, se vontade de servir é poder de mandar, estamos
aqui, estamos a bordo. Ah! você não imagina o que é a Europa; oh! a Europa...
Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma
das suas ambições era tornar à Europa, falava dela muitas vezes, sem acabar de
tentar minha mãe nem tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as belezas...
Não contava com esta possibilidade de ir comigo, e lá ficar durante a
eternidade dos meus estudos.
— Estamos a bordo, Bentinho, estamos
a bordo!
CAPÍTULO XXVII
Ao Portão
Ao portão do Passeio, um mendigo
estendeu-nos a mão. José Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitu e no
seminário, tirei dois vinténs do bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a
moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer
todos os meus desejos.
— Sim, meu devoto!
— Chamo-me Bento, acrescentei para
esclarecê-lo.
CAPÍTULO XXVIII
Na Rua
José Dias ia tão contente que trocou o
homem dos momentos graves, como era na rua, pelo homem dobradiço e inquieto.
Mexia-se todo, falava de tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um
mostrador ou de um cartaz de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças,
recitava monólogos em verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu
aluguéis de casa; para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso
rendeu o flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e entrei a
tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no ônibus.
CAPÍTULO XXIX
O Imperador
Em caminho, encontramos o Imperador, que
vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os
veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche
imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a
idéia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”, pensei
comigo.
Vi então o Imperador escutando-me,
refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu
beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, à espera, até que
ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! Toda
a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à
nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: “O
Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será?” A nossa família
saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador,
todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não me lembra bem, os sonhos
são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que me não fizesse padre, — e ela,
lisonjeada e obediente, prometia que não.
— A medicina, — por que lhe não
manda ensinar medicina?
— Uma vez que é do agrado de Vossa
Majestade...
— Mande ensinar-lhe medicina; é uma
bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É
uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os
melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de
dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-las... A
senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era
fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira; mande-o para a
nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
— Mamãe querendo...
— Quero, meu filho. Sua Majestade
manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a
beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas
atopetadas, um silêncio de assombro; o Imperador entrava no coche, inclinava-se
e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola.” E o
coche partia entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de
Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do
impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes,
digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos
dos meus companheiros.
CAPÍTULO XXX
O Santíssimo
Terás entendido que aquela lembrança do
Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade
de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos,
tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que
fosse para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito tempo.
Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.
— Parece que vai sair o Santíssimo,
disse alguém no ônibus. Ouço um sino; é, creio que é em Santo Antônio dos
Pobres. Pare, senhor recebedor!
O recebedor das passagens puxou a correia
que ia ter ao braço do cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias
deu duas voltas rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo.
Iríamos também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia. Era a
primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a princípio
constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do serviço que
por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou a distribuir as opas,
entrou um sujeito esbaforido; era o meu vizinho Pádua, que também ia acompanhar
o Santíssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de
aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre,
que lavava as mãos. Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho,
aproximou-se dele; eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava ao sacristão uma das
varas do pálio. José Dias pediu uma para si.
— Há só uma disponível, disse o
sacristão.
— Pois essa, disse José Dias.
— Mas eu tinha pedido primeiro,
aventurou Pádua.
— Pediu primeiro, mas entrou tarde,
retorquiu José Dias; eu já cá estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao outro,
teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacristão achou
meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores
do pálio que cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias.
Assim fez; mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que
tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, “jovem seminarista”, a quem
esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as tochas. Era
pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me conhecia de me ver ali com
minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.
— Ainda não, mas vai sê-lo,
respondeu José Dias, piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso,
fiquei zangado.
— Bem, cedo ao nosso Bentinho,
suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara;
lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos,
levando uma tocha, mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. A
distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para
tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto,
cheio de uma glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que
entrara na igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir
pedi-lo. E nada! E tornava à tocha comum, outra vez a interinidade
interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a
vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que
nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do
pálio.
Opas enfiadas, tochas distribuídas e
acesas, padre e cibório prontos, o sacristão de hissope e campainha nas mãos,
saiu o préstito à rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis,
que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma
metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu
vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo, nem ao agregado, que,
paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos
exércitos. Com pouco, senti-me cansado; os braços caíam-me, felizmente a casa
era perto, na Rua do Senado.
A enferma era uma senhora viúva, tísica,
tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos, que estava chorando à porta do
quarto. A moça não era formosa, talvez nem tivesse graça; os cabelos caíam
despenteados, e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Não obstante, o
total falava e cativava o coração. O vigário confessou a doente, deu-lhe a
comunhão e os santos óleos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus
olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era
comunicativa em si mesma; complicada da lembrança de minha mãe, doeu-me mais,
e, quando enfim pensei em Capitu, senti um ímpeto de soluçar também, enfiei
pelo corredor, e ouvi alguém dizer-me:
— Não chore assim!
A imagem de Capitu ia comigo, e a minha
imaginação, assim como lhe atribuía lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca
de riso agora; via-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços
no ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz
dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de um lustre
nupcial... Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa contrária à morte,
e não vejo outra mais que bodas. Esta nova sensação me dominou tanto que José
Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:
— Não ria assim!
Fiquei sério depressa. Era o momento da
saída. Peguei da minha vara; e, como já conhecia a distância, e agora
voltávamos para a igreja, o que fazia a distância menor, — o peso da vara era
mui pequeno. Demais, o sol cá fora, a animação da rua, os rapazes da minha
idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam às janelas ou
entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem, tudo me enchia a alma
de lepidez nova.
Pádua, ao contrário, ia mais humilhado.
Apesar de substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha, da
miserável tocha. E contudo havia outros que também traziam tocha, e apenas
mostravam a compostura do ato; não iam garridos, mas também não iam tristes.
Via-se que caminhavam com honra.
CAPÍTULO XXXI
Curiosidades de Capitu
Capitu preferia tudo ao seminário. Em vez
de ficar abatida com a ameaça da larga separação, se vingasse a idéia da
Europa, mostrou-se satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:
— Não, Bentinho, deixemos o
Imperador sossegado, replicou; fiquemos por ora com a promessa de José Dias.
Quando é que ele disse que falaria a sua mãe?
— Não marcou dia; prometeu que ia
ver, que falaria logo que pudesse, e que me pegasse com Deus.
Capitu quis que lhe repetisse as
respostas todas do agregado, as alterações do gesto e até a pirueta, que apenas
lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o
diálogo, tudo parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia,
rotulava e pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura
melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma
criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse,
aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do
leitor, à força de repetição.
Era também mais curiosa. As curiosidades
de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécie, explicáveis e
inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava
de saber tudo. No colégio, onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever
e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exemplo, a
fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lho ensinasse. Se não
estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lho propor
gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu
confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. Em
compensação, quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e
parceiro deste ao solo, mas não foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe gamão.
— Anda apanhar um capotinho, Capitu,
dizia-lhe ele.
Capitu obedecia e jogava com facilidade,
com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um
retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava
parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que
ainda agora está comigo. Perfeição não era; ao contrário, os olhos saíram
esbugalhados, e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. Mas, não
tendo ela rudimento algum da arte, e havendo feito aquilo de memória em poucos
minutos, achei que era obra de muito merecimento; descontai-me a idade e a
simpatia. Ainda assim, estou que aprenderia facilmente pintura, como aprendeu
música mais tarde. Já então namorava o piano da nossa casa, velho traste
inútil, apenas de estimação. Lia os nossos romances, folheava os nossos livros
de gravuras, querendo saber das ruínas, das pessoas, das campanhas, o nome, a
história, o lugar. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de
erudito. A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de
Cantagalo.
Um dia, Capitu quis saber o que eram as
figuras da sala de visitas. O agregado disse-lho sumariamente, demorando-se um
pouco mais em César, com exclamações e latins:
— César! Júlio César! Grande homem! Tu
quoque, Brute?
Capitu não achava bonito o perfil de
César, mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. Ficou
muito tempo com a cara virada para ele. Um homem que podia tudo! que fazia
tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de
sestércios!
— E quanto valia cada sestércio?
José Dias, não tendo presente o valor do
sestércio, respondeu entusiasmado:
— É o maior homem da história!
A pérola de César acendia os olhos de Capitu.
Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as
jóias do retrato; referia-se ao que estava na sala, com o de meu pai; tinha um
grande colar, um diadema e brincos.
— São jóias viúvas, como eu, Capitu.
— Quando é que botou estas?
— Foi pelas festas da Coroação.
— Oh! conte-me as festas da
Coroação!
Sabia já o que os pais lhe haviam dito,
mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se
passou nas ruas. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões
dos bailes. Nascera muito depois daquelas festas célebres. Ouvindo falar várias
vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora este acontecimento;
disseram-lho, e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono
aos quinze anos. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu, mobílias antigas,
alfaias velhas, costumes, notícias de Itaguaí, a infância e a mocidade de minha
mãe, um dito aqui, uma lembrança dali, um adágio dacolá...
CAPÍTULO XXXII
Olhos de Ressaca
Tudo era matéria às curiosidades de
Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez
ambas as coisas, como eu. É o que contarei no outro capítulo. Neste direi
somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha
amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem
esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
— Está na sala, penteando o cabelo,
disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho
traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a
barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão,
pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou
outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou
pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
— Há alguma coisa?
— Não há nada, respondi; vim ver
você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
— Eu bem. José Dias ainda não falou?
— Parece que não.
— Mas então quando fala?
— Disse-me que hoje ou amanhã
pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por
longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a
resolução feita...
— Que tem, tem, interrompeu Capitu.
E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu
já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que
você realmente não quer ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém...
É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
— Teimo; hoje mesmo ele há de falar.
— Você jura?
— Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinham-me lembrado a definição que José
Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que
era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim.
Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os
vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A
demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou
que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos,
crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma
comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não
me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles
foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia
daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma
força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias
de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às
orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa
buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura,
ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele
jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A
eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber
a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos
bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno
os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no
céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro
suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas.
Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me
definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, —
para dizer alguma coisa, — que era capaz de os pentear, se quisesse.
— Você?
— Eu mesmo.
— Vai embaraçar-me o cabelo todo,
isso sim.
— Se embaraçar, você desembaraça
depois.
— Vamos ver.
CAPÍTULO XXXIII
Penteado
Capitu deu-me as costas, voltando-se para
o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com
o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé
não dava jeito: não esquecestes que ela era uma nadinha mais alta que eu, mas
ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. “Vamos ver o grande
cabeleireiro”, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito
cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não
as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício,
mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram
parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de
propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da
pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas,
enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não
pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia
ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei
penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem
envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer
enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes
as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou
mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a
escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura
amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as
duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um
triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um
laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
— Pronto!
— Estará bom?
— Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que
fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu
derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e
ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto
a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que
levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe
que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
— Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e
ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci
os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu
ergueu-se, rápida, eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem, sem
fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus
no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua.
Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me
atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze
anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não
pensava ainda na diferença dos sexos.
CAPÍTULO XXXIV
Sou Homem!
Ouvimos passos no corredor; era D.
Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à
porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de
acanhamento, um riso espontâneo e claro, que ela explicou por estas palavras
alegres:
— Mamãe, olhe como este senhor
cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que
tranças!
— Que tem? acudiu a mãe,
transbordando de benevolência. Está muito bem, ninguém dirá que é de pessoa que
não sabe pentear.
— O que, mamãe? Isto? redargüiu
Capitu, desfazendo as tranças. Ora, mamãe!
E com um enfadamento gracioso e
voluntário que às vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabelos para renovar
o penteado. D. Fortunata chamou-lhe tonta, e disse-me que não fizesse caso, não
era nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ela. Depois,
parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido à parede, achou
talvez que houvera entre nós algo mais que penteado, e sorriu por
dissimulação...
Como eu quisesse falar também para
disfarçar o meu estado, chamei algumas palavras cá de dentro, e elas acudiram
de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O
beijo de Capitu fechava-me os lábios. Uma exclamação, um simples artigo, por
mais que investissem com força, não logravam romper de dentro. E todas as
palavras recolheram-se ao coração, murmurando: “Eis aqui um que não fará grande
carreira no mundo, por menos que as emoções o dominem...”
Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e
contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. D.
Fortunata tirou-me daquela hesitação, dizendo que minha mãe me mandara chamar
para a lição de latim; o Padre Cabral estava à minha espera. Era uma saída;
despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a mãe censurava as
maneiras da filha, mas a filha não dizia nada.
Corri ao meu quarto, peguei dos livros,
mas não passei à sala da lição; sentei-me na cama, recordando o penteado e o
resto. Tinha estremeções, tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência
de mim e das coisas que me rodeavam, para viver não sei onde nem como. E
tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o chão, ouvia algum som de
fora, vago, próximo ou remoto, e logo perdia tudo para sentir somente os beiços
de Capitu... Sentia-os estirados, embaixo dos meus, igualmente esticados para
os dela, e unindo-se uns aos outros. De repente, sem querer, sem pensar,
saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
— Sou homem!
Supus que me tivessem ouvido, porque a
palavra saiu em voz alta, e corri à porta da alcova. Não havia ninguém fora.
Voltei para dentro e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o eco
aos meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior,
descobrindo a América, e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com
efeito, há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de
outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. A denúncia
de José Dias alvoroçara-me, a lição do velho coqueiro também, a vista dos
nossos nomes abertos por ela no muro do quintal deu-me grande abalo, como
vistes; nada disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou ilusão.
Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não eram a carne e o sangue dela. As
próprias mãos, tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo.
— Sou homem!
Quando repeti isto, pela terceira vez,
pensei no seminário, mas como se pensa em perigo que passou, um mal abortado,
um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens não são
padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitu.
Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares; mas a saudade é isto mesmo;
é o passar e repassar das memórias antigas. Ora, de todas as daquele tempo
creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais compreensiva, a que
inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas, doces
também, de vária espécie, muitas intelectuais, igualmente intensas. Grande
homem que fosse, a recordação era menor que esta.
CAPÍTULO XXXV
Protonotário Apostólico
Enfim, peguei dos livros e corri à lição.
Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito
tarde, e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Tive idéia de mentir, alegar
uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a minha
mãe fez-me rejeitá-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos;
tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos
ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando entrei
na sala, ninguém ralhou comigo.
O Padre Cabral recebera na véspera um
recado do internúncio; foi ter com ele, e soube que, por decreto pontifício,
acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Esta distinção do Papa dera-lhe
grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o
título com admiração; era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos,
acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios, e internúncios; mas que
era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o
cargo da cúria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de
voltareta, e repetia:
— Protonotário apostólico!
E voltando-se para mim:
— Prepara-te, Bentinho; tu podes vir
a ser protonotário apostólico.
Cabral ouvia com gosto a repetição do
título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da
boceta. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência, posto que,
para ligá-lo ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio
Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo, bastava
que lhe chamassem o Protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico.
— Protonotário Cabral.
— Sim, tem razão; Protonotário
Cabral.
— Mas, senhor protonotário, — acudiu
prima Justina para se ir acostumando ao uso do título, — isto o obriga a ir a
Roma?
— Não, D. Justina.
— Não, são só as honras, observou
minha mãe.
— Agora, não impede — disse Cabral,
que continuava a refletir, — não impede que nos casos de maior formalidade,
atos públicos, cartas de cerimônia, etc., se empregue o título inteiro:
protonotário apostólico. No uso comum, basta protonotário.
— Justamente, assentiram todos.
José Dias, que entrou pouco depois de
mim, aplaudiu a distinção, e recordou, a propósito, os primeiros atos políticos
de Pio IX, grandes esperanças da Itália; mas ninguém pegou do assunto; o
principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a
mim do receio, entendi que devia cumprimentá-lo também, e este aplauso não lhe
foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente, e
acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um beijo e
férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a
barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:
— Não tem que festejar a vadiação; o
latim sempre lhe há de ser preciso, ainda que não venha a ser padre.
Conheci aqui o meu homem. Era a primeira
palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar os
ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas
respondeu logo:
— Há de ser padre, e padre bonito.
— Não se esqueça, mana Glória, e
protonotário também. Protonotário apostólico.
— Protonotário Santiago, acentuou
Cabral.
Se a intenção do meu mestre de latim era
ir acostumando ao uso do título com o nome, não sei bem; o que sei é que quando
ouvi o meu nome ligado a tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a
vontade aqui foi antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar
quieta e muda, tal como daí a pouco outras idéias... Mas essas pedem um
capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum
tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande interesse. Ele
buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória, mas era
esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho magro, sereno, dotado de
qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso,
não propriamente glutão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa
cozinha, se era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha mãe
lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que
aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a
minha mãe, novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e
queria saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “Protonotário Santiago”.
CAPÍTULO XXXVI
Idéia sem Pernas e Idéia
sem Braços
Deixei-os, a pretexto de brincar, e
fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor podia fazer,
sem latim, e até com latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à
casa vizinha, agarrar Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e
concluí-las daquela maneira particular, boca sobre boca. É isto, vamos, é
isto... Idéia só! idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem
andar. Muito depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu.
Quando ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa,
almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e a
medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e dissimulada. As mãos
pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu, do lado oposto da mesa, não
sabia que fizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim
gastamos alguns minutos compridos, até que ela deixou inteiramente a costura,
ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela, e perguntei se a mãe havia dito alguma
coisa; respondeu-me que não. A boca com que respondeu era tal que cuido
haver-me provocado um gesto de aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la,
beijá-la... Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não
conhecia nada da Escritura. Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás
me fizesse dar à língua mística do Cântico um sentido direto e natural.
Então obedeceria ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios, dando-me o
ósculo da sua boca.” E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes,
bastaria cumprir o vers. 6.º do cap. II: “A sua mão esquerda se pôs já debaixo
da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois.” Vedes aí a cronologia
dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu conhecesse o texto, as atitudes
de Capitu eram agora tão retraídas, que não sei se não continuaria parado. Foi
ela, entretanto, que me tirou daquela situação.
CAPÍTULO XXXVII
A Alma É Cheia de
Mistérios
— Padre Cabral estava esperando há
muito tempo?
— Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias.
Contei-lhe também que o Padre Cabral falara da minha entrada no seminário,
apoiando a resolução de minha mãe, e disse dele coisas feias e duras. Capitu
refletiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre,
à tarde, em minha casa.
— Pode, mas para quê?
— Papai naturalmente há de querer ir
também, mas é melhor que ele vá à casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já
sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam
ser uma troça consigo mesma, uma vez que, desde manhã, era mulher, como eu era
homem. Achei-lhe graça e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça
inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei
assim pasmado e trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para
obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém; não vivia com rapazes,
que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrécia. Dos
romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios
de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do penteado da manhã era um grande
passo no caminho da movimentação amorosa, mas o gesto de então foi justamente o
contrário deste. De manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso
que os lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve
contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não
juro, começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos
meus atos; mas concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das
minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e
o outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe
as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça não quis ceder
também, e, caída para trás, inutilizava todos os meus esforços, porque eu já
fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a lição do Cântico, não me
acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela; demais, este gesto
supõe um acordo de vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o
gesto para arrancar-se à outra mão e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela
luta, sem estrépito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a
cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de
mistérios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar, até que cansou;
mas então foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso, relativamente
à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro oposto. Naquele
desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco
mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no
corredor. Era o pai de Capitu, que voltava da repartição um pouco mais cedo,
como usava às vezes: “Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o mesmo
lance da manhã, quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente; em verdade, era
outro. Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de D. Fortunata
foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos presas, e
nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para
o corredor interno; era a mãe que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo
aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei
a tentá-lo, mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto
inesperado, pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a
recusar à força. Repito, a alma é cheia de mistérios.
CAPÍTULO XXXVIII
Que Susto, Meu Deus!
Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou
na sala de visitas, Capitu, em pé, de costas para mim, inclinada sobre a
costura, como a recolhê-la, perguntava em voz alta:
— Mas, Bentinho, que é protonotário
apostólico?
— Ora, vivam! exclamou o pai.
— Que susto, meu Deus!
Agora é que o lance é o mesmo; mas se
conto aqui, tais quais, os dois lances de há quarenta anos, é para mostrar que
Capitu não se dominava só em presença da mãe; o pai não lhe meteu mais medo. No
meio de uma situação que me atava a língua, usava da palavra com a maior
ingenuidade deste mundo. A minha persuasão é que o coração não lhe batia mais
nem menos. Alegou susto, e deu à cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia
tudo, vi que era mentira e fiquei com inveja. Foi logo falar ao pai, que
apertou a minha mão, e quis saber por que a filha falava em protonotário
apostólico. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim, e opinou logo que o pai
devia ir cumprimentar o padre em casa dele; ela iria à minha. E coligindo os
petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:
— Mamãe, jantar, papai chegou!
CAPÍTULO XXXIX
A Vocação
Padre Cabral estava naquela primeira hora
das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. Tempo chega em que
os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta, sem
agradecimentos. O alvoroço da primeira hora é melhor; esse estado de alma que
vê na inclinação do arbusto, tocado do vento, um parabém da flora universal,
traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. Cabral ouviu as
palavras de Capitu com infinito prazer.
— Obrigado, Capitu, muito obrigado;
estimo que você goste também. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta;
essa cara é mesmo de quem vende saúde. E como vamos de rezas?
A todas as perguntas, Capitu ia
respondendo prontamente e bem. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de
sair. Não entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante à porta
da sala, antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. Como desse a este,
duas vezes em cinco minutos, o título de protonotário, José Dias, para se
desforrar da concorrência, fez um pequeno discurso em honra “ao coração
paternal e augustíssimo de Pio IX”.
— Você é um grande prosa,
disse tio Cosme, quando ele acabou.
José Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral
confirmou os louvores do agregado, sem os seus superlativos; ao que este
acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde
o princípio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:
— A vocação é tudo. O estado
eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado do
berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito
bem estudar as letras humanas, que também são úteis e honradas.
Padre Cabral retorquia:
— A vocação é muito, mas o poder de
Deus é soberano. Um homem pode não ter gosto à Igreja e até persegui-la, e um
dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai apóstolo; veja São Paulo.
— Não contesto, mas o que eu digo é
outra coisa. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre,
cá fora; pode-se ou não se pode?
— Pode-se.
— Pois então! exclamou José Dias
triunfalmente, olhando em volta de si. Sem vocação é que não há bom padre, e em
qualquer profissão liberal se serve a Deus, como todos devemos.
— Perfeitamente, mas vocação não é
só do berço que se traz.
— Homem, é a melhor.
— Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar
por ser muito bom padre; tudo é que Deus o determine. Não me quero dar por
modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina; meu padrinho,
que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pai para que eu me metesse no
seminário; meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto aos estudos e à
companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas, suponha que não acontecia
assim, e que eu não mudava de vocação; o que é que acontecia? Tinha estudado no
seminário. Algumas matérias que é bom saber, e são sempre melhor ensinadas
naquelas casas.
Prima Justina interveio:
— Como? Então pode-se entrar para o
seminário e não sair padre?
Padre Cabral respondeu que sim, que se
podia, e, voltando-se para mim, falou da minha vocação, que era manifesta; os
meus brinquedos foram sempre de igreja, e eu adorava os ofícios divinos. A
prova não provava; todas as crianças do meu tempo eram devotas. Cabral acrescentou
que o reitor de S. José, a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe,
tinha o meu nascimento por milagre; ele era da mesma opinião. Capitu, cosida às
saias de minha mãe, não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava; também
não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências, e,
aliás, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui à janela,
esperando que ela fosse também, e ficássemos à vontade, sozinhos, até acabar o
mundo, se acabasse, mas Capitu não me apareceu. Não deixou minha mãe, senão
para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.
— Vai com ela, Bentinho, disse minha
mãe.
— Não precisa, não, D. Glória,
acudiu ela rindo, eu sei o caminho. Adeus, senhor protonotário...
— Adeus, Capitu.
Tendo dado um passo no sentido de
atravessar a sala, é claro que o meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da
idade e da ocasião eram atravessá-la de todo, seguir a vizinha corredor fora,
descer à chácara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. Não
me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitu
que ia depressa, estacou e fez-me sinal que voltasse. Não obedeci, cheguei-me a
ela.
— Não venha, não; amanhã falaremos.
— Mas eu queria dizer a você...
— Amanhã.
— Escuta!
— Fica!
Falava baixinho; pegou-me na mão, e pôs o
dedo na boca. Uma preta, que veio de dentro acender o lampião do corredor,
vendo-nos naquela atitude quase às escuras, riu de simpatia e murmurou, em tom
que ouvíssemos, alguma coisa que não entendi bem nem mal. Capitu segredou-me
que a escrava desconfiara, e ia talvez contar às outras. Novamente me intimou
que ficasse e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado, agarrado ao chão.
CAPÍTULO XL
Uma Égua
Ficando só, refleti algum tempo, e tive
uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita
imperial; disse-vos a desta casa do Engenho Novo, reproduzindo a de
Matacavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva,
rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de
engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito que as
éguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nele, foi noutro autor antigo,
que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha
imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía
logo cavalo de Alexandre; mas deixemos de metáforas atrevidas e impróprias dos
meus quinze anos. Digamos o caso simplesmente. A fantasia daquela hora foi
confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação
eclesiástica. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao
passo que me assustava, abria-me uma porta de saída. “Sim, é isto, pensei; vou dizer
a mamãe que não tenho vocação, e confesso o nosso namoro; se ela duvidar,
conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto...”
CAPÍTULO XLI
A Audiência Secreta
O resto fez-me ficar mais algum tempo, no
corredor, pensando. Vi entrar o Dr. João da Costa, e preparou-se logo o
voltarete do costume. Minha mãe saiu da sala, e, dando comigo, perguntou se
acompanhara Capitu.
— Não, senhora, ela foi só.
E quase investindo para ela:
— Mamãe, eu queria dizer-lhe uma
coisa.
— Que é?
Toda assustada, quis saber o que é que me
doía, se a cabeça, se o peito, se o estômago, e apalpava-me a testa para ver se
tinha febre.
— Não tenho nada, não, senhora.
— Mas então que é?
— É uma coisa, mamãe... Mas, escute,
olhe, é melhor depois do chá; logo... Não é nada mau; mamãe assusta-se por
tudo; não é coisa de cuidado.
— Não é moléstia?
— Não, senhora.
— É, isso é volta de constipação.
Disfarças para não tomar suadouro, mas tu estás constipado; conhece-se pela
voz.
Tentei rir, para mostrar que não tinha
nada. Nem por isso permitiu adiar a confidência; pegou em mim, levou-me ao
quarto dela, acendeu vela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu
perguntei-lhe, para principiar, quando é que ia para o seminário.
— Agora só para o ano, depois das
férias.
— Vou... para ficar?
— Como ficar?
— Não volto para casa?
— Voltas aos sábados e pelas férias;
é melhor. Quando te ordenares padre, vens morar comigo.
Enxuguei os olhos e o nariz. Ela
afagou-me, depois quis repreender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e
pareceu-me que tinha os olhos úmidos. Disse-lhe que também sentia a nossa
separação. Negou que fosse separação; era só alguma ausência, por causa dos
estudos; só os primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos
companheiros e aos mestres, e acabaria gostando de viver com eles.
— Eu só gosto de mamãe.
Não houve cálculo nesta palavra, mas
estimei dizê-la, por fazer crer que ela era a minha única afeição; desviava as
suspeitas de cima de Capitu. Quantas intenções viciosas há assim que embarcam,
a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a
mentira é, muita vez, tão involuntária como a transpiração. Por outro lado,
leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu, quando
havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las; mas as contradições são
deste mundo. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora,
anterior ao primeiro pecado; nem por simples intuição era capaz de deduzir uma
coisa de outra, isto é, não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse
em segredinhos com Capitu, como lhe dissera José Dias. Calou-se durante alguns
instantes; depois replicou-me sem imposição nem autoridade, o que me veio
animando à resistência. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela
tarde, e que eu confessei não sentir em mim.
— Mas tu gostavas tanto de ser
padre, disse ela; não te lembras que até pedias para ir ver sair os
seminaristas de S. José, com as suas batinas? Em casa, quando José Dias te
chamava Reverendíssimo, tu rias com tanto gosto! Como é que agora?... Não
creio, não, Bentinho. E depois... Vocação? Mas a vocação vem com o costume,
continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim.
Como eu buscasse contestá-la,
repreendeu-me sem aspereza, mas com alguma força, e eu tornei ao filho submisso
que era. Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que
fizera; não me disse as circunstâncias, nem a ocasião, nem os motivos dela,
coisas que só vim a saber mais tarde. Afirmou o principal, isto é, que a havia
de cumprir, em pagamento a Deus.
— Nosso Senhor me acudiu, salvando a
tua existência, não lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho; são coisas que não
se fazem sem pecado, e Deus que é grande e poderoso, não me deixaria assim,
não, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre é bom e
santo; você conhece muitos, como o Padre Cabral, que vive tão feliz com a
irmã; um tio meu também foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa de
manha, Bentinho.
Creio que os olhos que lhe deitei foram
tão queixosos, que ela emendou logo a palavra, manha, não, não podia ser manha,
sabia muito bem que eu era amigo dela, e não seria capaz de fingir um
sentimento que não tivesse. Moleza é o que queria dizer, que me deixasse de
moleza, que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em benefício dela e
para bem da minha alma. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco
atropeladamente, e a voz não lhe saía clara, mas velada e esganada. Vi que a
emoção dela era outra vez grande, mas não recuava dos seus propósitos, e
aventurei-me a perguntar-lhe:
— E se mamãe pedisse a Deus que a
dispensasse da promessa?
— Não, não peço. Estás tonto,
Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava?
— Talvez em sonho; eu sonho às vezes
com anjos e santos.
— Também eu, meu filho; mas é
inútil... Vamos, é tarde; vamos para a sala. Está entendido: no primeiro ou no
segundo mês do ano que vem, irás para o seminário. O que eu quero é que saibas
bem os livros que estás estudando; é bonito, não só para ti, como para o Padre
Cabral. No seminário há interesse em conhecer-te, porque o Padre Cabral fala de
ti com entusiasmo.
Caminhou para a porta, saímos ambos.
Antes de sair, voltou-se para mim, e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me
que não seria padre. Este era já o seu desejo íntimo, à proporção que se
aproximava o tempo. Quisera um modo de pagar a dívida contraída, outra moeda,
que valesse tanto ou mais, e não achava nenhuma.
CAPÍTULO XLII
Capitu Refletindo
No dia seguinte fui à casa vizinha, logo
que pude. Capitu despedia-se de duas amigas que tinham ido visitá-la, Paula e
Sancha, companheiras de colégio, aquela de quinze, esta de dezessete anos, a
primeira filha de um médico, a segunda de um comerciante de objetos americanos.
Estava abatida, trazia um lenço atado na cabeça; a mãe contou-me que fora
excesso de leitura na véspera, antes e depois do chá, na sala e na cama, até
muito depois da meia-noite, e com lamparina...
— Se eu acendesse vela, mamãe
zangava-se. Já estou boa.
E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe
timidamente que era melhor atá-lo, mas Capitu respondeu que não era preciso,
estava boa.
Ficamos sós na sala; Capitu confirmou a
narração da mãe, acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha
casa. Também eu lhe contei o que se dera comigo, a entrevista com minha mãe, as
minhas súplicas, as lágrimas dela, e por fim as últimas respostas decisivas:
dentro de dois ou três meses iria para o seminário. Que faríamos agora? Capitu
ouvia-me com atenção sôfrega, depois sombria; quando acabei, respirava a custo,
como prestes a estalar de cólera, mas conteve-se.
Há tanto tempo que isto sucedeu que não
posso dizer com segurança se chorou deveras, ou se somente enxugou os olhos;
cuido que os enxugou somente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mão para
animá-la, mas também eu precisava ser animado. Caímos no canapé, e ficamos a
olhar para o ar. Minto; ela olhava para o chão. Fiz o mesmo, logo que a vi
assim... Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma, enquanto que
eu fitava deveras o chão, o roído das fendas, duas moscas andando e um pé de
cadeira lascado. Era pouco, mas distraía-me da aflição. Quando tornei a olhar
para Capitu, vi que não se mexia, e fiquei com tal medo que a sacudi
brandamente. Capitu tornou cá fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que
se passara com minha mãe. Satisfi-la, atenuando o texto desta vez, para não
amofiná-la. Não me chames dissimulado, chama-me compassivo; é certo que receava
perder Capitu, se lhe morressem as esperanças todas, mas doía-me vê-la padecer.
Agora, a verdade última, a verdade das verdades, é que já me arrependia de
haver falado a minha mãe, antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José
Dias; examinando bem, não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava
certo, ainda que demorado. Capitu refletia, refletia, refletia...
CAPÍTULO XLIII
Você Tem Medo?
De repente, cessando a reflexão, fitou em
mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.
— Medo?
— Sim, pergunto se você tem medo.
— Medo de quê?
— Medo de apanhar, de ser preso, de
brigar, de andar, de trabalhar...
Não entendi. Se ela tem dito
simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não; em todo caso,
entenderia. Mas aquela pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era.
— Mas... não entendo. De apanhar?
— Sim.
— Apanhar de quem? Quem é que me dá
pancada?
Capitu fez um gesto de impaciência. Os
olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem saber de mim, e não
querendo interrogá-la novamente, entrei a cogitar donde me viriam pancadas, e
por que, e também por que é que seria preso, e quem é que me havia de prender.
Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta. Também vi
a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. Todas essas belas
instituições sociais me envolviam no seu mistério, sem que os olhos de ressaca
de Capitu deixassem de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram esquecer de
todo. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente, antes diminuir
até as dimensões normais, e dar-lhes o movimento do costume. Capitu tornou ao
que era, disse-me que estava brincando, não precisava afligir-me, e, com um
gesto cheio de graça, bateu-me na cara, sorrindo, e disse:
— Medroso!
— Eu? Mas...
— Não é nada, Bentinho. Pois quem é
que há de dar pancada ou prender você? Desculpe, que eu hoje estou meia maluca;
quero brincar, e...
— Não, Capitu; você não está
brincando; nesta ocasião, nenhum de nós tem vontade de brincar.
— Tem razão, foi só maluquice; até
logo.
— Como até logo?
— Está-me voltando a dor de cabeça;
vou botar uma rodela de limão nas fontes.
Fez o que disse, e atou o lenço outra vez
na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas,
ainda aí nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço.
Ventava, o céu estava coberto. Capitu falou novamente da nossa separação, como
de um fato certo e definitivo, por mais que eu, receoso disso mesmo, buscasse
agora razões para animá-la. Capitu, quando não falava, riscava no chão, com um
pedaço de taquara, narizes e perfis. Desde que se metera a desenhar, era uma
das suas diversões; tudo lhe servia de papel e lápis. Como me lembrassem, os
nossos nomes abertos por ela no muro, quis fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a
taquara. Não me ouviu ou não me atendeu.
CAPÍTULO XLIV
O Primeiro Filho
— Dê cá, deixe escrever uma coisa.
Capitu olhou para mim, mas de um modo que
me fez lembrar a definição de José Dias, oblíquo e dissimulado; levantou o
olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
— Diga-me uma coisa, mas fale
verdade, não quero disfarce; há de responder com o coração na mão.
— Que é? Diga.
— Se você tivesse de escolher entre
mim e sua mãe, a quem é que escolhia?
— Eu?
Fez-me sinal que sim.
— Eu escolhia... mas para que
escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.
— Pois sim, mas eu pergunto. Suponha
você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer...
— Não diga isso!
— ... Ou que me mato de saudades, se
você não vier logo, e sua mãe não quiser que você venha, diga-me, você vem?
— Venho.
— Contra a ordem de sua mãe?
— Contra a ordem de mamãe.
— Você deixa seminário, deixa sua
mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
— Não fale em morrer, Capitu!
Capitu teve um risinho descorado e
incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão; inclinei-me e li: mentiroso.
Era tão estranho tudo aquilo, que não
achei resposta. Não atinava com a razão do escrito, como não atinava com a do
falado. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena, é possível que a
escrevesse também, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a
cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir
ou ler. Quem, se éramos sós? D. Fortunata chegara uma vez à porta da casa, mas
entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram
por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa; ninguém
mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da
casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Nada mais, ou somente este fenômeno
curioso, que o nome escrito por ela não só me espiava do chão com gesto
escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma idéia ruim;
disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia
aceitá-la sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a secreta
esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. Capitu limitou-se a
arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
— Padre é bom, não há dúvida; melhor
que padre só cônego, por causa das meias roxas. O roxo é cor muito bonita.
Pensando bem, é melhor cônego.
— Mas não se pode ser cônego sem ser
primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.
— Bem; comece pelas meias pretas,
depois virão as roxas. O que eu não quero perder é sua missa nova; avise-me a
tempo para fazer um vestido à moda, saia-balão e babados grandes... Mas talvez
nesse tempo a moda seja outra. A igreja há de ser grande, Carmo ou S.
Francisco.
— Ou Candelária.
— Candelária também. Qualquer serve,
contanto que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente há de
perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?”
— “Aquela é D. Capitolina, uma moça
que morou na Rua de Matacavalos...”
— Que morou? Você vai mudar-se?
— Quem sabe onde é que há de morar
amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia; mas, tornando logo ao
sarcasmo: E você no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima,
cantando... Pater noster...
Ah! como eu sinto não ser poeta romântico
para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela,
a graça de um e a prontidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma,
até ao meu golpe final que foi este:
— Pois, sim, Capitu, você ouvirá a
minha missa nova, mas com uma condição.
Ao que ela respondeu:
— Vossa Reverendíssima pode falar.
— Promete uma coisa?
— Que é?
— Diga se promete.
— Não sabendo o que é, não prometo.
— A falar verdade são duas coisas,
continuei eu, por haver-me acudido outra idéia.
— Duas? Diga quais são.
— A primeira é que só se há de
confessar comigo, para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é
que...
— A primeira está prometida, disse
ela vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda.
Palavra que me custou, e antes não me
chegasse a sair da boca; não ouviria o que ouvi, e não escreveria aqui uma
coisa que vai talvez achar incrédulos.
— A segunda... sim... é que...
Promete-me que seja eu o padre que case você?
— Que me case? disse ela um tanto
comovida.
Logo depois fez descair os lábios, e
abanou a cabeça.
— Não, Bentinho, disse, seria esperar
muito tempo; você não vai ser padre já amanhã, leva muitos anos... Olhe,
prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.
CAPÍTULO XLV
Abane a Cabeça, Leitor
Abane a cabeça, leitor; faça todos os
gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não
obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio
que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na
veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que
Capitu falou, como tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, com se
fosse a primeira boneca.
Quanto ao meu espanto, se também foi
grande, veio de mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido.
Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento
dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo
isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estúpido.
Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão...
CAPÍTULO XLVI
As Pazes
As pazes fizeram-se como a guerra,
depressa. Buscasse eu neste livro a minha glória, e diria que as negociações
partiram de mim; mas não, foi ela que as iniciou. Alguns instantes depois, como
eu estivesse cabisbaixo, ela abaixou também a cabeça, mas voltando os olhos
para cima a fim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quis levantar-me para
ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitu fitou-me uns olhos tão
ternos, e a posição os fazia tão súplices, que me deixei ficar, passei-lhe o
braço pela cintura, ela pegou-me na ponta dos dedos, e...
Outra vez D. Fortunata apareceu à porta
da casa; não sei para que, se nem me deixou tempo de puxar o braço; desapareceu
logo. Podia ser um simples descargo de consciência, uma cerimônia, como as
rezas de obrigação, sem devoção, que se dizem de tropel; a não ser que fosse
para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia...
Fosse o que fosse, o meu braço continuou
a apertar a cintura da filha, e foi assim que nos pacificamos. O bonito é que
cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos reciprocamente
perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito, e
finalmente “os seus calundus”. Eu, que era muito chorão por esse tempo, sentia
os olhos molhados... Era amor puro, era efeito dos padecimentos da amiguinha,
era a ternura da reconciliação.
CAPÍTULO XLVII
“A Senhora Saiu”
— Está bom, acabou, disse eu
finalmente; mas, explique-me só uma coisa, por que é que você me perguntou se
eu tinha medo de apanhar?
— Não foi por nada, respondeu
Capitu, depois de alguma hesitação... Para que bulir nisso?
— Diga sempre. Foi por causa do
seminário?
— Foi; ouvi dizer que lá dão
pancada... Não? Eu também não creio.
A explicação agradou-me; não tinha outra.
Se, como penso, Capitu não disse a verdade, força é reconhecer que não podia
dizê-la, e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas
que “a senhora saiu”, quando a senhora não quer falar a ninguém. Há nessa
cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala por instantes a
condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das visitas
enganadas, e as costas com que elas descem... A verdade não saiu, ficou em
casa, no coração de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci
triste nem zangado; achei a criada galante, apetecível, melhor que a ama.
As andorinhas vinham agora em sentido
contrário, ou não seriam as mesmas. Nós é que éramos os mesmos; ali ficamos,
somando as nossas ilusões, os nossos temores, começamos já a somar as nossas
saudades.
CAPÍTULO XLVIII
Juramento do Poço
— Não! exclamei de repente.
— Não quê?
Tinha havido alguns minutos de silêncio,
durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia; o tom da exclamação, porém,
foi tão alto que espantou a minha vizinha.
— Não há de ser assim, continuei.
Dizem que não estamos em idade de casar, que somos crianças, criançolas, — já
ouvi dizer criançolas. Bem; mas dois ou três anos passam depressa. Você jura
uma coisa? Jura que só há de casar comigo?
Capitu não hesitou em jurar, e até lhe vi
as faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma terceira:
— Ainda que você case com outra,
cumprirei o meu juramento, não casando nunca.
— Que eu case com outra?
— Tudo pode ser, Bentinho. Você pode
achar outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu para
você lembrar-se de mim nessa ocasião?
— Mas eu também juro! Juro, Capitu,
juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Basta isto?
— Devia bastar, disse ela; eu não me
atrevo a pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro modo; juremos que
nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.
Compreendeis a diferença; era mais que a
eleição do cônjuge, era a afirmação do matrimônio. A cabeça da minha amiga
sabia pensar claro e depressa. Realmente, a fórmula anterior era limitada,
apenas exclusiva. Podíamos acabar solteirões, como o sol e a lua, sem mentir ao
juramento do poço. Esta fórmula era melhor, e tinha a vantagem de me fortalecer
o coração contra a investidura eclesiástica. Juramos pela segunda fórmula, e
ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. Éramos religiosos,
tínhamos o céu por testemunha. Eu nem já temia o seminário.
— Se teimarem muito, irei; mas faço
de conta que é um colégio qualquer; não tomo ordens.
Capitu temia a nossa separação, mas
acabou aceitando este alvitre, que era o melhor. Não afligíamos minha mãe, e o
tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrário,
qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. Esta
reflexão não foi minha, mas dela.
CAPÍTULO XLIX
Uma Vela aos Sábados
Eis aqui como, após tantas canseiras,
tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. Não nos censures,
piloto de má morte, não se navegam corações como os outros mares deste mundo.
Estávamos contentes, entramos a falar do futuro. Eu prometia à minha esposa uma
vida sossegada e bela, na roça ou fora da cidade. Viríamos aqui uma vez por
ano. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde ninguém nos fosse aborrecer. A
casa, na minha opinião, não devia ser grande nem pequena, um meio-termo;
plantei-lhe flores, escolhi móveis, uma sege e um oratório. Sim, havíamos de
ter um oratório bonito, alto, de jacarandá, com a imagem de Nossa Senhora da
Conceição. Demorei-me mais nisto que no resto, em parte porque éramos
religiosos, em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas; mas
ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar
a proteção do céu. Havíamos de acender uma vela aos sábados...
CAPÍTULO L
Um Meio-Termo
Meses depois fui para o seminário de S.
José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã,
somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma
exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este
escrúpulo de exatidão que me aflige. Entretanto, se eu me ativer só à lembrança
da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.
Realmente, por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha mãe também
padeceu, mas sofria com alma e coração; demais, o Padre Cabral achara um
meio-termo: experimentar-me a vocação; se no fim de dois anos eu não revelasse
vocação eclesiástica, seguiria outra carreira.
— As promessas devem ser cumpridas
conforme Deus quer. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho, e que
o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim, é que a
vontade divina é outra. A senhora não podia pôr em seu filho, antes de nascido,
uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou...
Era uma concessão do padre. Dava a minha
mãe um perdão antecipado, fazendo vir do credor a revelação da dívida. Os olhos
dela brilharam, mas a boca disse que não. José Dias, não tendo alcançado ir
comigo para a Europa, agarrou-se ao mais próximo, e apoiou o “alvitre do senhor
protonotário”; só lhe parecia que um ano era bastante.
— Estou certo, disse ele,
piscando-me o olho, que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso
Bentinho se manifesta clara e decisiva. Há de dar um padre de mão-cheia.
Também, se não vier em um ano...
E a mim, mais tarde, em particular:
— Vá por um ano; um ano passa
depressa. Se não sentir gosto nenhum, é que Deus não quer, como diz o padre, e
nesse caso, meu amiguinho, o melhor remédio é a Europa.
Capitu deu-me igual conselho, quando
minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário:
— Minha filha, você vai perder o seu
companheiro de criança...
Fez-lhe tão bem este tratamento de filha
(era a primeira vez que minha mãe lho dava) que nem teve tempo de ficar triste;
beijou-lhe a mão, e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Em particular
animou-me a suportar tudo com paciência; no fim de um ano as coisas estariam
mudadas, e um ano andava depressa. Não foi ainda a nossa despedida; esta fez-se
na véspera, por um modo que pede capítulo especial. O que unicamente digo aqui
é que, ao passo que nos prendíamos um ao outro, ela ia prendendo minha mãe,
fez-se mais assídua e terna, vivia ao pé dela, com os olhos nela. Minha mãe era
de natural simpática, e igualmente sensível; tanto se doía como se aprazia de
qualquer coisa. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas, de dotes
finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. Não consentiu em
fotografar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma
miniatura, feita aos vinte e cinco anos e, depois de algumas hesitações,
resolveu dar-lha. Os olhos de Capitu, quando recebeu o mimo, não se descrevem;
não eram oblíquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, lúcidos. Beijou o
retrato com paixão, minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. Tudo isto me lembra
a nossa despedida.
CAPÍTULO LI
Entre Luz e Fusco
Entre luz e fusco, tudo há de ser breve
como esse instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi o mais que pôde, em
casa dela, na sala de visitas, antes do acender das velas; aí é que nos
despedimos de uma vez. Juramos novamente que havíamos de casar um com o outro,
e não foi só o aperto de mão que selou o contrato, como no quintal, foi a
conjunção das nossas bocas amorosas... Talvez risque isto na impressão, se até
lá não pensar de outra maneira; se pensar, fica. E desde já fica, porque, em
verdade, é a nossa defesa. O que o mandamento divino quer é que não juremos em
vão pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminário, uma vez que
levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Quanto ao selo, Deus, como
fez as mãos limpas, assim fez os lábios limpos, e a malícia está antes na tua
cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes... Oh! minha doce
companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de
S. José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a
vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.
CAPÍTULO LII
O Velho Pádua
Já agora conto também os adeuses do velho
Pádua. Logo cedo veio à nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao
quarto.
— Dá licença? perguntou metendo a
cabeça pela porta.
Fui apertar-lhe a mão; ele abraçou-me com
ternura.
— Seja feliz! disse-me. A mim e a
toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito o
senhor, como merece. Se lhe disserem outra coisa, não acredite. São intrigas.
Também eu, quando me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se. Deus é
grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio, — coisa que
eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque são boas pessoas, excelentes
pessoas, e eu sou grato às finezas recebidas... Não, eu não sou como outros,
certos parasitas, vindos de fora para desunião das famílias, aduladores baixos,
não; eu sou de outra espécie; não vivo papando os jantares nem morando em casa
alheia... Enfim, são os mais felizes!
— Por que falará assim? pensei.
Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele.
— Mas, como ia dizendo, se algum dia
perder os seus parentes, pode contar com a nossa companhia. Não é suficiente em
importância, mas a afeição é imensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está
às suas ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Pádua...
Suspirou e continuou:
— Não esqueça o seu velho Pádua, e,
se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer
coisa, um botão de colete, coisa que já lhe não preste para nada. O valor é a
lembrança.
Tive um sobressalto. Havia embrulhado em
um papel um cacho dos meus cabelos, tão grandes e tão bonitos, cortados na
véspera. A intenção era levá-los a Capitu, ao sair; mas tive idéia de dá-lo ao
pai, a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Peguei do embrulho e dei-lho.
— Aqui está; guarde.
— Um cachinho dos seus cabelos!
exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e
pela minha gente! Vou dá-lo à velha, para guardá-lo, ou à pequena, que é mais
cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas?
Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus!
Tinha os olhos úmidos deveras; levava a
cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas
economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número, — um número tão
bonito!
CAPÍTULO LIII
A Caminho!
Fui para o seminário. Poupa-me as outras
despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez
chorasse mal ou nada. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca;
diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os
seus padecimentos íntimos, emendando os descuidos de minha mãe, fazendo-me
recomendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em
despedida, disse-me rindo:
— Anda lá, rapaz, volta-me papa!
José Dias, composto e grave, não dizia
nada a princípio; tínhamos falado na véspera, no quarto dele, onde fui ver se
era ainda possível evitar o seminário. Já não era, mas deu-me esperanças e
principalmente animou-me muito. Antes de um ano estaríamos a bordo. Como eu
achasse muito breve, explicou-se.
— Dizem que não é bom tempo de
atravessar o Atlântico, vou indagar; se não for, iremos em março ou abril.
— Posso estudar medicina aqui mesmo.
José Dias correu os dedos pelos
suspensórios com um gesto de impaciência, apertou os beiços, até que
formalmente rejeitou o alvitre.
— Não duvidaria aprovar a idéia,
disse ele, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão
alopata. A alopatia é o erro dos séculos, e vai morrer; é o assassinato, é a
mentira, é a ilusão. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina
aquela parte da ciência comum a todos os sistemas, é verdade; a alopatia é erro
na terapêutica. Fisiologia, anatomia, patologia não são alopáticas nem
homeopáticas, mas é melhor aprender logo tudo de uma vez, por livros e por
língua de homens cultores da verdade...
Assim falara na véspera e no quarto.
Agora não dizia nada, ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família;
lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo.” Quando minha mãe deu o
último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. Era manhã de um lindo dia. Os
moleques cochichavam; as escravas tomavam a bênção: “Benção, nhô Bentinho! não
se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua, José
Dias insistiu nas esperanças:
— Agüente um ano; até lá tudo estará
arranjado.
CAPÍTULO LIV
Panegírico de Santa
Mônica
No seminário... Ah! não vou contar o
seminário, nem me bastaria a isso um capítulo. Não, senhor meu amigo; algum
dia, sim, é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi, das
pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever,
quando pega aos cinqüenta anos, não despega mais. Na mocidade é possível
curar-se um homem dela; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminário tive um
companheiro que compôs versos, à maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de
frade-poeta era recente. Ordenou-se; anos depois encontrei-o no coro de São
Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.
— Que versos? perguntou meio
espantado.
— Os seus. Pois não se lembra que no
seminário...
— Ah! sorriu ele.
Sorriu, e continuando a procurar num
livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte, confessou-me que
não fizera mais versos depois de ordenado. Foram cócegas da mocidade;
coçou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas
do dia, a vida cara, um sermão do Padre X..., uma vigairaria mineira...
Contrário a isso foi um seminarista que
não seguiu a carreira. Chamava-se... Não é preciso dizer o nome; baste o caso.
Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica, elogiado por algumas
pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou licença de imprimi-lo, e
dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso é história velha; o que é mais moço é
que um dia, em 1882, indo ver certo negócio em repartição da Marinha, ali dei
com este meu colega, feito chefe de uma seção administrativa. Deixara
seminário, deixara letras, casara e esquecera tudo, menos o Panegírico de
Santa Mônica, umas vinte e nove páginas, que veio distribuindo pela vida
fora. Como eu precisasse de algumas informações, fui pedir-lhas, e seria
impossível achar melhor nem mais pronta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso.
Naturalmente conversamos do passado, memórias pessoais, casos de estudo,
incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá
fora, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso
velho seminário. Ou porque eram dele, ou porque éramos então moços, as
recordações traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contrária
houve então, não apareceu agora. Ele con- fessou-me que perdera de vista todos
os companheiros do seminário.
— Também eu, quase todos; uma vez
ordenados, voltaram naturalmente às suas províncias, e os daqui tomaram vigairarias
fora.
— Bom tempo! suspirou ele.
E, após alguma reflexão, fitando em mim
uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:
— Conservou o meu Panegírico?
Não achei nada que dizer; tentei mover os
beiços, mas não tinha palavra; afinal, perguntei:
— Panegírico? Que panegírico?
— O meu Panegírico de Santa
Mônica.
Não me lembrou logo, mas a explicação
devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquisa mental, respondi que por
muito tempo o conservara, mas as mudanças, as viagens...
— Hei de levar-lhe um exemplar.
Antes de vinte e quatro horas estava em
minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis anos, encardido,
manchado do tempo, mas sem lacuna, com uma dedicatória manuscrita e respeitosa.
— É o penúltimo exemplar, disse-me;
agora só me resta um, que não posso dar a ninguém.
E como me visse folhear o opúsculo:
— Veja se lhe lembra algum pedaço,
disse-me.
Vinte e seis anos de intervalo fazem
morrer amizades mais estreitas e assíduas, mas era cortesia, era quase caridade
recordar alguma lauda; li uma delas, acentuando certas frases para lhe dar a
impressão de que achavam eco em minha memória. Concordou que fossem belas, mas
preferia outras, e apontou-as.
— Recorda-se bem?
— Perfeitamente. Panegírico de
Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me
esqueceu o seminário, creia. Os anos passam, os acontecimentos vêm uns sobre
outros, e as sensações também, e vieram amizades novas, que também se foram
depois, como é lei da vida... Pois, meu caro colega, nada fez apagar aquele
tempo da nossa convivência, os padres, as lições, os recreios... os nossos
recreios, lembra-se? o Padre Lopes, oh! o Padre Lopes...
Ele, com os olhos no ar, devia estar
ouvindo, e naturalmente ouvia, mas só me disse uma palavra, e ainda assim
depois de algum tempo de silêncio, recolhendo os olhos e um suspiro!
— Tem agradado muito este meu Panegírico!
CAPÍTULO LV
Um Soneto
Dita a palavra, apertou-me as mãos com as
forças todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei só com o Panegírico,
e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um capítulo ou mais.
Antes, porém, e porque também eu tive o meu Panegírico, contarei a
história de um soneto que nunca fiz. Era no tempo do seminário, e o primeiro
verso é o que ides ler:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Como e por que me saiu este verso da
cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama, como uma exclamação solta, e,
ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um
soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma hora ou
duas; as cócegas pediam-me unhas, e eu coçava-me com alma. Não escolhi logo,
logo, o soneto; a princípio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de
verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio.
Quanto à idéia, o primeiro verso não era ainda uma idéia, era uma exclamação; a
idéia viria depois. Assim, na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar.
Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia
competir com aquele monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu,
seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no
claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis;
francamente, achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau:
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Quem era a flor? Capitu, naturalmente;
mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que
coubesse a metáfora da flor, e flor do céu. Aguardei o resto, recitando sempre
o verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; afinal
deixei-me estar de costas, com os olhos no teto, mas nem assim vinha mais nada.
Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de
ouro, isto é, um desses versos capitais no sentido e na forma. Pensei em forjar
uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos
treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais
chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compor o
último verso do soneto e, depois de muito suar, saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse de
outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida. E tinha um pensamento, a
vitória ganha à custa da própria vida, pensamento alevantado e nobre. Que não
fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora não
explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. Naquela
ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro; depois
repeti os dois versos seguidamente, e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais.
A idéia agora, à vista do último verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria
a justiça. Era mais próprio dizer que, na pugna pela justiça, se perderia acaso
a vida, mas a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no
sentido natural, e fazer dela a luta pela pátria, por exemplo; nesse caso a
flor do céu seria a liberdade. Esta acepção, porém, sendo o poeta um
seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em
escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal aceitei
definitivamente uma idéia nova, a caridade, e recitei os dois versos, cada um a
seu modo, um languidamente:
Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um
soneto perfeito. Começar bem e acabar bem não era pouco. Para me dar um banho
de inspiração, evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram
facílimos; os versos saíam uns dos outros, com a idéia em si, tão naturalmente,
que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles é que a suscitavam.
Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o
segundo; o segundo não vinha, nem terceiro, nem quarto; não vinha nenhum. Tive
alguns ímpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver
tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cansado de esperar, lembrou-me alterar o
sentido do último verso, com a simples transposição de duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrário, mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Nes